segunda-feira, 20 de abril de 2015

Equívocos de Dom Helder (1966)


Plínio Salgado
(Copyright para os “Associados”)

Estou lendo em “O Globo” uma entrevista de Dom Helder Câmara, respondendo a uma acusação de sr. Gilberto Freyre, que diz haver sido o atual arcebispo do Recife um fascista em 1945. Defendendo-se, o prelado declara: “Jamais neguei que, na mocidade, pertenci à Ação Integralista Brasileira. Entre 23 e 24 anos de idade, vi o mundo como ainda hoje parece vê-lo o professor Gilberto Freyre: irremediavelmente dividido entre capitalismo e comunismo. Um dia descobri que incomparavelmente mais importante do que a divisão entre Leste e Oeste, é a divisão entre Norte e Sul. Isto é: incomparavelmente mais importante do que a divisão entre comunismo e anticomunismo é a distância, cada vez maior, e mais dramática, entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. Em face dos países subdesenvolvidos, nada se parece mais com o egoísmo dos EUA do que o egoísmo da URSS”.

Estas declarações demonstram que o arcebispo não chegou a conhecer nem a doutrina nem a ação prática do integralismo. Acusado de fascista, responde que, realmente, pertenceu à Ação Integralista Brasileira e, nessa resposta, confirma o errado conceito que o sr. Gilberto Freyre tem daquele movimento hoje considerado, pelos mais insuspeitos, a fonte do atual nacionalismo de que Dom Helder se fez apóstolo e dos sentimentos de brasilidade que têm sido através de todas as nossas crises, o alicerce de sustentação das nossas tradições democráticas, da soberania nacional e das tradições históricas da Pátria. Deveria o prelado dizer que nunca foi fascista, pois o integralismo não era e não é fascista, mas uma doutrina espiritualista, cristã, nacionalista sem jacobinismo, preocupado com a justiça social e reformas indispensáveis para atingi-la. Com essa resposta, Dom Helder se colocaria bem com a verdade histórica, colocar-se-ia numa posição de respeito a seus velhos companheiros que ainda sustentam os mesmos ideais e com uma juventude que em número de milhares de estudiosos igualmente os sustenta. Nenhum de seus antigos correligionários se sentiria ofendido, mas, pelo contrário, formariam uma eficiente retaguarda a prestigiar a obra atualmente exercida por aquele tão carinhosamente chamado padre Helder, nos anos de 1932 a 1937. E, sobretudo, não daria sua colaboração, ainda que indireta, às aleivosias levantadas pela ditadura totalitária que dominou o País, durante oito anos, e pelos agentes do capitalismo e do comunismo.

Como chefe e doutrinador do integralismo, sempre considerei o fascismo, o nazismo, o socialismo, e comunismo, o trabalhismo, o liberalismo, formas superadas de concepções, políticas e econômicas do século XIX. O nosso movimento, naquele tempo (como agora), visava a atualizar a mentalidade brasileira em relação às novas circunstâncias internacionais e a tomar como base as realidades do nosso País. Seu pensamento central sempre foi o da compreensão integral do universo e do Homem, segundo suas formas, substância e movimentos, proclamando a correlação fenomênica, da qual se conclui não existirem problemas isolados, mas interligados reclamando soluções globais atentas a reciprocas implicações e à repercussão de consequências no corpo social. O integralismo toma o Homem, consoante a definição da velha patrística e da legitima doutrina católica, como uma dualidade consubstancial exprimindo-se numa unidade substancia, isto é, corpo e alma, não separados, mas integrados na expressão da personalidade.

De tal pensamento deduz-se uma criteriologia administrativa, ou de Governo, e uma criteriologia representativa, a primeira estabelecendo planejamentos racionais libertos de unilateralismo dominante no fascismo e no nazismo (predominância do Estado sobre as pessoas), no socialismo e comunismo (opressão do Coletivo sobre o Indivíduo), no liberalismo (domínio do Individualismo sobre o Bem Comum); a segunda, propondo um sistema representativo em que cada um dos órgãos vivos e ativos do todo nacional tenha voz (que hoje não tem) nos debates e soluções dos problemas que a cada qual e a todos interessam.

O progresso científico e tecnológico do nosso tempo, a expansão dos imperialismos capitalista e comunista, os conflitos decorrentes da escravização cada vez maior do Homem aos detentores dos meios de produção e ao despotismo das automações que marginalizam multidões de seres humanos das fábricas e dos escritórios e levam à indigência as populações rurais, a tudo se acrescentando os horrores das guerras e a tragédia das revoluções internas, conduzem os pensadores mais atualizados a aceitar os princípios da doutrina integralista.

A frase inicial com que lancei o movimento a que pertenceu Dom Helder era esta: “Façamos todas as reformas, mas respeitemos a integridade do Homem”. Ora, respeitar essa integridade é, preliminarmente, manter a liberdade, o livre-arbítrio, faculdade e atributo inerente à racionalidade conferida por Deus ao Ser Humano; em seguida, proporcionar ao Homem, à Mulher, à Família, os meios materiais indispensáveis ao exercício de tão sagrado direito.

Como se vê, nem mestre Gilberto Freyre conhece a doutrina integralista, nem Dom Helder soube defender-se cabalmente da acusação que lhe foi feita.

Não sou dos que desaprovam a ação do atual arcebispo do Recife em prol dos pobres e das regiões subdesenvolvidas do País. Pelo contrário, julgo-a necessária como componente no grande esforço que hoje todos nós fazemos pelo reerguimento do Brasil. O prelado de agora é o mesmo padre de ontem, em companhia do qual andei pelos areais da orla marítima de Fortaleza, numa noite escura do ano de 1933. Ele me ia mostrar os necessitados, as famílias sem recursos, aquela gente que estava a precisar de nós para a sua redenção social. Nossos pés se enterravam na areia. Sobre nossas cabeças, num céu sem luar, cintilavam as estrelas. De vez em quando, parávamos e eu contemplava o perfil do jovem sacerdote, com a batina negrejando e agitada pelo vento; dava-me a impressão de que recuáramos aos meados do século XVI e que meu companheiro na aventura noturna era Anchieta.

Mais tarde, o padre transferiu-se para o Rio onde foi meu auxiliar direto e de minha absoluta confiança. Nesse período (creio que de 1934 a 1937), resolvemos juntos um caso tão grave, como sentimental. Foi a saída de Jeovah Mota do integralismo. Ele tinha sido eleito deputado federal pela Legião Cearense do Trabalho, anteriormente liderada por Severino Sombra, depois pelos três fundadores do integralismo no Ceará: Jeovah, Carvalhedo e padre Helder.

Para ficar provado quanto o integralismo (ao contrário do fascismo, do nazismo, do comunismo) era espiritualista e cristão, basta narrar o caso, que revelou em Jeovah Mota um dos homens de maior dignidade e nobre caráter entre os que tenho conhecido. Escreveu uma carta ao padre Helder na qual, dizia ter chegado a convicções inteiramente materialistas e, por isso, não podia mais continuar num movimento que punha acima de tudo a sua crença em Deus. Ao contrário do que fazem muitos políticos, Jeovah renunciava à cadeira de deputado e pedia ao padre Helder que se entendesse comigo para a sua substituição na chefia do Ceará. Naquela madrugada o padre Helder seguiu de avião para Fortaleza comunicou o fato aos companheiros e cumpriu a missão que eu lhe atribuíra. Se o integralismo fosse fascismo, Jeovah poderia continuar em suas fileiras; mas éramos espiritualistas e cristãos.

Outro equivoco de Dom Helder, na resposta a Gilberto Freyre: é quando diz que via o mundo errado, tendo mais tarde descoberto que mais importante do que a divisão entre Leste e Oeste (comunismo e capitalismo) é a divisão entre Norte e Sul (capitalismo e subdesenvolvimento). Para isso não precisava deixar de ser integralista, pois foi o integralismo que levantou, pela primeira vez, a bandeira contra o capitalismo de Wall-Street, o que é reconhecido por todos os atuais nacionalistas e pelos próprios esquerdistas. Basta lembrar o livro de Gustavo Barroso intitulado “Brasil, colônia de banqueiros”. Nunca, desde os primeiros dias de sua existência até agora, nas atividades de propaganda da terceira geração que estou preparando para nossa Pátria, deixamos de adotar essa linha.

De que se pode penitenciar Dom Helder pelo fato de ter sido integralista? Por trazer este o lema “Deus, Pátria e Família”? Por sustentar os direitos humanos, colocando o Homem como base de toda a construção social? Por incutir em nosso povo o respeito pelas nossas tradições históricas e o culto das virtudes cristãs? Por se insurgir contra os costumes de uma sociedade corrupta e contra aquilo que denominei “Espírito da Burguesia”, no título de um de meus livros? Por ter ensinado o povo a cantar o Hino Nacional? Pelo magistério que exerceu no sentido de que os filhos respeitassem os pais, os alunos os mestres, todos os cidadãos as leis, as autoridades públicas e os símbolos da Pátria? Por haver dado aos brasileiros a noção do seu próprio valor contra as teorias falsas da superioridade de raças? Ou simplesmente porque não pode assumir o governo do Brasil?

Havia, na Ação Integralista Brasileira, uma corrente, com o pensamento puro do movimento, conhecedora da sua verdadeira doutrina, da filosofia em que se embasava, e duas outras divergentes, que muito trabalho me deram: uma direitista e outra esquerdista. Os da primeira talvez pudessem assemelhar-se aos partidos totalitários; os da segunda propendiam para os exageros socialistas, tendo mesmo alguns desertado para o comunismo.

Tenho a impressão de que Dom Helder deixou-se sugestionar pela propaganda das calúnias, deturpações e desfigurações de que foi vitima o integralismo no tempo da ditadura e acabou se convencendo de que a corrente direitista, qualificada de fascista era a principal.

É um fenômeno psicológico hoje conhecido com o nome de “complexo de culpa”, pelo qual um indivíduo se convence de que praticou uma ação jamais praticada.

Continue Dom Helder na luta por nobres idealismos, evitando apenas o perigo de ser utilizado pelos agentes da anti-nação, como foram os mencheviques pelos bolcheviques na Rússia. Ninguém, em consciência, pode ser contra seus elevados sentimentos. Mas esteja tranquilo quanto ao fato de ter sido integralista: isso até o honra e fortalece na batalha que encetou. E pode ficar certo de que o movimento que o empolgou na sua mocidade não mudou uma linha de sua doutrina e hoje inflama, dinamiza e propele uma nova geração, que soube fazer revisão histórica, que analisou o integralismo sob todos seus aspectos (aparência e essência) no sentido de sustentar uma bandeira que caiu das mãos de alguns, mas foi reerguida pelas mãos de muitos.
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Publicamos o magnífico esclarecimento de Plínio Salgado graças à generosa colaboração do Companheiro Cleiton Oliveira - Autor do excelente Artigo “Hélder Câmara em Perspectiva”, cuja leitura recomendamos vivamente -, que o digitou na íntegra, e a quem agradecemos e enviamos o nosso vibrante Anauê!
Reprodução fotográfica do original pode ser visualizada em “Plínio Salgado critica publicamente Dom Hélder Câmara”
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sábado, 4 de abril de 2015

O CONCEITO CRISTÃO DE DEMOCRACIA NA OBRA DE PLÍNIO SALGADO (1995)



Euro Brandão*.

O anseio em formular e obter uma verdadeira democracia perpassa toda a vida de Plínio Salgado, seja em suas mais de sessenta obras publicadas, seja em toda a pregação que se estendeu por todo o solo da Pátria.

 É hoje frequente ouvir-se a observação de que a democracia, apesar de seus defeitos, é a melhor forma de governo. Há nisso uma grande parcela de verdade, e se dizemos parcela, é porque há democracia e democracia. Há contradições democráticas, como bem conhecemos. Até a pouco, as denominadas “democracias populares” não eram mais que férreas ditaduras do socialismo real. Há democracias que se restringem ao uso do voto universal, mas nada produzem em favor do cidadão. Muitas vezes a democracia é substituída pelo democratismo, que é uma aparência enganosa de valorização da sociedade, mas, no fundo, é uma manipulação engendrada por grupos interesseiros e beneficiários.

A vivência de cada dia se põe diante de nossos olhos, vivendo que estamos num regime dito democrático, uma interminável série de motivos de descrédito e de frustração.

Ressalta desde logo a desconexão da atuação governamental, a anteposição de grupos contraditórios dentro da mesma estrutura publica, a confusão das ideias e das diretrizes adotadas nos vários órgãos de governo, ou mesmo entre os poderes, criando-se a instabilidade e o desajuste social.

Os casos de corrupção se sucedem e, ainda que se possa admitir que seriam aqui e ali inevitáveis, é inaceitável sua quase institucionalização nos mais variados extratos de manuseio da coisa publica.

Outro aspecto ameaçador é o risco permanente de se recair numa ditadura. A História apresenta vários casos de acesso ao poder pelo voto popular, sem a existência de um substractum garantidor da índole nacional.

No Brasil tivemos recentemente esse caso estarrecedor de um presidente da republica vir a sofrer impedimento, acobertado embora pela enorme acolhida que tivera dos seus eleitores.

Cabe a pergunta: Onde está o erro? Onde fica a valorização da vida nacional? E o atendimento as necessidades essenciais das pessoas e das famílias? Onde está isso equacionado nessa conceituação democrática meramente eleitoreira?

Nos tempos de hoje a palavra democracia está assim totalmente desvirtuada, o mesmo acontecendo com a palavra amor, com a palavra liberdade, com a expressão realizar-se na vida. Por liberdade, essa valiosa e imprescindível faculdade humana, entende-se muitas vezes por liberalidade, fazer-se o que bem se entenda, sem observar os princípios éticos ou valorativos da pessoa humana.

E amor? Já não é a doação em beneficio do amado, o querer bem mesmo com sacrifício, mas o exercício do egoísmo e do prazer.

Jovens que manifestam desejo de alcançar plena realização em suas vidas, não se perguntam a razão de sua existência, mas olham apenas a posse de bens e a conquista de fama e poder.

Plínio Salgado, com seu gênio, suas meditações e estudos, com sua experiência e acuidade política, percebeu que era preciso propor uma democracia que correspondesse aos verdadeiros anseios humanos, uma democracia que servisse ao homem, de dignificá-lo, em vez de minimiza-lo, de engana-lo.

Era preciso começar pela pergunta: o que é o Homem?

Em sua obra O Conceito Cristão de Democracia, condensando o que proclamou em tantas outras oportunidades, Plínio apresenta o tema de forma lapidar.

O primeiro ponto fundamental é este questionamento básico: o homem é pura matéria, escravizado às leis determinísticas da natureza, sem perspectiva de vida transcendente? Ou admite-se que tenha alma imortal e tenha recebido potencialidades espirituais, como o livre-arbítrio, a dignidade de filho de Deus, a capacidade para o exercício das virtudes?

O materialismo (ou seja, a negação de Deus) e o agnosticismo (correspondendo à indiferença perante o problema da existência ou não de Deus) constituem opções aceitas consciente ou inconscientemente, em oposição à concepção espiritualista da vida e do mundo.

Afastada a ideia de Deus, o Homem se preocupou no século XIX, e em grande parte do nosso século, com a crença do que a Ciência, a grande conquista humana, resolveria todos os problemas da humanidade. Esse mito científico, cujo perigo alguns pensadores já haviam pressentido, encontra em Plínio Salgado um critico esclarecido.

Negada a existência de Deus e a imortalidade da alma, resta para o homem seu destino biológico. Subordinado às leis da matéria, destrói-se a noção de livre-arbítrio e, por conseguinte, o senso de responsabilidade. Fica valendo apenas o usufruto de todos os bens possíveis.

Instala-se uma grande contradição no mundo materialista. Pretensos reformadores da sociedade usam suas ideias e ideologias que, em última análise, são frutos de livre escolha, logo valores do espírito,  para pretenderem impor estruturas e soluções materialistas, logicamente desprovidas de espiritualidade!

Bem assevera Plínio Salgado: “Antes, entre a virtude e o pecado, o homem podia escolher livremente, e a isso chamavam escravidão; agora, o homem deve conformar-se com a fatalidade das condições inerentes à sua estrutura física e aos desígnios da espécie, e a isso chamam liberdade”.

Não é de se admirar, portanto, que, junto com o atual procedimento que se conhece como democracia, em todos os países onde ela é assim praticada, se instaure paralelamente o economicismo, o pansexualismo, a indisciplina, a injustiça social e a queda dos valores morais na sociedade.

Essa decadência progressiva dos valores humanos vai se processando sutilmente, não oferecendo luta aberta ao sentimento religioso, mas criando uma rede de dificuldades a que ele se desenvolva, propondo um conformismo perante a mecânica avassaladora do determinismo materialista. A pregação da transigência, do pluralismo e do modernismo, mal formulados, conduzem as mentes para o desbotamento continuado dos valores do Espírito.

Tivemos recentemente e a queda do muro de Berlim, o desmoronamento do império do materialismo declarado, e a euforia de que teremos uma era de democracia salvadora. Porém, Plínio Salgado, muito ante, já havia alertado: “Considero o materialismo nietzschiano e o marxista menos perigosos do que o agnosticismo, pois o verdadeiro materialista não é o que nega, mas o que não afirma nem nega. Aquele que nega persegue-nos, odeia-nos e mata nosso corpo; mas aquele que não nega nem afirma oferece-nos a paz e mata nossa alma”.

A organização harmônica da sociedade não dispensa a existência de um clima de elevação da alma que forneça padrões para o funcionamento adequado da estrutura social. Por isso insistiu tanto Plínio Salgado no estabelecimento de princípios que pudessem dar geração a programas de desenvolvimento e aperfeiçoamento social.

A verdadeira democracia, essa que possa ter realmente soluções para os problemas do homem e da sociedade, só pode ser decorrente de uma concepção de vida e da propugnação pela dignidade do Homem. “Qualquer sistema que seja provindo da vontade da multidão inconstante, da massa e não do povo, será joguete fácil nas mãos de quem quer explore seus instintos e impressões...” (Pio XII, citado por Plínio Salgado).

No mundo de hoje, diante da ocorrência do fenômeno da secularização, alastrou-se um processo, a ser revertido, que procura rejeitar sistematicamente o sentimento religioso na organização social, qualquer que seja a confiança de fé, notadamente a cristã, fundamento de nossa nacionalidade. A primeira consequência é que as normas éticas passam a ser meros dispositivos eventuais, estabelecidas pela moda, sejam legais, contratuais ou meramente formais. Perde-se toda a força da convicção e da motivação de natureza superior. Ora, a verdadeira moral só tem sentido se for muito mais que uma convenção ou uma ideologia, tem que ser algo vinculado substancialmente à natureza transcendente do Homem, ao sentido de sua vida que lhe deu o Criador.

Pela aceitação do materialismo prático (que pode ser, também, ter religião, mas não cumprir o que dizem professar), cabem todas as atitudes que levam às ambições e à prevalência dos instintos. No entanto, - o que vemos? -, muitos professores em suas cátedras, jornalistas em seus órgãos de comunicação, próceres políticos em seus pronunciamentos se envergonharem de testemunhar sua fé em Deus e, mais do que isso, de dar consequência efetiva, na atuação publica, de sua crença no destino eterno. E se policiam para não incorrerem no que consideram um erro: “onde já se viu misturar Deus com Política?” Seria, segundo eles, politicamente incorreto.

O resultado é a ocorrência acentuada das mazelas sociais, já que se subtrai o fundamento básico da própria existência humana. Constrói-se uma democracia para um outro ser humano, não esse que Deus criou, e a quem deus tantas potencialidades e um destino transcendente.

Como, entretanto, o sentimento do eterno é inato no Homem, diante dessas imposições da mentalidade reinante, só restam duas saídas: ou considerar a religião como algo de exclusivo foro íntimo que não deve ser levada em conta no plano político, ou, para enganar a consciência, adotar um agnosticismo vago, eivado de superstição, fantasia e misticismo inconsequente.

Isto para não falar dos que usam a religião em proveito próprio nas vésperas das eleições.

Não se aceitando a verdade provinda da Revelação Cristã, aplicando-a a realidade social, é mister adotar outro critério de certo ou errado. A democracia materialista aceita a regra da maioria. O maior número de votos tem prevalência sobre a verdade, ou melhor, passa a ser a verdade. Se a maioria votar que a soma dos quadrados dos catetos não é o quadrado da hipotenusa, isso passa a ser o correto. Assim por maioria se aprovam leis e procedimentos contrários à dignidade humana, à moral pública, e até contra a vida.

Os métodos democráticos devem ser um meio para o serviço do ser humano. Se, pelo contrario, a democracia for considerada com um fim, “em nada é diferente do conceito do Estado Totalitário, pois não vejo”, diz Plínio, “nenhuma diferença nessas duas atitudes: a de considerar o Estado tendo finalidade em si mesmo, ou considerar a democracia como fim em si própria”.

O primeiro passo essencial para uma verdadeira democracia é, portanto, estabelecer-se a que Homem essa democracia vai servir. O Homem (e, por conseguinte a Mulher, pois me refiro à Espécie Humana) é criado por Deus, à sua imagem e semelhança. Foi redimido pelo próprio Deus, por meio de Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, numa demonstração infinita de amor. É dotado de livra arbítrio e tem deveres inalienáveis estabelecidos pelo próprio Deus, donde decorrem direitos que lhe asseguram uma dignidade própria e indeclinável. Seus direitos e deveres estão acima dos ditames da ONU, ou qualquer estatuto jurídico, mas decorrem, como ensina Plínio Salgado, do próprio decálogo, ou seja, dos Mandamentos da lei de Deus. Ali está o respeito à vida, à propriedade, ao elevado relacionamento, à valorização do semelhante, à dignidade das pessoas, à preservação da Fé. Esses deveres e direitos não dependem de votações, das maiorias ou da aprovação de dignitários de nações.

Como a formação humana requer, necessariamente, um ambiente propício para desabrochar sua personalidade em clima de aconchego, ternura e compreensão, onde recebe os fundamentos de sua educação para a vida, a Família passa a ser um grupo social inerente à própria natureza humana e, portanto, anterior a qualquer prescrição legal ou política. Assim, toda a estrutura social, que não der atenção especial à Família, atenta gravemente contra a própria finalidade da estruturação da sociedade humana.

Em decorrência dessa condição, de dignidade própria, e de apoio familiar, é que se devem estabelecer os divulgados, porém nem sempre atendidos, direitos ao trabalho, à habitação, à educação, à alimentação, à justiça etc.

Acrescente-se que o ser humano é também um ser gregário, isto é, que vive em sociedade: organiza-se naturalmente em grupos que lhe dão suporte e motivação vivencial. Há então grupos naturais, como o grupo de pessoas que exercem a mesma profissão, de pessoas que pugnam pela mesma ideia política, e assim por diante. A valorização desses grupos é igualmente anterior a qualquer princípio governamental.

Por falar em governamental, é preciso determo-nos no que vem a ser Governo, bem como o que vem a ser Estado. Plínio sempre insistiu em bem caracterizar esses dois conceitos diferentes e tantas vezes misturados.

Obtida historicamente a consciência de formação de uma Nação, quando um povo se sente diferenciado em relação a outros e unido por propósitos e sentimentos semelhantes entre si, surge um novo Estado, isto é, a consciência do objetivo comum, e sua defesa, dentro de um quadro de admissão da mesma concepção do homem, do mundo, da sociedade. Ressaltam as peculiaridades do que conjuntamente se aceitam, como que no estabelecimento de uma síntese doutrinaria. Sem isso a Nação não se identifica como tal.

Já o Governo é uma consequência do Estado, que lhe é anterior. O Governo existe para dar presença física e coordenação às atividades compatíveis com as características do Estado. Exceção feita às monarquias hereditárias, cabe aí a escolha orgânica, pelos cidadãos, dos dirigentes que darão personificação à autoridade do Estado.

Fica, portanto, plenamente justificado que o exercício da democracia, no sentido de escolha dos dirigentes pelos cidadãos, é processo dependente e posterior ao planeamento de premissas básicas, estabelecidas de forma a corresponder à natureza humana e às peculiaridades da Nação e do Estado. Nenhuma democracia pode ser considerada legitima se pretender atentar contra essas premissas, ainda que lastreada em milhões de votos de apoio.

Mas – pergunta-se – como pode ter havido eventualmente milhões de votos contra a própria consciência nacional? Podem os votos contrariar a índole de uma nação?

Povo é o conjunto das pessoas conscientes de suas responsabilidades, agindo de acordo com suas convicções, comungando do sentimento nacional e expressando livremente seus anseios e esperanças.

Por outro lado, massa é a multidão momentaneamente conduzida a uma situação emocional, joguete fácil, como disse Pio XII, nas mãos de quem quer que explore seus instintos e impressões.

Várias vezes insiste Plínio nessas duas realidades. E isso porque é preciso haver mecanismos adequados para que, na democracia, se consulte o povo e não a massa.

Certamente não é povo a imensa multidão que se manifesta eleitoralmente por se ter empanturrado com um churrasco ou ter sido conquistada pela “gentileza” de uma condução para comparecer às urnas. Não resta duvida de que não é povo, o conjunto de desorientados votantes que, sem juízo formado, e diante de uma situação psicologicamente constrangedora, aceitam candidatos sobre os quais não possuem nenhuma informação confiável. Não é igualmente parte do povo, mas peça da massa, aquele que dá apoio político em troca de um interesse mesquinho ou de uma sugestão coletiva.

Esse é o grande problema, a que pouco se têm dedicado os propositores de sistemas políticos, e que, no entanto, foi a grande preocupação do grande pensador e político Plínio Salgado. Enveredou corretamente pelo insano trabalho de criar uma nova mentalidade de elevação espiritual, de responsabilidade social, de amor à Pátria, de renovação ética, de mística nacional. Propôs um corpo de doutrina, em que, valorizando o homem integral, tirava as consequências para a família, o trabalho, a propriedade, o município, a nação, o relacionamento internacional. Com isso, ficam fixadas as fontes geradoras de programas que se poderiam aplicar em cada circunstancia.

Plínio, conhecendo a psicologia do povo, serviu-se, no tempo da Ação Integralista Brasileira, de métodos de aparência externa, para motivação e convencimento popular. Essa aparência exterior, que se revelou eficaz no erguimento entusiasmado de milhões de brasileiros, era, porém, usada, de forma semelhante, por países europeus que eram ou se tornaram totalitários e guerreiros – postulando, portanto, doutrinas inteiramente divergentes do ensinamento de Plínio Salgado -, o que levou grave prejuízo ao trabalho realizado. A isso, se conjugou a implacável perseguição política da ocasião e, principalmente, a deformação das ideias propostas, por meio de uma desinformação conduzida.

Mais tarde, na retomada do imenso empenho em favor do Brasil e em outra configuração política da Nação, Plínio propôs a criação da Câmara Orgânica, um órgão técnico de assessoramento às outras casas do Congresso, com iniciativa de propor projetos de Lei. Esta Câmara seria composta por representantes diretos das categorias econômicas e culturais da nação, aperfeiçoando assim a mais sadia representatividade dos grupos naturais nos destinos do Brasil. Seria uma eleição indireta, de forma a evitar o voto inconsciente, pois as escolhas seriam feitas dentro de grupos que conheciam a atuação das pessoas mais categorizadas para atuarem plano legislativo. A rigor, essas organizações culturais e econômicas já existem, mas estão marginalizadas no processo legislativo, ou, quando endinheiradas, se transformam em grupos de pressão, sem o contrapeso de uma visão integrada dos problemas nacionais.

Toda essa cosmovisão, de Deus, do Homem, da Democracia, da legitima representatividade, ainda não encontrou a oportunidade propicia para novamente empolgar a nação.

Louvo os poderes Executivo e Legislativo de São Bento do Sapucaí pela iniciativa desta comemoração, lembrando um dos brasileiros mais ilustres, e filho desta terra abençoada. Com este evento de hoje, se está aqui levando a efeito um passo importante na educação de democracia e de brasilidade. Daqui poderá ressurgir, um dia, a grande marcha do futuro.

Diz Plínio Salgado em O Ritmo da Historia: “A manutenção de todas essas expressões de liberdade humana exige virtudes dos cidadãos. Essas virtudes são as que se contrapõe às leis do instinto, que é injusto e cruel. Cumpre, pois, como único meio de realizar-se o regime democrático, uma larga e profunda obra de educação para a Democracia”.

Deus, porém, dirige os destinos dos povos e, se essa for sua soberana vontade, saberá prover condições para que os brasileiros, que sonham com a Grande Pátria, há tenham um dia luminosa e feliz.

(Este trabalho, por razões de saúde de seu Autor, foi lido por Gumercindo Rocha Dorea, no início das Comemorações do Centenário de Plínio Salgado, em 21 de Janeiro de 1995, no Espaço Cultural “Plínio Salgado”, em São Bento do Sapucaí  - SP).


Publicado originalmente nos “Anais do Centenário e da  Segunda Semana Plínio Salgado”. São Paulo/São Bento do Sapucaí: Edições GRD/Espaço Cultural Plínio Salgado, 1996; transcrito integralmente da página 7 até a 17.


*   ∑. Euro Brandão (1924 – 2000). Foi engenheiro, professor, Magnífico Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Ministro da Educação.

terça-feira, 24 de março de 2015

TEORIA E PRÁTICA DO NEOMARXISMO (1944)



Plínio Salgado

O mais terrível, porém, de todos os perigos imediatos é o que se apresenta quando o materialismo dogmático afivela a máscara do materialismo agnóstico, baseando-se no que denomina “tática da ação política”.

O marxismo revolucionário, desde o famoso manifesto de 1849, veio passando por várias metamorfoses que, embora não lhe alterassem a essência doutrinária, enriqueceram-lhe a fisionomia, dando-lhe aquela mobilidade de aparências que sintetiza (como nenhuma outra forma de ação humana) a face multi-expressional do espírito das Trevas. Abandonando a linha clássica do socialismo científico, os neonarxistas estabeleceram métodos de ação inspirados na teoria soreleana da violência e nos processos ardilosos de Maquiavel.

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Podemos, assim, dividir, em três fases a ação do neomarxismo: a da preparação, a da execução e a do desenvolvimento da sua ideia. A fase da preparação ou da dissimulação tática é um misto de materialismo agnóstico e astúcia maquiavélica. A disseminação da indiferença religiosa em todas as categorias mentais da sociedade enfraquece as resistências nacionais e abre campo à repulsa dos deveres prefixados pela disciplina moral. A prática da astúcia tem por fim tranquilizar os responsáveis pela ordem religiosa vigente (1) aparentando respeito pela liberdade de consciência e até mesmo pondo em relevo falsas identidades de propósitos com as da doutrina religiosa. Utilizam-se, em espaços neutros, certos conceitos como a fraternidade, a justiça, a intangibilidade da pessoa humana, conceitos que perdem as colorações específicas de suas procedências para servirem a manobras que contrariam a sua verdadeira, profunda e sagrada significação.

A fase da violência começa com o golpe técnico no momento psicológico preciso em que deve atuar o “interferente histórico”. Desde esse instante, a ideia do socialismo materialista transfere-se do subjetivismo partidário à concretização objetiva do Estado e – ao ritmo do mecanismo hegeliano – reflui em consequências novamente subjetivas na massa popular. Finalmente, a fase do desenvolvimento atinge as formas consecutivas do socialismo científico.

Na fase, pois, da preparação psicológica indispensável à formação, a um tempo, da “consciência de classe” e do desarmamento dos espíritos capazes de reagir, a política do neomarxismo, confunde-se com a do agnosticismo burguês. São os períodos da perturbação geral dos espíritos, que decompõem todo o aparelhamento de defesa das sociedades espiritualistas desprevenidas.
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Nota:
1)  Já em 1874, na alocução feita à nobreza romana por ocasião do Natal daquele ano, Pio IX dizia: “A princípio a Revolução nasceu tímida na aparência, obsequiosa e aduladora. Chegou mesmo a mostra-se hipócrita e a enganar muita gente honrada abusando de sua boa fé e misturando-se com ela até aos pés dos altares”.
Os temores de Pio IX vinham de muito antes, pois na alocução dirigida aos peregrinos franceses, a 16 de junho de 1871, assim se exprimiu: “O que mais receio por vós não são os homens da Comuna, verdadeiros demônios saídos do inferno; o que mais temo é o liberalismo que se diz católico (não decerto os católicos chamados antigamente liberais, pois estes têm-se por vezes portado condignamente com a Santa Sé) mas sim esse fatal sistema que bem pode ser que algumas vezes se tenha mostrado generoso em suas ações, mas é cobarde na maior parte, e medita e trabalha sempre para acomodar duas coisas inconciliáveis: A Igreja e a Revolução”. (Trechos extraídos de transcrições na obra “Pio IX, sua vida, sua história e seu século”, de Villefranche).
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Salgado, Plínio. O Conceito Cristão da Democracia. 2ª edição. São Paulo: Ganumby, 1951; transcrito das páginas 73, 76, 77 152 e 153.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Epístola ao paganismo que se apelida Cristão (Natal de 1953)

Dedicatória de Plínio Salgado a Antonio Salem (antigo membro da Câmara dos Quarenta da Acção Integralista Brasileira)

Plínio Salgado

Homens e mulheres do Ocidente, adeptos de todas as crenças que se dizem cristãs, frequentadores das igrejas católicas e das igrejas ortodoxas, anglicanas, metodistas, presbiterianas, batistas, evangélicas e quantas mais vieram da Reforma, e ainda outras que, sob os prismas mais diversos, inspiram-se em Cristo nestes tempos calamitosos; ouvi a palavra do Dr. E. W. Emgstrom, vice-presidente da “Radio Corporation of America”.

Nenhuma ocasião é mais propícia a essa palavra do que a noite em que celebrais, segundo os vossos costumes, com presépios ou árvores resplandecentes de lantejoulas, com  as mercearias iluminadas e pejadas de nozes, castanhas, figos e uvas, e vinhos de todas as qualidades, o aniversário do nascimento de Jesus Cristo. Não importa que o Dr. Emgstrom haja falado no curso do ano que finda. As suas palavras ganham oportunidade à passagem deste Natal. O que ele diz tem grande importância para a mitologia dos tempos modernos. Ele anuncia mais um deus ao politeísmo do século XX, tão rico em divindades novas e prestigiosas.

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O Dr. Emgstrom revela que a ciência e a técnica, à maneira de Erebo e da Noite, os dois filhos do Caos, depois de terem engendrado os vossos deuses-máquinas, esses deuses que se chamam o automóvel, o avião, o rádio, o calculador automático, o radar, o submarino, a bomba atômica, acaba de inventar um engenho eletrônico, dotado de pensamento e inteligência e capaz de sentir e reagir... E afirma, categoricamente: “O homem poderá construir, em sistemas eletrônicos, uma máquina capaz de o substituir".

Em seguida, prevendo o susto que vos assaltaria, ao imaginar que essa máquina, fabricada em série pelo Capitalismo Burguês ou pelo Estado Socialista, iria tornar-vos seres inúteis ou muito mais dispendiosos ou inconvenientes, o Vice-Presidente da “Radio Corporation of America” acrescenta:

“Entretanto, o que os eletrônicos podem executar tem um limite, embora ainda muito distante para ser conhecido presentemente. A mente humana, ao contrário, não tem limites e sendo o seu poder criador fundamental, o Homem continuará a ser sempre supremo, isto é, superior à máquina raciocinante”.

Confesso, homens e mulheres que vos dizeis cristão em nosso século, confesso não ter sentido nas palavras do grande técnico nenhuma consolação e tranquilidade. E isso porque observo, nestes últimos anos, um fato que ninguém pode contestar: enquanto as máquinas de ferro e de outros metais tendem a humanizar-se, executando os atos do Homem, o Homem tende a maquinizar-se, não somente se submetendo ao ritmo dos engenhos mecânicos e elétricos por ele próprio engendrados, mas, ainda, procurando conformar-se a sistemas de movimentos e de ações que anulam o potencial da sua personalidade. A máquina quer ser gente; o Ser Humano quer ser máquina.

Já não falo do ritmo do trabalho que se convencionou chamar racionalizado, mediante o qual a especialização reduz a Criatura de Deus aos limites de um isocronismo exasperante e aos acanhados espaços de funções restritas onde morre toda a possibilidade do poder inventivo. Já não falo do rebaixamento da pessoa humana reduzida a só mover uma determinada alavanca, ou a ligar e desligar uma corrente elétrica, ou a limar parafusos, ou a polir cilindros, ou a abrir roscas em porcas metálicas. Já não falo no automatismo das mãos conformadas à cadência do aparelho, como observou Gheorghiu no seu livro “A Vigésima Quinta Hora”.

Falo da mecanização crescente da vida social. Falo dos regimes políticos onde o Homem se torna peça na grande máquina do Estado. Falo nas planificações econômicas (é preciso distinguir planificação de planejamento), as quais fazem do Ser Humano um zero, enfileirado com outros zeros, cujo conjunto, à direita do algarismo significativo do Poder, eleva o potencial deste e em consequência sua maior tirania. Falo da concepção econômica da História e dos processos sociais, o que transforma os povos e os indivíduos em comunidades sem espírito e seres sem alma, submetendo-os aos impositivos  de irrevogável determinismo. Falo da concepção mecânica da inteligência, medida, pesada e contada pelo artifício dos “tests”, com abstração total da misteriosa complexidade e dos dificilmente reveláveis segredos da personalidade. Falo dos sistemas de fichas, a que todos se submetem, desde a ficha dactiloscópica à ficha nas policias, à ficha nos hotéis, à ficha nos bancos, à ficha profissional, que trazem o Rei da Criação perenemente vigiado, inquirido, suspeitado, humilhado. Falo dos mil impostos que os Governos cobram e através dos quais à vida do contribuinte é devassada, vasculhada, até mesmo o seu pudor domiciliar. Falo da psicanálise, essa nova superstição dos tempos modernos, que não respeita os sagrados recessos da alma humana, ultrapassando as fronteiras as dignidade e atentando contra as prerrogativas do Homem outorgadas por Deus. Falos dos modernos processos dos inquisitórios adotados na Rússia, com aplicação de drogas, como a mescalina, desintegradora da personalidade. Falo na substituição da “qualidade” pela “quantidade” no que concerne aos meios de representação nacional e eleição de governantes, o que transforma os povos conscientes em massas inconscientes, despidas de raciocínio e tangidas em grandes movimentos de rebanhos pelos detentores das máquinas de propaganda. Falo da ação mecanizadora da imprensa, do rádio, da televisão, do cinema,  que plasmam, um por um dos leitores, dos ouvintes, dos tele ouvintes, dos espectadores, uniformizando-os em opiniões, em gostos,  em comportamento, e fabricando com a matéria prima de seres personalizados, infindáveis séries de tipos “standard”, com idênticas atitudes, idênticas palavras, idênticos hábitos. Falo do critério exclusivamente funcional na arquitetura, que fez das casas do Homem simples máquinas de morar, destruindo toda a possibilidade do chefe e da mãe de família no sentido de imprimirem caráter próprio ao lar doméstico; ver um apartamento é ver todos: são caixas onde se guardam os “robots” que durante o dia executam as mesmas coisas que os outros “robots” executam. Falo dos excessos da interpretação social mediante os frios algarismos das estatísticas que consideram meros problemas matemáticos os dramas humanos mais pungentes e tiram conclusões do geral para o particular, conformando os mais variados e complexos, os mais típicos e específicos índices psicológicos pessoais ou grupais,  à teoria dos inexpressivos recenseamentos como uma terraplanagem de relevos característicos do solo.

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Uma voz denunciou ao mundo o perigo que representa esta tendência para a mecanização do Homem e da Sociedade. Foi Pio XII na sua Mensagem de Natal no ano passado. Impressionou-o o despotismo da Máquina sobre o Homem. “Esta incapacidade de dominar a máquina” – diz o Sumo Pontífice – “deveria sugerir aos homens, suas vítimas, a certeza de que não podem esperar a salvação unicamente dos técnicos da produção e organização”. Mais adiante, criticando as falsas teorias, que pretendem solucionar os problemas sociais e econômicos “mediante uma organização rigorosamente uniforme e inflexível”, Pio XII diz: “Pretender a salvação de fórmulas rígidas, aplicadas materialmente à ordem social, é uma superstição, porque é atribuir a essas fórmulas um poder prodigioso, que elas não têm”.

Mas vós, homens e mulheres do século XX, e particularmente homens e mulheres da Europa Ocidental e das Américas, que vos dizeis cristãos, nada quereis compreender. Servis a dois senhores, a Cristo e a Mamon. Dizeis que estais integrados no Reino de Deus, mas viveis segundo o Reino de Satã, o destruidor da personalidade humana. Aceitais todas as superstições contemporâneas. Criastes a Máquina mas em vez de dominá-la sois dominados por ela. O Comunismo Russo e o Capitalismo Ocidental, que são uma e a mesma coisa, pelas suas origens materialistas e seus objetivos exclusivamente temporais, impuseram-vos a adoração de novos deuses de aço. Esses deuses são mais perversos do que o das mitologias egípcia, assírio-babilônica, greco-romana, pois Osíris, Isis, Hórus, Anúbis, e Melkart, Ormuz, Bel-Marduk, e Júpiter, Saturno, Dionísio, Apolo, Vênus, esses pelo menos falavam de uma vida além dos limites deste mundo, ao passo que o deus Cadilac, o deu Douglas, o deus T.S.F., o deus Nautilus, o deus TV, e mil outros de aço que adorais, só vos falam da vida deste mundo. Os pagãos antigos eram mais dignos, porque não perdiam as prerrogativas de Seres Humanos; mas vós não só adorais, mas imitais os deuses-máquinas, conformai-vos ao seu ritmo, e pretendeis transformar a ordem social, a ordem política, a ordem econômica, a ordem moral em imensos maquinismos, onde não passais de peças e onde impera a cadência do todo em que vos integrais.

Tendes ainda uma inferioridade em face dos pagãos anteriores a Cristo. É que eles não tinham recebido a luz da Verdade, que vós recebestes há dois mil anos. Eles não tinham o que hoje tendes: a Redenção cujo preço foi o sangue de Cristo. Eles não haviam recebido a doutrina do Evangelho e vós a tendes recebido há vinte séculos.

O vosso castigo há de ser – se não vos modificardes – o Frankstein de que vos fala o Dr. Emgstrom. Ele irá tomar o vosso lugar. Seres despedidos pelo Comunismo ou pelo Capitalismo, os dois monstros do Apocalipse.

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Sob o critério materialista, a Máquina, é, em tudo, superior a vós. Em 1931, escrevi estas palavras que depois foram enfeixadas nos livros “O Sofrimento Universal” e “Madrugada do Espírito”:

“O monstro de aço conquistou mais do que a igualdade, a superioridade social sobre o homem. A máquina não tem pais e nem gera filhos; não vibra de afetos; não alimenta aspirações; não cultiva a moralidade. É, portanto, muito mais conveniente ao capitalismo universal. E é por isso que o Capitalismo quer arrancar do Homem os últimos resíduos espirituais, para que a massa proletária se transforme também num sistema de maquinismo...”.

E considerava: “O instinto da máquina vai avassalando tudo. A máquina exige que se modelem coletividades de movimentos automáticos, de formas geométricas precisas e cadências uniformes. Essas coletividades devem cristalizar-se nos fornos das necessidades, que irão obrigando cada tipo isolado a se acomodar ao grande ritmo cujo sentido é a mecanização total da existência. É a redução ao inanimado. A racionalização desracionalizante. O homem tipo como a máquina-tipo. O trabalho-mercadoria como o Quilowatt-hora. O índice de caloria dos combustíveis. O trabalho como finalidade do trabalho. A morte total do espírito”.

“O Homem inventou a máquina; a máquina agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto”.

Essas palavras foram escritas em 1931. E agora dois fatos as comprovam, neste 1953. O dr. Emgstrom anuncia o advento do Frankstein eletrônico. E as estatísticas revelam o número de crianças nascidas de inseminação artificial, pois nos Estados Unidos se marcha para a fabricação de homens de laboratório, cuja composição exige apenas a mulher como receptáculo de um sêmen anônimo, provindo do caos coletivo, sem história, sem relação com o sentimento em que se sublima, para honra da Espécie, o impulso sexual.

E, assim, homens e mulheres adoradores da Máquina, que vos dizeis cristãos e festejais o Natal Daquele que veio ao mundo para redimir o Ser Humano e dar-lhe noção de sua grandeza pessoal, esta mensagem que vos envio está cheia de dor dos que ainda pensam e raciocinam quando a maior parte de seus semelhantes abdicou as altas prerrogativas que Deus lhes havia outorgado. E essa dor, que se apura no fogo das meditações, eleva-se aos Céus em forma de prece, rogando ao Cristo, cujo nascimento comemoramos, que nos ajude, neste século, a libertar-nos da escravidão a que nos temos submetido, a fim de que nos arranquemos do pior dos paganismos que aterra já conheceu, e possamos, restaurando a Personalidade Humana, servirmos a um só Senhor e Deus, conforme nos ensinou o mesmo Jesus Cristo, ao dizer-nos que, para pertencermos ao seu Reino, cumpre-nos repudiar a Mamon, senhor do dinheiro e senhor das máquinas, escravizador e automatizador dos ritmos sociais em que se anulam os ritmos próprios de cada homem e de cada mulher, quando se esquecem da nobreza da sua origem e da glória de sua finalidade suprema.

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SALGADO, Plínio. A Tua Cruz, Senhor... Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, 1954. Transcrito das páginas 115 até 124.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Verdades da "direita" e da "esquerda" (1933)


Plínio Salgado

Em vos falando da verdade, pergunto-vos: existe uma verdade da “direita” e outra da “esquerda”? Onde está a verdade? Como atingirmos a verdade?

Respondo-vos, dizendo que não existe uma verdade da “direita” ou da “esquerda”, porque no sistema do mundo,  na essência do cosmos, não existe nem “esquerda” e nem “direita”, e sim condições de movimentos e processos de expressão de forças eternas, de um modo imutável.

A Verdade está no Absoluto das coisas e nós a atingiremos pela Concepção Integral do Universo.

Eis aí como o nosso Integralismo supera todas as correntes de ideias que costumam evocar, para estabelecer comparações, os poucos versados em nossa doutrina.

Não nos limitamos ao terreno econômico e social, porquanto partimos da esfera filosófica e estabelecemos um sistema de consideração do mundo, segundo o qual subordinamos o nosso pensamento político. Esse sistema não se submete ao ângulo estreito das concepções unilaterais, nem tampouco se restringe ao agnosticismo debilitante da burguesia epicurista ou empírica.

O nosso pensamento tem o sentido expressivo deste século, cujo espírito os pensadores da Europa ainda não apreenderam. Esse  espírito é de Síntese.


SALGADO, Plínio. A Quarta Humanidade. 1. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1934; págs. 90 e 91. A passagem transcrita faz parte da Conferência “No Limiar do Século XX”, proferida originalmente na Faculdade de Direito de Recife (1933) e repetida na Associação Universitária da Bahia e no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, e posteriormente enfeixada na Obra “A Quarta Humanidade”.

Opinião de Miguel Reale sobre Plínio Salgado (1978)


Em 14 de Maio de 1978, Miguel Reale dá uma entrevista na qual aborda o Integralismo e, como não poderia deixar de ser, fala sobre Plínio Salgado. Resolvi transcrever abaixo uma parte da mesma, para que todos constatem qual era a opinião do insígne Jurista sobre o nosso Chefe:

"Não fui um dos fundadores do Integralismo. O Movimento surgiu em Outubro de 1932, com o Manifesto de Plínio Salgado. Nessa ocasião, eu fazia oposição ao Integralismo. Sou conterrâneo de Plínio Salgado, nascemos ambos em São Bento do Sapucaí. (...) O Integralismo, a meu ver, não surgiu como uma expressão de mimetismo de fenômenos como o fascismo e muito menos o nazismo. Inicialmente, o Integralismo foi uma meditação sobre os problemas brasileiros, o que se pode ver pela obra de Plínio Salgado, como por exemplo, o seu romance "O Estrangeiro", que deveria merecer tanta atenção quanto "A Bagaceira", de José Américo de Almeida. Tanto na sua obra literária como na sua atuação política, Plínio reflete a meditação sobre a obra de Alberto Torres, Oliveira Vianna, Farias Brito, Tavares Bastos, Euclides da Cunha, que eram seus autores prediletos. De maneira que a sua formação inicial foi, digamos assim, cabocla. Aliás, sempre o considerei um grande caboclo, até pelo físico, pela maneira de ser.

"(...)

"Tomemos como exemplo Plínio Salgado. Ele tinha uma orientação eminentemente Católica. Sua formação política era baseada na doutrina social da Igreja, à qual se manteve vinculado até o fim. Isso, aliás, foi reconhecido pelos que na época falavam em nome da Igreja.

(...)

"Foi dito que ele" - Miguel Reale está se referindo a Plínio Salgado - "era um intelectual e acho que se manteve um intelectual até o fim. (...) Plínio Salgado era um político de cultura muito superior ao usual nos meios partidários. Cultura literária, filosófica e política. Era um temperamento irrequieto, um feixe de nervos, e com uma intuição fora do comum. Disse certa feita que a característica de sua inteligência era a intuição, que ele detinha um gênio intuitivo, (...). Prevalecia nele um poder de intuição próprio do brasileiro. Intuição dos problemas sociais, políticos e uma grande capacidade de apostolado. Foi sobretudo um homem que mobilizava inteligências e a opinião pública, capaz de falar tanto ao intelectual como ao homem do povo, porquanto sua palavra vinha carregada de afetividade e sentimento. Jamais acreditou na direção do país tão-somente com ideias puras, ou seja, com ideias apenas através de conceitos. E sentia a necessidade de governar lançando mão também dos elementos de comunicação, que envolvem sem dúvida aspectos afetivos. Era inegavelmente um homem que tinha uma dedicação à causa brasileira que não pode ser contestadas.

"Essa é a imagem que guardo de Plínio Salgado: um autodidata que passou do plano literário para o plano político sem solução de continuidade. Toda a sua doutrina política está nos seus romances. Se fizermos uma análise de sua obra literária, verificaremos como o literato passou de uma atitude puramente estética para outra de caráter político. Apesar de toda essa apresentação que corre por aí de um homem violento, Plínio Salgado no fundo era um tímido, e os que conviveram com ele sabem disso. Posso dizer-lhes que o Integralismo se preparou para tudo, menos para a conquista violenta do poder. "


MOTA, Lourenço Dantas. A História Vivida (I): [entrevistas]. [2. ed.]. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1981. A Entrevista de Miguel Reale encontra-se entre as páginas 321 e 345. As passagens transcritas foram retiradas das páginas 324, 325, 327, 334 e 335.

Opinião de Gustavo Barroso sobre Plínio Salgado (1937)


No dia 11 de Junho de 1937, as Cortes do Sigma proclamaram solenemente Candidato da Acção Integralista Brasileira à Presidência da República ao Chefe Nacional Plínio Salgado.

O discurso de encerramento daquela histórica Solenidade foi proferido por Gustavo Barroso, Secretário Nacional de Educação da A.I.B., em meio ao qual declarou o seguinte sobre o Chefe Nacional Plínio Salgado:

"Reparae - exclama o orador - a grande differença que existe entre o Chefe Nacional e os chefes dos outros movimentos, não iguaes, mas parallelos. Todos esses movimentos tiveram os seus precursores e os seus realizadores.
"No Brasil não há precursores. Plínio Salgado é o primeiro e o único".


("Monitor Integralista", Rio de Janeiro, 17 de Junho de 1937, Anno V - Num. 21 - págs. 3. Foi conservada a ortografia do original)