domingo, 29 de maio de 2022

A Posição do Integralismo no Brasil (1934), de Plínio Salgado

 

A Posição do Integralismo no Brasil (1934)

Plínio Salgado

O caso do Brasil é diferente dos da Itália, da Alemanha, da Rússia, dos Estados Unidos e demais países.

Não podemos, em absoluto, equiparar a situação brasileira àquelas em que se encontraram a Itália e a Alemanha, antes e durante a luta desencadeada pelo fascismo e pelo nacional-socialismo.  Muitos nos citam aqueles exemplos, insinuando-nos atitudes, providências e processos. Esses conselheiros evocam as figuras de Mussolini e de Hitler, que são índices e tipos adequados a determinado lugar e tempo. Aqui, no Brasil, as cousas são muitos diversas. Qualquer daqueles dois grandes condutores, se houvesse de aplicar os seus processos entre nós, fracassaria. Conquanto os males que sofremos tenham a mesma origem da enfermidade de todos os povos modernos, a maneira como se apresenta o problema político-social em nosso país é diversíssima.

Geografia – Demografia – Transportes

A superfície territorial da Itália é de 310.000 km². Cabem 27 Itálias dentro do Brasil, que tem 8.511.189 km². Do ponto de vista, pois, da extensão do movimento, o integralista tem de ser 27 vezes maior do que o fascista.

Tendo de ser extensivamente maior 27 vezes, o integralismo não conta com a facilidade de penetração em massas populares densas. Nossa população é rarefeita. A densidade da população italiana é de 148 habitantes por quilômetro quadrado, enquanto nós, para cada quilômetro quadrado, contamos apenas 5 habitantes. Sob este aspecto, portanto, o esforço do integralismo tem de ser 29 vezes maior do que o fascismo.

É preciso compararmos os nossos meios de comunicação.

Para 8.511.189 km², temos 31.333 km de estradas de ferro. A Itália, para 310.000 km² tinha, antes do fascismo, 17.300 km de ferrovias. Para cada 1.000 km². A Itália apresentava 55 metros e 80 cm de trilhos; e nós possuímos, para cada 1.000 km², apenas 3 metros e 68 cm.

A nossa propaganda encontra, pois, mais esse embaraço. E já não quero falar das estradas de rodagem que cortam em todos os sentidos o país peninsular, onde o trânsito de automóveis, de motocicletas e bicicletas é intensíssimo, nem das comunicações por mar, que são excelentes. No Brasil, a situação, sob esse aspecto é bem precária.

Imprensa e comunicações

A penetração, portanto, de qualquer ideia ou doutrina, no Brasil, é muito mais difícil do que na Itália, que tomamos como padrão, para essas comparações. Os algarismos seriam mais eloquentes, se tomássemos a Alemanha, ou os Estados Unidos por paradigma.

Para evidenciar a dificuldade da propaganda de qualquer ideologia no Brasil, basta dizer que não temos imprensa de irradiação nacional, mas várias imprensas de exíguas influências regionais. O “Corriere della Sera”, de Milão, atinge 600.000 exemplares diários; “Il Popolo d’Italia”, “O Giornale d’Italia”, “Resto Del Carlino”, “Gazzetta de Venezia”, “Il Tevere”, tiram todos mais de 200.000 exemplares diários. Os grandes jornais franceses avançam a um milhão de tiragem quotidiana; a vários milhões se elevam os diários ingleses, norte-americanos ou japoneses; o próprio “Diário de Notícias”, de Lisboa, apresenta uma tiragem de 150.000 exemplares. No Brasil, nenhum jornal consegue alcançar aquelas cifras.

Cumpre acrescentar ainda que toda a Europa está traçada por uma rede telefônica muito boa. Num país de pequena extensão como é a Itália, Mussolini pode comandar toda a marcha sobre Roma, dentro de seu gabinete, ao lado do telefone que é hoje mostrado aos que visitam “Il Popolo d’Italia”, como um objeto histórico.

Temos visto, através dos filmes, como Hitler, na Alemanha, pode falar, viajando em avião, em três ou quatro cidades no mesmo dia.

No Brasil, dada a hipótese de que o integralismo dispusesse de recursos financeiros, ainda assim as comunicações seriam dificílimas.

(1º Congresso Integralista – VITÓRIA – Prov. Espírito Santo – 1934)

Transcrito da Revista Panorama, São Paulo: Ano I – Julho de 1936 – nº7; págs. 1 e 2.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Federação e Unidade Nacional (1965)



Esclarecimento: O Artigo abaixo foi publicado em jornal pelos “Diários Associados, mas, o recorte que dispomos não trazia a data da publicação. Felizmente, graças ao impressionante trabalho de pesquisa sobre o Integralismo em fontes primárias, o brilhante pesquisador Matheus Batista pode nos informar que a data da edição foi 07 de Dezembro de 1965.

Em breve, o Companheiro Matheus Batista publicará uma sensacional Obra sobre o Integralismo. Aguardem!

Federação e Unidade Nacional (1965)

Plínio Salgado

A Unidade Nacional Brasileira constitui um dos fenômenos políticos mais notáveis do mundo. Não se trata de uma unidade compulsória, como foi o caso do Império Romano, ou dos impositivos de guerras vitoriosas, como as de conquista empreendidas pelos Czares da Rússia, que sucessivamente foram abrangendo largos territórios. Em ambos os casos verificou-se uma unidade de aparência, mas não de essência. Os povos submetidos continuaram a falar em suas línguas próprias, multiplicadas em dialetos, mantendo o culto de suas religiões e as normas tradicionais de seus costumes.

 

No Brasil, entretanto, em extensão quase equivalente àqueles Impérios, conservaram-se a mesma língua, a mesma religião, os mesmos hábitos, com ligeiras variantes de características regionais. E, mais do que isso: um sentimento comum de Pátria, que identifica o amazonense e o gaúcho, os paulistas e mineiros aos nordestinos e às populações do Centro-Oeste. A que atribuir tão pasmosa unidade?

 

Historiadores e sociólogos procuram penetrar no mistério desse enigma; opiniões divergem, mas o problema continua desafiando a argúcia dos pesquisadores.

 

Tenho para mim que a causa principal da nossa unidade está no espírito ecumênico do colonizador português. Aquele povo, de pouco mais de um milhão de habitantes ao tempo das descobertas, herdou dos romanos o sentido universalista no trato com os povos. Em vez de impor, adaptou-se ao que encontrava como realidade social e soube conformar-se às circunstâncias geográficas, climáticas e regionais. Sem preconceitos de raça, cruzou-se com os autóctones e, depois com as correntes africanas e europeias que confluíram no Novo Mundo. Sem intolerância religiosa, pregou o Evangelho, mas não violentou nem os índios nem os negros, não exercendo sobre eles a crueldade dos arbítrios inquisitoriais. Sem exorbitância de uma política centralizadora, deixou germinar e crescer a futura Nação, consoante com o pensamento dos juristas e a clarividência dos Reis.

 

A evolução do povo brasileiro teria, porém, justamente em razão da política dos colonizadores, a partir de D. João III, de desenvolver-se entre as forças contrastantes de uma antinomia, que perdurou na Colônia, no Império e manifestou-se claramente na República. De um lado, a atração centrista da Autoridade Central, do outro a expansão centrífuga dos imperativos regionais, aos quais devemos acrescentar inicialmente o espírito do Homem Renascentista, sequioso de liberdade e de aventura e, posteriormente, o do racionalismo do século XVII e o libertarismo do século XVIII.

 

A necessidade inerente ao plano da colonização levou a Metrópole a dividir o vasto território em capitanias. Falou o bom senso, considerada a extensão da área a colonizar e a civilizar. Começam, aí as diferenciações de interesses das várias partes do País. Fracassado o plano, em grande parte das Capitanias, recorre-se a um Governo Geral. Viu-se, depois, que o Norte era diferente do Sul e que o Brasil precisava de dois governos.

 

No curso do século XVIII, acentua-se a antinomia entre o respeito à Metrópole e o libertarismo da Nação nascente. O sentimento de fidelidade à Portugal manifestara-se já nas guerras contra os holandeses, franceses e ingleses e, principalmente, quando os pernambucanos foram retomar Angola, para entregá-la à Pátria-Mãe. Exprime-se ainda no gesto de Amador Bueno, aclamado rei dos paulistas e rejeitando a coroa por ser fiel a Portugal. Por outro lado, falam os sentimentos regionalistas e individualistas, que revelam o Homem da América, de movimentos livres e soberana audácia. Tal estado de espírito irá manifestar-se na Inconfidência Mineira e na revolução americana de 1817.

 

Assim, chegamos à Independência. Agora, que o Poder Central se deslocava de Lisboa para o Rio de Janeiro, explodem os ímpetos de autonomia regional. O Brasil está ameaçado pelo separatismo. Por que? Pelo excesso de centralização do Poder. É o mesmo que se deu na Argentina, conforme assinala Sarmiento no seu livro sobre Facundo Quiroga.

 

Apagadas as chamas da segunda revolução pernambucana de 1824, acende-se dez anos depois o incêndio da Guerra dos Farrapos. É a República de Piratini contra os arbítrios do Poder Central. Depois de pacificado o Rio Grande do Sul, pelo esforço ingente de Diogo Antônio Feijó, foi este mesmo que, unido ao brigadeiro Tobias em São Paulo e a Teófilo Otoni em Minas, deflagrou uma nova revolução, em 1842, alegando a excessiva absorção do Governo Central contra as Províncias do Império. O Federalismo nascia, portanto, destas datas memoráveis: 1824 – Pernambuco; 1835 – Rio Grande do Sul; 1842 – São Paulo e Minas.

 

Só então começou-se a compreender que a Unidade Nacional Brasileira, lastreada pela mesma língua, pela mesma religião, pelos mesmos sentimentos, encontrava agora um opositor: os legítimos interesses regionais, não apenas econômicos, mas sobretudo de liberdade política e livre manifestação da opinião dos brasileiros.

 

No transcurso histórico de 1842 a 1870, a ideia federalista ganhou corpo, como condição fundamental da Unidade da Pátria. Nem se podia compreender o problema de outro modo. Ainda que unidos pelos laços afetivos mais profundos, os brasileiros das Províncias não sofriam ser oprimidos, espezinhados pelo Poder Central. Queriam ter voz nos auditórios da Nação, queriam ser atendidas nas suas peculiaridades, queriam a União mas com dignidade e como resultado de uma autonomia em que se baseia a sua livre adesão ao Todo Nacional.

 

A ideia federalista empolgou de tal maneira os espíritos que, desde a Convenção de Itu, realizada em 1873, foi-se tornando a ideia-força da propaganda republicana. No Partido Liberal, principalmente, o federalismo aliciava, dia a dia, novos adeptos, ao ponto de um homem como Rui Barbosa, pertencente àquela agremiação, declarar ser imperativa a fórmula federalista, “com ou sem a Monarquia”. Era o desenvolvimento do Brasil, que transitara das Capitanias, isoladas uma das outras, à formação gradativa das futuras Províncias e, finalmente estas, tomando consciência das diferenciações que as distinguiam umas das outras e delineando, por um processo natural, os seus limites geográficos.

 

Todo o segredo da Unidade Brasileira está em conciliar os rumos políticos gerais da Nação com os impositivos das reações regionais. Compreenderam-no os Reis Portugueses, os Governadores Gerais, os Vice-Reis e os estadistas do Império. Compreendiam-no de modo claro, pensadores como Tavares Bastos. Percebiam-no tanto os que pretendiam preservar o Trono, como os que desejavam derrubá-lo.

 

Ao proclamar-se a República, viram os responsáveis pelo novo regime que as instituições recém-inauguradas necessitavam de uma firme estrutura política para as embasar. Os Partidos da Monarquia (o Conservador, o Liberal e o Progressista) tinham sido automaticamente extintos, não por decretos artificiais, mas em consequência das realidades políticas.

 

As democracias não vivem sem partidos; são eles os captadores das correntes de opinião, os aparelhos de sensibilidade, acusando tendências das parcelas componentes do povo; refletindo a influência das ideologias e doutrinas expostas pelos pensadores do País; assinalando os diferentes estados de espírito do povo; acusando mudanças inerentes à própria vitalidade nacional. A Nação é um corpo vivo. Ao contrário do que pretenderam Bluntchili e a escola histórica alemã, não é o Estado que vive e sim a Nação, porque o Estado é apenas um instrumento dela.

 

Os fundadores da República, vendo a Nação sem partidos, não porque o desejassem, mas porque as agremiações baluartes do Império desapareciam com ele, buscaram nas realidades nacionais o meio de articular a opinião pública. A articulação dependia de motivações e estas, uma vez que só predominava a ideologia republicana, só podiam existir segundo os interesses das Províncias, agora transformadas em Estados autônomos.

 

Corporificou-se, então, o Partido Republicano, que por ocasião da proclamação da República, praticamente só existia em São Paulo e Minas, com 35 fraquíssimos clubes de propaganda. O adesismo ao Poder, que é uma constante na vida brasileira, segundo o primeiro fator da antinomia a que nos referimos, ou seja a submissão à Metrópole, aos Governadores Gerais e aos Vice-Reis, no tempo da Colônia e aos Gabinetes Ministeriais no Império, facilitou a formação do Partido Republicano no País, um partido único, que precedeu de muito o comunismo, o nazismo e o fascismo. Mas havia a atender a motivações que polarizariam as opiniões regionais e, nesse caso, multiplicaram-se os Partidos Republicanos, com siglas de cada Estado: PRP em São Paulo; PRM em Minas; PRR , no Rio Grande do Sul; PRB na Bahia. E assim por diante.

 

Os primeiros anos da República estiveram sob a responsabilidade dos militares e foram períodos de agitação, descompasso, perturbações, porque a Força Armada raciocina em razão de regimentos e batalhões disponíveis pelas facções em que se dividem e nunca pela ordem natural das coisas. Isso levou Deodoro da Fonseca a dissolver o Congresso, vindo, logo em seguida, o golpe de Floriano Peixoto e Custódio de Melo (Exército e Marinha). E não tardou que o consulado de Floriano fosse abalado pelo mesmo Custódio de Melo, em consonância com as forças rebeladas de Gumercindo Saraiva, que vinham do Sul.

 

Jugulada a revolta e já muito doente Floriano, veio afinal o Governo Civil de Prudente de Morais, contra o qual se articulou a conspiração de Diocleciano Martyr e Marcelino Bispo, cujo epílogo foi o assassinato do marechal Bittencourt, que recebeu a bala destinada a Prudente.

 

O Federalismo, entretanto, articulou-se para a eleição de Campos Sales e este deu vivência à realidade federalista instaurando a “política dos governadores” mediante a qual governou sem estado de sítio, norma de seus antecessores e sucessores.

 

Essa política funcionou até 1930. Era inevitável que os Estados mais populosos dominassem a vida nacional. A composição paulista-mineira e gaúcha equilibrou o sistema.

 

Inquietações e ideias novas começaram a se revelar nas revoluções de 1922 (Copacabana); 1924 (São Paulo); 1926 na Marinha, até que em 1930, por interesses puramente regionais, quebrou-se a aliança Minas-SãoPaulo-Rio Grande.

 

Enganavam-se os que pleiteavam a hegemonia de seus Estados. Correntes ideológicas surgiam, num sentido nacional e não mais estadualista. Era o socialismo, o comunismo, o nacionalismo, o integralismo. A própria revolução de São Paulo (1932) escapava aos limites do Estado, para assumir o caráter ideológico de constitucionalismo, vitorioso afinal na Carta de 1934. Mas esta teve pouca durabilidade, sobrevindo a Ditadura que teve vigência até 1945. Os partidos organizados em 1946 foram de caráter nacional e procuravam alguns artificialmente, apoiar-se em ideias gerais. No curso do período de 1946-1964, começaram a reagir os fatores regionalistas, que desvirtuaram, pouco a pouco, o sentido nacional das novas agremiações. E, após o movimento armado mais recente, o Governo, pelo Ato Institucional nº 2 extinguiu todos os partidos.

 

Encontra-se agora o governo do marechal Castelo Branco sob o peso das mais graves responsabilidades ante a próxima reestruturação política do País: conciliar o Federalismo (condição da Unidade Nacional) com a linha política da União. A fórmula integralista “centralização política e descentralização administrativa” deve ser a chave para a solução do problema. Essa orientação não abrange apenas o que concerne às prerrogativas de autonomia política, mas também as estruturas econômicas. A inflação, com o poder emissor nas mãos do Governo Central, e os sistemas tributários enriquecedores da União e depauperadores dos Estados e Municípios, torna a autonomia dos Estados apenas uma expressão de direito e não de fato. Desequilibram-se os dois fatores históricos da Unidade Nacional.

 

Julgamos oportuno estas ponderações levadas aos responsáveis atuais pelo Governo da Nação.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Três aspectos de uma questão (1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças a generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando Melo, conhecido Líder Pró-Vida e possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca. Aos que desejarem conhecer mais trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://paulofernando.com.br

O Artigo foi publicado originalmente no “A Offensiva”, em 13 de Fevereiro de 1936

Três aspectos de uma questão (1936)

Plínio Salgado

Permite a Constituição da República a qualquer brasileiro, ou grupo de brasileiros, agir no sentido de modificá-la, ou substituí-la por outra Constituição, ou revogá-la, no todo ou em parte?

 

A Lei de Segurança Nacional, que é uma espécie de “Ato Adicional” da Constituição de Julho, tornando mais claro o pensamento da Carta Magna, evidencia que a qualquer brasileiro é lícita a liberdade de pregar, de disseminar, de propagar as ideias filosóficas ou políticas que entender, desde que não use de métodos violentos para implantá-las.

 

Examinando a Lei de Segurança Nacional e tendo em vista os dispositivos constitucionais relativos à liberdade política, a questão assume dois aspectos:

 

1º) – o aspecto constitucional, legal, legítimo, do uso e gozo, de liberdades políticas, religiosas ou filosóficas, isto é, o da propaganda pacífica, intelectual, cultural, das ideias tendentes à modificação, ou à própria substituição do regime, desde que essas ideias não envolvam o conselho da aplicação de métodos violentos, ou o incitamento à sedição, à rebelião contra as autoridades constituídas;

 

2º) – o aspecto inconstitucional, ilegal, ilegítimo, do abuso e da licença, isto é, a preparação da mazorca, o estímulo ao desacato à autoridade pública, a prescrição dos métodos violentos.

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No primeiro caso, poderemos enquadrar todos os partidos reformistas, como por exemplo, a “Acção Integralista Brasileira” que pretende, mediante a formação de uma consciência nacional nitidamente esclarecida e de uma mentalidade nova, formada por meio de uma nova cultural e um novo pensamento filosófico, substituir, sem quebrar a expressão formal da República Federativa e Presidencial, antes fortalecendo o regime republicano, tonificando o presidencialismo e dando possibilidades definitivas à subsistência da federação, substituir os processos de captação das vontades populares, colocando, em lugar dos partidos políticos, as corporações. Fundindo o fenômeno sindical ao fenômeno político, realizando a síntese do interesse econômico ao interesse cívico e administrativo, o Integralismo realiza o superamento de duas expressões das atividades sociais brasileiras e, desse modo, longe de esfacelar a República Federativa e Presidencialista, virá fortalecê-la, dando-lhe melhores condições de viabilidade prática e desincompatibilizando-a com as novas circunstâncias da vida contemporânea.

 

No segundo caso, podemos classificar o Comunismo. Esse prega a subversão, a desordem, a derrubada por golpe técnico do Poder Constituído; atenta contra a soberania nacional, que ele subordina a uma autoridade estrangeira; fere os princípios básicos da sociedade patrícia, que são os princípios de Deus, da Pátria e da Família; adota os métodos da violência e os propaga abertamente.

 

Eis, porém, que, além desses dois aspectos, surgiu agora um terceiro, com o qual jamais poderíamos contar e que está desafiando o estudo dos juristas, dos magistrados do país e, principalmente, do Governo da República, assim como os janízaros parlamentares que defendem a Constituição e a democracia-liberal com tanto ardor.

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É o caso da nova feição que tomou a política no Rio Grande do Sul. Tem-se ali um governo de gabinete. Legítimo parlamentarismo. E não se diga que não atenta contra o regime presidencialista consagrado na Carta de Julho de 1934. São os próprios líderes, que encaminharam as “démarches” para a solução do caso riograndense, os que confessam estarem fatigados do presidencialismo, que está falido, que nada mais pode dar de útil ao Brasil.

 

No Rio Grande do Sul, portanto, foi revogado o regime presidencial. Poderão dizer que não o foi constitucionalmente, ou que não houve nenhum dispositivo de lei atentatório da Carta Federal. Mas isso não será um argumento. Existe uma situação “de fato”, que implica uma interpretação “de direito”. Existe uma circunstância prática, da qual decorre a consagração de uma teoria política.

 

Apareceu, portanto, mais um caso a ser estudado pelos a quem incumbe a guarda e a vigilância da manutenção da intangibilidade do Supremo Estatuto Nacional.

 

Como poderão esses homens, de graves responsabilidades públicas, assumir uma atitude de combate ao comunismo, só porque prega a substituição do regime por métodos violentos, quando eles próprios desfecharam um golpe de Estado na Constituição Brasileira?

 

Quando a Lei de Segurança Nacional condena os métodos violentos, não o faz pelo simples fato de serem “métodos violentos”, pois os métodos violentos, em si, objetivando outras finalidades não políticas, ou mesmo nenhuma finalidade objetivando, são já punidos normalmente pelo Código Penal. Os métodos violentos são punidos pela Lei de Segurança, em razão de sua finalidade, isto é, na sua relação de ato criminoso com o seu móvel, que é a substituição do regime. O que interessa, pois, a Lei de Segurança, não é o ato em si, mas o seu móvel.

 

De sorte que uma revolução branca, sem derramamento de sangue, sem assalto a quartéis, como essa que praticamente realizaram os partidos do Rio Grande do Sul, é um ato punível pela Lei de Segurança Nacional.

 

Não faltarão recursos de sofismas às inteligências dos políticos gaúchos, entre os quais os srs. João Neves, Lindolfo Collor, Baptista Luzardo e à desenvoltura cavalheiresca do sr. Flores da Cunha, para justificar, com o brilho de que são capazes, a atitude que assumiram de flagrante transgressão do texto constitucional.

 

Esses argumentos, porém, que esperamos com o mais vivo interesse, adquirem um valor excepcional para a “Acção Integralista Brasileira” que se sentirá tanto melhor no cenário político da República, quanto mais convincentes forem os raciocínios de defesa aduzidos pelos partidos do Rio Grande.

 

Si o que se fez no Rio Grande é permitido pelo Governo da República e pelo Poder Judiciário, intérprete máximo da Constituição, fica o governo sem forças para combater o comunismo. Em compensação, fica a “Acção Integralista Brasileira”, mais do que nunca, numa posição da mais brilhante constitucionalidade.

 

O que se fez no Rio Grande do Sul eleva de tal maneira o Integralismo como partido legítimo, legal, fiel ao Estatuto básico da República, que respiramos na mais doce das tranquilidades.

 

Bem dizíamos nós que éramos impecáveis no respeito às disposições da Constituição e das leis do país; razões de sobra tinham os generais Pantaleão Pessoa e Góes Monteiro quando nos deram idêntico parecer; seguro estava o capitão Felinto Muller quando nos deu passaporte político, em recente entrevista; de peso eram as considerações do Conde Affonso Celso a nosso respeito; verazes os laudos dos juristas eminentes que sobre nós se pronunciaram; acertadas e jurídicas várias decisões de vários tribunais do país, concedendo-nos re(xxxxx)s legais; e carradas de razões, de pesadíssimas razões, tinha o sr. Getúlio Vargas, quando declarava duas vezes a imprensa que a “Acção Integralista Brasileira” não atentava contra o regime.

 

Meu trabalho na chefia do movimento do Sigma, tem sido muito simples; para fazer o nosso partido nacional, único da República, subir, cada vez mais, aos olhos dos brasileiros honestos: ir evidenciando as contradições dos nossos adversários.

 

E é assim que se cresce em força moral perante uma Nação.

domingo, 10 de abril de 2022

As Armas contra os Rinocerontes! (1968)

 


Esclarecimento: O Artigo abaixo foi publicado em jornal pelos “Diários Associados, mas, o recorte que dispomos não trazia a data da publicação. Felizmente, graças ao impressionante trabalho de pesquisa sobre o Integralismo em fontes primárias, o brilhante pesquisador Matheus Batista pode nos informar que a data da edição foi 03 de Julho de 1968.

Em breve, o Companheiro Matheus Batista publicará uma sensacional Obra sobre o Integralismo. Aguardem!

AS ARMAS CONTRA OS RINOCERONTES!

PLÍNIO SALGADO

O escritor inglês Wells, há alguns anos atrás, fez-nos uma revelação original: a de que toda a humanidade está se tornando louca e só não o percebemos por estarmos nela integrados. Sendo uma loucura coletiva, todos nela se ambientam, tornando-se, portanto, impossível discernir a verdade da mentira, o bem do mal, o belo do feio. Dessa forma decompõem-se os sentimentos morais, estéticos e lógicos.

 

Por outro lado, o teatrólogo Ionesco, não faz muito tempo, escreveu uma peça, que tem sido amplamente representada no teatro e no cinema, apresentando uma cidade onde os habitantes resolveram virar rinocerontes. O caso começa com alguns, estende-se a outros mais, domina a população. Um funcionário de certa firma dispõe-se a reagir, mas dentro em breve, o próprio diretor da organização industrial também se transforma em rinoceronte. Da sua janela, vê o rebelde a passagem da manada dos paquidermes, com grande estrupido, e isto mais o revolta, principalmente porque sua noiva já manifestara o desejo de acompanhar a moda de aderir ao consenso geral, convidando-o para fazer o mesmo. A esta altura, o advogado da firma em que trabalhava o homem de bom senso, vem procurá-lo para convencê-lo de que virar rinoceronte era um legítimo direito de todos os homens e mulheres que gozam da liberdade garantida pela democracia. Enquanto falava, nota aquele homem de equilíbrio mental que o advogado ia comendo as folhagens do seu vaso. Era sinal evidente que se ia transformando em rinoceronte. Realmente, não terminara a conversa quando o bacharel, com um urro sai correndo, desce o elevador, atinge a rua e se transmuda em paquiderme, como toda a multidão. Entra, em seguida, sua noiva, que critica os padrões da autoridade familiar e social, declarando “superados” os critérios antigos. É preciso que as novas gerações assumam atitudes de independência, de autodeterminação, de liberdade plena. Tudo o mais é passadismo ultrapassado da geração anterior que (diremos por nossa conta) não está “conscientizada” e insiste em pretender manter a tolice das tradições. Assim dizendo, solta um berro e corre desabaladamente para a rua, onde se integra na massa popular que se transformou em massa paquidérmica. Nesse momento, o herói do drama, que representava o bom senso, a lógica, o equilíbrio mental e a consciência da sua racionalidade, grita com todas as forças dos pulmões: “Eu não serei rinoceronte, porque eu sou e serei sempre um homem!”.

 

O que assistimos hoje em nosso país, como em todos os outros dessa chamada “civilização ocidental” não é mais do que, ampliada, a peça teatral de Ionesco. O raciocínio dos alienados é o seguinte: “todos usam, todos fazem, todos assim procedem, porque motivo também eu não usarei, não farei, não procederei?”. A onda dos rinocerontes empolga o magistério público e privado; envolve a alta sociedade e a classe média; predomina sobre a juventude; influi na demagogia política; traça normas artísticas; cria um tipo de literatura adequada ao rinocerontismo; e aí temos o nudismo consagrado e que já não causa a mínima impressão no seio das famílias; os rapazes de cabelos compridos e as moças e até as velhas de minissaias; o teatro sustentando que a pornografia é arte; o desregramento sexual declarando basear-se em princípios científicos da psicanálise e das constituições endocrínicas; a rebelião contra a autoridades dos pais (“ultrapassados” e “quadrados”); a insurreição contra os governos, sem que se saiba ao certo o que pretendem os insurretos; o desrespeito aos mestres honrados e honestos e a tábua rasa que se faz das pessoas mais idosas que, na opinião de alguns professores que se fizeram agentes da corrupção, devem ser “conscientizados” pelos garotos e garotas que os Código Penal e Civil declaram irresponsáveis. Acrescente-se a isso a extrema liberdade concedida por pais (que não merecem o pátrio poder) às suas filhas menores e muito mais aos filhos que se fazem “play-boys”; a vida noturna de ambos os sexos estimulada pelo álcool, pela maconha, pelos barbitúricos e garantida por drogas anticoncepcionais; a desordem dos costumes segundo uma concepção existencialista que faz do ser humano um animal sem finalidade, e teremos o quadro geral das nações do ocidente, minadas pelo comunismo, ou seja pelos que pretendem escravizar, domar, esmagar uma sociedade que perdeu a consciência de si mesma e se transformou numa desordenada manada de rinocerontes.

 

Todas estas ponderações tenho feito numa série de artigos insertos nestas colunas, nos quais tenho procurado demonstrar que sob dois aspectos deveremos considerar o mundo codental: o do agnosticismo e pragmatismo das classes chamadas dirigentes (políticos, industriais, comerciantes, financistas) e o do existencialismo da juventude e do povo, de modo geral. Em um dos meus últimos escritos, falei de um novo politeísmo, cujos deuses abstrusos são as máquinas e de uma religião que hoje se chama “tecnologia”.

 

Vem agora o Papa Paulo VI e em impressionante discurso atribui a atual crise em todos os países “às turbulentas ideias dominantes no mundo contemporâneo” acrescentando que a “a falta de fé se deve parcialmente ao crescimento da mentalidade tecnológica” E diz: “A tecnologia levou a uma organização opressora e à consequente angústia que decorre dos próprios limites do círculo materialista e precisamente, nestes dias, explode em rebeliões violentas e irracionais”.

 

Também em confirmação do que tenho dito, o grande escrito português Augusto de Castro, diretor do “Diário de Notícias” de Lisboa, diplomata dos mais brilhantes, membro da Academia de Ciências, mas sobretudo um dos espíritos mais argutos dentre os que tenho conhecido, escreve um artigo para os Associados, sob o título “Reflexo da crise de autoridade”, comentando as recentes desordens na França, no qual, entre outras considerações, diz: “A crise que se revela e ameaça o mundo não é apenas aquela que, nos domínios político e social, dominou os acontecimentos em Paris. Não é somente a dos problemas da educação e sociais. Não é apenas econômica nem de mera ação de rua. É uma crise de Autoridade em todos os domínios: da autoridade familiar, da autoridade política, da autoridade internacional, da autoridade educativa, da própria autoridade religiosa”.

 

Comentando uma frase do “Izvestia”, de Moscou, que dizia “os franceses vão depressa demais”, Augusto de Castro declara: “Não iam apenas depressa; na realidade, não iam para parte alguma, a não ser para a balbúrdia, para a anarquia, uns com os pensamentos de Mao, que se caracterizam precisamente pela ausência do pensamento, outros com slogans desprovidos de sentido ideológico ou real. Era também, na própria subversão, a ausência de qualquer autoridade”.

 

Analisando as causas da derrocada da autoridade, a notável perspicácia do escritor ilustre expõe a sua opinião que é de rara clarividência, dizendo: “O que determinou no mundo esta crise de autoridade, que é o mal do nosso tempo, é difícil definir. Duma maneira geral, foi a doença do “diverso”, que após a guerra, se apoderou dos espíritos. O mundo proclamou o advento do “diverso” em arte, do “diverso” em literatura”, do “diverso” em política, até do “diverso” na religião. Do “diverso” sem se saber bem de quê. O próprio comunismo foi atacado pelo vírus do “diverso” e fez-se o comunismo chinês”.

 

Esta interpretação de quanto ocorre no mundo atual é prefeita, mas para completá-la temos de ir às causas que determinaram esse estado de espírito e estas devem ser buscadas na confusão das ideias disseminadas por filósofos e pensadores dos séculos XVII (Racionalismo), XVIII (Naturalismo), XIX (Experimentalismo Científico) e XX (Tecnologia). Dessas linhas gerais procederam o utilitarismo inglês, o pragmatismo americano, o positivismo francês, o criticismo kantiano, a dialética hegeliana, o panteísmo de Hartman, o monismo de Haeckel, o evolucionismo de Spencer, o anarquismo de Prudhon e Kropotkine, o socialismo de Marx, o sexualismo de Feud, o existencialismo de Kierkegard e depois de Sartre, o anticristianismo de Niestzche, todos com seus derivados, que se multiplicam, não se falando na contribuição vastíssima da literatura, em seus variados gêneros e as artes plásticas e musicais em suas variadas expressões. Foi tudo isso que criou o espírito do “diverso” tão argutamente descoberto por Augusto de Castro. E o “diverso” não é mais do que a manifestação da angústia do Homem deslocado do seu centro de equilíbrio, como já observara profeticamente Pascal, sem poder recuperar sua posição verdadeira ainda que aflitivamente venha tateando nas trevas impenetráveis.

 

Tivemos, no Brasil, um grande filósofo, que arrasou, mediante análises escalpelantes as filosofias materialistas do seu tempo. Foi Farias Brito. Os seus livros “Finalidade do Mundo”, “O Mundo interior” e seus opúsculos “A verdade como regra das ações” e “Base física do espírito” constituíram o início de um movimento espiritualista que deve ser continuado, com a atualização dos conhecimentos adquiridos mais recentemente, nestes últimos cinquenta anos de unilateralidade científica e de fanatismo tecnológico.

 

Esse tem sido o meu esforço, objetivando criar uma nova geração, isenta do cativeiro dos ditadores das falsas filosofias, produtos das elucubrações dos que não se sentem, eles próprios, seguros de suas concepções e outra coisa não fazem senão lançar maior confusão sobre a que tínhamos herdado das gerações precedentes. Precisamos de uma revolução, mas uma revolução autêntica da mocidade, contra a rotina, as frases feitas, as ideias e costumes aceitos passivamente pelas mediocridades internacionais e pela burguesia capitalista inconsciente. O lema deve ser, para tomarmos a interpretação da nossa contemporaneidade tão admiravelmente revelada por Ionesco: combate aos rinocerontes.

sábado, 9 de abril de 2022

O PROBLEMA DAS DÍVIDAS EXTERNAS (1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças a generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando Melo, conhecido Líder Pró-Vida e possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://paulofernando.com.br

O Artigo foi publicado originalmente no “A Offensiva”, em 05 de Fevereiro de 1936.

O PROBLEMA DAS DÍVIDAS EXTERNAS
PLÍNIO SALGADO 

O sr. Assis Chateaubriand, mentalidade brilhante porém viciada no método unilateral do raciocínio liberal-democrático, fez cavalo de batalha, pelas colunas de “O Jornal” e do “Diário de São Paulo”, a propósito da contradição em que diz ter apanhado um editorial da A OFFENSIVA e os pontos de vista do Sr. Marcos de Souza Dantas a propósito das nossa dívidas externas. 

O que é preciso, nesse caso ou em qualquer outro, é não considerar os fatos isoladamente, mas concatená-los, apreendendo o sentido lógico de cada um, ligado ao sentido geral de um a atitude. É preciso também distinguir as situações (a liberal-democrática vigente e a integralista que se aproxima) e, dentro da lógica de cada uma dessas situações, analisar, e compreender as atitudes e críticas oriundas de circunstancias especiais. Cumpre ainda, para se seguir um método rigoroso e interpretação dos fatos, distinguir o que é “doutrina” do que é a sua aplicação. Tudo isso compreende a mentalidade modesta de qualquer camisa verde, por mais humilde que seja, mas não pode compreender a inteligência brilhante de um homem habituado às unilateralidades da crítica liberal-democrática. 

Eu me encontrava sexta-feira em Belo Horizonte, de onde, segundo o “Diário da Noite”, do sr. Chateaubriand, teria saído precipitadamente por insinuação da polícia, como revolucionário perigoso (fato que o digno chefe de Polícia da capital mineira desmentiu de maneira categórica), quando a A OFFENSIVA estampou o artigo em torno do qual o diretor d
os “associados” está fazendo a sua tempestadezinha. 

Neste caso do artigo contra o Sr. Juracy Magalhães, pelo fato de ter o governador da Bahia suspendido o pagamento das dívidas do Estado, lendo-o, submeti-o à lógica do regime vigente e não me inquietei, em absoluto.

No manifesto programa com que o Integralismo vai pleitear eleições municipais, estaduais e as presidenciais da República, está claro o meu pensamento sobre as dívidas externas, pensamento, aliás, que coincide perfeitamente com o do Sr. Marcos de Souza Dantas. 

É preciso ter-se em vista que o Sr. Chateaubriand, de propósito,tem deturpado o próprio pensamento do sr. Marcos de Souza Dantas. Este nosso companheiro não é partidário do calote. O que ele quer é, exatamente, o que está estampado no meu manifesto programa, no art. 4º, capítulo 2º, em que escrevi:
“Revisar os contratos dos empréstimos públicos e dívidas dos Estados, nacionais e internacionais, promovendo-se a liquidação sem sacrifício da economia brasileira, nem dos interesses legítimos do comércio importador e exportador, observados os interesses legítimos de justiça, o direito de vida da Nação, a dignidade da Pátria e desenvolvimento das trocas de mercadorias com o exterior”. 

Este sempre foi o pensamento do sr. Marcos de Souza Dantas e este pensamento coincide com o do Integralismo, razão pela qual aquele nosso companheiro vestiu a camisa verde. 

Ora, o artigo da a AOFFENSIVA que, à primeira vista, pode causar estranheza, basta analisá-lo e verificar-se-á que ele foi escrito dentro da lógica, do regime vigente e até com muita precisão e oportunidade. 

Não é o sr. Juracy Magalhães, na Bahia, um adversário franco do Integralismo? Não se tornou aquele governador, ao qual devo, aliás, as maiores atenções e gentilezas pessoais, um perseguidor implacável dos camisas verdes baianos? Pois então, como assume uma atitude que fere de morte os princípios liberais-democráticos que ele defende? 

O Integralismo é, sobretudo, a doutrina que pretende restaurar, no Brasil, uma coisa que se diz muito comum, porém, que é muito rara: o senso comum. 

Vivemos em continuas contradições, a propósito de tudo. 

O Integralismo não pretende entrar no país como o macaco em loja de louças. 

Preliminarmente: o problema das dívidas externas tem de ser resolvido em conjunto e não isoladamente, em cada Estado; segundo: o Integralismo, antes de tudo, como está claro no seu manifesto programa, quer “realizar os contratos”, quer estudá-los atentamente para, em seguida, “promover a sua liquidação, sem sacrifício da economia brasileira, do comércio importador e exportador, etc.”; terceiro: dentro do regime liberal-democrático, do espírito jurídico que o orienta, é um verdadeiro absurdo qualquer medida da natureza da que tomou o governador da Bahia. 

Nestas condições continuamos dentro da nossa doutrina e em perfeito acordo com ela está o nosso companheiro Marcos de Souza Dantas. 

Aliás, o sentido que quiseram emprestar à entrevista do sr. Marcos de Souza Dantas, foi por este categoricamente desmentido em nosso número de ontem, com esclarecimentos precisos, que colocam este assunto nos seus devidos termos. 

Foi, portanto, inútil mais esta manobra dos “Diários Associados”, assim como as largas considerações em que se perdeu o sr. Assis Chateaubriand, pretendendo criar uma crise no Integralismo, coisa tão impossível e absurda que desafiamos todos os liberais-democratas com seu exército de jornalistas e seu aparelhamento de agências telegráficas para conseguirem provocá-la. 

Continuamos, como acentuou o companheiro Souza Dantas, coerentes com a nossa doutrina que é a constante do manifesto programa que lancei há dias. 

Não faço, como afirmou o sr. Chateaubriand, uma campanha contra os banqueiros internacionais por simples humorismo. Continuamos firmes e perseverantes na linha de doutrina e de conduta que nos traçamos, apenas, cada vez mais maravilhados diante das incoerências dos liberais-democratas como o sr. Juracy Magalhães, e os sofismas do sr. Chateaubriand.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Plínio Salgado - Chefe dos Camisas Verdes


Aline Brandão*

No dia 22 de janeiro de 1895, em São Bento do Sapucaí, nasceu Plínio Salgado: o homem que despertou a sabedoria das ciências superiores de Deus em seu próprio ser e depois encorajou mais de 1 milhão de brasileiros a unirem-se e seguirem os mesmos princípios do espiritualismo - afirmando a existência de Deus, a existência da alma e seu princípio imortal -, formando uma frente única espiritualista combatendo os males do materialismo grosseiro.

Foi jornalista, escritor e político, além de um grande professor. Seus ensinos não se apoiavam nos homens, mas no Divino, no Ilimitado que presenteia a vida humana. Mostrou aos brasileiros a importância da Pátria, assimilou que veio a este mundo e diante dos quadros em que se encontrava o Brasil, não podia ficar indiferente, aconselhou a todos a estudarem juntos os problemas nacionais, dando a eles soluções de justiça e harmonia.

Suas ideias eram e são inovadoras, ainda hoje, pois o que ele criou foi uma construção nacional não para uma ou duas décadas, mas anos e anos, pois só assim será autêntica. Sonhou e deixou o legado dos Tempos Novos. Soube falar dos conflitos que há no mundo e em nosso país, pois compreendia que é uma Nova Civilização que vem surgindo em face da outra, antiga, e materialista. Plínio foi e continua sendo o Apóstolo da Esperança.

Criador do Integralismo, será o eterno Chefe dos Camisas Verdes. Não porque ele era o único perfeito, mas porque todos os Camisas Verdes reconhecem sua excelência, trabalho árduo e resignado pelo nosso país, mas que também aprendemos com ele mesmo que o Chefe é cada um de nós Camisas Verdes, ou seja, cada homem que despertou, e que podemos encontrar a voz do Chefe guiando no fundo de nossos corações e consciências, no rufar dos tambores, no levantar da bandeira azul e branca, olhando para o lado onde está nosso companheiro e ao vermos nossas próprias imagens refletidas nos rios desse imenso Brasil.

Com o Integralismo, formou uma escola de homens aprendendo o compromisso com Deus, com a Pátria e com a família. Uma escola para dar valor ao senso mais profundo de Humanidade, com toda a sua simplicidade e beleza.

Foi preso injustamente na Ditadura Vargas, exilado longe de sua Pátria, onde escreveu a belíssima “Vida de Jesus”. Foi quase assassinado diversas vezes a tiro, mas o Senhor não permitiu que lhe tocassem a vida.

Autor de numerosas obras, escreveu entre outras, Vida de Jesus, O Estrangeiro, A Quarta Humanidade, A Voz do Oeste, Reconstrução do Homem, Espírito da Burguesia, A Doutrina do Sigma, A Oração da Hora Amarga, A Mulher no Século XX, Doutrina e Táticas Comunistas, O Que é o Integralismo, O cavaleiro de Itararé,  A Tua Cruz, Senhor e Primeiro, Cristo!

Nas palavras de Ruy Pereira e Alvim: “Injustiçado em vida pela calúnia dos adversários do Brasil ou pelo despreparo cultural e desinformação de muitos, vê-se deturpada e silenciada sua experiência política, social e literária, após a sua morte. Independentemente do destino que venha a ter sua mensagem política e cultural, observa-se hoje, no Brasil, um espaço vazio, reservado aos rumos do país, no que eles carecem de cidadania nacional e de identidade com as raízes e a cultura do povo.” (...) “Há que destacar, no entanto, a influência que as ideias de Plínio já tiveram, através da inserção de alguns desses valores na formação cultural de inúmeras gerações de brasileiros que se sucederam na direção de altos escalões da vida nacional”(...). “Apesar de tudo conspirar para contra esse gesto, ‘porque os homens tomam os estilhaços da verdade como evidência da verdade inteira’, o espaço vazio confiado às novas gerações será o de construírem a quarta posição, que desvende nas três verdades em conflito no mundo contemporâneo - socialismo, comunismo e nacionalismo - o que há de certo e que complemente as graves carências das três doutrinas conflitantes.” E, nas palavras de Jacinto Ferreira, professor e jornalista: “É que o Amor quer ser amado. E não só em Si Próprio, como também nas criaturas, em especial nas que são sua Imagem e Semelhança. Primeiro, amar a Deus sobre todas as coisas. Segundo, amar aso próximo como a nós mesmos. Na obra de Plínio Salgado respira-se profundamente este sentimento de Amor. Por isso me agrada designa-lo como um verdadeiro arauto do Amor. Amor-Verdade, Amor-Caridade, Amor que é a expressão sensível e sublime do Próprio Deus, Senhor do Céu e da Terra.”

A mensagem de Salgado ainda é, absolutamente, a do despertar. Seu ser continua despertando homens e mulheres para plantar a paz, a harmonia, a união em todo o território nacional. Nós, os Camisas Verdes e Blusas Verdes do Brasil, como uma nova geração, e militando pela Frente Integralista Brasileira, temos a imensa alegria e honra de abraçarmos a mensagem de Plínio Salgado e festejarmos a verdadeira vida, que se finda na verdadeira liberdade de não sermos aprisionados por aquilo que somente os nossos olhos materiais podem ver. Recebemos sua mensagem, Chefe! No Integralismo, acreditamos: o espírito é eterno, nos dá força para trilhar os bons caminhos, essa alma iluminada que foi abrir os olhos diante seu Criador! Foi para a Milícia do Além nosso Chefe, mas só trocou de lugar! A ele, 3 anauês! “Despertemos a Nação! Esse foi o meu grito constante, de esperança e de luta. E o Brasil, agora, de olhos abertos; o Brasil que não conseguirão mais adormecer ainda que caiam sobre os integralistas todos os sofrimentos; o Brasil, que já não está mais “deitado eternamente em berço esplêndido”, mas de pé, na consciência das novas gerações - esse Brasil deverá ler o que eu falava quando ele dormia.” (Plínio Salgado, São Paulo, 15 de dezembro de 1935 publicado em sua obra Despertemos a Nação!)


Manaus (AM). Presidente da Frente Integralista Amazonense - FIAM (FIB-AM). Artigo divulgado em 22 de Janeiro de 2018, homenageando os 123 anos de nascimento de Plínio Salgado.

Roma – 1930: o histórico encontro entre Plínio Salgado e Benito Mussolini

Sérgio de Vasconcellos

Costumo dividir a vida de Plínio Salgado em treze fases:

1ª Do nascimento em 22 de Janeiro de 1895 até 1903, quando sua Família muda-se para Candelária, então um diminuto Distrito de São Bento do Sapucaí.

2ª De 1903 a 1905, período de residência em Candelária.

3ª De 1905, quando a Família retorna a São Bento do Sapucaí, até 1907, quando foi estudar no Colégio São José, em Pouso Alegre, Minas Gerais.

4ª De 1907 até 1911, ano em que faleceu repentinamente seu Pai, o Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, e teve que interromper seus estudos e voltar a São Bento do Sapucaí, onde se tornou arrimo de Família.

5ª De 1911 até 1913. Época em que muito trabalhou para sustentar a Família.

6ª De 1913, quando se mudou para São Paulo (SP), por insistência do então Senador Dino Bueno, um velho amigo de seu Pai, para prosseguir nos estudos, até 1914, quando por instância de sua Mãe retorna mais uma vez a São Bento do Sapucaí para reassumir a função de arrimo de Família. Foi a segunda e definitiva interrupção dos seus estudos formais, e, compreendendo situação, Plínio Salgado toma a resolução de ser um autodidata.

7ª De 1914 até 1920. Viveu intensamente em sua Terra Natal, tornando-se figura conhecida em São Bento e Municípios próximos.

8ª De 1920, quando se muda novamente para São Paulo (SP), até 1930, quando embarca na primeira de suas viagens internacionais.

9ª De 1930 até 1939. Período que se inicia com a Viagem ao Oriente e à Europa e termina com outra viagem ao exterior, desta vez forçada, pois fora exilado pelo Estado Novo.

10ª De 1939 até 1946. Exílio em Portugal.

11ª De 1946 até 1964, isto é, da volta do Exílio até a implantação do Estado Novíssimo.

12ª Da Revolução de 31 de Março até a extinção dos Partidos Políticos, em 1965.

13ª De 1965 até seu falecimento, em 07 de Dezembro de 1975.

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Também costumo dividir a Biografia de Plínio Salgado não cronologicamente, mas, por Temas, doze, para  ser exato, e que são:

1º A Personalidade, o Caráter, suas tendências, etc.

2º A subsistência, os trabalhos e ocupações que exerceu.

3º Suas viagens.

4º A Família

5º Sua Filha e àquele que tinha como um Filho, o seu Genro, José Loureiro Júnior, cuja morte trágica atingiu Plínio profundamente.

6º Saúde.

7º Seus Casamentos.

8º Os bens herdados e o patrimônio que acumulou em toda uma vida de trabalho.

9º Vida intelectual, os Livros que escreveu e seu sucesso literário.

10º A Política, isto é, os movimentos e partidos de que fez parte ou fundou, enfim, suas relações com o Poder.

11º Suas profundas e longas amizades.

12º As perseguições, incompreensões e injustiças que sofreu por toda a vida.

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Mas, não fui chamado aqui para expor mesmo que numa síntese sumaríssima a impressionante Biografia do Autor de “O Esperado”, e, sim, para abordar um fato pouco conhecido em sua Vida.

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Plínio Salgado era um viajante incansável. Suas viagens por todo o Brasil são incalculáveis. Desde o seu retorno ao Brasil em 1930 até a década de 70, viajou incessantemente por todo o Território Nacional. Dando prosseguimento ao hercúleo trabalho dos Bandeirantes, que dilataram as fronteiras físicas da nossa Terra, Plínio Salgado vai dilatar as nossas fronteiras intelectuais, morais e espirituais, pregando em todos os quadrantes da Pátria, a Palavra Nova dos Tempos Novos.

Viagens internacionais, Plínio realizou-as em numero de oito:

1ª – 1930, pelo Oriente e Europa;

2ª – 1939, para Portugal, exilado.

3ª – 1948, a Espanha, para participar das Conferências Católicas Internacionais, tendo aproveitado para visitar Paris, Londres e Lisboa;

4ª – 1960, Paris, participando da Conferência Geral da Unesco.

5ª – 1962 – Roma, Conferência Interparlamentar. Nesta viagem teve a felicidade de conhecer e conversar com Sua Santidade o Papa João XIII.

6ª -  1963 – Lisboa. Reunião dos Países de Língua Portuguesa.

7ª – 1964 – Washington. Conferência Interparlamentar.
8ª – 1967 – Barcelona. Congresso Hispano-luso-americano-filipino dos Municípios.

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Esta noite tratarei apenas da primeira viagem internacional de Plínio Salgado, ou melhor, de um acontecimento havido durante tal viagem: o histórico encontro de Plínio Salgado com Benito Mussolini. Considero esta viagem tão importante que estou escrevendo um Livro sobre a mesma.

A respeito desta sua primeira viagem ao exterior as fontes são escassas. Plínio Salgado escreveu “Oriente” e “Como eu vi a Itália”, ambos publicados em 1931. Além destes Escritos, inúmeras referências são encontradas espargidas em diferentes Obras, Artigos, Discursos, etc. O conhecido escritor e editor Mário Graciotti, companheiro de viagem de Plínio na sua parte europeia, deixou dois extensos relatos nos seus Livros “A Europa Tranquila” (1949) e “Os Deuses Governam o Mundo (1980), além de ocasionais reminiscências em outras de suas Obras.

Em 1920, Plínio Salgado chegou à Capital Bandeirante, e como única fonte de subsistência obteve o modesto emprego de assistente de revisor do “Correio Paulistano”. Ele, que era um nome em sua cidade natal e em toda a região do Vale do Paraíba, na metrópole paulistana era um ilustre desconhecido. Nos próximos dez anos, graças a talento e esforço, alçar-se-ia daquela obscura função à jornalista renomado, romancista consagrado e Deputado Estadual. No ano de 1930, o celebrado Autor de “O Estrangeiro” podia se considerar um homem bem sucedido, com futuro próspero e calmo pela frente, mas, não, Plínio Salgado era um inquieto, um idealista, que se recusava a deitar sobre louros, principalmente quando questões de princípios exigiam outra atitude, e, assim, para espanto de muitos, renuncia ao seu mandato como Deputado à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e, pouco tempo depois, embarca para o que poderíamos chamar de peregrinação ao Oriente. Expliquemos sucintamente os antecedentes da viagem.

Plínio Salgado, filiado ao Partido Republicano Paulista – P.R.P. -, sempre pertencera à ala que advogava uma completa renovação da linha partidária, e, apesar disso fora convidado a candidatar-se à Assembleia Legislativa pelo próprio Governador do Estado de São Paulo, Júlio Prestes, que, não obstante as discordâncias, via no Autor de “Literatura e Política” um elemento de escol que só abrilhantaria o legislativo paulista. Plínio Salgado foi eleito em 1927 e não desmereceu a antevisão de Júlio Prestes. Em 1930, governava Washington Luiz, o último e melhor Presidente da chamada República Velha. Numa decisão infeliz, ele quebra a Política do Café com Leite, e lança Júlio Prestes, como Candidato à Presidência, que vence as Eleições. Todavia, Plínio continuava alinhado com aqueles que dentro do P.R.P. não concordavam com os métodos empregados, particularmente, naquele pleito presidencial, desde a escolha monocrática do Candidato até a forma da campanha, com violências e mortes, aliás, de ambos os lados, chegando à fraude eleitoral pura e simples, garantidora da vitória do Candidato situacionista. Tudo aquilo confirmava o que já era uma certeza antiga no seu espírito, que a liberal democracia era um logro, uma farsa, e que o Brasil precisava trilhar novos e revolucionários caminhos se quisesse manter-se como Nação soberana.

Não poupando críticas ao descalabro porque passava a Nação Plínio Salgado é chamado aos Campos Elísios, tão logo é proclamada a vitória esmagadora de Júlio Prestes, mas, sendo o nosso um País dos paradoxos, ao invés de ouvir do Presidente Eleito e dos bonzos do P.R.P. uma reprimenda  pela sua posição de independência, ele é convidado a participar do novo Governo. Outro talvez tivesse aceitado, mas, Plínio Salgado não transigia em questões envolvendo princípios e recusou. E vai além: Completamente insatisfeito com a nova ordem de coisas, renuncia ao seu mandato. Ao invés de pensar nas próximas eleições para a Assembleia Estadual ou, quem sabe, para a Câmara Federal, rompe radicalmente com a situação dominante, inclusive, recusando um Ministério que lhe fora oferecido por Prestes. Da noite para o dia, Salgado era um ex-deputado, tendo Família para sustentar...

E foi nesta situação aflitiva que, um belo dia, foi chamado para conversar com seu ex-patrão e grande amigo, Alfredo Egydio de Souza Aranha, que lhe faz uma proposta surpreendente:

Seu cunhado, o jovem Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha, tivera uma terrível desilusão amorosa e se encontrava muito abatido, e a Família resolvera enviá-lo numa viagem ao Velho Mundo para recuperar-se, e precisaria ser acompanhado de um preceptor, e que a Família concluíra que o homem ideal para a missão era Plínio Salgado. E que fora encarregado de lhe trazer o convite. Que sua sogra, Dª Amália Ferreira de Souza Queiroz propunha que recebesse por mês a mesma quantia que vinha recebendo como Deputado Estadual, bem como custearia todas as despesas da Viagem.

Plínio, pego de surpresa e algo perplexo, não hesitou e aceitou imediatamente. Fora um sonho que sempre acalentara, viajar, conhecer outras Terras, Povos, Costumes, mas, que até ali parecia irrealizável, pela absoluta e permanente falta dos recursos monetários necessários.

Assim, Plínio Salgado partia no dia 26 de Abril de 1930 para uma longa viagem de seis meses, que se constituiu num verdadeiro divisor de águas na sua Biografia, isto é, antes e depois de sua ida ao Oriente. Como disse antes, hoje só tratarei de um acontecimento, deixando a exposição mais detalhada de toda a Viagem para um volume que ainda está nos estágios iniciais de redação.

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Roma. Numa cálida tarde de verão, em fins de Junho de 1930, Plínio  Salgado dirige-se ao Palácio Veneza, sede do Governo italiano.

Graças à intervenção do órgão de classe dos jornalistas italianos  foi possível encaixar na agenda lotada de Benito Mussolini um encontro de 15 minutos, que devido à afinidade dos dois grandes homens estendeu-se por cerca de 40 minutos.

Apesar de pertencerem a gerações distintas, suas Biografias guardavam algumas similitudes: Ambos vinham de baixo, nascidos em cidades do interior, com mães que eram professoras, com pais que militavam politicamente, ambos eram jornalistas profissionais, poliglotas, com prodigiosa memória, os dois passaram por uma fase materialista, mas, reconciliaram-se com o Catolicismo, entregaram-se a militância política desde jovens, e compreenderam que dentro dos quadros da política tradicional burguesa, de direita e de esquerda, não se resolveriam os graves problemas, universais, nacionais e humanos, e que se fazia mister um novo paradigma – que Mussolini realizou com o fascismo, e que Plínio colocaria em curso no Brasil com a original criação do Integralismo.

Após as apresentações formais de praxe, o intérprete foi dispensado, pois, Plínio Salgado e Mario Graciotti – que também estava presente – falavam italiano.

Ao defrontarem-se os dois grandes homens, o que viram? Plínio Salgado tinha diante de si um homem de seus 47 anos, aparentando bem menos, “de estatura regular, de olhos azuis, de gestos seguros e de voz firme”, “de expressão vigorosa, tinha uma máscara inconfundível, onde velhos sofrimentos e velhas lutas pareciam ter marcado a passagem de uma vida agitada e forte”. Mussolini observa um homem de olhos castanhos, magro, franzino, de uns 30 anos (na verdade, trinta e cinco), de tez algo morena, mesmo para os padrões europeus meridionais, agitado por ideias novas, uma inteligência a transbordar-se.

Mussolini, no auge de sua popularidade, nacional e internacional, um hábil orador, que galvanizava multidões, e que lançara ao mundo uma alternativa ao liberalismo e ao socialismo, com uma impressionante genialidade que ainda seus mais encarniçados adversários reconheciam, e que seus admiradores exaltavam, considerando-o o “Arquiteto do Futuro”, para usarmos a expressão do escritor português Homem-Christo. Plínio, também no ápice de sua carreira como Jornalista, Escritor e Político, cuja fama já começava a ultrapassar as fronteiras nacionais, igualmente um brilhante orador, e que diria em breve, ao Brasil e ao Mundo, uma Palavra Nova, como arauto e anunciador de uma Nova Era, de uma Idade Nova, não apenas uma alternativa política, social e econômica, mas, uma nova Humanidade, a Quarta Humanidade, a Humanidade Integralista. Duas cosmovisões encontravam-se frente a frente, dois homens superiores deixavam suas diferenças de lado para estabelecer um diálogo franco, sincero, compreensivo e fraterno.

Dirigindo-se a Plínio Salgado, Mussolini diz que tinha notícia de sua visita à Itália. Que também estava informado que o Brasil progredia extraordinariamente, e que se sentia muito satisfeito da pujança social e econômica dos italianos no nosso País; em seguida, demorou-se num longo elogio a Washington Luís, a sua personalidade e esplêndido Governo.

Estaria Mussolini realmente a par da presença de Plínio na Itália? Que a colônia italiana no Brasil era próspera e muito contribuiu para o nosso progresso econômico, certamente era fato do conhecimento do governo italiano. E o elogio de Washington Luís era perfeitamente cabível e de praxe, ainda mais que deveria ter sido informado que Plínio era do Partido situacionista.

Após uma pausa que parecia interminável. Mussolini – parecendo ignorar a presença de Mario Graciotti – dirige-se novamente a Plínio Salgado, e diz:

“Sei que o senhor é um político nacionalista. Eu compreendo o nacionalismo como primeira etapa, e bastante fundamental, do universalismo, sinônimo de humanismo. Não se pode amar o Universo e as suas belezas, se não amarmos a terra e a gente, que nos rodeia, especialmente, o nosso povo, que é nosso próprio sangue, e no qual se inserem o nosso passado, o nosso presente, o nosso futuro, e as nossas mais profundas aspirações de justiça social”.

Mário e Plínio ouviam em silêncio. Aliás, Graciotti sequer abriu a boca, não tendo coragem de interromper o diálogo daqueles dois gigantes. Mussolini falava pausadamente, com um leve sotaque toscano e um olhar que se iluminava subitamente durante a conversa revelando a presença  do ideal superior que o animava.

Plínio Salgado falou de Alberto Torres e de suas críticas ao regime liberal e das soluções que propunha; em seguida, aborda sua própria concepção corporativa, em que as categorias econômicas e culturais da Nação vão estruturar o Estado e realizar de fato a democracia. Que estava admirado pelo que vinha observando na Itália Nova, o trabalho organizado, o capital controlado, a representação das classes, enfim, que o fascismo intervira no momento  preciso, abandonando as ficções do Estado liberal  e adotando instituições de realidade imperativa.

Mussolini ouvia atentamente  e assentia com a cabeça às afirmações de Plínio. Estaria realmente concordando ou sendo somente educado? O prolongamento da conversa por um tempo maior que o previsto atesta que Mussolini estava verdadeiramente interessado.

O futuro Autor de “Psicologia da Revolução” prossegue afirmando que antes de ser fundado um Partido, era preciso um movimento preliminar de ideias. Mussolini concorda e acrescenta que entendia ser bem diferente a situação do Brasil em relação à Itália, e que o processo que Plínio estava delineando era admirável.

Já nas despedidas, Mussolini, ainda dirigindo-se a Plínio, “augurou os mais completos triunfos à mocidade” do nosso País, e concitou-o a “não esmorecer no entusiasmo e na fé pelo futuro do Brasil”. E aí, finalmente, falando aos dois Brasileiros disse:
“Gostaria que os senhores, por serem jornalistas, escrevessem sobre o que viram em sua excursão pela Itália, fazendo justiça ao nosso esforço, pois, como sabem, estamos reestruturando a nossa vida administrativa e política”. E ambos os Escritores, em conferências, artigos e livros atenderam o pedido do Duce fazendo merecida justiça à Itália fascista.

Sobre a importância deste encontro na biografia política de Plínio Salgado, basta este trecho de uma carta datada de Milão, 04 de Julho de 1930:
“Tenho estudado muito o fascismo: não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante. (...) Volto para o Brasil disposto a organizar as forças intelectuais esparsas, coordená-las, dando-lhes uma direção, iniciando um apostolado. (...) Aliás, a minha orientação não teve nenhuma influência fascista. O encontro com Mussolini foi, apenas, o momento histórico em que tomei uma decisão. É a fascinação de Roma. Em Roma tudo nos convida à luta. A nossa personalidade cresce agressivamente, entre os vestígios dos povos que passaram pela vida lutando. Uma manhã, no alto do Janículo, junto à árvore de Torquato Tasso, com o panorama de Roma aos meus pés – o Coliseu e o Vaticano, o Fórum Romano e as termas de Caracala, o Aventino e o Palatino, e os palácios seculares que sobem e descem pelas colinas, eu senti uma saudade imensa do Brasil. E sentindo esse amor da Pátria, pensei em todas as marchas da cidade Eterna e refleti sobre a necessidade que temos de dar ao povo brasileiro um ideal, que o conduza a uma finalidade histórica. Essa finalidade, capaz de levantar o povo é o Nacionalismo, impondo ordem e disciplina no interior, impondo a nossa hegemonia na América do Sul,; principalmente no Prata. Voltarei para combater esse combate cheio de entusiasmo”.

Este é um sintético relato do encontro entre o futuro Chefe Nacional e o Duce. Encontro este que determinou uma decisão, cujas consequências finais rumo ao Sigma estamos muito longe de prever.


Anauê!

Palestra proferida no Rio de Janeiro, em 25 de Janeiro de 2018, em Solenidade promovida pela ACCALE - Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella -, que homenageava dois vultos do Nacionalismo: Plínio Salgado e Arcy Lopes Estrella.