quarta-feira, 19 de junho de 2024

AOS TRABALHADORES DO BRASIL (01/05/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

AOS TRABALHADORES DO BRASIL (01/05/1936)

PLÍNIO SALGADO



Nada mais digno, nada mais belo, nem mais glorioso, do que o Trabalho; nada mais nobre, mais significativo no plano do Universo, do que o Trabalhador.

O Trabalho não é apenas uma necessidade, porque é uma condição de harmonia universal. Energia, no plano divino, conduz os astros e desperta as primaveras. Energia, no plano humano, conduz as Nacionalidades e suscita as Civilizações.

Essência da própria matéria, a força é o Trabalho, obedecendo no mundo físico à vontade consciente, ordenadora de Deus. Elemento fundamental do aperfeiçoamento humano, a energia da inteligência e dos músculos é o Trabalho, obedecendo, no mundo social, à vontade consciente do Homem.

O Trabalho não é o "mais valor" de Marx. Porque o Trabalho é o valor único, o valor que não deve conhecer contraste numa concepção integralista da vida, da sociedade e do Estado.

O Trabalho não é um direito, porque é um dever. Como direito, ele se escraviza; como dever se eleva e se liberta.

Como direito, o Trabalho, mendiga diante dos Poderosos; como dever, ele se fortalece e se impõe, salvando-se dos exploradores e tomando dentro da Nação o lugar mais alto e mais digno.

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O Trabalho não pode ser o objeto de exploração do Capitalismo, nem o objeto de escravidão do comunismo. O Trabalho não pode se beneficiário da munificência e altruísmo do Estado; porque o Trabalho deve constituir a própria razão de ser da existência dos Governos, a fonte da soberania nacional, a origem da autoridade, a inspiração da Justiça, o imperativo que cria os deveres dos dirigentes em face de um dever que decorre de uma lei natural.

O Trabalho não é antagonista do Capital, porque este é uma condensação do próprio Trabalho, uma soma de energias concretizadas num potencial econômico. Nestas condições, não compreendemos, nós, integralistas, que o Trabalho seja, nem antagonista, adversário, inimigo do Capital, e nem tão pouco, que Trabalho e Capital devam harmonizar-se, no sentido que esta palavra adquiriu na técnica verbal dos teoristas burgueses. Só se, harmonizam elementos "diferentes", coisas distintas, e, para nós, Integralistas, não ha distinção entre Capital e Trabalho, pois um e outro representam a mesma coisa, em circunstâncias diversas.

A água não deixa de ser água, quer esteja em estado de vapor, quer se apresente em forma de líquido, quer nos apareça nos blocos sólidos do gelo.

O comunismo pretende solucionar o problema econômico-social, como alguém que quisesse que todos os gelos e todos os vapores do mundo se liquefizessem, ou todos os líquidos se solidificassem ou se vaporizassem.

O capitalismo quer manter distinções fundamentais entre a soma de TRABALHO ACUMULADO, de TRABALHO EM EFFICIÊNCIA e de TRABALHO EM POTENCIAL.

Nós consideramos o Trabalho como elemento único, apresentando-se em expressões diferentes. Na diversidade dos aspectos, a unidade absoluta da energia humana. Consideramos Trabalho, o Capital; consideramos Trabalho, o esforço, e realização diária das eficiências humanas em ritmo de criação; e consideramos, ainda, Trabalho, a energia, a capacidade em potencial, que se encontra em estado latente no cérebro e nos músculos daqueles que uma organização social errada conserva em disponibilidade.

Trabalho acumulado (Capital); Trabalho em ação criadora (mão de obra); e Trabalho em disponibilidade (desempregados), o Estado deve por todas estas formas zelar, submetendo-as, não a uma finalidade propriamente do Estado, mas aos supremos interesses que essa finalidade objetiva: o equilíbrio social e a felicidade humana.

O Trabalho, elemento essencial, único, das manifestações da vida do indivíduo, da família, do grupo profissional, da sociedade, do Estado e da Humanidade, nós o consideramos, ao mesmo tempo, como SUJEITO e como OBJETO. O Trabalho é sujeito, quando o encaramos força propulsora da Economia e fonte originária do Estado; o Trabalho é OBJETO, quando o tomamos como energia, cujo desenvolvimento deve submeter-se à moral humana e ao espírito de justiça e de equilíbrio que o Estado encarna.

Pois o Estado existe em razão do Trabalho. Sendo o Trabalho um dever humano, ele se espiritualiza, eleva-se de tal forma, que exige garantias, as quais são asseguradas pela Força do Estado. O Estado, pois, seria supérfluo, si o Trabalho não existisse. Existindo o Trabalho como dever, ele moraliza o direito do trabalhador. Moralizando esse direito, exige uma execução de normas éticas. Exigindo essa execução, engendra o conceito de Estado. O Estado, em última análise, é uma manifestação jurídica de Trabalho. O Trabalho, examinada a questão a fundo, é a fonte de todos os direitos públicos e privados, porque o direito, sendo um conceito de equilíbrio inspirado na moralidade, só poderia ter origem num dever que oferece as normas seguras da moralidade.

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O Trabalho, para os Integralistas, é base do Estado e do Governo.

Ele procede de um alto pensamento espiritual. Essa a razão porque combatemos o Capitalismo, que se inspirou no materialismo, na negação de Deus e do Espírito, para justificar sua tirania e opressão sobre os trabalhadores. Essa a razão também porque combatemos o Comunismo, pois este aceitou o conceito materialista do Trabalho, segundo ensinou a burguesia capitalista, e engendrou um antagonismo que, em última análise, nega a essência natural do Trabalho.

A luta de classe, segundo Marx, é um conceito do século passado. É um conceito burguês e materialista. O Integralismo, doutrina do século XX, já não tolera essa incapacidade mental de compreender o plano geral do mundo, das eficiências, assim como o plano geral, da economia, da sociedade e do Estado.

Só nós, Integralistas, podemos festejar o Dia do Trabalho com a compreensão exata do século XX. O Trabalho, para os Integralistas, é a fonte do espírito de justiça, da inspiração política e dos anseios de liberdade humana.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 01 de Maio de 1936.


sexta-feira, 31 de maio de 2024

Penetrados pelas “razões da Pátria” (13/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Penetrados pelas “razões da Pátria” (13/10/1936)

PLÍNIO SALGADO

Venho, neste instante, da primeira reunião preparatória da Câmara dos Quarenta, corporação altamente representativa da "Acção Integralista Brasileira". E venho cheio de entusiasmo e de legítimo orgulho. Essa primeira sessão foi brilhante e expressiva. No andar térreo da Chefia Provincial de Guanabara, funcionava a Escola de Instrutores da Secretaria de Educação Moral e Física. Sou recebido pelo Chefe Provincial Barbosa Lima. Os "anauês" repercutem enquanto subo pelo elevador ao terceiro andar. Encontro no salão os Membros da Câmara. Explico-lhes os objetivos da reunião: o primeiro contato de uns com os outros, o contato da corporação com a Chefia Nacional, a nomeação de uma comissão para elaborar o regimento, a recepção de sugestões de qualquer caráter.

Decorrem os trabalhos no meio do maior entusiasmo. A comissão elaboradora do regimento fica constituída de Othom Barros, Marcos Souza Dantas e Custodio de Viveiros.

Duas propostas são apresentadas, ambas no setor das finanças: uma do companheiro Othom Barros, outra do companheiro Mejolaro. Segue-se uma sugestão do professor Cassiano Gomes, sobre os simpatizantes do Integralismo. Fala o professor Pamplona, expendendo interessantes considerações. Em seguida, Raul Leite usa da palavra, para dizer que, neste momento de extrema gravidade para a Pátria, urge que os simpatizantes se definam, pois não há tempo a perder, quando o Brasil está em perigo.

A propósito de perigo comunista, fala o general Vieira da Rosa, sobre a situação de Santa Catarina, fazendo importantes comunicações. O comandante Victor Pujol fala sobre questões internas da Câmara. A sessão prolonga-se. Todos estão com ânimo firme de trabalhar: Amaro Lanari, Alvaro de Carvalho, os generais Jeronymo Furtado, Abreu Salgado, Jorge Pinheiro, Archimedes Memoria, Maurilio de Mello, Rocha Miranda, Guilherme Fontainha, Thompson, Ordival Gomes, Queiroz Ribeiro, Henry Leonardos, Pedro Moura, Olbiano de Mello, Freitas Henriques, Nunes da Silva, Costa Pires. O companheiro Belisario Penna, que reside atualmente no interior fluminense, está enaltecendo a capacidade de inspirar entusiasmo que tem o Integralismo, que o faz viajar para vir tomar parte nas reuniões da Câmara.

Poucos deixaram de comparecer, e assim mesmo por força maior, como o almirante Frederico Villar, que se encontra enfermo, o almirante Trajano, que pede ao comandante Pujol justificá-lo, o professor Lucio dos Santos, que telegrafa de Belo Horizonte, Fonseca Hermes, que está em viagem na Europa, general Villela, que se encontra em Pernambuco, e os que se justificaram, como Sergio Silva, Carvalho Cardoso, Mansueto Bernardes, Manoel Ferreira.

Em quarenta, achando-se cinco ausentes do Rio, o comparecimento verificado representa uma admirável demonstração do mais vivo interesse pelas responsabilidades assumidas.

Mas o que encantou aos próprios Membros da Câmara, foi o entusiasmo de cada um e de todos em geral. Nunca o Integralismo viveu uma hora de tamanha vibração cívica, de tanta fé em seus próprios destinos, de tanta consciência de força e de significação histórica.

Essa Câmara dos Quarenta colocou sobre seus ombros uma grave responsabilidade. Eu a ouvirei nas horas difíceis, receberei os seus alvitres, pesarei os seus conselhos, aproveitar-me-ei de sua experiência.

O Integralismo realiza, dentro de seus quadros, a verdadeira democracia que, um dia, irá realizar no País. A democracia orgânica, a consulta dos elementos realmente representativos.

A Chefia Nacional deste Movimento sem precedentes em nossa vida social e política, criou alguns órgãos coletivos, com caráter técnico, penetrados do senso de responsabilidade que lhes incumbe: o Supremo Conselho Integralista, que o Chefe ouve semanalmente; a Câmara dos Quarenta, que o Chefe e o Supremo Conselho ouvem quinzenalmente; as Cortes do Sigma, que o Chefe ouve anualmente e é constituída pelo Supremo Conselho, pelo Secretariado Nacional, pela Câmara dos Quarenta, pelos Chefes Provinciais e pelos Quatrocentos integralistas representativos das Províncias Brasileiras. Há, além disso, um Conselho Jurídico Nacional, um Conselho de Cultura Artística, um Conselho de Educação Física. A preocupação da divisão do trabalho pela natureza técnica dos serviços é constante. A própria Câmara dos Quarenta é dividida em comissões: política, propaganda, cultural, financeira e administrativa.

O Integralismo não é apenas um Movimento de grande volume no país, congregando perto de um milhão de adeptos; é um Movimento organizado. Essa organização revela duas coisas essenciais: 1º - Vitalidade; 2º - Permanência.

Daí o erro dos que julgam ser tão fácil extinguir o Integralismo como se fechou a Aliança Nacional Libertadora. O Integralismo está estruturado de tal forma, tudo foi estudado e previsto com tal precisão técnica, os cálculos foram feitos com tanta precaução, que o problema "homem" para nós não existe. Poderão prender, exilar todos os que atualmente ocupam cargos em nosso Movimento, e a linha da sucessão está de tal forma traçada, que a coisa continuará normalmente. Se fecham nossos Núcleos, como aconteceu em algumas Províncias, e se arrecadam nossos fichários, é tudo inútil, pois o sistema que adoptamos resiste à arrecadação de mil fichários. Se proíbem o uso da camisa-verde, se proíbem os distintivos, se proíbem as reuniões, temos os sinais pelos quais nos conhecemos.

Este Movimento tornou-se uma fatalidade irremovível. Fatalidade para o bem. Que desejamos nós? A Unidade Nacional, o combate ao comunismo, a criação de uma consciência espiritualista objetivando justiça social e grandeza da Pátria.

A Unidade Nacional é hoje uma gravíssima preocupação de todos nós integralistas. Ainda nesta reunião da Câmara dos Quarenta, tivemos oportunidade de focalizar esse problema.

Voltei vivamente entusiasmado da reunião a que presidi. Sinto o Integralismo mais do que nunca vivo, palpitante de entusiasmo, convencido de suas responsabilidades perante a Nação, certo de seu destino.

Que homens eram aqueles cuja reunião eu estava presidindo? Não eram políticos levianos, indivíduos apaixonados por partidarismos, cidadãos inexperientes: eram professores de Escolas Superiores, homens de grande passado e alta posição militar, representantes das Classes Conservadoras, cientistas, escritores, técnicos, da maior projeção no país.

Acaso uma mera politicagem os congregou em torno da minha mesa? Absolutamente não. Eles estavam penetrados das "razões da Pátria".

O grande e imortal secretário florentino dizia que era necessário aos Príncipes se deixarem penetrar das "razões do Estado". E isso, que o sonhador da unidade italiana dizia num sentido pessoal, que mais tarde um rei de França adotaria, nós tomamos, no interesse supremo do Brasil, com a firmeza e a capacidade de sacrifício sem as quais não se constroem as Nações.

Agimos em função de um pensamento político cuja base objetiva é a Unidade Nacional. Senti bem, na reunião que acabo de presidir, que todos estão penetrados das "razões da Pátria".

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 13 de Outubro de 1936.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O PROBLEMA DA UNIDADE NACIONAL (23/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

O PROBLEMA DA UNIDADE NACIONAL (23/10/1936)

PLÍNIO SALGADO



O problema da Unidade da Pátria é um problema de ordem política por excelência, e a sua solução deve ser procurada nas raízes das realidades nacionais.

Se me perguntam o que são essas "realidades nacionais", respondo facilmente:

- A burla da Democracia pela escravização prática dos Municípios teoricamente autônomos;

- burla da Soberania Nacional, pelo enfraquecimento sistemático do Exército e da Marinha endeusados em discursos e traídos nos preparativos bélicos de caráter regional;

- a burla do princípio federativo, pela franca, ostensiva prática de um confederacionismo que nos apresenta 21 justiças, 21 polícias, 21 instruções primárias, 21 arrecadações de impostos, 21 forças armadas, 21 critérios doutrinários, 21 bandeiras, e 21 hinos;

- a burla do próprio princípio da União Nacional, pelo desencadear da luta hegemônica dos Estados empenhados em conquistar a presidência da República;

- a burla dos pequenos Estados, transformados em satélites dos grandes, aos quais se escravizam, nos conchavos políticos precedentes às lutas pela hegemonia federal;

- a burla do liberalismo democrático pelo caráter secreto que as oligarquias estaduais dão a escolha do candidato à sucessão presidencial, não sendo o povo nem ouvido, nem consultado, nem ao menos avisado;

- a burla da lei de segurança nacional, pois todas as eleições presidenciais são acompanhadas de atos inequivocamente preparativos de revoluções armadas.

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A sustentação da Unidade da Pátria, só pode repousar:

1) - Na existência de uma corrente de opinião civil organizada, super-provincial, supervisionadora dos problemas gerais comuns às diferentes regiões do país;

2) - No prestígio que todos os brasileiros devem dar não apenas teórico e retórico, demagógico e discurseiro, ao Exército e à Marinha, cujas forças não devem encontrar concorrentes em eficiência bélica por parte das organizações provinciais, cujos efetivos hoje superam aos próprios efetivos das forças armadas da Nação;

3) - No fortalecimento máximo do Poder Político Central, na sua estabilidade e segurança, no respeito e obediência à sua orientação doutrinária e às normas práticas de um rumo nacional uniforme;

4) - No fortalecimento politico da célula municipal, cuja autonomia, até hoje, não passa de uma autonomia no papel, em consequência da ação ditatorial dos partidos situacionistas estaduais.

Não será possível a Unidade da Pátria:

1) – Se os governadores dos Estados arbitrariamente perseguirem e fecharem partidos nacionais que se organizem com o superior objetivo de manter uma consciência super-provincial em todo o país, partidos esses que funcionarem garantidos por um registro nacional e confiantes em uma autoridade nacional;

2) - Se os governadores dos Estados continuarem, como têm feito, desde a República, a se coligarem nas vésperas da sucessão quatrienal, preparando as lutas mais horrorosas, que quase sempre terminam em guerra fratricida;

- Se os governadores dos Estados cada vez mais escravizarem os Municípios, cuja autonomia praticamente não se pode exercer, em razão das demissões, nomeações e remoções de autoridades e funcionários, distribuição arbitrária e injusta de verbas orçamentarias, desmembramentos de territórios municipais e toda a sorte de compressão administrativa, fiscal e policial, em circunstâncias que colocam, nas mãos dos governadores "MASSAS BRUTAS" eleitorais inermes, despidas de qualquer independência de opinião, massas essas com que eles, os governadores, ameaçam o governo central e os próprios interesses da Unidade da Pátria.

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Evidente que estou aqui encarando somente aspecto político do problema. Pois temos ainda o aspecto espiritual, a aspecto econômico, o aspecto social.

O que é fora de duvida é que, com os poderes políticos excessivos que têm os governadores dos Estados, marchamos francamente para a desagregação nacional, para a ruína completa da Nação.

Que adianta pregar nacionalismo, quando os fatos estão demonstrando que o que existe no Brasil são estadualismos? A criança, o moço ouvem os belos discursos nacionalistas e, em seguida, em contato com a realidade, assistem aos fatos que desmentem o nacionalismo.

O Brasil marcha rapidamente para o separatismo. Devemos isso à politica dos governadores, à atrofia dos Municípios, à hipertrofia do poder dos Estados, à ditadura das oligarquias regionais, à mentira eleitoral, à transgressão da Constituição da República, ao desrespeito aos órgãos do Poder Judiciário, à nenhuma consideração ao Poder Central.

Essa é a realidade dura.

Só a negarão os loucos ou os interesseiros.

*

Eis a razão porque nós, integralistas, desfraldamos hoje a bandeira da Unidade Nacional.

Percebemos que, no caos dos espíritos, na confusão da hora presente, os campos estão se definindo.

Tomamos posição.

Tomamos posição pela Unidade da Pátria.

Sem ela não há Exercito, nem Marinha, mesmo quando haja discursos demagógicos de candidatos à presidência da República.

Sem ela não há nacionalismo, mesmo quando esse nacionalismo seja clarinado aos quatro ventos.

Sem ela não há ordem, pois a rebeldia dos governadores corresponde à desordem, ao desrespeito, e esse exemplo frutifica perniciosamente.

Sem ela não há liberdade, pois cada governador se torna um pequeno tirano.

Sem ela não há Segurança Nacional, pois a luta entre os Estados tem sido a invariável fonte das revoluções armadas.

Ou sustentamos a Unidade da Pátria, ou o país será lançado nas Iutas mais cruéis.

Já é tempo dos homens criarem juízo, depois de tantas revoluções ruinosas que infelicitaram o país.

Sem unidade da Pátria não se poderá nem dar combate ao comunismo. Se o comunismo é uno, se o Soviét. se apresenta em frente única, a Nação não poderá subsistir dividida em 21 pedaços.

A união dos brasileiros é o primeiro passo para a Defesa Nacional.

É o primeiro passo para a realização da verdadeira democracia e para a vigência da verdadeira liberdade.

Os meus adversários sabem perfeitamente qual é o meu pensamento político, o que pretendemos nós integralistas, como nos conduzimos. Fingem não perceber e sofismam. Esta campanha do Sigma ficará, porém, como um documento histórico.

A luta está lançada, dentro da Constituição e das leis do país.

Sei que as calúnias e os expedientes mais vis não faltarão como arma de combate ao patriotismo que encarnamos nesta hora.

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Não importa. Sejam quais forem as consequências desta atitude, gritarei daqui, diante, do Passado do Brasil, em face do Presente inquietante e contemplando o Futuro que me julgará:

Sou brasileiro, antes de tudo, e não conheço Estados diante da grandeza nacional. Não sou um destruidor da Democracia, porém um inimigo dos falsificadores da Democracia. Não quero a derrocada do regime, porém, a criação de órgãos de sua defesa e de forças para a sua manutenção. A roupa que dei aos Integralistas não é uma roupa estrangeira, porque a camisa é usada no Brasil, desde o Descobrimento; mas se fosse estrangeira, as Ideias que eu lhes dou são brasileiras. Muito mais brasileiras do que o Federalismo, que é americano, e a social democracia que veio de Weimar. O corporativismo já existia no tempo da Colônia, e para aqui se transportou com os primeiros colonizadores portugueses; o sufrágio universal, porém, veio da Inglaterra e da França e o Presidencialismo dos Estados Unidos, como o Parlamentarismo tinha vindo de Londres. Estas ideias do Integralismo são nossas, genuinamente nossas, e a sua originalidade é tão fascinante que certos governadores não trepidam em copiar nossa doutrina em suas plataformas presidenciais, evidenciando-se a falsificação na incongruência com que nos atacam e no fervor com que se apegam às prerrogativas de soberania política dos Estados. Percebo, em tudo isso, em todas estas falsificações, o despistamento que preludia a obra de separação dos brasileiros. Levanto a Bandeira do Nacionalismo dos escombros desta hora de ruínas Levanto a espirituais e morais, para clamar bem alto e com toda a consciência histórica: - PELA UNIDADE NACIONAL!

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA em 23 de Outubro de 1936.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

RUDIMENTOS DE LÓGICA (30/04/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

RUDIMENTOS DE LÓGICA (30/04/1936)

Plínio Salgado

A impressão que se colhe das perseguições desenvolvidas contra o Integralismo nas cidades mineiras é a de que o Governo daquele Estado teme perder as eleições municipais, a se realizarem no próximo mês de junho.

Os camisas-verdes estão vendo, suas sedes fechadas, em vários municípios de Minas Gerais. Se a logica ainda é logica, não nos podemos furtar ao seguinte raciocínio:

Só se persegue aquilo que representa um perigo para o perseguidor;

o Integralismo está sendo perseguido pelo Governo de Minas Gerais;

logo, o Integralismo representa um perigo para esse Governo.

Aceita essa conclusão, cumpre observar qual a espécie desse perigo: Só podem ser duas as espécies do perigo: o perigo de luta armada e o perigo eleitoral.

Vejamos se há o perigo de luta armada.

Cumpre perguntar: há interesse para o Integralismo em deflagrar uma revolução armada em Minas Gerais?

Para responder a esta pergunta, temos de formular outra: o Integralismo pretende apenas o governo de Minas, ou o de todo o Brasil?

Tratando-se de um partido registrado para âmbito nacional; tratando-se de um movimento que obedece a um Chefe Nacional; tratando-se de uma campanha que em seus repetidos manifestos e documentos proclama o objetivo de tomar para os camisas-verdes o governo total da Nação Brasileira, temos de responder: O Integralismo não se interessa, isoladamente pelo Governo de Minas, pois pretende para si o Governo da Nação.

Respondida essa pergunta, responde-se facilmente à outra, isto é, aquela que diz: há interesse para o Integralismo em deflagrar uma luta armada em Minas?

E respondemos da seguinte maneira: só haverá esse interesse no caso do Integralismo desencadear essa luta armada em todo o país, isto é, em todos os Estados, ao mesmo tempo.

Vejamos agora se o Integralismo está se preparando para luta armada nos outros Estados. Se estiver, então logicamente também estará fazendo a mesma coisa em Minas.

Como poderemos verificar a atuação do Integralismo nos outros Estados? Pelos únicos órgãos competentes para o fazer. Quais são esses órgãos competentes? As polícias estaduais.

Pois bem. Que dizem essas polícias? Articulam alguma acusação contra o Integralismo? Apontam fatos concretos? Possuem documentos nesse sentido? Efetuaram alguma prisão, como seria de seu dever?

Nada disso. Pelo contrário. A polícia, no caso a mais importante, a da capital da República, de- clara, não somente numa entrevista de seu chefe, o capitão Filinto Muller, mas ainda numa carta que este envia ao Integralismo e é publicada pelo órgão oficial do movimento, e é lida ao Rádio, declara que o. Integralismo está agindo de acordo com as leis e a Constituição.

Mais ainda: o próprio presidente da República, que deve estar segurissimamente informado por todas as polícias do país, afirma, numa entrevista à imprensa, que o Integralismo, na sua propaganda e métodos de ação, jamais se afastou da linha do cumprimento do dever perante a Constituição e as leis vigentes no país.

A corroborar essas asserções da mais alta autoridade policial da República e do máximo magistrado da Nação, temos a palavra dos juízes brasileiros, dos Tribunais Eleitorais Regionais, das Cortes de Apelação. Vitorioso em numerosos casos submetidos à apreciação da magistratura, o Integralismo evidencia-se como um movimento pacífico e ordeiro, agindo dentro das normas constitucionais e legais.

Fica, pois, exuberantemente provado que Integralismo não está conspirando, não esta preparando golpe de força em nenhum Estado do Brasil.

Ora, sendo esse momento nacional, objetivando o governo da República, pelos meios normais da democracia, isto e, por meio do voto, é logico que não o interessa tomar de assalto o governo de Minas. Seria obra até de anti-integralismo.

Se, portanto, os integralistas não estão preparando luta armada em Minas, resta a hipótese de que eles representam um perigo de natureza eleitoral.

Não representassem um perigo, o Governo não os perseguiria. Ninguém se preocupa com adversários inofensivos.

Fica, pois, muito feio para o Governo mineiro qualquer restrição à propaganda do Sigma nas cidades de Minas Gerais.

Isso significa que o Governo está com medo de perder as próximas eleições municipais em muitos lugares, onde as Prefeituras e as Câmaras irão fatalmente para as mãos dos camisas-verdes.

É bem possível que o chefe de Polícia de Belo Horizonte afirme que os núcleos integralistas não estão sendo fechados por ordem sua, mas pelos delegados de polícia locais, que agem à sua revelia. Mas, se o Governo de Minas se pronunciar assim, oferece ao país inteiro o triste espetáculo de uma insuficiência de autoridade.

Esses expedientes sempre foram muito usados pelos partidos situacionistas, antes da Revolução de 30. São métodos completamente desmoralizados, que não iludem nem a Justiça, representada pelos juízes e tribunais, nem a opinião pública, que mais ainda se revolta contra semelhantes manobras politiqueiras.

O Governo de Minas Gerais, se não quiser ficar numa posição inferior ao governo de São Pauto, por exemplo, que antes, durante e depois das eleições permitiu plena liberdade ao Integralismo, deverá imediatamente providenciar para que os núcleos integralistas se reabram, para que os camisas-verdes gozem de liberdade.

Ou o Governo faz isso, ou toda a Nação ficará sabendo que ele teme uma derrota eleitoral.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 30 de Abril de 1936.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

O verdadeiro nacionalismo (1954)

 

O verdadeiro nacionalismo (1954)

Plínio Salgado

Entre tantas outras palavras cujo sentido foi inteiramente deturpado, em nosso tempo, essa palavra “nacionalismo” é certamente a que sofreu a maior deturpação. Os intérpretes do nacionalismo fizeram dele um espelho de suas próprias paixões, de seus exageros e de suas insuficiências. Não o tomaram na sua realidade humana, como expressão de um culto pelo grupo natural constituído por frações da humanidade tipicamente diferenciadas. Uns o exaltaram a tal ponto que o tornaram um instrumento de opressão interna e de ameaça externa. Confundindo a Nação com o Estado, os teoristas alemães, a partir de Bluntschli, fizeram do nacionalismo um instrumento de absorção das pessoas humanas e dos outros grupos naturais em que as pessoas se agregam com o objetivo da defesa de seus direitos fundamentais; e confundindo a Nação e o Estado com a Raça, ou com uma ideologia de tendência imperialista, muitos pensadores, filósofos, juristas e homens públicos do nosso tempo transformaram o nacionalismo em constante ameaça contra os povos.

Considerando o nacionalismo sob esses aspectos, surgiram as reações dos que amam a liberdade do Homem e a paz alicerçada em bases jurídicas; mas esses incorreram no erro oposto, o que nos faz lembrar os primeiros tempos do Cristianismo, quando o combate a uma heresia se tornava, no curso polêmico da controvérsia, outra heresia e, às vezes, maior do que a da doutrina adversária.

O erro dos que combatem o nacionalismo exagerado, ou transvertido nas formas destruidoras do verdadeiro nacionalismo, consiste em condenar essa palavra, in limine, sem estabelecer distinções. E, assim procedendo, esses inimigos do nacionalismo desarmam os povos constituídos em grupos humanos nacionais, tirando-lhes a única arma com que se podem defender das agressões e da dominação do nacionalismo deturpado. Fazem, dessa maneira, o jogo do próprio adversário.

Existe ainda outro erro — e esse é o das mentalidades ignaras ou medíocres — que está em tomar o nacionalismo como sinônimo de xenofobia, de jacobinismo, de atitude de repulsa às nações estrangeiras. Esquecem-se de que o grupo natural que chamamos Nação constitui um meio pelo qual estabelecemos as relações comerciais, culturais, jurídicas e morais com os outros grupos nacionais em que se acha diferenciada a unidade humana. Esquecem-se de que, se a colaboração entre as Nações já se apresentava como uma realidade entrevista nos séculos XVI e XVII, por Francisco Vitória e por Grotius, muito mais hoje se impõe, primeiro pela internacionalização do comércio, que principiou a desenvolver-se de maneira acelerada, desde os albores do século XIX; depois pelo instrumental técnico do século XX, que liga os povos pelo avião, pelo rádio, pela televisão, finalmente pelo interconhecimento das condições econômicas, sociais e psicológicas, as quais, denunciando a identidade das aspirações, insinua a adoção de fórmulas solucionadoras de problemas comuns.

De tantos erros concluímos que a palavra nacionalismo precisa ser recolocada na sua verdadeira posição e na sua verdadeira significação.

* * *

Devemos ser nacionalistas? Sim; é a única resposta que cabe a um cristão, uma vez que sustenta o princípio da intangibilidade da pessoa humana e dos grupos naturais de que se servem as mesmas pessoas para defender seus direitos e cumprir seus deveres tendentes a um fim determinado por Deus. A Nação é um grupo natural, uma realidade histórica e social; nela se conjugam e se exprimem os outros grupos naturais. Acima dela, só a realidade — maior do que todas as outras — que é a Religião. Mas se nesta encontramos os princípios fundamentais da liberdade e da responsabilidade do Homem e a sustentação doutrinária da autonomia dos grupos naturais, a começar pela Família, que é o mais importante, então temos de aceitar a Nação e o nacionalismo, como um meio de defesa e garantia de sobrevivência dos direitos individuais e grupais. Combater o nacionalismo é desarmar os grupos naturais e o próprio Homem dos meios materiais, jurídicos e internacionais de sua permanência e intangibilidade. É, ao mesmo tempo, insurgir-se contra a lei de Deus, que diferenciou a unidade humana em expressões particulares, segundo condições geográficas, climáticas, econômicas, culturais, idiomáticas, históricas e temperamentais, o que fez evidentemente para algum fim, o qual não pode ser outro senão a própria defesa do Homem e dos Grupos Naturais, em consequência do equilíbrio de forças pela qual se impede a escravização universal dos seres humanos a uma só potência, que poderá ser inimiga de Deus.

Esse nacionalismo cristão deve ser cultuado. Sem ele não nos defenderemos do cruel materialismo que ameaça o mundo. Esse nacionalismo não deve ser nem exagerado nem superficial. Equilibrado e profundo, justo e lúcido, ele refletirá a perso­nalidade de uma Pátria, constituída pelo conjunto das perso­nalidades congregadas no grupo nacional.

SALGADO, Plínio. Mensagem às pedras do deserto. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, [1954]; transcrito integralmente das páginas 102, 103 e 104.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

As duas faces de Satanás (1937)

 

As duas faces de Satanás (1937)

Plínio Salgado

O comunismo não é uma causa: é um sintoma. O mal não é o comunismo em si, porém as causas que geram o comunismo.

O comunismo, por consequência, não se acaba com violências, com opressões e fuzilamentos: acaba-se com a extinção das fontes de que ele provém.

É preciso encararmos o comunismo sob os dois aspectos pelos quais ele se apresenta: o intelectual e o moral.

Sob o aspecto intelectual, o comunismo só pode ser combatido, eficientemente, pela crítica, pelas ideias, no livro, na tribuna, na imprensa. Sob o ponto de vista moral, o comunismo só pode ser combatido pelas medidas que melhorem o sofrimento da massa e pelos exemplos de virtude.

Tanto o estado de espírito do intelectual como o estado de espírito do inculto, porém, sentimental, só podem ser substituídos por uma nova concepção da vida.

Será, porém, inútil, tanto a ação do pensamento como a ação do sentimento, se ela não for prestigiada pelo exemplo.

Estancar as fontes do comunismo, - eis o nosso trabalho.

* * *

Onde estão as fontes do comunismo?

No materialismo burguês.

Com que autoridade moral um materialista pode declarar-se inimigo do comunismo?

Sua atitude reacionária só consegue irritar ainda mais os humildes, os infelizes. Seu ódio anima o ódio dos contaminados pelo bolchevismo. Seus instintos sanguinários não fazem mais do que acender mais ao vivo as cóleras da multidão.

É muito comum hoje em dia escutar-se o burguês dizer: “Qual nada! O que o Governo devia fazer era fuzilar logo esses comunistas!”

A gente olha para o burguês. Está bem vestido, com o charuto na boca, acaba de descer o elevador do Jockey Clube, onde levou duas horas almoçando numa roda de elegante. Daqui a pouco, vai ter um encontro com uma mulher que não é a sua, no “hall” do Palace. Esta manhã esteve na praia, seminu, fazendo conquistas frinéias familiares. Tem uma renda farta. Vive à tripa forra. Sabe de numerosos casos de adultérios galantes e de cavações reles. E tem muita raiva dos comunistas. “Oh! O governo devia fuzilar essa caterva!”

O nosso homem vota um desprezo profundo pelos humildes. Essa gente, para ele, cheira a cebola e a suor. Grita com os criados, maltrata os garçons. Faz o maior pouco caso do estudante pobre, dos caixeiros, do soldado heroico, daqueles que guardam a sua casa, como cães de fila. Caçoa do brasileiro do sertão, que trabalha para sustentar o luxo das capitais. E, quando esse nédio burguês ouve falar em comunismo, logo diz: “Basta a polícia! “É meter-lhes as patas do cavalo, é varrê-los a metralhadora”.

* * *

Não. O comunismo não se combate assim. O burguês está enganado. Já se enganou desse modo na Espanha; está se enganando na França, como está se enganando no Brasil.

O comunismo é apenas um sintoma do materialismo grosseiro de que o burguês é a fonte originária.

O operário não quer mais acreditar em Deus? Mas quem foi que ensinou o operário a negar a Deus? Foi o burguês. O burguês que acha muito boa a religião para os velhos, os proletários, as crianças e as mulheres.

O nédio burguês é ateu, e não respeita a família, e não liga a Pátria. Leva uma vida de macaco, só pensando em prazeres, com o nariz a cheirar rabos de saia, os fundilhos alisados pelas poltronas e pelos almofadões dos carros de raça. Sua preocupação constante é o pano verde, a “garçonnière”, as paixões criminosas, a esperteza nos negócios.

Convém, para ele, que o operário seja religioso, porque assim não incomoda com rebeliões e desesperos. Convém que a esposa também o seja, porque assim se conforma com as suas ridículas atitudes de galo velho. Convém que as crianças também o sejam, para não darem trabalho com desobediências.

É assim o burguês. Para ele, a Pátria é coisa muito boa, porque a Pátria para ele não são os milhões de brasileiros que sofrem, porém, os soldados de polícia e os agentes de segurança, os investigadores e as metralhadoras. Isso é que é a Pátria, a Nação, para ele. Mas nem isso ele defende, porque é comodista. Deixa essa tarefa, a nós, camisas verdes, ao Exército Nacional, à Polícia, ao Governo. Ele materialista e gozador, não dá um passo. Exige, apenas, que não poupemos o comunista.

O Exército, diz o burguês, deve ser disciplinado, não se metendo em política. No íntimo o burguês materialista está convencido de o Exército existe para que ele, em plena segurança, possa conquistar e deflorar a filha do operário; para que ele possa refestelar-se no seu pijama de seda; possa atropelar com o seu automóvel o mísero velhinho ou a inocente criança que tiveram a petulância de se pôr à frente da sua máquina possante. Lá no fundo de seu coração empedernido, ele pensa que o Governo, o Chefe de Polícia, os militares, os camisas verdes, devem ser seus capangas, seus criados dóceis.

Estão muito enganados, os burgueses. O que, nós, integralistas, combatemos, em primeiro lugar, é o materialismo, o sensualismo, a grosseria dos sentimentos, o domínio dos instintos. Sem combater isso, como combateremos o comunismo?

* * *

Pois se o operário olha para o burguês e vê que ele, em todas as suas atitudes, proclama que a vida do homem acaba neste mundo; e se o burguês é o homem que sabe, que leu, que estudou; e se é com ele que o operário aprende, é lógico que o operário ficará sendo materialista, deseja ser também um bruto, um gozador e como não tem recursos, adere a uma doutrina que lhe diz: “O céu e o inferno são aqui mesmo: tratemos pois de gozar a vida tomando tudo dos burgueses!”

A filha do operário que se prostitui, levada na baratinha do burguezote, foi seduzida, primeiro, pelo luxo da burguesinha e pela opulência da burguesona. Os homens brutais, empolgados pelo instinto, que premeditam o assalto às famílias dos burgueses, para saciar a sua lascívia animalesca, não fazem mais do que imitar, de modo violento e cruel, o burguês que assaltou habilidosamente a casa do proletário, desonrando-lhe a filha.

É que o operário é uma obra do burguês. O burguês fez o operário à imagem e semelhança. A criatura agora se revolta contra o criador. Nada mais lógico, porque o burguês também se revoltou contra Deus, quando adotou um método de vida tão contrário aos mandamentos do Senhor.

O burguês é violento? O operário também o é. O burguês é lascivo? O operário também o é. O burguês é comodista, indiferente à Pátria? O operário também afirma que a Pátria é o estômago.

O burguês é cosmopolita? O operário é internacionalista. No fundo, são a mesma coisa.

Se o comunista prega o amor livre? Mas, o burguês, de há muito, já vive em poligamia.

O comunismo prega a destruição das religiões? Mas, o burguês, de há muito, está caçoando de todas as religiões.

O comunismo quer matar, trucidar? Mas o burguês também exige fuzilamentos.

Os comunistas não têm pena das famílias dos burgueses? E os burgueses terão pena das famílias infelizes, paupérrimas, deste país?

* * *

Burgueses! Eu e os camisas verdes viemos para vos salvar e salvar vossas famílias!

Burgueses! Eu vos chamo, em nome de Deus e da Pátria!

Vinde enquanto é tempo! Nós, integralistas, não vos odiamos quando dizemos estas verdades, que precisais ouvir, porque o Senhor, na sua infinita bondade, permitiu que alguém vos dissesse o que nunca ouvistes de ninguém, porque todos os que vos rodeavam eram hipócritas e não vos amavam.

Nós, camisas verdes, amamos profundamente o operário, como vos amamos também, burgueses, porque vós que oprimis com crueldade e eles, que rugem de cólera contra vós, todos sois brasileiros e sois humanos, e este Movimento Integralista é da Pátria e se anima de sentimentos de humanidade.

Nunca alguém disse ao operário e ao burguês esta palavra dura, que irrita, que queima, porém que desvenda os segredos profundos das desgraças atuais em todo o Universo.

Abrandai vosso coração de pedra; aplacai vossos instintos; elevai vosso espírito e vinde dar combate à fonte do comunismo, para que o comunismo se acabe.

* * *

Satanás veste sempre duas máscaras: a máscara da dor e a máscara do prazer. Quando o homem sofre, Satanás é a revolta, o desespero; quando o homem goza, Satanás é a voluptuosidade, a luxúria.

Satanás veste os andrajos da miséria para sacudir os punhos fechados, na saudação bolchevista. Satanás veste seda e enfeita-se de joias, para sorrir com indiferença e desprezo sobre o sofrimento dos humildes.

Satanás é o comunista que assassina à traição. Satanás é o homem rico e feliz, que assiste a esse crime, e sorri.

Satanás é a revolta das hetairas nos cubículos do Mangue. Satanás é a alegria triunfante dos “flirts” adulterinos das rodas elegantes.

Satanás é a indiferença, o comodismo, o ceticismo, a negação, a ruína de uma Pátria.

Ele se apoderou de vós burgueses, como se apoderou de muitos proletários. Ele entrou nos quartéis, é bem verdade. Mas, antes de entrar nas casernas, ele já havia entrado nos vossos salões, entre frases elegantes e costumes fáceis.

Urge que caminheis para nós.

Urge que vos salveis, burgueses.

Porque, de agora para sempre, já não podereis alegar ao Supremo Juiz que não ouvistes a verdade, que não apareceu alguém que afrontasse uma sociedade inteira para lhe lançar ao rosto seus crimes, enquanto é tempo de se evitar o castigo.

* * *

Na Família, pela Pátria, para Deus.

Mas que estas palavras não sejam apenas palavras. Que estas palavras sejam sacrifício e realidade profunda dos corações e das almas. Eis a grande, a única batalha contra o comunismo.

Eu acendi esta luz verde para mostrar na treva da hora presente o caminho por onde devereis passar, para não cairdes no precipício.

Há também as lâmpadas vermelhas, pelas quais vos estais guiando.

Não podereis dizer um dia que não tive o cuidado de iluminar todo o Brasil com as verdes lanternas humanas que evitam a queda nos profundos abismos.

SALGADO, Plínio. Páginas de Combate. Rio de Janeiro: Livraria H. Antunes, 1937; transcrito integralmente da pág. 07 até a pág. 16.

O Maior dos Comunistas (1954)

 

O Maior dos Comunistas (1954)

Plínio Salgado

O maior dos comunistas não pertence ao Comintern ou ao Cominform, ao Consomol ou a outras organizações do partido de Lênin. O maior dos comunistas não pertence sequer às linhas auxiliares que abrem carta de crédito à propaganda marxista e cobrem com sua aparente ingenuidade as manobras do imperialismo vermelho. O maior dos comunistas nunca foi a um Congresso de Viena, nunca assinou o apelo de Estocolmo, nunca tomou parte nas manifestações coletivas pró “petróleo é nosso” ou contra o acordo militar Brasil-Estados Unidos. O maior dos comunistas nunca editou, nem assinou, nem comprou nas bancas um desses vinte e tantos diários que a Rússia mantém em nosso País. O maior dos comunistas nunca fez agitações de rua, nunca interveio nas greves, nunca se preocupou em atacar pela palavra ou pela escrita os governos ou as chamadas classes conservadoras. Mas, apesar de todas essas negativas, é hoje, como foi sempre e como continuará a ser, o maior, o mais eficiente de quantos comunistas andam pelo mundo pregando a doutrina de Marx e a técnica de Lênin.

Porque o maior dos comunistas do mundo é o Espírito Capitalista. Não direi o Capitalismo, que é um sistema econômico, uma tese a ser discutida em capítulo separado. Refiro-me aqui aos fatores psicológicos, que desabrocham do sistema e constituem um estado de alma, uma forma de mentalidade, traduzindo-se em atitudes e ações deletérias cujos efeitos são a dissolvência, a decomposição disso que nos habituamos a denominar Civilização Ocidental ou — por suprema ironia — Civilização Cristã.

* * *

O Espírito Capitalista é o espírito do lucro. Do lucro pelo lucro. Do lucro que se hipertrofiou enriquecendo-se com o adjetivo “extraordinário” que encobre o adjetivo “ilícito”. Do lucro que manobra a grande engrenagem chamada “especulação”. Do lucro que intervém nos costumes da sociedade e interfere no próprio seio das famílias, atacando na raiz a estabi¬lidade econômica dos lares.

O Capitalismo (sistema econômico) adquirindo essa alma tenebrosa, a alma do senhor Grandet, fotografada e filmada pelo gênio de Balzac, tratou de criar, na grande massa dos consumidores de mercadorias, a psicologia específica das filhas do Pai Goriot, outro personagem do grande cronista da Comédia Humana. É a psicologia da “despesa”, subordinada ao imperativo da “moda” e, pouco a pouco, transformada em psicologia da prodigalidade, do esbanjamento, do luxo, da ostentação, dos supremos confortos, das elegâncias, das distinções superfinas.

Criada pelo Capitalismo essa psicologia dos compradores, que domina desde os mais ricos aos remediados e desde estes aos pobres, e lançado o desespero nas classes média e submédia, sequiosas por ostentar os mesmos padrões de vida dos abas¬tados, o Capitalismo pôde vender uma infinidade de artefatos, de instrumentos, de máquinas, de objetos domésticos, não se falando no dilúvio de automóveis, de aparelhos de rádio e televisão, mobiliário variadíssimo e de todos os estilos, tapeçarias, não se falando em roupas masculinas e femininas, peles, perfumes, joias e quinquilharias.

A técnica moderna facultou ao Capitalismo a produção em série dos mais variados produtos e a sua propaganda assoberbante, asfixiante, pelas emissoras de som e de imagens, pelos jornais e revistas, pelos cartazes, pela policromia dos impressos mais-sugestivos.

Mas como, apesar de dominar completamente as multidões compradoras, o Capitalismo precisa vender mais, para lograr mais lucros, o grande comunista (o maior de todos) utiliza-se desse agente despótico e tiranizante que se chama “a moda”. Assim, em primeiro lugar, cria-se a hierarquia dos ídolos modernos. Existem automóveis para todos os preços, desde o de alta grã-finagem até ao de reles exercício funcional, para burocratas e empregados de segunda, terceira e quarta categorias. O desespero dos compradores está na aspiração de serem promovidos de um “jeep” a um chevrolet, de um chevrolet a um dodge, de um dodge a um cadillac. Cada possuidor de um carro se julga o mais infeliz dos homens olhando o carro de outro que traz marca mais nobre e custa mais caro do que o seu.

Do mesmo modo, nessa estúpida hierarquia dos valores sociais, os que possuem aparelhos de rádio, de televisão, vitrolas, geladeiras, aspiradores de pó, máquinas de lavar roupas, enceradeiras elétricas de preços inferiores aos dos seus vizinhos, vivem num estado de permanente neurastenia, tendo-se em conta de deserdados da fortuna, maldizendo os pais que lhes não deixaram herança, os governos ou as empresas particulares que não lhes pagam “o suficiente”, e maldizendo a si mesmos porque não foram capazes de “dar golpes”, e arquitetar negociatas, mercê das quais pudessem ombrear com aqueles e aquelas que aparecem resplendentes nas páginas das revistas da sociedade em fotos impressas sobre papel couchê.

* * *

Verificando, entretanto, o Capitalismo que, mesmo subjugando as multidões de compradores às quais impinge as séries de seus produtos, ainda precisa vender mais, adota duas providências: 1°) - O mesmo carro, a mesma máquina, são lançados cada ano em novo tipo. A diferença está às vezes num parafuso, numa alavanca, num vidro, num pequeno pormenor. O possuidor do tipo 1953 tem vergonha de se apresentar diante do possuidor do tipo 1954. O dono do tipo 1952 sente-se extremamente diminuído. Os dos anos anteriores sofrem na carne uma dessas dores só comparáveis às do homem cuja mulher prevaricou ou cujo filho deu desfalque num Banco. Não há maior degradação, maior prova de decadência do que usar em 1954 alguma máquina de 1944. E temos, assim, novas corridas atrás de novos tipos, novos desesperos, novas promissórias descontadas, novos subornos, novas roubalheiras para um indivíduo não ficar desonrado em face de uma sociedade que só dá valor aos apêndices mecânicos e indumentárias do homem, e nunca ao Homem-Homem, ao Ser Racional, à criatura de Deus, cuja medida do quilate, do peso específico, deve estar na sua capacidade de honradez, de trabalho, de modéstia e de espiritualidade. 2°) - O material empregado nas máquinas, nos artefatos, nos instrumentos diversos deve ser de pouca duração. A sua resistência é calculada para um prazo que obrigue a nova compra. O principal é vender. Cumpre ainda — e isto é o mais importante para o Capitalismo — criar uma psicologia de esbanjamento. Essa é facilitada nas épocas de inflação, de desvalorização, dia a dia, da moeda de um país de economia desorganizada. Gastar, e gastar o mais possível, eis o que o Capitalismo impõe aos seus vassalos, chamados compradores. Que vale um boi para quem tem sete fazendas? As sete fazendas são para os menos desonestos, sete promissórias ou sete “papagaios” dependurados, e para os menos honestos, sete negociatas, ou sete subornos, ou sete gorjetas, numa palavra: sete patifarias.

O Capitalismo, adquirindo a alma negra de Shilok, de Harpagão, de Grandet, coloca na mesma balança o sábio e o argentário, o santo e o grã-fino, o herói e o especulador. O Capitalismo subverteu a ordem do mundo. E como tudo se subordina às coisas materiais, com ausência total da beleza e da grandeza dos padrões da vida simples, as massas humanas, adotando igual critério, clamam, com absoluta lógica, e perfeito espírito de justiça (dentro do materialismo dominante) pela subversão de uma ordem social de monstruosas desigualdades, em que muitíssimos gastam numa noite o que alimentaria uma família num ano, ou despendem num quadro futurista idiota ou num vestido de baile aquilo que resolveria o problema de muitos desgraçados.

Não falamos ainda — o que poderá ser objeto de um capítulo especial, nas mil formas de especulação do Espírito Capitalista, entre as quais a especulação imobiliária. Os preços dos aluguéis das casas e apartamentos são astronômicos. Isso obriga famílias numerosas a habitar em cubículos sem ar (é preciso aproveitar o espaço para o capital render…) e numa promiscuidade como aquelas descritas por Zola no Germinal e pelos que fizeram narrativas a respeito da vida russa sob o bolchevismo, entre as quais o acúmulo de habitantes num mesmo quarto ou casa.

Quer dizer que o Capitalismo está fazendo a mesma coisa que faz o Comunismo na Rússia… As classes média e sub-média, comprimidas pelos preços dos aluguéis, procuram adquirir uma moradia, pagando uma prestação mais ou menos equivalente ao aluguel dos cubículos onde moram. Então, encontram dois tipos de apartamentos: os de preço superior a um milhão de cruzeiros, onde afinal a família se comprimiria; e os constituídos por uma sala, um quarto e uma limitadíssima cozinha.

O Capitalismo constrói para “garçonnières”. A hipocrisia fechou o degradante comércio da prostituição, mas facilitou as transações sexuais multiplicando o número de apartamentos onde cavalheiros podem repousar algumas horas como se estivessem na ilha de Cítera, de sorte que os pais de família, acumulando-se com os filhos e filhas, como sardinhas em lata, contam com ótima vizinhança, cujas relações podem ser utilís-simas para desencaminhar mocinhas de colégios ou de repartições e para mostrar aos rapazes como é que as coisas se fazem…

O tema exige muitas páginas. Paremos, por agora, nestas considerações, diante das quais pergunto aos meus leitores: existe algum comunista que seja mais comunista do que o Capitalismo, neste mundo ocidental que se está decompondo aceleradamente?

SALGADO, Plínio. Mensagem às pedras do deserto. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, [1954]; transcrito integralmente das páginas 35, 36, 37 e 38.