terça-feira, 24 de março de 2015

TEORIA E PRÁRICA DO NEOMARXISMO (1944)



Plínio Salgado

O mais terrível, porém, de todos os perigos imediatos é o que se apresenta quando o materialismo dogmático afivela a máscara do materialismo agnóstico, baseando-se no que denomina “tática da ação política”.

O marxismo revolucionário, desde o famoso manifesto de 1849, veio passando por várias metamorfoses que, embora não lhe alterassem a essência doutrinária, enriqueceram-lhe a fisionomia, dando-lhe aquela mobilidade de aparências que sintetiza (como nenhuma outra forma de ação humana) a face multi-expressional do espírito das Trevas. Abandonando a linha clássica do socialismo científico, os neonarxistas estabeleceram métodos de ação inspirados na teoria soreleana da violência e nos processos ardilosos de Maquiavel.

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Podemos, assim, dividir, em três fases a ação do neomarxismo: a da preparação, a da execução e a do desenvolvimento da sua ideia. A fase da preparação ou da dissimulação tática é um misto de materialismo agnóstico e astúcia maquiavélica. A disseminação da indiferença religiosa em todas as categorias mentais da sociedade enfraquece as resistências nacionais e abre campo à repulsa dos deveres prefixados pela disciplina moral. A prática da astúcia tem por fim tranquilizar os responsáveis pela ordem religiosa vigente (1) aparentando respeito pela liberdade de consciência e até mesmo pondo em relevo falsas identidades de propósitos com as da doutrina religiosa. Utilizam-se, em espaços neutros, certos conceitos como a fraternidade, a justiça, a intangibilidade da pessoa humana, conceitos que perdem as colorações específicas de suas procedências para servirem a manobras que contrariam a sua verdadeira, profunda e sagrada significação.

A fase da violência começa com o golpe técnico no momento psicológico preciso em que deve atuar o “interferente histórico”. Desde esse instante, a ideia do socialismo materialista transfere-se do subjetivismo partidário à concretização objetiva do Estado e – ao ritmo do mecanismo hegeliano – reflui em consequências novamente subjetivas na massa popular. Finalmente, a fase do desenvolvimento atinge as formas consecutivas do socialismo científico.

Na fase, pois, da preparação psicológica indispensável à formação, a um tempo, da “consciência de classe” e do desarmamento dos espíritos capazes de reagir, a política do neomarxismo, confunde-se com a do agnosticismo burguês. São os períodos da perturbação geral dos espíritos, que decompõem todo o aparelhamento de defesa das sociedades espiritualistas desprevenidas.
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Nota:
1)  Já em 1874, na alocução feita à nobreza romana por ocasião do Natal daquele ano, Pio IX dizia: “A princípio a Revolução nasceu tímida na aparência, obsequiosa e aduladora. Chegou mesmo a mostra-se hipócrita e a enganar muita gente honrada abusando de sua boa fé e misturando-se com ela até aos pés dos altares”.
Os temores de Pio IX vinham de muito antes, pois na alocução dirigida aos peregrinos franceses, a 16 de junho de 1871, assim se exprimiu: “O que mais receio por vós não são os homens da Comuna, verdadeiros demônios saídos do inferno; o que mais temo é o liberalismo que se diz católico (não decerto os católicos chamados antigamente liberais, pois estes têm-se por vezes portado condignamente com a Santa Sé) mas sim esse fatal sistema que bem pode ser que algumas vezes se tenha mostrado generoso em suas ações, mas é cobarde na maior parte, e medita e trabalha sempre para acomodar duas coisas inconciliáveis: A Igreja e a Revolução”. (Trechos extraídos de transcrições na obra “Pio IX, sua vida, sua história e seu século”, de Villefranche).
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Salgado, Plínio. O Conceito Cristão da Democracia. 2ª edição. São Paulo: Ganumby, 1951; transcrito das páginas 73, 76, 77 152 e 153.

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