domingo, 22 de janeiro de 2017

Plínio Salgado*

Há cento e vinte e dois anos, mais precisamente no dia 22 de janeiro de 1895, nasceu Plínio Salgado, na pequena, bucólica e tradicional cidade montanhesa de São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, na região paulista do Vale do Paraíba.
Magno e brilhante escritor, jornalista e orador e profundo, robusto e fecundo pensador e doutrinador político patriótico, nacionalista e tradicionalista, Plínio Salgado foi, ainda, o criador e principal líder do grande movimento de renovação moral e social a que denominamos Integralismo e o arauto e lidador de um Brasil Novo e Maior. O “mais eloquente intérprete da Brasilidade”, na expressão do ilustre pensador e escritor tradicionalista português Hipólito Raposo,[1] Plínio Salgado foi e é, como escreveu, no mesmo sentido, o insigne jusfilósofo tomista e pensador tradicionalista espanhol Francisco Elías de Tejada y Spínola, o “profeta incandescente e sublime de seu povo”, a “encarnação viva do Brasil melhor”,[2] e, por ter sido o primeiro pensador patrício a efetivamente compreender a Tradição Brasileira, o “descobridor bandeirante das essências de sua pátria”.[3]
Assim, embora criminosamente olvidado e injustiçado por muitos e desconhecido pela maior parte do nosso povo, esse valoroso soldado e condestável de Deus e da Pátria e bandeirante da Fé e do Império terá seu nome lembrado e evocado por todos aqueles que, sabendo separar o homem e a obra das falsas acusações de seus inimigos, reconheçam em seus escritos um inigualável repositório de Fé Cristã e de Brasilidade. Noutras palavras, não passará sobre a Terra o nome do autor da Vida de Jesus e de Primeiro, Cristo!, que, ao contrário, será mais lembrado com o correr dos anos, pois a sua doutrina tornar-se-á mais atual e necessária para o Brasil a cada dia e suas previsões ganharão autoridade à medida que mais delas se forem tornando realidade.
Plínio Salgado, esse nobre “cavaleiro do Brasil Integral”, no dizer do poeta, romancista, contista, jornalista, diplomata e ensaísta patrício Ribeiro Couto, veio ao Mundo, como há pouco dissemos, a 22 de janeiro de 1895, em São Bento do Sapucaí, pequena cidade em estilo colonial que, ainda nas palavras do autor de Cabocla e Largo da Matriz, “repousa entre verdes lavouras, num píncaro de serra, na Mantiqueira”.[4] Seus pais foram o Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, farmacêutico e chefe político da região, e D. Ana Francisca Rennó Cortez, professora normalista formada em São Paulo, no último ano do Império.
Nas veias de Plínio Salgado comungavam, nas palavras de Francisco Elías de Tejada, “as variadas genealogias que forjaram a gente brasileira”.[5] Seu avô paterno, Manuel Esteves da Costa, era português, nascido em São Pedro do Sul, distrito de Viseu, e, tendo estudado humanidades em Coimbra, emigrou para o Império do Brasil por conta da perseguição que sofreu em sua Pátria em virtude de suas ideias tradicionalistas. Uma vez em nosso País, casou-se, em Pindamonhangaba, com D. Mariana Salgado Cerqueira César, que viria a ser a avó paterna de Plínio Salgado e pertencia a uma das mais antigas e tradicionais famílias da região do Vale do Paraíba, assim como descendia de bandeirantes como Bartolomeu Bueno, o primeiro “Anhanguera”, e Manuel Preto, o conquistador de Guairá, retratado por Plínio Salgado, aliás, em seu poema épico em prosa A voz do Oeste (1934), que, com efeito, inspirou Juscelino Kubitschek, amigo e grande admirador de Plínio Salgado, a edificar a cidade de Brasília.[6]
Os avós maternos de Plínio Salgado, por sua vez, foram o Professor Antônio Leite Cortez, natural de Taubaté e descendente de castelhanos e portugueses, e D. Matilde Sofia Rennó, também professora e filha do médico alemão Johann Rennow, que adotou, no Brasil, o nome de João Rennó de França, e de D. Ana Joaquina Ferreira, curitibana que descendia de alguns dos primeiros habitantes de São Paulo do Campo de Piratininga, dentre os quais podemos destacar a figura de Pero Dias, guardião das chaves daquela vila quando de sua fundação.
O Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, pai, como há pouco observamos, de Plínio Salgado, era um homem profundamente patriota e nacionalista na acepção sadia, equilibrada e construtiva do termo e tinha o costume de reunir os filhos à noite para lhes narrar os feitos de Felipe Camarão, de Henrique Dias, do General Osório, do Duque de Caxias, dos almirantes Barroso e Tamandaré e de outros vultos da História Pátria, incutindo-lhes, assim, desde cedo, o amor ao Brasil e às suas tradições históricas.
Pouco depois dessas primeiras aulas de patriotismo, D. Ana Francisca, que já ensinara Plínio a rezar e também lhe incutira o temor a Deus e lhe narrara histórias bíblicas, começou a dar ao filho lições de História do Brasil, Geografia, Aritmética e Francês.
No ano de 1907, Plínio, que havia iniciado os estudos secundários no Externato São José, dirigido pelo Professor José Calazans Nogueira, seguiu para Pouso Alegre, em Minas Gerais, onde estudou humanidades no tradicional Ginásio Diocesano São José, em que também estudavam Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Teodoro Quartim Barbosa, com os quais o então futuro autor de O estrangeiro e de Espírito da burguesia firmou uma grande amizade, que se estenderia por toda a vida. Também estudaram no Colégio Diocesano São José, dentre outros, Dom Idílio José Soares, Bispo de Petrolina e, depois, de Santos, e Dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, Bispo de Montes Claros e, mais tarde, Arcebispo de Olinda e Recife e, em seguida, de Niterói, e um dos maiores oradores sacros brasileiros, bem como um dos mais ilustres adeptos das doutrinas políticas de Plínio Salgado.
O falecimento do pai, no ano de 1911, forçou Plínio a abandonar os estudos e a retornar a São Bento do Sapucaí a fim de cuidar da mãe e dos irmãos menores.
D. Ana Francisca, que ainda lecionava em sua escola isolada para meninas, que funcionava nos fundos de sua residência, transformou outro cômodo da casa em sala de aula, abrindo uma escola para meninos e confiando-a a Plínio.
Pouco mais tarde, Plínio principiou a trabalhar como agrimensor e topógrafo judicial. Em seguida, obteve o cargo de inspetor escolar no Município e, em virtude de se haver habilitado para requerer em juízo e promover o andamento dos feitos, foi nomeado solicitador, exercendo a função de advogado quando não havia advogados.
Por essa época, Plínio Salgado colaborou no jornal A Cidade de São Bento, havendo sido, por algum tempo, segundo Genésio Cândido Pereira Filho, diretor de tal periódico, que tinha Couto de Magalhães entre seus colaboradores e encerraria suas atividades, por problemas financeiros, em 1914.
Em 1913, Plínio Salgado se mudou para São Paulo, onde planejava concluir o curso secundário, interrompido quando da morte de seu pai, e, em seguida, ingressar no curso de Direito da tradicional Academia do Largo de São Francisco. Por conta, porém, da situação de pobreza da família, agravada com o início da I Guerra Mundial, Plínio abandonou os estudos em 1914, antes de ingressar na aludida Faculdade, e deixou a Capital Paulista, retornando a São Bento.
Embora não tendo formação jurídica, Plínio Salgado, que, conforme salientou Ronaldo Poletti, “associava, como é notório, ao lado de sólidos conhecimentos em humanidades, uma intuição profunda reveladora de premonição atinente a fatos e a ideias futuras”, fez, em sua obra, inúmeras referências ao Direito, ciência da qual cuidou dos pontos de vista teórico e prático.[7] Por suas reflexões sobre temas como o Homem, o Estado e a ideia de Império, podemos dizer que Plínio Salgado, defensor do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, e do Estado Ético de Direito e de Justiça a que denominou Estado Integral, embora não tendo sido um jurista, foi e é, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis jusfilósofos do Brasil. Cumpre sublinhar que, como enfatizou Ronaldo Poletti, as ideias jurídicas de Plínio Salgado tiveram um desdobramento na obra e na ação de diversos juristas patrícios, “cujas formações se deram ou completaram a partir de um ponto comum”, que vem a ser o pensamento do egrégio autor de O ritmo da História (1949) e de Direitos e deveres do Homem (1948). Dentre tais juristas, destacou Poletti Miguel Reale, San Tiago Dantas, Alfredo Buzaid, Goffredo Telles Junior e Loureiro Junior,[8] aos quais poderíamos acrescentar, dentre outros vultos do Direito e das letras jurídicas, Rubem Nogueira, Arthur Machado Paupério, Ignacio da Silva Telles, Alberto Cotrim Neto, Ítalo Galli, Oldegar Vieira, Cláudio De Cicco, Marcus Claudio Acquaviva, Acacio Vaz de Lima Filho e o próprio Poletti.
De volta a São Bento do Sapucaí, sentinela da Terra Bandeirante que muito se assemelha a um presépio vivo na Serra da Mantiqueira, como evocou, num inspirado poema, o jornalista, escritor e editor Cláudio de Cápua,[9] Plínio Salgado, aproveitando as horas de lazer, leu autores como Spencer, Comte, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Büchner, Haeckel, Lamarck, Gustave Le Bon, Jhering, William James e Ingenieros, ao mesmo tempo em que se aprofundava no conhecimento de nossa Literatura, assim como das literaturas portuguesa, francesa, espanhola, italiana, inglesa, alemã e russa.
Em 1915, foi fundado, em São Bento, o Externato São Luiz, por Genésio Cândido Pereira, que mais tarde se tornaria o pai do escritor Genésio Cândido Pereira Filho e também um dos mais proeminentes vultos do Judiciário Paulista. Plínio Salgado lecionou no Externato São Luiz, instituição de que foi Secretário, e fundou e redigiu, juntamente com Genésio Cândido Pereira, o jornal daquele Externato, denominado Alvor.[10]
Ainda em 1915, Plínio Salgado coordenou a publicação do Almanaque de São Bento e, no ano seguinte, fundou, com o primo Joaquim Rennó Ferreira, o semanário Correio de São Bento
No ano de 1918, Plínio, que já tivera trabalhos publicados na Revista do Brasil e no Correio Paulistano, casou-se com Maria Amélia Pereira, irmã de Genésio Cândido Pereira.
Por esse tempo, era ele a figura central da cidadezinha de São Bento do Sapucaí, sendo diretor do jornal local e do grupo dramático, secretário do Tiro de Guerra e do Externato São Luiz, presidente do clube de futebol, orador do Gabinete de Leitura e agrimensor.
Ainda em 1918, enquanto se convalescia da gripe espanhola, que o atingira, Plínio leu o livro Farias Brito e a reação espiritualista, de Francisco Teive de Almeida Magalhães e, em seguida, as obras do próprio Farias Brito e de Jackson de Figueiredo, abandonando, assim, o materialismo e retornando ao espiritualismo cristão, ao mesmo tempo em que, preocupado com a questão nacional, lia também autores como Alberto Torres e Euclides da Cunha.
Conforme fez salientar Francisco Elías de Tejada, “o que Plínio Salgado levanta desde a sua conversão intelectual em 1918 são duas colunas solidíssimas: Cristo e o Brasil”, e o que ele nega são “as ideias estrangeiras que corrompem o Brasil e repelem o reinado social de Jesus Cristo”, a saber, o liberalismo, a liberal-democracia, os totalitarismos de todos os tipos, o positivismo e a herança do século XIX. O resultado disto será, ainda segundo Francisco Elías de Tejada, “o Integralismo como ação, como volta à Tradição brasileira” e, “por meta intelectual e política, a aproximação cada vez mais profunda, de Santo Tomás de Aquino”. Existe na obra pliniana, ainda de acordo com o insigne jusfilósofo castelhano, “uma lógica evidente”, e, pois, “ano após ano, vão ficando mais claras as suas ideias, quer aperfeiçoando conceitos, quer estabelecendo mais exatamente as suas posições; mas são exposições e esclarecimentos conservados sempre em torno daquelas duas temáticas centrais, de Cristo e da pátria brasileira”.[11]
Em 1919, Plínio perdeu a esposa quinze dias depois de esta haver dado à luz Maria Amélia, única filha do casal, e teve publicado o seu primeiro livro, o volume de versos parnasianos Tabor, elogiado pela Revista do Brasil, cujo proprietário era então Monteiro Lobato, e de que consta o célebre poema Canção das Águias.
Nesse mesmo ano, Plínio Salgado, que tempos antes fundara, ao lado do Dr. Gama Rodrigues, o Partido Municipalista, primeira agremiação política do País a defender o Municipalismo, deixou São Bento do Sapucaí em virtude de problemas políticos e seguiu para a Capital Paulista.
Em fevereiro de 1922, quando já era redator do Correio Paulistano, Plínio, que antes disso fora redator do jornal A Gazeta, participou ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo.
No ano de 1926, publicou O estrangeiro, que é, cronologicamente, o primeiro romance social em prosa modernista da Literatura Brasileira. Como ressaltaria Menotti Del Picchia, o romance de estreia de Plínio Salgado “confirmou-se como um marco renovador do romance brasileiro”, abrindo “a série das grandes obras que, num radioso renascimento de um sadio nacionalismo, escachoaram do Norte tendo na vanguarda a já histórica Bagaceira de José Américo de Almeida”.[12] Este último escreveu a Plínio, como observou Cláudio de Cápua, uma carta em que afirmou que depois de haver lido O estrangeiro considerara esta obra o primeiro romance, em importância, do Modernismo e resolvera reescrever totalmente o seu livro A bagaceira, que viria a ser publicado em 1928.[13]
O estrangeiro, maior poema em prosa do Modernismo Brasileiro,[14] teve um sucesso verdadeiramente extraordinário. A primeira edição se esgotou em menos de vinte dias e o burburinho que se fez em torno da obra na imprensa nacional foi algo realmente notável. Plínio Salgado, porém, ignoraria tudo o quanto então se publicava a respeito dele e de sua revolucionária obra, não fosse por seu amigo Fernando Callage, que colecionava todos os artigos, uma vez que, naquela ocasião, em São Bento do Sapucaí, falecia a mãe de Plínio, que, estando já à beira da morte, tomou o livro do filho nas mãos, projetando lê-lo mais tarde, quando estivesse melhor, o que infelizmente não ocorreu.
Considerado por Wilson Martins a maior realização romanesca brasileira da década de 1920, ao lado de O esperado, também de Plínio Salgado,[15] e classificado por Rachel de Queiroz como “o primeiro romance modernista”,[16] O estrangeiro, que seria considerado pelo autor o seu primeiro Manifesto Integralista,[17] fez do futuro criador da Ação Integralista Brasileira um escritor nacionalmente consagrado, tanto pelo público quanto pela crítica.
Dentre os diversos críticos literários e escritores de renome que elogiaram O estrangeiro na imprensa, nos meses seguintes à sua publicação, podemos citar Agripino Grieco, Afrânio Peixoto, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo, Nuto Sant’Anna, Jackson de Figueiredo, José Américo de Almeida, Rodrigues de Abreu, Tristão de Athayde e Monteiro Lobato. Este último dedicou ao romance um magnífico artigo intitulado Forças novas e publicado no jornal A manhã, do Rio de Janeiro, aos 19 de setembro de 1926.
No referido artigo, o autor de Cidades mortas e de O presidente negro, havendo reconhecido que “Plínio Salgado consegue o milagre de abarcar todo o fenômeno paulista, o mais complexo do Brasil, talvez um dos mais complexos do mundo, metendo-o num quadro panorâmico de pintor impressionista”, frisou que “todo o livro é uma inaudita riqueza de novidades bárbaras, sem metro, sem verniz, sem lixa acadêmica – só força, a força pura, ainda não enfiada em fios de cobre, das grandes cataratas brutas”. E terminou o escritor patrício o seu artigo sobre O estrangeiro dizendo que “Plínio Salgado é uma força nova com a qual o país tem que contar”.[18]
Como já mais de uma vez observamos,[19] em O estrangeiro e nos dois romances sociais em prosa modernista que se lhe seguiram e que com ele compõem as denominadas Crônicas da vida brasileira (O esperado, de 1931, e O cavaleiro de Itararé, de 1933), Plínio Salgado se revelou o genial cronista, intérprete de uma época de dúvidas e de incertezas que, sob o signo dos mais sadios e edificadores ideais cristãos, patrióticos e nacionalistas e absolutamente livre das questões da forma e do estilo, demonstrou ser arguto espectador e profundo conhecedor de todas as correntes de opinião e de todos os dramas dos diferentes segmentos da Sociedade Brasileira de seu tempo. Revelou-se, ademais, dotado de formidável capacidade de compreender todos os antagonismos, assim como de alma para efetivamente sentir, sofrer e expressar, sem temor ao uso da palavra, todos os complexos estados de espírito nacionais. Nenhuma frase pode, com efeito, defini-lo melhor do que aquela em que assim afirmou, no início de sua obra Despertemos a Nação: “O drama de meu povo apoderou-se de mim”.[20]
Conforme salientou Francisco Elías de Tejada, a “vocação de escritor egrégio” impeliu Plínio Salgado “à literatura, mas uma literatura a serviço dos ideais de um Brasil autêntico”, tendo sido o romance O estrangeiro não apenas “uma das cumiadas da literatura brasileira”, mas também “a necessária análise sociológica” da qual nasceria “um pensamento robustíssimo, o mais brasileiro que dar-se possa”.[21] Ainda como notou o autor de As doutrinas políticas de Farias Brito (1953), Jackson de Figueiredo apreendeu, com sua característica agudeza, o significado de O estrangeiro, que “acima dos seus maravilhosos méritos literários, e além do finíssimo estudo sociológico”, vem a ser “todo um programa político”,[22] constituindo-se, nas palavras do próprio Jackson de Figueiredo, em “um livro de esperança e de fé” na grande Pátria Brasileira.[23]
Os anos seguintes à publicação de O estrangeiro foram fecundos na vida de Plínio Salgado, que colaborava em diferentes jornais e revistas e foi figura central dos grupos modernistas verde-amarelista e da Anta, bem como de diversos outros grupos, na meditação sobre a realidade e os problemas sociais e nacionais. Assim, dedicou-se, com Alarico Silveira e Raul Bopp, ao estudo da língua tupi e da etnografia nacional, ao mesmo tempo em que, ao lado de Cândido Motta Filho, Fernando Callage, Plínio Mello e outros, estudava Alberto Torres, Euclides da Cunha, Tavares Bastos, Oliveira Vianna, Calógeras, Oliveira Lima e outros autores que estudaram nossa Terra e nosso Homem. Ao mesmo tempo, com Augusto Frederico Schmidt e outros, dedicou-se ao estudo da obra de Jackson de Figueiredo e de outros pensadores católicos e espiritualistas. E, por fim, com Mário Pedrosa, Araújo Lima, Plínio Mello e outros, estudou o marxismo, lendo a obra de Marx, Lênin, Trótski, Plekhanov, Riazanov e outros pensadores socialistas e considerando válidas suas críticas ao capitalismo, mas não as supostas soluções por eles apresentadas.
No ano de 1928, foi Plínio Salgado eleito Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista (PRP), entrando pelo 2º turno e sendo o candidato mais votado. Foi sufragado não apenas por seu partido, mas pela totalidade das forças eleitorais do 3º Distrito, incluindo o Partido Democrático, de oposição, o Partido Independente, de Gama Rodrigues, e dissidências locais que se coligaram para elegê-lo,[24] cumprindo ressaltar que toda sua atuação no PRP obedeceu ao firme propósito de criar uma corrente renovadora dentro daquele partido.
Em julho de 1929, o autor de O estrangeiro (1926) e de Literatura e política (1927) tomou posse na Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira de número seis, cujo patrono é Couto de Magalhães, a quem muito admirava, e para a qual fora eleito à revelia, como então se usava naquela instituição.
            Isto posto, cumpre salientar que Plínio Salgado jamais se candidatou a membro de qualquer Academia de Letras, somente havendo ingressado na Paulista por ter sido eleito à revelia, mas pertenceu a diversas instituições científicas e culturais, incluindo o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que, aliás, prestou uma belíssima homenagem ao escritor e pensador sambentista por ocasião do centenário de seu nascimento, em 1995.
Em 1930, Plínio Salgado viajou para o velho mundo, acompanhando o jovem Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha, percorrendo catorze países do Oriente Médio e da Europa. Na Palestina, conheceu os lugares que tão bem haveria de descrever em sua Vida de Jesus, obra que atingiria várias edições em diferentes países e idiomas e receberia entusiásticos elogios de notáveis pensadores, escritores, críticos e autoridades religiosas do Brasil e da Europa. Em Roma, encontrou-se, dentre outros, com Benito Mussolini e com o Senador Giovanni Gentile, filósofo e ex-Ministro da Instrução Pública, e este, que coordenava os trabalhos da Enciclopédia Italiana, pediu a Plínio que completasse o verbete dedicado ao Brasil, o que ele fez em uma madrugada, com o auxílio de Mário Graciotti, Manoel Gomes e Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha. E em Paris, concluiu o romance O esperado, publicado no ano seguinte, e redigiu um manifesto que meses mais tarde se tornaria o Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo.
Em julho de 1931, foi lançado, em São Paulo, o primeiro exemplar do jornal nacionalista A Razão, que tinha Alfredo Egydio de Souza Aranha como proprietário e Plínio Salgado como principal redator e revolucionou a imprensa do País, tendo como colaboradores intelectuais da estirpe de Tristão de Athayde, Sobral Pinto, San Tiago Dantas, Mário Graciotti, Paulo Setúbal, João Carlos Fairbanks, Alpínolo Lopes Casali, Silveira Peixoto, Nuto e Leopoldo Sant’Anna e, é claro, Plínio Salgado. Este era autor do artigo diário de abertura daquele matutino, a célebre Nota Política, em que era analisada a situação do País, pondo-se em evidência pensadores até então relativamente olvidados, como Farias Brito, Alberto Torres, Euclides da Cunha, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Tavares Bastos e Eduardo Prado e rememorando-se fatos do Império e da República.
Foi na Nota Política, transcrita no jornal Era Nova, da Bahia, e em jornais do Ceará, bem como, por iniciativa de Antônio Felício dos Santos, no jornal católico A União, do Rio de Janeiro, que Plínio revelou, na expressão de Virgínio Santa Rosa, o sociólogo que vivia embuçado no romancista, sendo saudado por Tristão de Athayde como a maior revelação do ano.[25]
Também em 1931, foi lançado o Manifesto da Legião Revolucionária, elogiado por intelectuais do quilate de Oliveira Vianna, Tristão de Athayde, Azevedo Amaral, Octavio de Faria e Humberto de Campos, dentre outros, e que já é, pelo seu conteúdo, um autêntico manifesto integralista.
Em 12 de março do ano seguinte, Plínio Salgado fundou oficialmente, na Sala de Armas do Clube Português, em São Paulo, a Sociedade de Estudos Políticos (SEP), que reuniria dezenas de intelectuais preocupados em dar um rumo ao Brasil, reconduzindo-o às bases morais de sua formação.
A 07 de outubro daquele ano de 1932, divulgou Plínio Salgado o Manifesto que redigira em maio e cujo anteprojeto fora aprovado pela assembleia da SEP em junho, não havendo sido divulgado então por conta da Revolução Constitucionalista ora já iminente.
O Manifesto de Outubro, que assim passou a ser denominado em virtude de haver sido divulgado em tal mês, marcou o surgimento oficial do Integralismo e da Ação Integralista Brasileira.
Inspirado, antes e acima de tudo, nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e nas lições de grandes pensadores espiritualistas, patrióticos e nacionalistas patrícios, o Manifesto de Outubro, em suas páginas transbordantes de Fé e de Brasilidade,já trata, ainda que resumidamente, de todos os princípios básicos da Doutrina Integralista, posteriormente aprofundados em outros manifestos, assim como em livros, artigos e discursos de Plínio Salgado e de outros doutrinadores integralistas. Dentre tais princípios, podemos enumerar os seguintes: Afirmação da existência de Deus e da Alma Imortal do Homem; Concepção Integral do Universo e do Ente Humano; Patriotismo; Nacionalismo Integral, justo, equilibrado, sadio e edificador, alicerçado na Tradição e tendente ao autêntico Universalismo, que não pode ser confundido com o internacionalismo liberal ou comunista; defesa da Família, cellula mater da Sociedade, e do Município, cellula mater da Nação; respeito à Tradição Nacional; combate sem tréguas ao comunismo e ao liberal-capitalismo internacional; guerra sem quartel ao cosmopolitismo; sustentação da Harmonia e da Justiça Social; restauração dos princípios de Autoridade, Hierarquia e Disciplina; luta sem tréguas contra o racismo e em prol da valorização do nosso povo e das nossas tradições, bem como dos pensadores e escritores nacionais; pugna pela construção de uma Democracia Integral e de um Estado Ético Orgânico Integral Cristão, instrumento da Nação, do Homem do Bem Comum.
A mensagem essencialmente cristã e brasileira do Manifesto de Outubro espalhou-se rapidamente por todo o Brasil. Em pouco tempo, a Ação Integralista Brasileira (AIB) já reunia centenas de milhares de membros e outros tantos simpatizantes em todo o País, constituindo o primeiro “movimento de massas” e o primeiro partido de âmbito nacional desde o fim do Império, reunindo, ainda, diversos intelectuais ilustres, “bandeirantes do espírito”, no dizer de Genésio Pereira Filho,[26] que constituíam, na expressão de Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”,[27] formando, ainda, nas palavras de Gerardo Mello Mourão, o “mais fascinante grupo da inteligência do País”.[28]
Neste mesmo diapasão, o insuspeito Roberto Campos, ao falar, em suas memórias, de San Tiago Dantas, evocou “o surpreendente fascínio que o Integralismo exerceu em sua geração, particularmente sobre a parte mais intelectualizada”,[29] e o igualmente insuspeito Pedro Calmon, na biografia de seu pai, Miguel Calmon, afirmou que a plêiade de intelectuais reunida pelo Integralismo “poderia lotar uma Academia, em vez de ocupar uma trincheira”.[30] Aliás, devemos dizer que Pedro Calmon se equivocou, pois a plêiade de intelectuais que a Doutrina do Sigma reuniu, na década de 1930, em torno da bandeira azul e branca, e que bem podemos denominar a falange dos “homens de mil” do Integralismo, daria para lotar não apenas uma, mas várias academias.
No mesmo sentido, salientou Acacio Vaz de Lima Filho que o Integralismo reuniu, na década de 1930, “o que havia de mais belo na juventude brasileira em termos de ideal”, bem como “a fina flor da intelectualidade nacional”, intelectualidade esta que, rompendo com a tradição de servil imitação dos modelos estrangeiros, voltou-se “para o Brasil, e para as mais profundas raízes da brasilidade”.[31]
Não nos propusemos, no presente artigo, a analisar o Integralismo, tão augusta quanto deturpada Doutrina que se constituiu na glória e na cruz de Plínio Salgado, “pensador ilustre que arrebatava multidões na mocidade e serenava a ânsia dos intelectuais com o ouro da sua pena”, na expressão de Manoel Vítor, e cuja “rota pelo sigma”, ainda nas palavras deste, “nada mais era que a projeção da sua mesma personalidade em busca de Deus para dá-lo aos homens”, sendo “a Família e a Pátria” os “degraus por onde andou semeando rosas que lhe trouxeram o paradoxal perfume dos espinhos”.[32] Não podemos deixar de assinalar, contudo, que o Integralismo realizou, como escreveu o próprio Plínio Salgado, “a maior obra cívica do Brasil”,[33] tendo mobilizado desde “o homem do sertão até os numerosos e legítimos expoentes da cultura nacional”[34] e havendo soprado “a brasa do patriotismo aparentemente adormecido do povo brasileiro, acendendo um clarão como de outro não há notícia na nossa Pátria”.[35] Ainda como enfatizou o autor de Palavra nova dos tempos novos (1936) e Espírito da burguesia (1951), o Integralismo
Ensinou o povo a cantar o Hino Nacional (que raríssimas pessoas sabiam); levou multidões a aplaudir freneticamente os desfiles do Exército e da Marinha (que então, como hoje, passavam nas ocasiões das paradas, em meio ao silêncio de reduzidos espectadores frios e apenas curiosos); promoveu o culto das datas históricas e dos heróis do nosso Passado Nacional, realizando comemorações imponentes, como as de Caxias, de Carlos Gomes, de Tamandaré, de Couto de Magalhães, de Pedro II, que foram memoráveis; abriu cerca de 3.000 escolas de alfabetização para adultos e cerca de mil lactários para a infância; organizou bibliotecas e fez dar cursos de História do Brasil, Geografia, Instrução Moral e Cívica, Economia Política, elementos de Direito Público e de Filosofia; fundou milhares de ambulatórios médicos e cooperou na obra de recuperação física da nossa gente; realizou exposições e concertos e cursos de Cultura Artística, um dos quais foi notabilíssimo, no salão da Escola Nacional de Belas Artes; e – o que mais importava! – arregimentou a infância e a adolescência, incutindo-lhes entusiasmo pelos nobres ideais, formando-lhes os corações segundo a doutrina do Evangelho, incendiando-as num surto de patriotismo como nem antes nem depois se viu algo de semelhante.[36]
O Integralismo, ainda nas palavras do autor de O Integralismo na vida brasileira,
fez escola de austeridade e de firmeza de princípios, de altruísmo e abnegação, de idealismo construtor, de amor ardente pela Pátria, de sacrifício por ela. Uma escola de disciplina e de ordem, de simplicidade e de modéstia, de preocupação pela coisa pública, de apostolado pela regeneração dos costumes. Uma escola que tinha por base a revolução interior, a transformação do próprio Homem pelo domínio de si mesmo, na luta contra os baixos instintos que perseguem o Ser Humano como consequência da culpa original. Uma escola de vigilância constante na defesa das bases fundamentais da vida brasileira: a Religião, a Pátria, a Família.[37]
Antes de concluir nossas breves palavras sobre a doutrina política de Plínio Salgado e a sua difusão em nosso País, reputamos oportuno enfatizar que, como ressaltou D. Odilão Moura, nas páginas da obra Ideias católicas no Brasil, “nacionalista, tradicionalista (...), o integralismo”, cujas teses não contrariam a Doutrina Católica, propugna “por um Estado de estrutura corporativa e municipalista (...), visando a um regime de justiça social para o povo” e foi, assim como ainda é, um movimento, antes de tudo, educativo, que, na década de 1930, conseguiu dar a “grande parte da juventude brasileira (...) um ideal elevado, despertou uma grande preocupação pelos problemas e tradições brasileiros, indicou uma direção política visando mais às ideias que à eleição dos candidatos, desviou do comunismo aqueles que desejavam uma ação política de reivindicações sociais”.[38]
Ainda conforme frisou Dom Odilão Moura, o Integralismo, cujos adeptos sacrificavam os interesses particulares em prol da “redenção do Brasil”, onde deveria surgir “uma nova civilização cristã e ordeira”, atraiu centenas de milhares de católicos por sua “posição espiritualista”, pela valorização que sempre deu “às nossas tradições cristãs”, pela aceitação dos princípios da Doutrina Social da Igreja e “pelo combate tenaz ao comunismo”, e era, no Brasil dos anos 30 do século passado, no entender do ilustre religioso beneditino e pensador tomista, “o único movimento político não comunista que apresentava um programa de uma reforma social mais ampla e fundamentada em ideias”, donde grande parte da mocidade nele haver encontrado a “concretização de um ideal construtivo”. Assim, inúmeros “bispos, sacerdotes, instituições religiosas, intelectuais e universitários católicos” apoiaram o Integralismo ou mesmo “ingressaram nas suas fileiras” e graças, em larga medida, a eles, o Movimento do Sigma – sem dúvida alguma o movimento cívico-político que mais apoio recebeu, em todo o Mundo, de autoridades da Igreja e de vultos do laicato católico – “cresceu enormemente, sendo raro o recanto brasileiro onde não houvesse uma sede da AIB, propagando as ideias do movimento, alfabetizando, prestando assistência social”.[39]
Consoante escreveu D. Odilão Moura, o gigantesco crescimento que teve o Integralismo, em curto espaço de tempo, deveu-se, antes e acima de tudo, à pena e aos discursos de Plínio Salgado, “homem inteligente, autodidata, bom escritor e jornalista” e brilhante orador, que “sabia (...) usar dos recursos oratórios como ninguém”.[40]
Tratando do Integralismo, observou o magistrado, jurisconsulto e ensaísta Fernando Whitaker da Cunha que a Doutrina Integralista merece ser estudada “pela seriedade de suas premissas e de seus propósitos”; pelo fato de ter engendrado “o primeiro movimento partidário de repercussões nacionais” desde a implantação da República; por pretender “um Direito Público em moldes brasileiros”; por “censurar vaidades estadualistas em benefício da pátria global e, acima de tudo, por pregar um Estado Ético fundado na moral cristã, na dignidade do homem e no culto de Deus, da Nação e da Família”.[41]  
Encerrando nossas breves linhas sobre a Doutrina do Sigma, salientamos que, a exemplo do Padre Júlio Maria, reputamos que “o Integralismo em sua doutrina, sua finalidade e em sua organização, é bom e merece o apoio de todos que têm amor a sua Pátria e ao Progresso".[42]
Exilado involuntariamente em Portugal pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, que decretara o fechamento da Ação Integralista Brasileira em 1937, Plínio Salgado lá permaneceu, juntamente com D. Carmela Patti Salgado, com quem se casara em segundas núpcias, de 1939 até 1946.
Em Portugal, Pátria de que nasceu sua Pátria, o autor de Reconstrução do Homem estudou profundamente o pensamento tradicionalista português e espanhol, proferiu algumas de suas mais belas conferências, escreveu as suas mais pujantes obras religiosas e foi reconhecido pela intelectualidade católica como um dos maiores pensadores católicos de todos os tempos e um verdadeiro apóstolo brasileiro.[43]
Foi em Portugal, ademais, que Plínio terminou sua obra prima, a Vida de Jesus, que o Padre Leonel Franca qualificou de “joia de uma literatura”[44] e que é inegavelmente um clássico não apenas da Literatura Brasileira, mas da própria Literatura Universal, assim como uma das obras máximas da Cristologia. Como salientou o escritor português José Sebastião da Silva Dias, a Vida de Jesus, que “no gênero é o melhor que até hoje se publicou em língua portuguesa”, tendo realmente “conseguido ser ‘a joia de uma literatura’”, teria “o mundo inteiro por mercado”, caso tivesse sido “escrita em qualquer das grandes línguas europeias”.[45]
A respeito da obra prima de Plínio Salgado, assim se exprimiu Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa:
Falando da Vida de Jesus, queria confessar que é a mais bela de quantas tenho lido. Tão difícil de escrever, a Vida de Jesus de Plínio Salgado é, de fato, a Vida de Jesus, feita com a inteligência, com a alma e com o coração todo.[46]
Por suas obras religiosas, a exemplo da Vida de Jesus, “coroa luminosa de um grande e silencioso drama”, no dizer do Cardeal Cerejeira,[47] assim como de A aliança do sim e do não, de Primeiro, Cristo!, de O Rei dos reis, de A Tua Cruz, Senhor, de Mensagens ao Mundo Lusíada, de A imagem daquela noite e de São Judas Tadeu e São Simão Cananita, podemos considerar Plínio Salgado um dos maiores e mais profundos escritores cristãos de todos os tempos e uma das máximas glórias do pensamento e das letras cristãs do Mundo Lusíada.
Isto posto, cumpre salientar, que, como escreveu o sacerdote jesuíta e jornalista italiano Domenico Mondrone, no prefácio à edição italiana da Vida de Jesus, transcrito na revista romana La Civiltà Cattolica, não apenas as obras religiosas de Plínio Salgado, mas todos os livros deste “escritor robusto e fecundo” são testemunhos “do ideal cristão, ao qual está dirigida toda a sua vida de indivíduo e de cidadão e no qual se enquadra a sua visão do mundo”.[48]E faz-se mister sublinhar, do mesmo modo, que toda a vida de Plínio Salgado, desde seu retorno à Igreja, foi dedicada à luta por Cristo. Com efeito, consoante frisou o egrégio historiador e pensador tradicionalista português João Ameal, em palavras que fazemos nossas:
Plínio Salgado escreve, fala, apostoliza sob a luz perene da obediência a Cristo; os argumentos que emprega, são colhidos nas divinas palavras; as imagens que levanta, são sugeridas pelas divinas lições, os apelos que lança, são o eco dos divinos apelos e todo o seu programa é reimplantar na consciência dos contemporâneos a figura excelsa do Filho de Deus e incitá-los a que O tomem por modelo e saibam voltar ao integral cumprimento da Sua Lei.[49]
 Durante os tempos de exílio em Portugal, Plínio Salgado conheceu pessoalmente o Presidente do Conselho de Ministros daquele País, Dr. António de Oliveira Salazar, a quem considerava, com razão, um dos maiores estadistas de seu tempo e da História Lusíada. Unidos por profundos laços doutrinários e por um entranhado sentimento de mútua admiração, o estadista português e o escritor, pensador e líder político brasileiro se encontraram algumas vezes, durante e após o exílio de Plínio em terras portuguesas,[50] e trocaram diversas cartas ao longo dos anos.
De volta ao Brasil em 1946, Plínio Salgado ingressou no Partido de Representação Popular (PRP), que havia sido fundado no ano anterior por ex-membros da Ação Integralista Brasileira e que pugnava pelos mesmos ideais cristãos e brasileiros pelos quais esta havia pugnado. Por este partido foi candidato às eleições presidenciais de 1955 e se elegeu Deputado Federal em 1956, 1960 e 1964. Exerceu outros dois mandatos na Câmara, eleito pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), até deixar definitivamente a política, em 1974. Faleceu um ano depois, no Hospital Sírio-Libanês, na Cidade de São Paulo, tendo sido sepultado no Cemitério do Morumbi.
Como Deputado Federal, integrou sempre a Comissão de Educação, na qual produziu inúmeros pareceres, e apresentou projetos como os de Reforma Agrária e de criação do Fundo Nacional para a Reforma Agrária, ambos de 1963, e o da Emenda Constitucional n. 609, que criaria a Câmara Orgânica, consagrando o princípio organicamente democrático da representação política dos trabalhadores de acordo com suas categorias profissionais.
Plínio Salgado, “esse injustiçado”, nas palavras de Pedro Paulo Filho, deixou à Pátria, ao morrer, “exemplo inolvidável de um dos maiores pensadores políticos brasileiros e uma herança cultural soberba”, que o elenca “entre os mais notáveis escritores do Brasil”.[51] Como bem salientou Francisco Elías de Tejada, “com todos os defeitos que toda obra humana possui, e Plínio era um ser humano, a sua obra aparece majestática” pelo muito “que tem de coerente, pela lógica interna que anima o seu sistema” e, sobretudo, “pela magnitude do pensamento que sabe elaborar uma teoria da Tradição brasileira com traços de granítico castelo, destinado a suscitar adesões para quem queira em tempos vindouros conhecer a substância do Brasil”.[52]
Como evocamos na “orelha” da obra “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!, organizada por Gumercindo Rocha Dorea, ao saudar Plínio Salgado, por ocasião de uma conferência que este realizou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 3 de agosto de 1953, o Professor Heraldo Barbuy, egrégio filósofo, sociólogo e escritor paulista, examinando a obra de Plínio Salgado como escritor, pensador e homem de ação, observou que a Doutrina Pliniana se tornara, então, mais do que nunca, necessária por firmar os verdadeiros conceitos do Homem, da Sociedade e do Estado, e terminou seu discurso exaltando a tenacidade, a coerência e a capacidade de sacrifício de Plínio Salgado, sustentando seu nobre e límpido pensamento em meio às injustiças e incompreensões.[53]
Ainda como escrevemos na “orelha” do aludido livro, na hora presente, ainda muito mais do que no ano de 1953, é necessária a Doutrina Pliniana para o nosso Brasil e para todo o Mundo e a leitura do Manifesto de Outubro confirmará isto a todas as pessoas intelectualmente honestas que a fizerem.
Seja esta nossa singela homenagem a esse grande arauto e apóstolo da Fé e da Brasilidade e condestável do Brasil Integral que foi e é Plínio Salgado, neste centésimo vigésimo segundo aniversário de seu nascimento. Como escrevemos algures,[54] os já muitos anos de calúnias, de incompreensões e de silencio não foram capazes de apagar o brilho do autor da Vida de Jesus (1942) e de O Rei dos reis (1946), que fulgirá sempre, magna estrela da constelação do pensamento pátrio, luzente joia da rica coroa que representa a autêntica inteligência nacional, farol magnífico a guiar a nau dos verdadeiros tradicionalistas, patriotas e nacionalistas brasileiros pelos tenebrosos mares do Império de Calibã, que é o Império da Matéria, rumo ao porto seguro do Império de Ariel, que não é outro senão o Império do Espírito.
Mais genial, pujante e vigoroso intérprete da Tradição Nacional e do Espírito do Povo brasileiro, esse assinalado bandeirante da Fé e do Império e guerreiro de Deus e da Pátria, viverá, imortal, em sua obra notabilíssima e sempre atual, em que defende a restauração do Primado do Espírito e da Tradição, a recristianização integral do Brasil e a instauração de um Estado Ético e de uma Democracia Integral, assim como viverá sua alma igualmente imortal, junto do Cristo que tanto amou. Em uma palavra, o nome de Plínio Salgado perpetuar-se-á, conforme previu Juscelino Kubitschek, “como um símbolo iluminando o futuro”[55] deste vasto Império da Terra de Santa Cruz-Brasil.

Por Cristo e pela Nação!
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira e 1º Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.
São Paulo, 22 de janeiro de 2017-LXXXIV.

*O presente artigo se constitui numa versão revista, ampliada e atualizada da palestra que demos no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo no último dia 11 de novembro, por ocasião do lançamento do livro “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!, organizado por Gumercindo Rocha Dorea.


NOTAS: 
[1] A notável oração do Dr. Hipólito Raposo, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II. São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 189.
 [2] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 47.
 [3] Idem, p. 70.
 [4] O cavaleiro do Brasil Integral, in Sei que vou por aqui!, ano I, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. XVII. Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil a 20/07/1933.
 [5] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA, Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, p. 48.
 [6] Cf. Juscelino KUBITSCHEK, Carta a Plínio Salgado, in VV.AA., Plínio Salgado: “In memoriam”,vol. I., São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985, p. 223.
 [7] O Direito em Plínio Salgado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador e introdutor), Anais do centenário e da 2ª Semana Plínio Salgado, São Paulo, Edições GRD; São Bento do Sapucaí, São Paulo, Espaço Cultural Plínio Salgado, 1996, p. 97. Trabalho escrito para as comemorações do centenário de nascimento de Plínio Salgado, em 1995, e que foi tema da palestra proferida pelo autor a 08 de outubro daquele ano, em São Bento do Sapucaí, por ocasião da 2ª Semana Cultural Plínio Salgado.
 [8] Idem, p. 98.
 [9] Plínio Salgado (biografia), 5ª ed., São Paulo, De Cápua, 2000, p. 5.
 [10] Recuperando literariamente Plínio Salgado, in  Boletim da Academia de Letras de Campos do Jordão, ano XIV, nº 69, setembro de 1999, p. 3.
 [11] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., pp. 52-53.
 [12] Plínio Salgado, o fraterno amigo, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I., cit., p. 45.
 [13] Cf. RODRIGUES, Rodrigo, O Pensamento Nacionalista no Modernismo Brasileiro, São Paulo, EditorAção, 2005, p. 35.
 [14] Bem nos lembramos de que, durante a conversa que tivemos, no ano de 2005, com o Professor Miguel Reale, concordou este conosco quando dissemos que O estrangeiro é o maior poema em prosa do Modernismo Brasileiro e ressaltou, em seguida, que não apreciava muito os poemas em verso de Plínio Salgado, mas gostava bastante de seus poemas em prosa, como os romances O estrangeiro, O esperado, O cavaleiro de Itararé e A voz do Oeste, assim como a Vida de Jesus.
 [15] O modernismo, 4ª edição, São Paulo, Editora Cultrix, 1973, p. 251. Cumpre ressaltar que Wilson Martins cometeu um pequeno equívoco ao considerar o romance O esperado, escrito quase que integralmente em 1930 e publicado no ano seguinte, como uma obra da década de 1920.
 [16] In A Hebraica, São Paulo, julho de 1995, p. 33.
 [17] Despertemos a Nação, 3ª edição, in Obras Completas. 2ª ed., vol. X, São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 9.
 [18] Forças novas, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I, cit., pp. 112-113.
 [19] Oitenta anos de “O estrangeiro”,  in Linguagem Viva, ano XVIII, nº 214, junho de 2007, p. 4. Também disponível em: http://www.linguagemviva.com.br/214.pdf. Acesso em 22 de janeiro de 2017; Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo de Brasilidade, in O Lince, nova fase, ano 4, nº 31, Aparecida-SP, jan./fev. de 2010, p. 17. Também disponível em: http://www.jornalolince.com.br/2010/fev/pages/focus-plinio-salgado.php. Acesso em 22 de janeiro de 2017; 90 anos de O estrangeiro, in O Lince, nova fase, ano 10, nº 72, Aparecida-SP, nov./dez. de 2016, pp. 23-35. Também disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=396#.WISY7fkrLIU. Acesso em 22 de janeiro de 2017.
 [20] Despertemos a Nação, cit., loc. cit.
 [21] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 50.
 [22] Idem, p. 51.
 [23] O saci, o Avanhandava e o imperialismo pacífico, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I, cit., p. 100. Artigo originalmente publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, a 1 de dezembro de 1926.
 [24] Cf.,Maria Amélia Salgado LOUREIRO, Plínio Salgado, meu pai, cit., p. 154.
 [25] A personalidade de Plínio Salgado, in VV.AA., Plínio Salgado,4ª edição, São Paulo, Edição da Revista Panorama, 1937, p. 73.
 [26] Palavras iniciais, in Plínio SALGADO, Extremismo e Democracia, 1ª edição, São Paulo, Editorial Guanumby, s/d, p. 8.
[27] Entrevista concedida ao Jornal da USP.  Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 22 de janeiro de 2017.
 [28] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 22 de janeiro de 2017.
 [29] A lanterna na popa, Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, p. 843.
 [30] Miguel Calmon – uma grande vida, Prefácio de Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro, José Olympio Editora; Brasília, INL, 1983, p. 170.
 [31] Prefácio, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador), “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado, cit.,  p. XVI.
 [32] Plínio Salgado, pensador ilustre, in  VV.AA., Plínio Salgado: “In memoriam”, vol. I., cit., pp. 41-42.
 [33] O Integralismo na vida brasileira, in Enciclopédia do Integralismo, vol. I, Rio de Janeiro, Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira, s/d (1958), p. 37.
 [34] Idem, p. 7.
 [35] Idem, p. 37.
 [36] Idem, pp. 37-38.
 [37] Idem, p. 38.
 [38] Idéias católicas no Brasil, São Paulo, Convívio, 1978, pp. 99-100.
 [39] Idem, p. 98.
 [40] Idem, p. 99.
 [41] Democracia e Cultura (a Teoria do Estado e os pressupostos da ação política), 2ª edição revista e aumentada, Prefácio de Artur Machado Paupério, Rio de Janeiro, Forense, 1973, p. 268.
 [42] O Luctador, 20 de setembro de 1937.
 [43] Sobre as atividades realizadas por Plínio Salgado durante o exílio em Portugal, bem como sobre o reconhecimento que ali recebeu dos mais altos vultos do pensamento católico lusitano: Augusta Garcia R. DOREA, Plínio Salgado, um apóstolo brasileiro em terras de Portugal e Espanha, São Paulo, Edições GRD, 1999.
 [44] Carta a Plínio Salgado, Plínio SALGADO,  Vida de Jesus, 22ª edição, São Paulo, Voz do Oeste, 1985, pp. IX/XI. 
 [45] Vida de Jesus, de Plínio Salgado, in in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., pp. 146-147.
 [46] In Plínio SALGADO, Vida de Jesus, 9ª edição, in Obras completas, volume I, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1956, p. 9.
 [47] A Igreja e o pensamento contemporâneo,4ª edição (com algumas notas inéditas), Coimbra, Coimbra Editora, 1944, p. 385.
 [48] Plínio Salgado: o homem, a atividade, a obra-prima, in in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II. São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 159.
 [49] Plínio Salgado ou a nova luta por Cristo, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam", vol. II, São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 129.
 [50] Os jornais Diário de Lisboa, da Capital Portuguesa, e A Marcha, do Rio de Janeiro, o primeiro do dia 15 de maio de 1962 e o segundo de dois dias mais tarde, noticiaram aquele que foi, provavelmente, o último encontro entre Salazar e Plínio Salgado, ocorrido na manhã daquele 15 de maio.
 [51] Plínio Salgado, esse injustiçado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador e apresentador), São Bento do Sapucaí, São Paulo, Espaço Cultural Plínio Salgado, 1994, p. 25. Texto da palestra proferida por Pedro Paulo Filho em São Bento do Sapucaí a 07 de outubro de 1993, por ocasião da 1ª Semana Plínio Salgado.
 [52] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 53.
 [53][53] Cf. A MARCHA, Plínio Salgado falou aos estudantes da Universidade Católica de São Paulo, in A Marcha, ano I, n. 26, 14 de agosto de 1953, p. 1.
 [54] Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo de Brasilidade, cit., p. 18. Também disponível em: http://www.jornalolince.com.br/2010/fev/pages/focus-plinio-salgado.php. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Carta de Natal e Fim de Ano (1935)


Plínio Salgado

No ano passado, esta página trouxe uma prece de Natal, oração da Pátria Criança ao Deus Criança.
Este ano, em meio às tormentas da hora que passa, escrevo, não uma oração, mas uma carta, na qual não fala o agitador, mas o homem de pensamento, que prevê o triunfo inevitável de uma geração, cujo surto suscitou à custa dos mais tremendos sacrifícios.
Sinto hoje, mais do que nunca, a responsabilidade da obra iniciada com a melhor das intenções, obra que corre sempre o perigo de ser desvirtuada de seu recôndito sentido, pelos que, no ímpeto, no elã revolucionário, se afastarem da linha realista e firme da concepção política do Integralismo.
E não há dia melhor para que eu escreva uma carta, não propriamente às massas integralistas, porém às elites integralistas, do que este dia. Escrevo na tarde de 25 de dezembro, ainda sob a impressão das festas de Natal. É a minha epístola de Natal. Ela procura se inspirar na lição eterna que vive e palpita na História milenar dessa Vida Divina, desabrochada como uma estranha flor no estábulo de Belém, à luz misteriosa da estrela que guiou os pastores da Judeia e os remotos príncipes caldeus.
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Na madrugada de ontem, meditando sobre “isto” que tenho  feito, senti-me apreensivo. Lembrei-me de Leonardo da Vinci diante do sorriso enigmático da Gioconda, e o seu terror.  A Gioconda era bela, era incompreensível, indefinível, porém não era humana.
Examinei também a minha criação, na hora mais dramática da minha Pátria. E inquietei-me. Não temo os inimigos, nem as adversidades, porém temo os próprios integralistas. Eles, na exaltação revolucionária, poderão perder aquilo que mais procuramos, aquilo que é fundamento da nossa política: a consciência de si mesmos. E, perdendo a consciência de si mesmos, perderão o conceito da autoridade, como eu a quero, e  a concepção do Chefe, como é necessária a uma Nação Cristã.
Neste dia do Natal, volto-me para o Cristo, cuja lição de integralismo resplandece nas páginas de sua Vida, pedindo-lhe, de todo o coração, que não nos deixe afastar do conceito exato da personalidade, da concepção humana  da existência, do equilíbrio no lineamento  do Estado, da Sociedade, da Família e do Homem.
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Todo o erro dos séculos que nos antecederam foi o de uma deturpação da personalidade humana.  Uns, quiseram fazê-la tão livre, como Rousseau, que a tornaram escrava dos instintos.  Alguns, pretenderam fazê-la tão material e mecânica, segundo Karl Marx, que a tornaram escrava da coletividade e, em seguida, escrava de alguns dirigentes da massa coletiva. Outros, tornaram-na tão desencantada das belas e amáveis coisas da vida, que a defumaram, como Anatole, na salmoura da ironia. Muitos, interpretando-a segundo os profundos “spleens”, biliosas amarguras e surdas revoltas, engendraram, como Byron, a gloriosa, desdenhosa figura de Childe Harold, os rancores de Leopardi e o “De Profundis” de Oscar Wilde. Outros, ainda, pretenderam, em contraposição à pulverização marxista, às medidas liberais de Rousseau, ao gosto de fel da existência, conforme Schopenhauer, numa suprema revolta contra a mediocridade, engendrar a máxima exaltação da personalidade: é o caso das fantasias delirantes de Frederico Nietszche com seu Super-Homem.
Estes erros da concepção do Homem refletiram-se, como era fatal, na concepção da Família, da Sociedade, e do Estado. E produziram seus maléfícos efeitos, arrastando o mundo às desastrosas consequências dos dias atormentados que vivemos.
Aquilo mesmo que aparece, aos olhos de uma humanidade atônita, como reação aos cataclismos morais contemporâneos, traz, muitas vezes, no fundo, a essência de uma das numerosas expressões do erro que solapou os fundamentos cristãos da sociedade. É o caso da perigosa tendência pagã do hitlerismo, fenômeno que deve impressionar, fundamente, a consciência espiritual dos povos. A guerra às religiões, em ”estado latente”, como observa Tristão de Athayde, prestes a passar ao “estado patente” como acentua aquele  escritor católico  é uma consequência natural  do misticismo que ali se criou, sem base religiosa, isto é, misturando duas manifestações humanas diferentes, no âmbito restrito do Estado.  É a própria  concepção do Estado Totalitário, no seu máximo exagero, no estilo de Cesar: Chefe Militar, Chefe Civil e  Pontífice.  É o erro de Luiz XIV, que se transporta à apoteose napoleônica,  resplandece na filosofia  anti-cristã de Nietszche, haure energias em Frederico II e Bismarck, funde-se no espírito  da massa, na fornalha da Grande Guerra, e traduz-se na mística racista, no paganismo que, em pleno século XX arranca das cinzas do passado para atualizá-lo, o drama de Juliano, o apóstata. Já não é a volta de  Júpiter Olímpico, dos deuses meridionais; é, porém,  a volta de Odin e dos deuses que, desde  as músicas clamantes  do “Ouro do Reno”, Wagner vê no alto da montanha.
Chegará a Alemanha a essas loucuras? Não o sabemos. Apenas verificamos as consequências de um misticismo transportado do campo religioso,  onde sempre deveria estar e de onde nunca deveria sair, para  o campo das atividades políticas;  a concepção do Chefe, como um homem diferente dos outros, um semi-deus, a encarnação  de Odin, e a concepção dos seus adeptos, como seres inumanos, super-religiosos, porém que, sem um fundamento cristão sincero, ultrapassaram a linha hipócrita do velho puritanismo atingindo o outro extremo, onde a explosão de todos os recalques  acaba se manifestando como negação da própria virtude.
     
Nesta  hora tormentosa para o mundo, e neste momento de tantas angústias para o meu Brasil, sinto a minha responsabilidade grave e procuro falar menos como um agitador, que tive necessidade de ser para despertar minha Pátria do que como um construtor, um homem de Estado, um embasador da Nova Nacionalidade.
Volto-me para a única “fonte de água viva”, para a “luz do mundo”, para Aquele que vivendo como um Deus a vida que só um Deus pode viver, ensinou aos homens a viver a vida de homens e deu-lhes o senso profundo da harmonia de que nos temos afastado tanto  porque de há muito perdemos todo o conceito exato, linear, perfeito da personalidade humana.
Perdendo o sentido humano da existência, temos perdido, consequentemente, o sentido da nossa finalidade. Temos misturado tudo, temos deturpado tudo, temos estabelecido tal confusão de valores, de deveres, de tarefas próprias a cada um, de modelos de vida, que nos arriscamos todos os dias a opor aos erros presentes o remédio consubstanciado em novos erros.
Nesse estado de espírito em que o mundo se encontra, é na lição de Cristo que poderemos encontrar a verdadeira linha do Estado, da Sociedade, da Família e do Homem, segundo suas finalidades próprias, seus limites próprios, sua  própria essência.
O Integralismo não quer construir o Estado Totalitário, pois quer construir o Estado Integral, o Estado Harmonioso, o Estado Imutável, na sua essência e mudável na marcha revolucionária que lhe impõe os deveres do Espírito e lhe faculta o livre-arbítrio do Espírito, que nele se reflete.
Distinguimos o campo religioso da área política. Concebemos a autoridade, não segundo o furor místico, exacerbado, doentio dos adeptos em torno do Chefe, porém, como um princípio de manutenção das estruturas orgânicas da sociedade. É no Divino Mestre que encontramos a lição admirável: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus; sim, porque Cesar é um homem, ainda que os romanos possam acreditar na sua divindade. Daí tiramos o conceito do Estado,  os limites de sua área de ação, a natureza de sua missão.  Porque a missão do Estado não é a de Cristo, cujo reino “não é deste mundo”, porque o reino do Estado, como o império de César, é, exatamente, e somente, deste mundo.
Sendo o reino de Cesar  e do Estado, deste mundo, isso não  significa que Cesar e o Estado  se desinteressem pelo reino de Cristo, porque o reino de Cristo  é também para os  homens, e Cesar tem deveres espirituais como homem, como tem direitos como Chefe do Estado. Os direitos de Cesar, nos limites do seu Império,  são exclusivos, e  tão exclusivos, que o próprio Cristo os reconhece  e neles não interfere. É claro que Cesar não deverá passar os limites do seu Império. Quais são esses limites? Os do respeito à personalidade  humana, ao  livre arbítrio, pois este já pertence ao reino de  Cristo. E, por isso, jamais Cesar poderá  penetrar  os umbrais  da consciência de seus dirigidos, como estes jamais poderão transpor os arcanos da consciência de Cesar, pois o fundo da consciência do homem pertence exclusivamente ao reino de Deus. Por isso, jamais Cesar poderá plasmar essa consciência em seus dirigidos, conforme seus próprios desejos, como também seus dirigidos  não poderão plasmar a consciência de Cesar, pois ele, no fundo, é também humano, simples vassalo do reino de Deus,  e só ele deve saber a maneira de melhor cumprir seus deveres como vassalo.
O povo não pode ser uma criação de César, nem César uma criação do povo. Seria usurpar direitos que só pertencem a Deus. E toda vez que Cesar quer criar o Povo, fabrica  um monstro; e toda vez que o Povo quer criar Cesar engendra um Anti-Cristo.
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Daí o senso realista do Integralismo. Tem de tomar a massa na sua verdade histórica e tem de considerar os grupos naturais: a Família, a Corporação Econômica e cultural, a Nação, conforme suas essências próprias e segundo princípios eternos.
O conceito cristão da vida deve ser o dos equilíbrios perfeitos. É preciso conhecer o Homem, a argila de que é feito, a sua finalidade superior, a sua missão na terra, os seus sentimentos, a  invulnerabilidade da sua consciência, para se poder organizar o Estado isento das deturpações que lhe poderiam trazer a mística estatal,  a adoração de Cesar, o absolutismo do Gênio, o sentido exagerado das exaltações revolucionárias.
Digo estas coisas sob a impressão das minhas responsabilidades de Chefe de algumas centenas de milhares de brasileiros e sob a inspiração que me oferece o Mestre dos Mestres, do qual não devermos nos afastar. No ímpeto revolucionário com que despertei a juventude da Pátria, arrastando massas humanas, em aplausos delirantes, atrás de mim; assistindo à realização do sonho que gravei anteriormente nos meus livros, e ouvindo o rumor  de uma Nova Nacionalidade, o canto glorioso de uma geração à qual  ensinei as giestas luminosas da Primavera; e  sentindo a fascinação, o magnetismo com que  arranquei do torpor e  da mediocridade  uma geração que é a maior e a mais bela de quantas o Brasil já deu, - muitas vezes percebi o perigo que poderíamos preparar para o futuro do meu Povo e para mim próprio. Eu mesmo  poderia perder a consciência de minha da minha própria personalidade, porque me julgaria, a cada passo, diante do formidável milagre nacional do Integralismo, único na História, alguma coisa muito superior ao que realmente sou. Mas eis que, as vésperas do triunfo -  porque não duvido um só instante de que a vitória  integralista se aproxima – cai sobre mim a luz mais viva, mais penetrante, mais imprevista, iluminando-me com o  fulgor de um  raio que me mostra toda uma paisagem: sinto a humanidade de Cesar e a humanidade do Estado. Sentindo-a,  no fundo de minhas inquietações e do meu orgulho de agitador, surge uma claridade tranquila, a consciência de homem de Estado, e nessas claridades vejo a imagem d’Aquele  que nos ensina as lições da harmonia e o segredo das construções políticas, visando a felicidade possível dos homens.
Estas coisas que escrevo no dia de Natal não serão compreendidas pelos políticos liberais-democratas, pelos fúteis, pelos indiferentes; serão, porém, compreendidas por todos aqueles que têm responsabilidade no movimento Integralista e ainda por aqueles que, em nossa Pátria, estão nos combatendo, a secreto serviço dos escravizadores do Brasil e que por causa delas (estas palavras) desencadearão contra nós os seus ódios e as suas calúnias. Serão compreendidas por todos os que adoraram sinceramente o Cristo no dia de Natal. E a mocidade que se lança comigo neste ímpeto revolucionário, nesta marcha gloriosa de renovação, de arejamento dos espíritos, nesta luta inebriante porque é cheia de perigos, há de distinguir nitidamente, o pensamento mais profundo que estas linhas encerram e que eu espero possa valer um dia, aos que terão sobre si  o peso dos futuros governos da Nação Brasileira, como um aviso permanente, uma bússola segura, que evitará futuras hecatombes nacionais.

Esta é a minha carta de Natal. Só Deus sabe como a pensei, antes  de escrever. Um  dia,  ó integralistas, estas linhas poderão servir para a escolha dos Chefes futuros dos que, através deste século, continuarão a obra política que iniciei. Não sou o fundador de nenhuma religião, porém, o fundador de um Estado. E possam os meus continuadores, aos quais deverei entregar a minha construção, prosseguir nela, segundo este mesmo ritmo, esta aspiração de harmonia, este sentimento de humanidade. É preciso construir um Estado para homens e segundo as necessidades dos homens, segundo as suas finalidades, a sua natureza, os seus direitos, os seus deveres, a  sua função e as suas aspirações justas. E que o Estado e a Nação, César e o Povo, sejam recíprocos espelhos onde possam contemplar suas recíprocas virtudes e seus mútuos sonhos de grandeza e de felicidade.
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Publicado originalmente no Jornal A Offensiva em 25 de dezembro de 1935. Posteriormente publicado nos Livros Palavra Nova dos Tempos Novos (1936), A Madrugada do Espírito (1946) e O Integralismo perante a Nação (1946)
Transcrito integralmente de Palavra Nova dos Tempos Novos. 3 ª edição. São Paulo: Panorama, 1937; páginas 135 e seguintes.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Homo Ridibundus (excerto de Fênix e suas Cinzas) (1949)


Plínio Salgado

(...) Será um documento impressionante e trágico da nossa época a galeria dos retratos dos estadistas, dos cientistas, dos homens de negócio, dos escritores, a arreganhar os dentes em risadas nevróticas.

Nunca, em nenhum período da História, os Homens de Estado, ou as personalidades de maior projeção no seu tempo nos apresentaram seus retratos a dar risadas. Corra-se a galeria dos   generais, senadores, escritores, reis, imperadores, da Assíria, da Pérsia, do Egito, da Grécia, de Roma; percorra-se a fila dos filósofos, dos poetas, dos guerreiros, dos reis da Idade Média; examinem-se as fisionomias dos grandes vultos da Renascença, dos séculos XVII, XVIII e XIX: nenhuma estátua, pintura ou mais recentemente fotografia nos mostra essas personagens rindo.

Não estamos condenando o riso, porque em muitos casos é a expressão saudável do espírito. O riso revela os mais variados estados de alma. Manifesta-se na suavidade dos puros afetos, na irreprimível hilaridade, na fina ironia, no repulsivo sarcasmo, até na expansão do ódio e da cólera. É espelho de sentimento e revelação de temperamentos. Não é o riso, em si, que nos causa estranheza.

O que nos espanta é verificar que, no século mais trágico da história, no século em que se destrói, com uma só explosão, uma cidade inteira , como Hiroshima, e posteriormente Nagasaki; no século em que os bombardeios aéreos arrasaram monumentos e populações na Europa; no século em que mais de trinta milhões de seres humanos gemem no trabalho escravo dos campos de concentração da Rússia Soviética; no século em que a luta do homem contra o homem assumiu proporções nunca anteriormente conhecidas, seja justamente neste século que Roosevelt tenha inaugurado e os demais homens públicos e estadistas tenham adotado o costume de tirar retratos na plenitude das gargalhadas...

Os faraós do Egito costumavam mostrar-se ao povo, nas grandes solenidades, com máscaras  de ouro, onde os traços fisionômicos eram graves e sérios, como a revelar que, acima dos lineamentos humanos do rosto, devia estar a expressão da responsabilidade e do dever, inspirados num senso moral tão definido, que suas linhas não sofrem a mobilidade das paixões, antes se conservam serenas e impassíveis ainda quando o Rei, como ser humano, esteja sujeito aos impulsos de sua condição pessoal.

Depois de tantos séculos decorridos, os estadistas  riem. Riem sobre as desgraças do seu tempo.

Sim; é o Homo Ridiculus, ou o Homo Ridibundus, que se fez jogral e adotou as atitudes dos fonâmbulos e palhaços para fugir à realidade da História.(...).
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SALGADO, Plínio. O Ritmo da História. 2ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, [s.d.]. Transcrito das páginas 30 e 31.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Problema da Ordem (1935)

Capa da 2ª edição (1937) de "A Doutrina do Sigma".

Plínio Salgado

O problema da ordem não é um problema de polícia, mas um problema de regime. A desordem é um sintoma de enfermidade social. Quando um país entra em anarquia, quando se multiplicam os distúrbios, quando proliferam os descontentamentos, os brados de rebeldia e as atitudes de desespero, cumpre examinar o quadro social, o valor e a disposição das forças econômicas, numa palavra, as causas da arritmia dos movimentos sociais, das super-excitações nervosas das multidões.

Seria absurdo que, chamando-se um médico para examinar um doente que se debate no leito e berra, perturbando o sono da família e da vizinhança, viesse o médico e receitasse uma mordaça para abafar os gritos e uns metros de corda, para amarrar o enfermo.

Esse tratamento não resolve a situação. O que se quer é que o médico descubra a causa das dores e aplique medicamentos capazes de aliviar o doente. Muitas vezes, o caso é de operação cirúrgica.

Assim um país. Quando lavra o comunismo, o anarquismo, a desorientação socialista, cumpre verificar os motivos porque isso acontece, removendo-os. E não engendrar leis repressivas, que são contraproducentes porque agravam os males, levando ao desespero.

Já Leão XIII, em meados do século passado, referindo-se às providências repressivas que os governos adotam quando dão conta de sua própria fraqueza, lembra que elas são as mais indicadas como remédio à desordem, cujas causas são muito mais profundas. A suprema autoridade da Igreja Católica diz mesmo, textualmente, que "a repressão leva ao desespero; o desespero leva à audácia; a audácia leva aos crimes mais monstruosos".

Eis a razão porque negamos autoridade moral ao Estado Liberal Democrático e, principalmente, ao Estado Social-Democrático, como o que temos, desde a Constituição de 16 de Julho, para adotar leis de arrocho contra o sentido revolucionário que empolga as massas brasileiras.

A ordem pública é, apenas, um aspecto da ordem nacional. A ordem nacional é constituída:

a)    — da ordem espiritual e moral;

b)    — da ordem cultural;

c)    — da ordem sentimental;

d)    — da ordem econômico-financeira;

e)    — da ordem social;

f)     — da ordem política;

g)    — da ordem militar;

h)    — da ordem administrativa.

Num país onde todas essas "ordens" se encontram subvertidas, não é possível conseguir-se a ordem pública, ainda mesmo usando-se dos meios mais violentos. Antes, pelo contrário, os meios violentos precipitam a desordem.

A ORDEM ESPIRITUAL

Como se pode obter a "ordem espiritual"? Pela doutrinação, pela propaganda, pela educação constante, paciente, das massas populares.

O governo está providenciando nesse sentido? Não.

Perguntamos: no caos da vida brasileira, na confusão que assinala estes dolorosos dias da nossa história, onde estão os doutrinadores, os propagandistas, os educadores das massas? E podemos responder com segurança: estão no Integralismo. O go­verno mantém cursos populares de doutrina, em que se ensine o amor à Pátria, o respeito à Família, o culto a Deus, em que se combatam os vícios, o comodismo, o oportunismo, o indiferentismo de uma sociedade que apodrece a olhos vistos? Não.

Pois bem: o Integralismo mantém esses cursos em cada um de seus núcleos, arrancando a massa popular dos erros com que a envenenam aqueles que recebem dinheiro do capitalismo internacional para preparar o operário brasileiro à escravidão do soviét. Quer dizer que hoje, no Brasil, a única força coordenadora das consciências no sentido da "ordem espiritual e moral" é o Integralismo. Desafiamos quem nos aponte outra organização semelhante, que abranja toda a extensão territorial da Pátria e congregue maior número de brasileiros, pois somos hoje 400.000.

Essa ordem espiritual e moral nós a conseguimos pela criação de uma extraordinária unidade de pensamento e de sentimento, que se exprime pelo mesmo ritmo de atitudes, desde o Amazonas ao Rio Grande. Enquanto os governos estaduais dividem os brasileiros, nós os unimos numa prodigiosa comunhão, que realiza o milagre estupendo de uma única aspiração nacional. É isso o que se chama "ordem espiritual e moral", confraternização de "todos os que, acreditando num Deus, fazem dele o fundamento indestrutível de toda ordem social", conforme diz a Encíclica de Pio XI, cujo texto foi compreendido pelos Integralistas tanto católicos como luteranos, presbiterianos ou espiritistas, pois hoje formamos a frente única espiritual, arrebatada pela bandeira de Deus, da Pátria e da Família, disposta a todos os sacrifícios para salvar a Nação das garras do materialismo do século. Vivendo uma época semelhante à da invasão maometana contra o Ocidente, repetimos, como no tempo das cruzadas, o episódio maravilhoso da união e do bom combate em que se empenham todos os que se esforçam para salvar os valores legítimos da civilização cristã, aperfeiçoando-os ainda mais.

A essa campanha doutrinária e mobilização das forças morais da Pátria, juntamos a obra educacional que realizamos através de nossas organizações atléticas e esportivas de "camisas- verdes".

Por que mantemos essa organização? Já expliquei muito bem o sentido da nossa luta no artigo que intitulei "Técnica de Sorel e Técnica de Cristo". O nosso movimento nacionalista é muito diferente dos movimentos "fascista" e "hitlerista". Os que nos confundem com esses movimentos nunca leram a literatura integralista. Em relação a esse importante setor, nós o mantemos como "escola de disciplina". O "camisa-verde" aprende a ser modesto, diligente, respeitoso, adquire um exato conceito da Autoridade; aprende a amar a sua Pátria e a tudo sacrificar por ela, inclusive seus interesses e vaidades pessoais; aprende a sofrer, a calar, a trabalhar sem alarde; aprende a amar seus companheiros, que constituem hoje uma família de 400.000 irmãos. No dia em que todos os brasileiros forem "camisas-verdes", estará resolvida a primeira questão desse complexo problema da Ordem.

Se o governo abandona a mocidade, se ele nunca pensou em evitar que os ginasianos, os alunos das Escolas Superiores, das Escolas Militares, das Escolas Técnicas, a juventude das fábricas e dos campos, a própria infância das escolas primárias sejam envenenados por professores ou propagandistas de toda a espécie, que lhes inoculam os venenos do materialismo, do comunismo, do separatismo, do comodismo, do ceticismo, do oportunismo grosseiro, nada mais natural que o instinto de conservação da Nacionalidade, as vozes profundas do Brasil tivessem falado aos nossos ouvidos, de sorte que surgíssemos no país a suprir uma insuficiência do regime liberal-democrático, preservando a infância e a mocidade de males mais terríveis para uma Pátria do que a tuberculose e a morfeia.

Combate-se, ainda que deficientemente, mas combate-se a lepra, que deforma os indivíduos fisicamente; não se combate com energia o materialismo, que deforma moralmente os homens, deformando a própria alma de uma Nação! Por isso é que o Integralismo, como doutrina de ordem, objetivando, preliminarmente, a ordem "espiritual e moral", não é apenas o remédio para os doentes do confusionismo e da anarquia mental, mas é, acima de tudo, a obra de preservação dos filhos de uma geração já completamente corroída pela terrível enfermidade do século.

Quem quiser saber o que são as nossas organizações da juventude vá ver nos núcleos integralistas o milagre estupendo, ou assista ao filme que tem mostrado a todos os brasileiros o prodigioso advento de uma Pátria.

A ORDEM CULTURAL

Nada mais justo, quando pela falta de base filosófica e de humanidade se abandonam, sem defesa, os cérebros moços à corrupção de toda uma literatura de bordel, em que se mesclam os realismos mais torpes, as dissoluções estéticas mais deletérias e os socialismos mais charlatães, nada mais justo do que aparecer o Integralismo, como um fenômeno de saúde nacional, despertando energias novas e orientando-as no sentido de se atingir essa coisa fundamental como base de toda ordem nacional: a ordem cultural.

Pouco ou quase nada adianta proibir a leitura de livros corrosivos, quando não existe nenhuma orientação no sentido de despertar nos moços o gosto pelos estudos e dar-lhes a compreensão exata dos verdadeiros problemas nacionais. A índole do Estado Liberal-Democrático, ou do Estado Social-Democrático, que é o que temos, não permite, sem transgressão de seus princípios essenciais, apontar com mão forte e decidida o caminho que toda uma juventude deve seguir, se quisermos salvar o Brasil.

O Integralismo aparece, então, trabalhando intensamente nesse setor. Cria a sua Secretaria Nacional de Doutrina, que se desdobra em Secretarias Provinciais de Estudos, em Secretarias Municipais de Pesquisas, em departamentos que abrangem, não somente os panoramas de uma filosofia nova, totalitária, o campo vasto da Sociologia e da Pedagogia, da revisão da História, dos problemas modernos do Estado, da Economia e das Finanças, mas todo um trabalho que harmoniosamente se executa em 1.123 municípios, de estatística, de monografias, de ensaios, drenados através dos órgãos hierárquicos, para a nossa seção de "problemas do Estado", à cuja frente se acham os valores mais legítimos de uma geração.

Como poderemos objetivar a solução do problema da ordem pública sem esses pilares da ordem, entre os quais avulta o da ordem cultural? Como poderemos pensar em realizar a felicidade do povo brasileiro, se não tivermos, preliminarmente, uma unidade de cultura, uma uniformidade de método e um processo de suscitar homens públicos capazes de compreender as linhas gerais de uma supervisão do Estado e de executarem no seu setor os trabalhos que lhes forem confiados, obedecendo a um critério geral de filosofia, de sociologia, de direito, de pedagogia, de economia e de finanças, que se traduzem nos atos materiais de administração?

O Brasil não tem tido filósofos nem criadores de direito. O que temos tido são divulgadores, compiladores, comentadores, hermeneutas, causídicos e rábulas. Daí o nosso charlatanismo, o nosso empirismo, o nosso unilateralismo expresso no provincianismo político e no estudo em separado de cada problema nacional, que nunca se subordina ao quadro geral dos problemas nacionais.
Essa é a ordem cultural que o Integralismo está criando.

A ORDEM SENTIMENTAL

Que temos feito, até hoje, para criar um ritmo disciplinador do sentimento brasileiro? Em 1927 escrevi uma frase que serviu de cabeçalho a um jornal de Pernambuco, na qual dizia que o sentimentalismo brasileiro é a força mais decisiva em nossa economia social. Continuo a pensar do mesmo modo. Vejo o sentimento brasileiro, que nos revela traços de uma unidade tão profunda, trabalhando continuamente no sentido da desordem, pelos homens que fazem neste país a política dos Estados e que vêm para o cenário federal com a visão estreita dos regionalismos provincianos. O sentimento brasileiro, que é amplo, uniforme e dominador em todos os tratos do território nacional, como observei viajando todas as nossas províncias e a quase totalidade de nossas pequenas cidades interiores, tem sido violentado numa obra de desagregação sistemática que os governadores de Estado e suas oligarquias executam contra a Nação.

A luta hegemônica entre os três grandes Estados é o maior fator da desordem nacional. Admira como esses mesmos homens, que outra coisa não fazem do que socar a pólvora que explode de quatro em quatro anos subvertendo toda a ordem nacional, admira que esses homens que fazem a "política dos Estados", geradora das lutas fratricidas em que se derrama periodicamente o sangue da mocidade, açulando os ressentimentos regionais, sejam os signatários de um projeto de lei de segurança nacional! Pois a Nação só poderá estar realmente segura quando deixarem de a dirigir os regionalistas, os estadualistas, os incapazes de evitar as revoluções que esses mesmos criminosos fingem querer evitar.

A ordem sentimental está sendo criada pelo Integralismo. Um "camisa-verde" do Amazonas tem a mesma fisionomia interior, a mesma atitude afetiva e o mesmo instinto de solidariedade nacional que os seus irmãos do Rio Grande do Sul, de São Paulo ou Sergipe. Este amor à Pátria Total vibra da mesma maneira na Bahia, Alagoas, Pernambuco, Ceará, como na Paraíba, no Maranhão, no Rio Grande do Norte, no Pará. É olhar um Integralista de Mato Grosso e ver um Integralista de Santa Catarina, de Goiás, do Paraná, do Rio de Janeiro, do Espírito Santo. A alma integralista mineira não difere da alma integralista do irmão acreano, do irmão piauiense. Esta obra nós estamos realizando de uma maneira profunda, como jamais se fez! Esta solidariedade, este bater de coração é um dos esteios da ordem, esteio indispensável à segurança nacional. Que tem feito o Estado Liberal-Democrático nesse sentido? Nada, absolutamente nada; pelo contrário: tem desvirtuado o patriotismo brasileiro, tem acirrado antipatias entre regiões, tem feito funcionar um Congresso onde há bancadas de todos os Estados, menos a bancada do Brasil.

A ORDEM ECONÔMICO-FINANCEIRA

Como pode haver ordem econômico-financeira se não há ordem sentimental? Se cada Província se fecha egoisticamente a examinar seus próprios problemas, esquecida de que a sua própria felicidade depende do grande problema nacional? Como poderemos criar a força poderosa da União Nacional, com a qual nós iremos enfrentar o capitalismo agiotário, as explorações das bolsas, o jogo de negócios de eternos exploradores, se não argamassarmos este cimento que estruturará os blocos da resistência da Pátria? Como poderemos pôr mãos à obra violenta e corajosa da libertação do Brasil, da proclamação de sua soberania financeira, sem organizarmos para o Estado a retaguarda de uma ordem espiritual, de uma ordem cultural e de uma ordem sentimental?

Um país que vive em desordem econômico-financeira, usando as mesmas tisanas, os mesmos paliativos que o empirismo dos nossos técnicos, aprende na escola dos que ensinam errado para melhor nos sugarem; um país onde a voz dos banqueiros fala mais alto ou mais profundamente do que as vozes dos políticos; um país que deixa morrer à míngua as nossas fontes de produção, pela incapacidade de romper com as velhas arengas de Adam Smith e de falar grosso aos agiotas e zangões da City e as Wall Street —, este país não pode pretender ordem social.

Se a lavoura, as indústrias, o comércio, estão à mercê de uma orientação que, em vez de ser brasileira é inglesa, ame­ricana ou francesa e, o que é pior, judaica internacional, como podem essas forças, abafadas, asfixiadas, estranguladas, atender à grita, por sua vez justa, do proletariado?

Sem ordem econômico-financeira não há ordem social.

A ORDEM SOCIAL

O problema do socialismo não é unicamente o problema proletário, afirmou Durkheim, mestre de socialistas. E Durkheim, ele próprio unilateral, como todos os socialistas, levanta com essa frase a ponta de um véu que os integralistas descobrem de todo.

A ordem social enquadra-se no complexo quadro das outras "ordens", como estamos vendo. Subordina-se ao conceito ético do Estado, e esse conceito só pode provir da "ordem espiritual e moral". Entrosa-se com as questões estruturais do Estado, e estas estão intimamente ligadas à "ordem cultural". Filia-se à necessidade de força nacional, e esta depende da "ordem sentimental". Deriva, de uma maneira imediata, das possibilidades vitais de uma Nação, e estas decorrem da "ordem econômico-financeira".

Que adianta fechar sindicatos, fechar jornais extremistas, prender comunistas e anarquistas, trancar as portas de partidos e clubes? O Estado assim procedendo não faz mais do que repetir a história do marido enganado: retira o sofá da sala...

O Estado Integralista não será, no dia em que ele estiver vigorando, aquele Estado a que Engels alude, que está sempre a serviço de uma classe. O seu valor e significado ético colocaram-no acima das lutas sociais, haurindo nelas apenas a inspiração da justiça social.

Não é aqui o lugar para desenvolvermos todo um capítulo sobre um dos mais palpitantes problemas modernos. O que afirmamos é que comunismo não passa, no Brasil, de um sintoma de angústias, de injustiças, em última análise, de desequilíbrios. O Estado só conseguirá ordem social recompondo equilíbrios. Tudo o mais será inútil.

A ORDEM POLÍTICA

Como evitar as conspirações, as mazorcas, as sedições, os golpes de Estado, as revoluções? Com lei de repressão? Mas isso é pretender curar uma enfermidade grave com aspirina. A ordem política só será possível quando não houver mais partidos estaduais que disputem hegemonias; quando o Brasil não estiver divido em 150 partidos políticos cuja função única é fomentar distúrbios, brigar em seções livres, subornar jornais, fazer ataques pessoais, tolerar companheiros maus, fraudar eleições, intrigar, mexer, distrair a atenção do povo brasileiro de seus problemas para as charadazinhas desses campanários tão nocivos à saúde do país.

Como acabar com os partidos? Pela ditadura? Não! Só os povos selvagens, bárbaros ou sem dignidade toleram ditaduras, sejam civis ou militares, sejam positivas ou rotuladas de "espírito revolucionário".

Os partidos só podem se extinguir organizando-se a verdadeira democracia cristã, que é o Estado Corporativo. Não haverá descontentes nem perseguidos, porque todos os homens que pertencem agora aos partidos são brasileiros e pertencem a uma profissão. Eles poderão, pois, entrando para sua classe, ser elevados por ela, porque na classe as vontades são muito mais livres, pois estão a salvo de dependências humilhadoras.

A ordem política só será possível quando todas as forças brasileiras se harmonizarem com o objetivo único de construir a Grande Nação. Ora, como é possível termos essa ordem quan­do os autores da chamada Lei de Segurança Nacional, ao mesmo tempo que levam esse projeto à Câmara, já preparam a futura campanha de sucessão do atual presidente? Esses homens não estão vendo que as alianças secretas que já estão realizando entre alguns Estados para abater outros, constituem elas a fonte de todas as desgraças nacionais, de toda a desordem, de toda a barbaridade de um morticínio de nossos irmãos, de toda odiosidade entre províncias, que podem degenerar na desordem separatista?

A ORDEM MILITAR

Querem muitos exigir do Exército que ele se recolha à caserna. Eu desejaria que esses lessem as páginas que a respeito escrevi no meu livro "O cavaleiro de Itararé", publicado em 1932.

Considero hoje as Forças Armadas a última expressão de uma unidade nacional que nos chegou do regime liberal-democrático federativo, separatista, desagregador e desordeiro. Só a Marinha e o Exército se salvaram, pelo menos como sentimento de Pátria Total, da Unidade Nacional. É certo que muitos de nossos militares se imiscuíram em desordens civis, mas, ainda assim, isso foi, até certo ponto e sob certos aspectos, providencial, porque constituíram, na própria desordem, o liame da ordem nacional, a vigilância da alma da Pátria, evitando a degeneração dos movimentos em dissolução social ou de esfacelamento do Brasil.

Ora, na situação como a que nos encontramos, em que só existem partidos estadualistas (quem quer verificar que vá ao Tribunal Eleitoral e só encontrará registrado um partido de âmbito nacional: a "Ação Integralista Brasileira"), como poderemos prescindir daqueles que foram os únicos que se conservaram "brasileiros", no meio dos que, pelo menos na ação política, são apenas "mineiros", "paulistas", "gaúchos", "baianos", etc.?

Ao Estado Liberal-Democrático desordeiro, acirrador de ódios, de ódios entre irmãos, caudilhesco, oligarca, regionalista-separatista, falta autoridade moral para impedir que os únicos brasileiros que restam da "debacle", os únicos que nós, integralistas, encontramos, quando ingressamos na História do Brasil, os únicos que nós surpreendemos adorando nossa Bandeira Nacional, se interessem pela política de sua Pátria. O Exército, um dia, irá desempenhar o papel mais relevante da Nação, executando um plano gigantesco de restauração do nosso prestígio externo. As nossas escolas de "camisas-verdes" são as preparadoras de um espírito nacional capaz de compreender o Exército. A confraternização dos únicos brasileiros civis que chegaram na hora da dissolução final, com os únicos brasileiros que vieram de 40 anos de anarquia política, vai ser completa no dia em que deixarmos de ser pernambucanos, cearenses, amazonenses, cariocas, para sermos, acima de tudo: brasileiros! O Integralismo, fábrica de brasileiros, nega autoridade moral àqueles que, pretendendo dissolver a Nação, querem proibir as Forças Armadas de atuarem, não digo pelas armas, mas pela sua força moral, evitando que nos acabem de matar os banqueiros internacionais, os agentes do comunismo russo, os materialistas de todo jaez, fomentadores de discórdias, intrigantes, corvos de garras enterradas no corpo da nossa Pátria.

Se o país está em desordem política, não pode realizar a ordem militar, tão necessária, essa ordem que todos nós aspiramos, pois não desejamos para o Exército um papel semelhante àquele que desempenham os exércitos de certas republiquetas que, de tanto derrubarem e elevarem generais à ditadura, acabaram se esfacelando, ao ponto de, em Cuba, subir ao poder o cabo Machado, numa hora em que virtualmente o Exército já não existia. O papel que desejamos ao Exército é aquele glorioso papel do Exército francês ou do Exército japonês.

Queremos que ele seja uma força gloriosa. Que seja a nossa garantia. Que seja o nosso ídolo. Queremos que, à passagem de um militar, nós, civis, possamos descobrir-nos, vendo nele um asceta, um herói, um esteio da nossa liberdade, da nossa soberania, um baluarte da nossa grandeza, o irmão a quem confiamos tudo: nosso lar, nossa família, nossa bandeira, nossa carta geográfica, o nome da nossa Pátria!

O Exército só será, assim, o nosso ídolo, quando ele estiver livre dos paisanos que embarafustam pelos quartéis, a forjar conspiratas, cujos riscos quase sempre cabem aos militares, cujas consequências sofrem os militares, por serem mais simples, mais cândidos, mais sinceros.

A ordem militar, portanto, só será possível quando se estabelecerem todas as outras ordens no organismo nacional.

A ORDEM ADMINISTRATIVA

O aspecto mais formal, mais material da ordem administrativa indica-nos que ela não será possível sem todas as ordens precedentes. Ela decorre da "ordem espiritual e moral", sem a qual não há administradores honestos; ela deriva da "ordem cultural", sem o que não há administradores conscientes; ela se origina da "ordem sentimental", sem o que não haverá administradores que trabalhem com amor, que ponham um pouco do seu coração no serviço que lhes compete; ela depende da "ordem econômico-financeira", porque nada se poderá fazer num país que anda com a corda no pescoço, entregue à anarquia daquelas casas onde, não havendo pão, todos gritam e ninguém tem razão; ela é um prolongamento da "ordem social", porque nos países perturbados pelas agitações consequentes das lutas de toda a espécie, não é possível haver calma, segurança na obra administrativa; ela se subordina à "ordem política", porque não é possível haver administração capaz se os políticos a perturbarem com sua chusma de pistolões, de afilhados, de manobras, de perseguições a adversários; ela se entrosa com a "ordem mi­litar", porque se a administração é uma função do governo, como este é uma concretização do Estado, essa função não poderá ser exercida sem o prestígio da força, e a força de uma Nação está diretamente ligada à capacidade de ordem militar.

Sem essa "ordem administrativa" jamais existirá a ordem nacional. Sem esta não haverá ordem pública.

Eis porque nós, integralistas, achamos inócua a chamada Lei de Segurança Nacional. Ela própria é um sintoma de desordem. É uma confissão de anarquia. É um libelo contra o sistema liberal-democrático, contra a politicagem dos Estados. É o anúncio de que existem conspirações. É a prova de que a Ordem está exigindo um grande movimento nacional. É a maior propaganda do Integralismo. O médico está querendo amarrar e amordaçar o doente, para que ele não grite e não perturbe os vizinhos? Que deve fazer a família? Chamar outro médico. No caso brasileiro esse médico será a Liberal-Democracia de 1891, revogada pela Social-Democracia de 1934, que agora se confessa impotente? Não! Porque a doença já avançou muito e os "chazinhos" já não curam. É então o comunismo? Não, porque ele atenta contra Deus, contra a Pátria e contra a Família, que estão no coração dos brasileiros. É o Socialismo? Não, porque ele não passa de um comunismo mascarado. É a Ditadura Militar? Não, porque um povo civilizado não tolera ditaduras, nem civis nem militares. Então, que salvação é possível?

Brasileiros! Civis e militares, lavradores, industriais, comerciantes, operários, estudantes, camponeses, intelectuais! Nesta hora histórica em que nos desesperamos desejando a Ordem, em que tanto precisamos da Segurança Nacional, só há uma esperança, uma só salvação: — o Integralismo!


Originalmente, um Artigo publicado em “A Offensiva” (07/02/35, Ano II, n.° 39), quando se debatia na Câmara dos Deputados o projeto da Lei de Segurança Nacional; posteriormente, publicado como Capítulo II de “A Doutrina do Sigma” e nas antologias “Páginas de Ontem” e “O Pensamento Revolucionário de Plínio Salgado”.