terça-feira, 3 de outubro de 2023

CINZAS... (12/02/1937)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

CINZAS... (12/02/1937)

Plínio Salgado

O Carnaval interrompeu a nervosa agitação política. Por entre, os éteres perfumados e as serpentinas multicores, o Povo Brasileiro procurou esquecer, durante o tríduo báquico, as suas preocupações, os seus palpites, os mexericos de todos os dias e os boatos de todas as horas. Mergulhado no letargo do prazer, por entre visões de pierrôs e de arlequins, de colombinas e de dominós, de baianas reboleantes, e chineses nas pontas dos pés, este grande Povo tratou, principalmente, de suffocar as suas inquietações, de abafar as suas angustias torturantes. Esquecer! Maravilhosa coisa esquecer! Sentir, após o pesadelo das realidades de todo um ano, o oásis do sonho, a ilha das ilusões, onde florescem multidões de chocalhos, guizalhantes, refulgindo as lantejoulas das fantasias aos clarões coloridos das lâmpadas e nos relâmpagos dos fogos de bengala... Esquecer! Nas azas douradas dos jazz, dos tangos, dos maxixes, dos sambas em requebros, em saltos, em acrobacias gigantes, esquecer os tremendos problemas quotidianos, as aflições que constituem o pão nosso de cada dia, dos amargos tempos.. Esquecer as manchetes da imprensa, as entrevistas dos políticos, os discursos dos próceres, as notícias das idas e vindas dos homens que discutem os destinos nacionais; e, no halo exaltado da alegria coletiva, embalar os ouvidos, os sentidos, o coração e a alma com o ritmo do tabuleiro da baiana e do "ligue-ligue-lé".

*

* *

O clamor dos instintos, como uma fuga à consciência. O coro das sensações e das impressões nos espasmos da orgia envolvendo, adormecendo, imobilizando o pensamento. Tríduo das ausências absolutas. Saturnal do Não-Ser. Espelhos côncavos e convexos para as contemplações do Espírito. Prismas das possibilidades delirantes. Liberdade de todas as personalidades escondidas, disfarçadas, sepultadas sob o peso das conveniências. Ensaios das geometrias desconhecidas. Revelação dos irrevelados. Objetivação de todos os subjetivos numerosos, complexos, rebelados, como formas últimas na antevéspera da Criação ou uma eclosão de antevéspera do Nirvana...

E, nestes três dias da loucura, como um fio tênue, quase imponderável, mas luminoso como uma teia aos reflexos lunares, uma esperança de certeza de alguma definição, quando as máscaras se abaterem, quando cessarem os ruídos das lupercais e o último pierrô despertar estremunhado sob um montão de serpentinas.

Sim... Talvez depois do Carnaval as situações se esclareçam. Para onde vae o Brasil? Para onde o levam os homens que se arrogam o direito de dirigi-lo? Que será deste povo? Que serão dos problemas nacionais? Até quando se cruzarão, pelos quadrantes da Pátria, os boatos de todos os feitios? Sim, talvez depois do Carnaval as coisas se iluminem de nova claridade. Talvez os políticos estivessem à espera da entrada roxa da Quaresma, para falarem definitivamente à Nação.

*

* *

Oh! Não se brinca assim com uma Nacionalidade: Não se exaspera assim uma Pátria angustiada, em estado de guerra, aterrorizada, a cada instante, por novas e mais graves ameaças.

Que estão fazendo os políticos? Que estão discutindo? Que estão concertando as escondidas? Por que viajam tanto? Por que marcam tão repetidos encontros? Por que não prestam contas ao Povo sobre os passos que estão dando, a clamar que defendem o regime do Povo, para o Povo, pelo Povo? Para onde nos querem levar? Para um acordo vergonhoso, para um candidato único à sucessão presidencial, sacrificando os princípios da dignidade, massacrando as ideias antagônicas, esmagando a honra dos partidos, desfibrando o caráter nacional, ensinando a lei do mínimo esforço, dando demonstração universal de que o Brasil ainda não é capaz de resolver seus problemas no terreno democrático da luta das ideias? Ou pretenderão levar-nos para uma batalha eleitoral baseada em coligações de Estados, como preparação de uma nova revolução armada, de uma guerra civil que pode arrastar o Brasil à secessão e à ruína?

Para onde pretendem levar nossa Pátria? Para uma política submetida aos caprichos ingleses, ou para uma política submetida ao arbítrio norte-americano?

Que pretendem fazer das instituições patrícias? Conservá-las atadas ao poste da imutabilidade, para que morram sob o punhal moscovita, ou transforma-las num sentido esquerdista, para termos uma situação Azanha ou uma situação Leon Blum?

Para onde vamos? Por que estão silenciosos os políticos?

No meio do delírio carnavalesco, o Povo espera alguma revelação para quarta-feira, para quinta- feira, qualquer palavra esclarecedora, qualquer gesto positivo, corajoso, digno.

E assim passa o Carnaval...

*

* *

Eis-nos no fim da semana e já depois da quarta- feira de cinzas.

Enquanto Momo reinou, houve máscaras, mas houve alegria. Agora, porém, continuam as máscaras, e elas não têm o esgar hílare, o riso aberto arlequinal, e sim a tristeza reconcentrada da hipocrisia, da traição e do crime.

Sobre eles caem as cinzas dos desmoronamentos morais. O panorama político é um nevoeiro mais denso. Chuvisca, por tudo e por todos, uma poeirinha fina, cor de chumbo, que parece fluídica e leve, mas é pesada como a morte.

Os partidos... os homens... os jornais... as notícias... as viagens... as entrevistas... os banquetes... os encontros... as "démarches"... as declarações... os conchavos... as conspirações... os comentários... as intrigas... as calúnias... as covardias... os interesses... as alianças... cisalha... misterioso outono a desfolhar da veIha árvore ressequida da Nacionalidade, as folhas das últimas esperanças e das definitivas desilusões...

Carbonização de nomes, de candidaturas... Papéis queimados, esfazendo-se ao vento, em detritos negros... Trituração de dignidades... pulverização de honras políticas no almofariz dos interesses e das ameaças... Areia fina, voejar de argueiros, cisco de quintais, vasculhos errantes, garoa de lava, névoas, cerração, fumaça, meias-sombras...

E nesta escuridão, caminhamos. E nesta quaresma, entramos por uma longa, exasperante, tediosa, crepuscular quarta-feira de cinzas... Quarta-feira de cinzas em que mal lobrigamos os vultos dos homens que se movem no ar trêmulo de incertezas e de perfídias, de traições recíprocas e conivências tenebrosas na traição à Pátria...

*

E é neste instante que nós, camisas-verdes, tomando um pouco dessa poeira, dessa cinza, que se espalha pelo ar, que tudo esfuminha, tudo entenebrece, traçamos com o polegar e o indicador uma cruz na testa de todos os partidos políticos, repetindo as palavras litúrgicas que os sacerdotes pronunciam junto aos altares;

-Lembra-te, política, que és pó e em pó te hás de tornar.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 12 de Fevereiro de 1937.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

CINZAS... (27/02/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

CINZAS... (27/02/1936)

Plínio Salgado

"Memento homo..." Morrem no espaço os últimos ecos dos últimos cordões; há nos ouvidos, o rumor surdo e insistente dos últimos sambas; o clamor das multidões alegres. Lá se foi o Carnaval...

No contraste entre os três dias de Folia e o dia lilás das Cinzas, a Igreja nos inspira o mais impressionante dos simbolismos. É nesta manhã, única no ano, que o Homem há de se lembrar que é pó e em pó se tornará.

Nestas horas fatigadas, há um recolhimento para todas as sensibilidades finas. Deve também esse vago sentimento de amargura e ao mesmo tempo de realidade, penetrar a alma de uma Nação.

Sobre a testa do Brasil, podemos também fazer uma cruz de cinza. Com a cinza dos escombros do Quartel do 3º Regimento. Talvez com a cinza dos próprios filhos deste país que tombaram mortos na defesa da honra nacional.

Memento Pátria!

Sim: lembra-te, Pátria, que poderás mais rapidamente transformar-te em cinzas.

É certo que todos os povos e todas as nações passam. É certo que os séculos desfilam e sobre velhas humanidades nascem humanidades novas. Sim; é bem certo. Mas é certo também que há povos que desaparecem deixando uma lembrança de dignidade e de força; e outros há que sucumbem, rapidamente, deixando uma recordação de miséria e de cativeiro.

Hoje, o camisa-verde toma também um pouco da cinza das revoluções frequentes que têm ensanguentado o solo brasileiro; a cinza dos campos devastados nas revoluções de 24, em S. Paulo e no Rio Grande; a cinza das destruições no Nordeste e nos planaltos do Paraná, junto a Itararé; a cinza das cidades saqueadas, dos sítios depredados, das fazendas arrasadas, da guerra de 1932; essa argila empapada pelo sangue dos moços paulistas, nordestinos, gaúchos, mineiros, paranaenses e pelas últimas lágrimas dos que morreram bravamente, com retrato de mãe, de esposa, de noiva, de filha, no bolso da farda, e é com essa terra da nossa terra, com esse sangue do nosso sangue, que o camisa-verde unge a tua fronte, ó Pátria, perguntando-te:

- Até quando permitirás que os partidos estadualistas armem os brasileiros contra seus próprios irmãos?

Penetrado pela meditação profunda sobre os teus destinos, ó Pátria, o camisa-verde sofre a tua escravidão ignominiosa ao argentarismo estrangeiro; a tua humilhação, vilipendiada pela propaganda bolchevista, que fere as tuas tradições de honra e delicadeza de sentimento, e pergunta:

- Até quando, Pátria, consentirás em ser infeliz escrava, quando podes levantar-te para seres senhora soberana?

Olhando para os campos, as matas, os chapadões da nossa terra, o camisa-verde vê seus irmãos caboclos, sofrendo na gleba, há cento e tantos anos. Sente o abandono e a dor do seringueiro do Amazonas, do vaqueiro do Nordeste, do garimpeiro de Goiás e Mato Grosso, do ervateiro, do boiadeiro, do sitiante, do colono, do agregado, do jornaleiro, dos remeiros, dos peões, dos carreteiros, e pergunta:

- Até quando, Brasil, teu povo há de ser, assim, tão pobre e tão trabalhador; tão caluniado e tão honesto; tão desprezado e tão hospitaleiro; tão injuriado e tão valente?

E, pondo os olhos nas fábricas, nos quartéis, nos bairros operários, nos mocambos, nas favelas, nos canudos, onde uma população de operários, de soldados, de párias, curte todas as privações ignoradas, o camisa-verde exclama:

- Até quando os construtores de tuas riquezas, Brasil, no desespero de seu sofrimento, se deixarão arrastar pelas ideias dissolventes, escravizar-se por aqueles que pretendem transforma-los em máquinas humanas, sem família, sem Deus, sem liberdade, como já acontece na Rússia?

Por mais que os políticos charlatães cantem a canção do otimismo com que embalam a inconsciência das massas populares, tão sofredoras e tão alheias às causas de seus males; os camisas-verdes dizem-te, neste dia, a verdade suprema, de uma grandeza trágica, marcando-te a fronte, ó Pátria, com as cinzas de todos os teus desastres e de todos os teus crimes, e de todos os teus sofrimentos:

- Lembra-te, Pátria, que viverás com os camisas-verdes e sem eles desaparecerás!

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 27 de Fevereiro de 1936.

domingo, 1 de outubro de 2023

Pormenores da paisagem política (03/03/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Pormenores da paisagem política (03/03/1936)

Plínio Salgado

No panorama geral da política brasileira é interessante observar os pormenores da paisagem, tão expressivos dos dias que vivemos e até certo ponto denunciadores dos primeiros delineamentos da campanha pela sucessão presidencial da República.

Nenhum desses pormenores - excluídas as marchas e contra marchas das correntes e os conchavos destes últimos dias - são tão expressivos como a realização das eleições municipais em todo o país.

Essas eleições municipais, nos dias presentes, ganham uma significação muito profunda. Nunca esses pleitos locais, que dizem respeito a problemas de estrita órbita municipal, adquiriram tão súbita importância.

É que eles constituem um balanço de forças. Essas forças exprimem todas as possibilidades de participação das correntes nos pródromos, no processo geral e no desfecho do problema da sucessão presidencial.

Pela maneira como se portam as situações dos Estados em referência às oposições, pode-se, até certo ponto, deduzir qual o grau de interesse que o governo em questão põe na solução do máximo problema político; pela maneira como tratam certas correntes, pode-se deduzir quais os rumos que as marchas e contra marchas dos bastidores estão tomando nos dias correntes...

A participação do Integralismo nessas eleições municipais em todo o país, tem também uma significação muito grande. É o balanço das forças do Sigma. Veremos com que contam os camisas-verdes para se alinharem na batalha pacífica das urnas logo que cheguem os dias de se cogitar de dar sucessor ao sr. Getúlio Vargas.

*

* *

Cumpre observar que o Integralismo não é constituído apenas de massas eleitorais. O Integralismo é um partido político de âmbito nacional; como tal foi registrado no Superior Tribunal Eleitoral; como tal age, dentro da Constituição, da Lei Eleitoral da República, da própria Lei de Segurança Nacional; como tal, se apresenta no país, como a única força política organizada no alto sentido da Unidade da Pátria, da Unidade do Pensamento, da Unidade do Sentimento. Entretanto, o Integralismo, de um modo mais amplo, considerado como movimento cultural e educacional atuante no meio brasileiro, contém o "partido político", não é contido por este. Um partido político nacional já é uma coisa tão grandiosa, que deslumbra todos aqueles que têm acompanhado as extremas dificuldades, as impossibilidades mesmo que se têm apresentado a quantos neste país tentaram a realização desse Ideal político, diante do qual tombaram inúteis e impotentes grandes homens como Pinheiro Machado, Ruy Barbosa, Nilo Peçanha, e os últimos próceres da revolução de 30. Não há político brasileiro, experimentado nas lutas partidárias, conhecedor das realidades do país, que não se maravilhe diante do que já realizamos: o partido nacional. Entretanto, fizemos muito mais: o partido nacional é um dos aspectos de um "sistema" muito maior e verdadeiramente imponente, que é a "Acção Integralista Brasileira", como organização cultural, educacional, em atividade que exerce em todos os sectores da vida do país.

Ora, assim sendo, é o Integralismo uma corrente cuja força não se avalia apenas pelos índices eleitorais, que apenas mostram um dos seus aspectos. Inscrevem-se nas fileiras dos camisas-verdes os homens mais cultos do país, como vimos ainda recentemente, com a adesão do sr. Lucio dos Santos, glória legítima da ciência em Minas Gerais, e alistam-se, igualmente, os humildes, analfabetos. Somos a única corrente que inscreve também analfabetos... São brasileiros. Sofrem as agruras de uma condição social humilhante e, num dado momento, pela honra da Pátria, pela glória da Nação, poderão dar, não o voto, mas a própria vida!

Façamos abstração, no entanto, dessas massas que agem debaixo da bandeira do Sigma. Consideremos, exclusivamente, os coeficientes eleitorais. Já realizámos eleições em cinco Estados. Levámos para mais de 70.000 votos. Já elegemos perto de 200 vereadores. Fizemos vários prefeitos.

Na Bahia, a pressão governamental foi enorme. Sentiu-se, perfeitamente, que o sr. Juracy Magalhães está empenhado no caso da sucessão presidencial da República. Ali as perseguições foram enormes. Por que a nossa força na Bahia é um fato que já ninguém contesta.

Temos, agora, as eleições em Santa Catharina, São Paulo e Ceará. São três províncias importantes para os camisas-verdes.

Como se portarão os governos nesses Estados?

Eis a pergunta.

*

* *

O "estado de sitio" não foi decretado para se perseguirem partidos políticos, nem para deixar os governos estaduais na magnífica situação de realizarem o prélio eleitoral sem concorrentes... Isso seria vergonha para os governadores dos Estados. Seria perante o Povo Brasileiro, perante a História do Brasil, esses homens aparecerem como os ladrões de cadáveres de Waterloo...

Pelo que tenho observado em São Paulo, o sr. Armando de Salles Oliveira não vae criar dificuldades às oposições. O "estado de sítio" coincidindo com as eleições municipais, vae mostrar quais os governadores covardes, miseráveis, de estofo moral aviltante, assim como tornar patente quais aqueles que serão cavalheiros, fidalgos, conscientes de uma elegância moral indispensável aos que pretendem se impor à admiração nacional.

Há nestas coisas de política, como nas coisas da vida particular ou pública dos homens, certas delicadezas, certos gestos, que constituem o que poderemos chamar a "ética da luta".

De quanto pude observar no Interior Paulista, de onde acabo de regressar, chego à conclusão de que o sr. Armando de Salles Oliveira não transgredirá essa "ética". Não se mostrará aos olhos do país como um covarde. Não se valerá do "estado de sítio", que toda a Nação e nós, integralistas, inclusive, aprovamos como medida extrema de combate ao comunismo e até a uma potência estrangeira que se imiscuía nos negócios internos da nossa terra, não se valerá dele para tirar proveito partidário, para sufocar a propaganda das oposições que, no caso presente, em São Paulo, são constituídas pelo P. R. P. e pelo Integralismo, além de vários partidos de caráter estritamente municipal.

A prova do que digo são os boletins que tenho diante dos olhos, que "firmam jurisprudência", si se pode usar dessa expressão, acerca dos métodos policiais em face da atuação dos partidos no próximo pleito. São boletins em que se convida o povo para a realização de "meetings". Quem convida? O Partido Constitucionalista, isto é, o situacionismo, ou melhor, o sr. Armando de Salles Oliveira.

Uma vez que já se abriu o precedente, todos os outros partidos estão no direito de fazer o mesmo. Parece que essa é a palavra de ordem do Governo Paulista. É a palavra de ordem do bom senso, Do contrário, como se cumpriria a Lei Eleitoral? Pois a propaganda não é um ato preparatório do exercício do direito do voto? Ora, si em pleno estado de sítio, o Governo consente que se realizem eleições, logicamente, imperativamente, consente o exercício do direito do voto com todos os seus atributos, requisitos, características, processos. Foi, naturalmente, pensando assim que o Governo deu a "deixa" aos partidos, mandando o seu próprio partido iniciar a "propaganda".

E agora seria muito mais odioso, si o Governo, tendo consentido à sua gente, a "propaganda", pretendesse coarctar a dos outros credos...

Essa atitude me fazia crer que em Santa Catharina, onde o sr. Nereu se mostra tão simpático e parece mesmo que de certa forma ligado ao sr. Armando de Salles, idênticos direitos poderiam ser exercidos pelos "camisas-verdes", que têm ali grandes redutos eleitorais.

Infelizmente, assim não foi, tendo os integralistas recorrido ao Judiciário, que até lhes concedeu força armada nas eleições de anteontem.

E o Ceará? Nós queremos estar certos de que o governador que tem tido nos integralistas uma corrente de alta e superior visão, não somente pela atuação no Parlamento dos dois deputados estaduais que elegemos, e do deputado federal que representa no Rio o integralismo brasileiro pelo voto dos cearenses, mas ainda pelo que o integralismo tem sido como baluarte na defesa da ordem publica, - nós queremos estar convencidos de que o sr. governador do Ceará deixará correr livremente a nossa propaganda.

Tais são os prognósticos que faço para as eleições deste mês. São razoáveis e envolvem um pensamento de justiça e de patriotismo. Querem também envolver um aviso aos governos:

- Cuidado, srs. governantes: não aperteis demais as cravelhas, não asfixieis demais, não useis muito do vosso martelo sobre a bigorna dos vossos adversários, Lembrai-vos de vários episódios da História do Brasil. Dos tempos antigos e recentes. Lembrai-vos da História do Mundo, Pesai bem, medi bem, contai bem. Para que possais evitar que, por força das circunstâncias, tenhais vós de serdes pesados, medidos e contados, em dia que sempre chega de surpresa...

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 03 de Março de 1936.

sábado, 30 de setembro de 2023

Consciência Popular (06/02/1937)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Consciência Popular (06/02/1937)

Plínio Salgado

Numerosos foram os telegramas e os telefonemas que integralistas me enviaram ontem, exprimindo os seus aplausos às palavras com que me referi ao egrégio Tribunal de Segurança e ao seu digno presidente, por motivo da transferência dos camisas-verdes da Bahia, que ali se encontravam presos, por ordem do governador do Estado.

Os aplausos revelavam claramente estes dois pensamentos: o respeito, a admiração pelos ilustres magistrados, que constituem aquele Cenáculo da Justiça, e a entusiástica simpatia pelo gesto do sr. desembargador Barros Barreto, que, na qualidade de presidente, foi quem deu o despacho favorável à petição da Acção Integralista Brasileira.

Realmente, como acentuei ontem, o ato do sг. desembargador Barros Barreto não foi apenas um ato de justiça, mas também um ato de coragem, demonstrando que s. ex., acima de quaisquer considerações de ordem política ou interesses do momento, ainda quando os mais ponderáveis, coloca o respeito à verdade, o cumprimento de um dever de consciência.

A ele, aliás, se dirigiram, assim como ao digno procurador dr. Hymalaia Vergolino, os nossos agradecimentos públicos em nome de pais de família que sofrem as consequências do seu acendrado amor à Pátria. Ao Tribunal, deixamos, nestas colunas, a expressão do nosso respeito e da nossa confiança.

Mas, ditas estas coisas de passagem, o que eu quero focalizar, nestas linhas, é a palpitação de uma consciência popular claramente orientada em face dos últimos acontecimentos brasileiros.

Há, no povo, um profundo bom-senso, uma intuição aguda, um poder de julgar muito superior ao que podem imaginar aqueles que o observam e que pretendem conhecê-lo. O povo não se ilude a respeito das instituições, dos órgãos do Poder Público, das personalidades em foco, dos assuntos que a Política debate à sua revelia.

E a crítica silenciosamente exercida pela massa, debaixo de uma ditadura de uma imprensa que lhe manipula diariamente a dose de raciocínio, estandardizando-lhe o pensamento e o sentimento, é uma crítica frequentemente manifestada em certas atitudes irrecusáveis como elementos documentários.

Venho observando certos fenômenos muito eloquentes, desde o aparecimento do Integralismo. Um deles, por exemplo, é o fato de jamais o povo haver tentado ridicularizar os camisas-verdes. Quem conhece o povo, e principalmente o povo carioca, sabe que nesta grande metrópole nada escapa à anavalhante ironia da multidão. Os vultos políticos, todas as organizações, todos os fatos notáveis, servem de objeto a uma série de anedotas, de jogos de palavras, de versos, de canções de rua, de apelidos, de chalaças. Ao observador superficial, essa atitude do carioca é levada em conta de traço de inferioridade, de displicência pelas coisas graves e sérias e, entretanto, este julgamento é injusto para um povo que pode ser considerado um dos mais inteligentes do mundo, sendo em muito semelhante ao povo de Paris. Quem aprofundar mais no estudo desta fisionomia urbana, terá de verificar que a ironia, o sarcasmo, o humorismo alegre, o desprezo que este povo manifesta por certas coisas e certos homens, são aspectos exteriores de um traço grave; austero de caráter. Essa massa popular ironiza e ridiculariza aquilo que ela sente ser indigno de admiração e de respeito, aquilo que é nocivo à nacionalidade, aquilo que se apresenta sob falsos mantos, trazendo no fundo um vício.

Este Movimento Integralista, desde o seu início, teve contra si a totalidade da imprensa. Nunca se viu surgir um partido sem que contasse, ao menos, com a simpatia de alguns jornais. O Movimento do Sigma teve contra ele todos os jornais. Uns o guerreavam pelo silêncio, outros pelo aparte violento, sórdido, através de injúrias e calunias; outros tentavam desesperadamente cobri-lo de ridículo. Foi inútil. O povo não aderiu à imprensa. Na sua intuição profunda, percebeu que, se havia alguma coisa no País isenta do ridículo, era este Movimento que não trazia um só elemento de comédia às revistas teatrais, como os demais partidos, porque o Integralismo era trágico, era sincero na sua expressão de dor nacional e de esperança de salvação.

Os comunistas, dispondo de colunas da imprensa, tudo fizeram para dar apelido aos camisas- verdes, para ironizar o Chefe do Sigma, para arrastar o Chefe e comandados ao escárnio público. Foi inútil. Anedotas artificiosas, sem a espontaneidade das criações populares, foram balbuciadas e morreram sem repercussão na indiferença da massa. Caricaturas, epítetos, cinicamente repontavam na Imprensa soviética e nasciam mortas. O povo não aderiu. O povo manifestou, claramente, inequivocamente, que estava com o Integralismo.

A esse povo devemos a nossa vitória. Somos hoje uma força nacional porque fomos apoiados petas populações das Favelas, pela gente do subúrbio, pelos que sofrem, pelos que trabalham à sombra dos "arranha-céus" e no estridor das máquinas. O Integralismo foi amado pelos habitantes de Cascadura, 'do Engenho Novo, do Meyer, do Catumbi, da Gamboa, dos morros do Pinto, da Viúva, do Salgueiro, de São Carlos, pelos rapazes das escolas, pelos malandros, pelos sambistas, pelos artistas da nacionalidade que aprovavam, que aplaudiam, que consagravam, que defendiam a sua própria salvação, a única salvação: o Integralismo.

Conhecendo e estimando este povo que é ainda o mesmo da aurora da Independência, da noite das garrafadas, da abdicação, da Abolição, da República, eu compreendo o alto valor dos telegramas e telefonemas que recebi ontem, porque exaltei o sofrimento, a dignidade, a grandeza do Tribunal de Segurança Nacional, constituído de juízes que diariamente padecem o que não sofre nenhum outro juiz do Brasil: o insulto dos agentes de uma potencia estrangeira que nos quer escravizar covardemente, utilizando-se de brasileiros que renegaram a sua Pátria para servir os sovietes.

A ressonância das minhas palavras na alma popular dá-me a certeza de que, quando falo, interpreto os mais sagrados pensamentos, as mais altas aspirações, os mais decididos desígnios, o senso crítico mais agudo de um povo que, aparentemente, parece assistir a tudo com indiferença, mas que está pronto a levantar-se no instante que verificar que o Brasil precisa assumir uma atitude heroica, surpreendente e enérgica.

E a noticia que aqui registro dessa espontânea manifestação demonstra que o desembargador Barros Barreto, quando transferiu os camisas-verdes presos na Bahia, para esta capital, não somente praticou um ato de Justiça mas também atendeu a uma aspiração do povo.

A medida foi justa e foi popular.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 06 de Fevereiro de 1937.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Crime contra a Nação (04/03/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Crime contra a Nação (04/03/1936)

Plínio Salgado

Começa a crescer um rumor sobre a possibilidade de se adotar no Brasil, para substituir o sufrágio universal, nas eleições para Presidente da Republica, o voto indireto.

Dentro da liberal-democracia, não há maior crime contra a soberania nacional.

Quem lê as páginas imortais de Ruy Barbosa, na memorável campanha que sustentou, no Império, contra esse método deturpador da linha pura do liberalismo democrático, não pode deixar de reconhecer que, a manter-se o sistema vigente da democracia inorgânica, não há por onde fugir do sufrágio universal que, pelo menos, traz a comparticipação da massa na solução dos grandes problemas nacionais.

As eleições indiretas para a Presidência da República significam a maior das imoralidades. A Constituinte, que votou a Carta Magna de Julho, que nos rege, teve o bom senso, a honestidade de, pelo menos, manter com as fórmulas antiquadas, o processo eleitoral que mais se aproxima da sinceridade do regime.

*

* *

Ninguém mais do que nós, integralistas, somos contrários por princípio, por doutrina, por índole, ao sufrágio universal. Ele exprime a vontade desorganizada das turbas. Ele se afasta dos legítimos centros de interesse, em torno dos quais giram as aspirações humanas, os desejos honestos e vontades dos grupos naturais em que o homem se enquadra na sociedade.

Mas o sufrágio universal só pode ser substituído pelo voto corporativo. Si o voto popular, expressivo tão somente da vontade política, alheio completamente aos interesses de ordem econômica e moral, já não se coaduna com o ritmo dos tempos modernos, em que entra mais um fator na atividade política, isto é, a questão social, esse voto só pode ser suprimido, quando a sociedade, reestruturando os seus quadros, possa dar um sentido orgânico às vontades que nela se agitam. Só então, será possível, sem ferir de morte a democracia, instituir-se a eleição indireta, para o Chefe da Nação.

A Câmera Corporativa Nacional exprimirá a consciência perfeita, exata, de cada ciclo de atividade econômica, cultural, moral do país. Essa representação é legítima, porque não terá vindo de conchavos de bastidores, de negociatas políticas, de promessas mentirosas, de fraudes eleitorais, de pressões policiais, de perseguições governamentais, de violação das consciências. É legítima porque traduz atos de liberdade, da liberdade possível, que será aquela exercida no âmbito da classe profissional, sem nenhuma pressão exterior.

Essa Câmara poderá e deverá eleger o Presidente da República, porque ela exprime interesses reais, naturais e humanos do povo, não desorganizado, mas organizado em cada classe. Dessa maneira, não se fere de morte a democracia. Pelo contrário: racionalizando-a, a ela se imprime uma vitalidade definitiva.

*

* *

O Integralismo, quando pretende substituir o sufrágio universal pelo voto das corporações, não condena de uma maneira essencial o princípio do "voto". Respeitando o livre-arbítrio da personalidade humana, respeitando a liberdade da "pessoa", reconhece que o "voto" exprime esse livre-arbítrio, essa liberdade. O que nós condenamos é o voto popular em que se traduzem as heterogeneidades sociais, pelo que pugnamos em prol do voto que exprima opiniões "homogêneas".

A doutrina integralista é bem simples, e, por ser muito simples, parece difícil, porque, como dizia Alberto Torres, o destino das idas simples é não serem facilmente compreendidas. O comum dos homens letrados prefere as ideias complicadas.

Por isso, até mesmo muitos que se dizem integralistas, não penetram neste pensamento, que, em última análise, constitui o princípio fundamental da nossa doutrina política: em vez de matar a democracia, nós queremos salvá-la. Salvá-la de que modo? Dando-lhe novos processos de auscultar a opinião. Vitalizando o "voto", que está morto. Moralizando o sufrágio, submetendo-o a um ritmo que é o sentido moderno da organicidade das forças nacionais.

*

* *

Nestas condições, si combatemos o sufrágio universal, muito mais combatemos a eleição indireta para Presidente da República, quando esta é oriunda de delegados que receberam outorga de poderes do sufrágio universal.

A eleição de deputados na liberal-democracia, todos sabem como se a faz. Não se elege um deputado por interesses nacionais; não se elege um deputado por interesses humanos legítimos. Um deputado é eleito em razão de interesses artificiais, efêmeros, muitas vezes imorais.

A promessa de uma ponte, de um emprego, de um favor municipal, pode eleger um deputado. Esse homem não traz para a Câmara nenhuma inspiração nacional. Seria uma imoralidade assombrosa que esse homem votasse para Presidente da República. A outorga que ele recebeu não foi para isso. Foi em razão da ponte ou do emprego prometido.

* *

*

A eleição indireta para Presidente da República é um conto do vigário passado ao povo. É como si alguém recebesse uma procuração especial e pretendesse usar de plenos poderes. É uma exorbitância de mandato. É uma "chantagem".

A eleição indireta é a fonte das oligarquias perniciosas. É a supressão de todas as liberdades populares. É um abuso de confiança.

Pior, porém, do que tudo isso (posso assegurar e desde já prenunciar os acontecimentos futuros) a eleição indireta do Presidente da República será, infalivelmente, a porta aberta à revolução armada.

Terão os políticos, na sua ambição, perdido todo o bom senso? Não pensarão eles nas futuras desgraças nacionais? Pretenderão violentar da maneira mais cruel, o povo brasileiro? E estarão dispostos a arcar com as consequências?

Que estas perguntas fiquem no ar. E que ninguém diga que uma voz não se ergueu quando se fala em praticar uma loucura, uma das mais perigosas loucuras, que é a compressão das massas eleitorais, a violação dos princípios básicos do regime.

E dizem que temos uma Lei de Segurança...

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 04 de Março de 1936.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Tristes processos! (02/02/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Tristes processos! (02/02/1936)

Plínio Salgado

Regressei ontem de Belo Horizonte, trazendo ainda aos meus ouvidos o eco das aclamações delirantes dos camisas-verdes mineiros, cujo entusiasmo bem demonstra que Minas Gerais despertou pelo milagre do Sigma, revivendo as suas tradições antigas e o seu idealismo que enche a nacionalidade, desde o episodio glorioso da Inconfidência.

Viajando de automóvel, vim encontrando no longo percurso as multidões de "camisas verdes", moços e velhos, senhoras, moças e crianças, vibrando no mesmo sentimento, guiados pelo mesmo pensamento e arrebatados pela mesma fé.

Depois de Nova Lima, de Lafayette, João Ribeiro, Barbacena, Santos Dumont, cidades em que palpita a Ideia Nova, num magnifico misticismo da Pátria, num vitorioso esplendor de alegria e confiança, a recepção em Juiz de Fora excedeu a minha expectativa. Em seguida, foi Mathias Barbosa, Entre Rios, e finalmente Petrópolis, onde a alma fluminense palpitou com aquele entusiasmo que sempre a animou, desde o primeiro dia da propaganda integralista nessa província.

Aqui cheguei à meia noite do dia 31, depois de verificar com meus olhos e com meus ouvidos a realidade do Integralismo, transformado já em fenômeno social irremovível da vida brasileira.

Hoje, pela manhã, trouxeram-me um exemplar do "Diário da Noite", que estampava na sua primeira página, em letras formidavelmente escandalosas, esta monstruosidade:

"VINTE E QUATRO HORAS PARA ABANDONAR A CAPITAL MINEIRA - O SR. PLINIO SALGADO ESTAVA AGINDO CONTRA A LEI DE SEGURANCA E EMBARCOU LOGO APÓS HAVER RECEBIDO A INTIMAÇÃO DA POLICIA".

Em outro local desta folha, publicamos a entrevista que o sr. chefe de Polícia de Belo Horizonte concedeu ao companheiro Madeira de Freitas, pelo telefone, desmentindo categoricamente essa infâmia.

Cumpre-me, porém, ao dar as impressões de Minas Gerais dizer duas palavras sobre a polícia mineira da capital. É um dever de minha parte, ao verificar a calúnia que se atira contra as autoridades de Belo Horizonte, que excederam-se em gentilezas para comigo, que me deram mais plena liberdade, que me permitiram, em pleno estado de sítio, realizar uma conferência em lugar público quando eu estava convencido de que só o poderia fazer na sede integralista, para os integralistas.

O Sr. chefe de Polícia de Belo Horizonte, por intermédio da Delegacia de Ordem Social, cumulou-me de bondades, chegando a determinar que o meu automóvel fosse sempre seguido por quatro inspetores, com o fim de me garantir contra qualquer atentado de comunistas.

Os camisas-verdes andaram livremente, com a sua camisa, sem paletó, em massa, pelas avenidas e ruas da capital mineira. As multidões se aglomeravam à minha passagem, sem a menor providência da polícia para dispersá-las.

Volto encantado pela superioridade de vistas do governo mineiro. Falei durante três horas, num teatro local. Disse tudo o que queria; critiquei os situacionismos dos Estados; fiz considerações sobre os partidos políticos; desenvolvi a maior e mais intensa propaganda do Integralismo.

Julgo-me, pois, no dever de assumir pessoalmente, a defesa do sr. chefe de Polícia de Belo Horizonte e de seus auxiliares. Assumir a defesa e agradecer publicamente todos os cuidados, bondades e liberdades de que fui alvo na capital mineira.

A estas horas, já as agências telegráficas, uma das quais visivelmente mancomunada com Moscou, no intuito de desmoralizar o Integralismo, devem ter espalhado por todo o Brasil a infame balela. Os jornais das capitais brasileiras devem ter reproduzido com a ingenuidade com que se costuma estampar esses despachos.

Não disponho de um aparelhamento assim para agir em sentido-contrário, desmentindo. Disponho, porém, da disciplina Integralista e da confiança do meu povo. Esses tristes processos estão completamente desmoralizados. Vivem apenas uma tarde, impressionam os tolos, mas o bom senso nacional, de há muito já condenou.

A esses tristes, ridículos, lamentável processos de difamação, tenho a responder apenas isto:

- Tudo será inútil. As manifestações a que assisti em todo e território mineiro, tanto na ida como na volta, revelaram-me um estado de espírito muito sério e muito grave do país. E isso que se passa em Minas se passa em todo o Brasil. Por isso, nós venceremos. Serão inúteis todas as calúnias, todas as injúrias, todos os boatos, todas as intrigas, todas as letras garrafais das "manchetes". O Integralismo é hoje uma fatalidade nacional. Nada me deteve quando eu contava apenas com 47 operários e estudantes. Nada me deterá agora, que somos oitocentos mil. Nossa marcha pacífica mas enérgica, nossos processos subordinados as leis do país, mas seguros, firmes e decididos, marcam o ritmo de uma vitória que é cada vez maior. Indicam o dia da vitória final, tão certa como o próprio destino da Nacionalidade,

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 02 de Fevereiro de 1936.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

A Angústia de Pilatos (31/01/1937)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças a generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

A Angústia de Pilatos (31/01/1937)

Plínio Salgado

Um rumor de passos e de vozes cresce na escadaria do palácio de Annaz, o Pontífice. Punhos fortes batem-lhe à porta. O velho sacerdote entreabre o velário e os archotes da turba iluminam-lhe as longas barbas brancas. A esse clarão, também Annaz divisa, entre populares exaltados, a silhueta de Jesus. Um arrepio corre pela sua espinha. O Sumo Sacerdote estremece.

-Que quereis?

- Este homem deve ser julgado.

Annaz sabe, no íntimo d'alma, as razões políticas da exaltação feroz daqueles punhos que se erguem ameaçadores. Essa prisão fora concertada nos conciliábulos secretos, em que ele próprio também tomara parte. Mas Annaz estremece. Qualquer coisa lhe agita o espírito. Um terror vago lhe assalta o coração. Suas pernas tremem. Parecia-lhe tão fácil julgar um inocente. E, entretanto, o Pontífice empalidece.

Empalidece porque sabe que é preciso condenar. Assim o determinam as razões de Estado. É necessário ouvir as respostas do Justo ao interrogatório. É preciso interpretar a Lei de conformidade com os interesses do momento. E ele treme.

Os acusadores se agitam. Sobe um clamor. Urge dizer alguma coisa.

Então, Annaz, Sumo Pontífice, apela para uma preliminar. Não pode tomar conhecimento do caso, porque não lhe toca esse ano o exercício do pontificado. Quem está funcionando é Caiphás, seu genro.

E Jesus é levado a Caiphas.

II

Caiphas, rodeado dos juízes, interroga o acusado.

Os que o prenderam exigem a pena de morte. O Sumo Pontífice, porém, não tem poderes para decretar a pena de morte. Isso compete às autoridades romanas.

Jesus é interrogado. Longamente. Torturantemente. Mas tudo o que ele responde, se crime constitui em face da Lei, é crime de caráter religioso. Derrubam-se os livros. As frontes se curvam sobre os textos. Os hermeneutas discutem. E, assim, atravessam a madrugada.

No íntimo dos doutores há um esquisito terror. O terror em face da Verdade,

Pela manhã, depois de longos estudos, sentam-se em suas cadeiras, para se pronunciarem em definitivo.

Socorrem-se do mesmo expediente de Annaz. Em acordão unânime, decidem que não cabe a Caiphás o julgamento, pois, declarando-se Jesus rei dos Judeus, pratica um ato de rebelião contra Cézar. Ora, uma atitude de rebeldia contra o Império Romano é crime que só as leis de segurança do Império podem punir, através de autoridade do Império.

Não se trata de um crime comum, mas de um crime político. O tribunal, intérprete e aplicador da Lei de Moysés, não tem poderes para se imiscuir em assumpto cuja consideração apenas a Cézar e seus delegados compete.

Isto posto, enviam Jesus a Pontius Pilatos.

III

A clâmide sagrada não pode ingressar sem mancha no Pretório pagão. Transcorre a Páscoa e a casa do gentio polui com o seu próprio ar o povo escolhido. Assim, em altos brados, no melo da rua, os sacerdotes e a turba exaltada clamam, chamando pelo Procurador Romano.

Pilatos está de mau humor. A hora é demasiadamente matinal para um nobre romano. E, depois, sua mulher o inquieta com a narrativa de um mau sonho.

Com um gesto negligente, um bocejo de tédio, a recordar o sonho de Calpúrnia, a mulher de Júlio Cézar, Pontius Pilatos caminha até a balaustrada do palácio. Alguma coisa lhe diz que se trata do julgamento de um Justo. Surda inquietação lhe rói a alma.

A multidão saúda-o num clamor,

Que quereis?

Achamos este homem sublevando a nossa nação, e proibindo dar o tributo a Cézar, e dizendo que ele é o Cristo-Rei.

Pilatos faz subir o acusado.

- És rei?

E Jesus:

- Tu o dizes.

O Procurador Romano volta-se para os príncipes dos sacerdotes:

- Nada de condenável acho neste homem,

- Mas ele subleva o povo contra Cezar, desde a Galileia...

Pilatos evoca a figura de Cézar. Treme de terror. Mas naquela palavra "Galileia", encontra a sua salvação. É fácil. Basta declarar-se incompetente. E que Herodes, cuja jurisdição era a Galileia, assuma a responsabilidade de considerar o mérito da questão.

IV

Jesus é enviado a Herodes. O tetrarca - narra S. Lucas -folgou muito; porque tinha, havia muito tempo, curiosidade de ver Jesus, de quem se contavam muitas coisas. Talvez pudesse presenciar algum milagre.

Os escribas e sacerdotes acusavam, agitadamente, o Nazareno.

Herodes, não tendo visto nenhum milagre, achou o caso desinteressante. E, mandando vestir em Jesus uma túnica branca, por escárnio, reenviou-o a Pontius Pilatos, alegando que o crime tinha sido praticado na Judéia, é não na Galileia.

V

Não tendo Herodes tomado conhecimento, a causa tornou ao pretório de Pilatos.

Chamando os príncipes dos sacerdotes e os magistrados, disse-lhes o aflito magistrado:

-Este homem está inocente. Vide que Herodes nenhum crime encontrou nele. Como quereis que eu condene?

-Bem se vê que não sois amigo de Cézar! Como quereis livrar um homem que concita o povo a sublevar contra o Império Romano?

-Pois bem, -diz Pilatos, estremecendo ao evocar a figura de Cezar - vou mandar açoitá-lo. Em seguida, eu o trarei à vossa presença e vos ouvirei.

Assim se fez. Momentos depois aparecia Jesus na balaustrada, diante da multidão, com uma coroa de espinhos na cabeça, um manto vermelho, uma cana entre as mãos amarradas e uma expressão de dor no semblante ensanguentado.

Estais satisfeitos? - perguntava Pilatos aos acusadores, que ele bem sabia, eram os verdadeiros inimigos de Cézar.

Mas estes respondiam:

À morte! À morte!

VI

Estava preso um perigoso bandido de nome Barrabás. Esse era um verdadeiro sedicioso. Sua rebeldia chegava ao extremo de não respeitar a autoridade dos magistrados. De punhos cerrados no ar, Barrabás rugia e deblaterava. Ameaçava os juízes. Fora encarcerado por crime contra a ordem, contra a propriedade, contra o pudor, contra a vida do próximo. Era um assassino cruel, que matava as vítimas quando dormiam, que negava a Deus e ao Direito.

Pilatos teve uma ideia suprema. Por ocasião da Páscoa, usava-se soltar criminosos, para que passassem essa festa no seio de suas famílias.

O sonho da mulher de Pilatos atormentava o espírito do Procurador Romano. Era preciso tentar ainda uma vez salvar a Jesus.

Barrabás e Jesus foram colocados em pé de igualdade. Um diante do outro, o Crime e a Virtude, deviam ser considerados segundo a mesma medida.

Barrabás era o extremista do Mal. E Jesus era o extremista do Bem, da Dignidade Humana, da Bondade.

Há, porém, certas épocas de loucura dos povos em que nos olhos delirantes a Virtude e o Crime se equivalem.

Pilatos socorria-se de um recurso extremo, sentindo-se incapaz de assumir uma atitude heroica.

Aqui estão Barrabás e Jesus! Devo soltar um criminoso no dia de hoje: escolhei!

Foi escolhido Barrabás, para que passasse a Páscoa com a sua família, ele que não respeitava a Páscoa nem acreditava na família.

Foi então que Pontius Pilatos, num gesto negligente e fidalgo, mandou vir uma bacia. Os criados despejaram a água dos jarros.

Pilatos lavou as mãos e enxugou-as numa alva toalha de linho.

Estava salva a dignidade da toga romana.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 31 de Janeiro de 1937.