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quarta-feira, 8 de maio de 2024

As duas faces de Satanás (1937)

 

As duas faces de Satanás (1937)

Plínio Salgado

O comunismo não é uma causa: é um sintoma. O mal não é o comunismo em si, porém as causas que geram o comunismo.

O comunismo, por consequência, não se acaba com violências, com opressões e fuzilamentos: acaba-se com a extinção das fontes de que ele provém.

É preciso encararmos o comunismo sob os dois aspectos pelos quais ele se apresenta: o intelectual e o moral.

Sob o aspecto intelectual, o comunismo só pode ser combatido, eficientemente, pela crítica, pelas ideias, no livro, na tribuna, na imprensa. Sob o ponto de vista moral, o comunismo só pode ser combatido pelas medidas que melhorem o sofrimento da massa e pelos exemplos de virtude.

Tanto o estado de espírito do intelectual como o estado de espírito do inculto, porém, sentimental, só podem ser substituídos por uma nova concepção da vida.

Será, porém, inútil, tanto a ação do pensamento como a ação do sentimento, se ela não for prestigiada pelo exemplo.

Estancar as fontes do comunismo, - eis o nosso trabalho.

* * *

Onde estão as fontes do comunismo?

No materialismo burguês.

Com que autoridade moral um materialista pode declarar-se inimigo do comunismo?

Sua atitude reacionária só consegue irritar ainda mais os humildes, os infelizes. Seu ódio anima o ódio dos contaminados pelo bolchevismo. Seus instintos sanguinários não fazem mais do que acender mais ao vivo as cóleras da multidão.

É muito comum hoje em dia escutar-se o burguês dizer: “Qual nada! O que o Governo devia fazer era fuzilar logo esses comunistas!”

A gente olha para o burguês. Está bem vestido, com o charuto na boca, acaba de descer o elevador do Jockey Clube, onde levou duas horas almoçando numa roda de elegante. Daqui a pouco, vai ter um encontro com uma mulher que não é a sua, no “hall” do Palace. Esta manhã esteve na praia, seminu, fazendo conquistas frinéias familiares. Tem uma renda farta. Vive à tripa forra. Sabe de numerosos casos de adultérios galantes e de cavações reles. E tem muita raiva dos comunistas. “Oh! O governo devia fuzilar essa caterva!”

O nosso homem vota um desprezo profundo pelos humildes. Essa gente, para ele, cheira a cebola e a suor. Grita com os criados, maltrata os garçons. Faz o maior pouco caso do estudante pobre, dos caixeiros, do soldado heroico, daqueles que guardam a sua casa, como cães de fila. Caçoa do brasileiro do sertão, que trabalha para sustentar o luxo das capitais. E, quando esse nédio burguês ouve falar em comunismo, logo diz: “Basta a polícia! “É meter-lhes as patas do cavalo, é varrê-los a metralhadora”.

* * *

Não. O comunismo não se combate assim. O burguês está enganado. Já se enganou desse modo na Espanha; está se enganando na França, como está se enganando no Brasil.

O comunismo é apenas um sintoma do materialismo grosseiro de que o burguês é a fonte originária.

O operário não quer mais acreditar em Deus? Mas quem foi que ensinou o operário a negar a Deus? Foi o burguês. O burguês que acha muito boa a religião para os velhos, os proletários, as crianças e as mulheres.

O nédio burguês é ateu, e não respeita a família, e não liga a Pátria. Leva uma vida de macaco, só pensando em prazeres, com o nariz a cheirar rabos de saia, os fundilhos alisados pelas poltronas e pelos almofadões dos carros de raça. Sua preocupação constante é o pano verde, a “garçonnière”, as paixões criminosas, a esperteza nos negócios.

Convém, para ele, que o operário seja religioso, porque assim não incomoda com rebeliões e desesperos. Convém que a esposa também o seja, porque assim se conforma com as suas ridículas atitudes de galo velho. Convém que as crianças também o sejam, para não darem trabalho com desobediências.

É assim o burguês. Para ele, a Pátria é coisa muito boa, porque a Pátria para ele não são os milhões de brasileiros que sofrem, porém, os soldados de polícia e os agentes de segurança, os investigadores e as metralhadoras. Isso é que é a Pátria, a Nação, para ele. Mas nem isso ele defende, porque é comodista. Deixa essa tarefa, a nós, camisas verdes, ao Exército Nacional, à Polícia, ao Governo. Ele materialista e gozador, não dá um passo. Exige, apenas, que não poupemos o comunista.

O Exército, diz o burguês, deve ser disciplinado, não se metendo em política. No íntimo o burguês materialista está convencido de o Exército existe para que ele, em plena segurança, possa conquistar e deflorar a filha do operário; para que ele possa refestelar-se no seu pijama de seda; possa atropelar com o seu automóvel o mísero velhinho ou a inocente criança que tiveram a petulância de se pôr à frente da sua máquina possante. Lá no fundo de seu coração empedernido, ele pensa que o Governo, o Chefe de Polícia, os militares, os camisas verdes, devem ser seus capangas, seus criados dóceis.

Estão muito enganados, os burgueses. O que, nós, integralistas, combatemos, em primeiro lugar, é o materialismo, o sensualismo, a grosseria dos sentimentos, o domínio dos instintos. Sem combater isso, como combateremos o comunismo?

* * *

Pois se o operário olha para o burguês e vê que ele, em todas as suas atitudes, proclama que a vida do homem acaba neste mundo; e se o burguês é o homem que sabe, que leu, que estudou; e se é com ele que o operário aprende, é lógico que o operário ficará sendo materialista, deseja ser também um bruto, um gozador e como não tem recursos, adere a uma doutrina que lhe diz: “O céu e o inferno são aqui mesmo: tratemos pois de gozar a vida tomando tudo dos burgueses!”

A filha do operário que se prostitui, levada na baratinha do burguezote, foi seduzida, primeiro, pelo luxo da burguesinha e pela opulência da burguesona. Os homens brutais, empolgados pelo instinto, que premeditam o assalto às famílias dos burgueses, para saciar a sua lascívia animalesca, não fazem mais do que imitar, de modo violento e cruel, o burguês que assaltou habilidosamente a casa do proletário, desonrando-lhe a filha.

É que o operário é uma obra do burguês. O burguês fez o operário à imagem e semelhança. A criatura agora se revolta contra o criador. Nada mais lógico, porque o burguês também se revoltou contra Deus, quando adotou um método de vida tão contrário aos mandamentos do Senhor.

O burguês é violento? O operário também o é. O burguês é lascivo? O operário também o é. O burguês é comodista, indiferente à Pátria? O operário também afirma que a Pátria é o estômago.

O burguês é cosmopolita? O operário é internacionalista. No fundo, são a mesma coisa.

Se o comunista prega o amor livre? Mas, o burguês, de há muito, já vive em poligamia.

O comunismo prega a destruição das religiões? Mas, o burguês, de há muito, está caçoando de todas as religiões.

O comunismo quer matar, trucidar? Mas o burguês também exige fuzilamentos.

Os comunistas não têm pena das famílias dos burgueses? E os burgueses terão pena das famílias infelizes, paupérrimas, deste país?

* * *

Burgueses! Eu e os camisas verdes viemos para vos salvar e salvar vossas famílias!

Burgueses! Eu vos chamo, em nome de Deus e da Pátria!

Vinde enquanto é tempo! Nós, integralistas, não vos odiamos quando dizemos estas verdades, que precisais ouvir, porque o Senhor, na sua infinita bondade, permitiu que alguém vos dissesse o que nunca ouvistes de ninguém, porque todos os que vos rodeavam eram hipócritas e não vos amavam.

Nós, camisas verdes, amamos profundamente o operário, como vos amamos também, burgueses, porque vós que oprimis com crueldade e eles, que rugem de cólera contra vós, todos sois brasileiros e sois humanos, e este Movimento Integralista é da Pátria e se anima de sentimentos de humanidade.

Nunca alguém disse ao operário e ao burguês esta palavra dura, que irrita, que queima, porém que desvenda os segredos profundos das desgraças atuais em todo o Universo.

Abrandai vosso coração de pedra; aplacai vossos instintos; elevai vosso espírito e vinde dar combate à fonte do comunismo, para que o comunismo se acabe.

* * *

Satanás veste sempre duas máscaras: a máscara da dor e a máscara do prazer. Quando o homem sofre, Satanás é a revolta, o desespero; quando o homem goza, Satanás é a voluptuosidade, a luxúria.

Satanás veste os andrajos da miséria para sacudir os punhos fechados, na saudação bolchevista. Satanás veste seda e enfeita-se de joias, para sorrir com indiferença e desprezo sobre o sofrimento dos humildes.

Satanás é o comunista que assassina à traição. Satanás é o homem rico e feliz, que assiste a esse crime, e sorri.

Satanás é a revolta das hetairas nos cubículos do Mangue. Satanás é a alegria triunfante dos “flirts” adulterinos das rodas elegantes.

Satanás é a indiferença, o comodismo, o ceticismo, a negação, a ruína de uma Pátria.

Ele se apoderou de vós burgueses, como se apoderou de muitos proletários. Ele entrou nos quartéis, é bem verdade. Mas, antes de entrar nas casernas, ele já havia entrado nos vossos salões, entre frases elegantes e costumes fáceis.

Urge que caminheis para nós.

Urge que vos salveis, burgueses.

Porque, de agora para sempre, já não podereis alegar ao Supremo Juiz que não ouvistes a verdade, que não apareceu alguém que afrontasse uma sociedade inteira para lhe lançar ao rosto seus crimes, enquanto é tempo de se evitar o castigo.

* * *

Na Família, pela Pátria, para Deus.

Mas que estas palavras não sejam apenas palavras. Que estas palavras sejam sacrifício e realidade profunda dos corações e das almas. Eis a grande, a única batalha contra o comunismo.

Eu acendi esta luz verde para mostrar na treva da hora presente o caminho por onde devereis passar, para não cairdes no precipício.

Há também as lâmpadas vermelhas, pelas quais vos estais guiando.

Não podereis dizer um dia que não tive o cuidado de iluminar todo o Brasil com as verdes lanternas humanas que evitam a queda nos profundos abismos.

SALGADO, Plínio. Páginas de Combate. Rio de Janeiro: Livraria H. Antunes, 1937; transcrito integralmente da pág. 07 até a pág. 16.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Homo Ridibundus (excerto de Fênix e suas Cinzas) (1949)


Plínio Salgado

(...) Será um documento impressionante e trágico da nossa época a galeria dos retratos dos estadistas, dos cientistas, dos homens de negócio, dos escritores, a arreganhar os dentes em risadas nevróticas.

Nunca, em nenhum período da História, os Homens de Estado, ou as personalidades de maior projeção no seu tempo nos apresentaram seus retratos a dar risadas. Corra-se a galeria dos   generais, senadores, escritores, reis, imperadores, da Assíria, da Pérsia, do Egito, da Grécia, de Roma; percorra-se a fila dos filósofos, dos poetas, dos guerreiros, dos reis da Idade Média; examinem-se as fisionomias dos grandes vultos da Renascença, dos séculos XVII, XVIII e XIX: nenhuma estátua, pintura ou mais recentemente fotografia nos mostra essas personagens rindo.

Não estamos condenando o riso, porque em muitos casos é a expressão saudável do espírito. O riso revela os mais variados estados de alma. Manifesta-se na suavidade dos puros afetos, na irreprimível hilaridade, na fina ironia, no repulsivo sarcasmo, até na expansão do ódio e da cólera. É espelho de sentimento e revelação de temperamentos. Não é o riso, em si, que nos causa estranheza.

O que nos espanta é verificar que, no século mais trágico da história, no século em que se destrói, com uma só explosão, uma cidade inteira , como Hiroshima, e posteriormente Nagasaki; no século em que os bombardeios aéreos arrasaram monumentos e populações na Europa; no século em que mais de trinta milhões de seres humanos gemem no trabalho escravo dos campos de concentração da Rússia Soviética; no século em que a luta do homem contra o homem assumiu proporções nunca anteriormente conhecidas, seja justamente neste século que Roosevelt tenha inaugurado e os demais homens públicos e estadistas tenham adotado o costume de tirar retratos na plenitude das gargalhadas...

Os faraós do Egito costumavam mostrar-se ao povo, nas grandes solenidades, com máscaras  de ouro, onde os traços fisionômicos eram graves e sérios, como a revelar que, acima dos lineamentos humanos do rosto, devia estar a expressão da responsabilidade e do dever, inspirados num senso moral tão definido, que suas linhas não sofrem a mobilidade das paixões, antes se conservam serenas e impassíveis ainda quando o Rei, como ser humano, esteja sujeito aos impulsos de sua condição pessoal.

Depois de tantos séculos decorridos, os estadistas  riem. Riem sobre as desgraças do seu tempo.

Sim; é o Homo Ridiculus, ou o Homo Ridibundus, que se fez jogral e adotou as atitudes dos fonâmbulos e palhaços para fugir à realidade da História.(...).
_________________
SALGADO, Plínio. O Ritmo da História. 2ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, [s.d.]. Transcrito das páginas 30 e 31.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Mulher Nua (1948)


Plínio Salgado

Uma revista, dessas que exibem o nu artístico às donzelas casadouras e às meninas da Primeira Comunhão, publicou há dias, numa página inteira, a foto sugestiva de uma garota carnavalesca em trajes de Eva, com uma serpente de flores enroscada no alvo torço de Frinéia ondulante no ritmo do samba, como Afrodite a sair da concha do Mar Egeu.

A legenda participava aos leitores que a esplêndida ninfa - não sem os protestos gerais dos foliões - fora expulsa do Teatro Municipal pelo fato de erigir-se, naquele pudico e recatado ambiente de virtudes burguesas, como uma nota viva de escândalo a ferir a sensibilidade castíssima da grã-finagem carioca.

Vendo-se assim repelida pelas tradicionais virtudes da raça e pelos incontestáveis sentimentos cristãos que animam os folguedos de Momo nos três dias das bacanais e saturnais em que desafogam seu tédio as famílias, a sílfide resolveu sair, mas sair dançando. E de tal forma se portou nos movimentos coreográficos da retirada estratégica, desmanchando-se em reboleios de ritmos tão eloquentes, que um trovão de aplausos saudou-a no saguão daquele templo de castidade em que se transformara o teatro principal do Rio, à falta de um autêntico santuário de Vesta.

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A fotografia era expressiva e convidava a meditar sobre as possíveis intenções da heroína desnuda.

De mim, confesso que o nudismo de tão ousada bailadeira não me pareceu imoral: antes, pelo contrário, interpretei-o como verdadeira pregação apostólica em prol da moralização dos nossos costumes.

Que fez a jovem carioca, naquela noite de tão esplêndido triunfo para a sua beleza corpórea, senão deduzir, da premissa burguesa do nosso cristianismo paganizado, a consequência lógica diariamente encoberta nas malhas dos sofismas com que se absolve de culpas o nosso mundo de hoje?

Muitos modos há de apostolizar consoante a inspiração do pregador e a psicologia do gentio cuja catequese se pretende. Uns se valem da palavra e outros dos atos e atitudes. E tanto os sermões verbais como os que se ministram à força de exemplificações variam na forma, estilo, timbre e mais originalidade que o gênio cria como instrumento de persuasão.

Contra os desmandos orgíacos de Roma, utiliza-se Catão da sua austeridade, e ainda que autores desconfiados vislumbrem nas admoestações do censor algumas frestas a entremostrar mal dissimulada hipocrisia, o terrível repúblico ficou a simbolizar, quando não a sinceridade de propósitos, pelo menos um método no aplicar corretivos.

O risco a que se expõem esses pedagogos, demasiadamente severos e amigos da ordem direta nas suas proposições morais, é a de serem tachados de refinados mistificadores. E não somente na pena dos críticos antigos, mas sobretudo na dos modernos, que jogam hoje com os dados da psicanálise para transformar em despeito de incapazes e fracassados as advertências dos moralistas.

Para os tais psicanalistas, se um homem aconselha a outro que não roube, é porque no íntimo sente inveja do ladrão, que é um indivíduo capaz de praticar o delito que o conselheiro não se sente com coragem de efetivar; se outro (ou outra, como no "Electra" de O'Neil, que é uma das mais edificantes bandalheiras do teatro moderno) sente repugnância pela atração incestuosa de alguém, é porque no fundo sofre o mesmo magnetismo pela sujeira; enfim, qualquer sujeito, que pugne pela moralidade dos costumes, vai para o catálogo dos freudianos como tipo a disfarçar a inveja de quantos destapam as comportas dos instintos.

Fica, assim, destruída toda a moralidade privada ou pública e os Batistas que pretendem corrigir as Herodíades e Salomés passam por indivíduos recalcados a pretender que outros se recalquem. Não faltarão aos moralistas, já não dizemos a cicuta de Sócrates, a fogueira de Savonarola, a Cruz de Cristo, mas as críticas mordazes e os motejos ridicularizantes, em nome da ciência e do progresso.

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Ora, assim pensando (ou não pensando coisa alguma como é mais provável em pedagogia puramente intuitiva) a garota do Municipal teria resolvido mostrar, em todo o esplendor da sua carne jovem, o verdadeiro motivo que reunia, naquele templo de pudicícia carnavalesca, os pais, os rapazes e as moças de família.

Inverteu ela, assim, os papéis. Em vez de ser apontada como hipócrita, desmascarou a hipocrisia da sociedade católico-pagã de donzéis e donzelas das missas de domingo e das praias pompeianas da talassoterapia e da heliopigmentação em que se espojam Ganimedes e Safos desabafando complexos e afinando o instrumental endocrínico nos extremos opostos dos recalques ultraistas de pasmosos assexualismos com que o charlatanismo científico pretende contrabater o conceito realista da filosofia verdadeiramente cristã.

Em vez de, (caso ali comparecesse a pregar um sermão de refundir Tibérios e Messalinas em forjas cândidas) em vez de arriscar-se a ouvir de algum folião ou foliona o epíteto de hipócrita, foi ela, a náiade pagã, quem atirou à face da plutocracia e da burocracia, que comandam a saturnal dos nossos dias, o mais veemente dos discursos que jamais boca de frade ousou jorrar de púlpitos ainda os mais atrevidos no escalpelar ulcerações ou esvurmá-las a ferro em brasa.

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Nua, inteiramente nua, como Frinéia diante dos juízes de Atenas, a nossa patrícia dançando o samba e rebolando as curvas afrodisíacas, exclamava em linguagem coreográfica:

- Acaso é a castidade que vos reúne aqui? Porventura estas músicas lascivas vos sugerem, ó velhos de Babilônia, ideias e pensamentos arcangélicos e visões puríssimas do Empíreo? E vós, Adônis e Narcisos, travestidos de roupas femininas, alimentais fantasias menos lúbricas do que as de Heliogabalo ou de Calígula quando cingiam roupagens de Vênus ou de ninfas, de tal maneira alucinados pelo fascínio das formas opostas ao seu sexo, que procuravam identificar-se cerebralmente com elas? E vós, Faunos e Sátiros espiritualmente caprípedes, farejando os perfumes mesclados ao odor dos suores femíneos, pretendeis renovar a façanha de Santo Antão no deserto, a resistir varonilmente às tentações envolventes? E vós, Virgens que ledes os romances analistas e as poesias eróticas da nossa época, e assistis aos filmes de longos beijos que galvanizam as plateias escuras e povoadas de tatos sutilíssimos, estais aqui por acaso para rezar ave-marias ao ritmo das músicas bárbaras? E vós, matronas que vos confundis com vossas netas e filhas na indumentária e nas atitudes, comparecestes a este lugar nada litúrgico para, pelo menos, vos engolfardes no romantismo daquelas velhas valsas que falavam em doçuras de líricos amores e devaneios castíssimos de heroínas de novelas antigas? E ainda todos vós, que mergulhais na onda tépida e aliciante dos pares em torvelinho sob o colorido das serpentinas e os vapores da champanha, estais acaso insensibilizados pelo bacilo de Hansen que vos eteriza a epiderme, ao ponto de não sentirdes o contato morno dos pares conchegados? Este baile é então um festim de eunucos ou algum místico entoar de matinas e laudes ao bruxuleio das lâmpadas sob vitrais em que o crepúsculo transcendentaliza a doçura claustral?

Tudo em vós, ou explícita ou implicitamente, são pensamentos voluptuosos, em cuja corrente boiam as formas corpóreas esplêndidas e vivas, com maciezas ondulantes e curvas harmoniosas de Astartéias ou masculinidades ostensivas ou equívocas de Narcisos e Ganimedes. Ora, se esses são os pensamentos ocultos em vossas cabeças, porque os não quereis ver objetivamente?

Ouso dizer-vos, senhores, senhoras, rapazes e mocinhas, o que nem por sombras podereis supor. E é o seguinte: esta nudez completa, sem disfarces, é mais casta e mais pura do que as vossas roupas e as vossas atitudes.

A nudez, em si mesma, não é imoral. Se o fosse, não estariam nos altares a imagem de São Sebastião, as dos anjinhos barrocos a encimar frontarias de nichos e relevos de colunas e de púlpitos, e a do próprio Cristo pregado na sua Cruz. A atitude de dor do capitão romano varado pelas flechas, a de inocência dos anjos, a de misericórdia do Redentor de braços abertos, como que animam a nudez de uma eurritmia sagrada, de uma expressão divina.

O Apolo do Belvedere, a Vênus de Milo, o Adão da Capela Sistina, estão nus e há neles a castidade das expressões naturais.

O que torna imoral o nu são as intenções que nele se refletem, os pensamentos secretos que o animam. No meu caso (diz a dançarina expulsa pela assembleia do Municipal) o que vos escandaliza não é o nu do meu corpo, mas sim a lascívia que ponho nos ritmos com que interpreto tudo quanto se passa nas vossas almas. Sois como os velhos de Babilônia, que denunciaram Suzana porque a viram nua no tanque, por entre as frestas das árvores. Não era contra a nudez da formosa israelita que eles se revoltavam, mas contra a lascívia que requeimava o sangue decrépito e que dava intelectualmente ao corpo da banhista a própria expressão subjetiva de suas imaginações doentias.

Notai que Suzana banhava-se às ocultas, recatadamente. E vós? Não ides à praia publicamente? O simples fato de vos exibirdes não transfigura o vosso nudismo em ostentação das vossas formas, e se nessa ostentação sentis algum prazer, que nome dareis a esse prazer? Eu o chamarei a delícia de mostrar-se e a essa delícia chamarei deleite luxurioso. Etimologicamente, luxúria quer dizer exuberância, ostentação, transbordamento, expansão. Ora, quem se mostra, exubera, ostenta, transborda, expande-se e nisso há secreto gozo.

Além do mais não há apenas o deleite subjetivo de quem exibe e o faz com artes de provocar; há o gosto dos que veem e sobre as fantasias objetivas engendram outras tantas pelo poder da imaginação.

Olhar é uma forma de apoderar-se. Tanto assim é que se pagam entradas nos cinemas, onde as fitas são alugadas aos olhos; e, em certas galerias de arte, onde os quadros e as estatuetas são alugadas à vista.

Olhos nada levam, dizem os espíritos superficiais. Eu vos asseguro que os olhos levam muito. Levam a imagem estampada no cérebro e se isso não for uma forma de posse, não sei o que seja possuir.

Mas o nu não está somente no alienar a roupa. Uma pessoa pode estar vestida e estar moralmente nua, do mesmo modo que uma pessoa pode estar nua, como as Virgens cristãs levadas ao suplício, e estarem moralmente vestidas.

Tenho a coragem de vos dizer, a todos que vos fantasiais de colombinas, arlequins, ciganas, baianas, havaianas, que estais tão nuas como a minha nudez, isto é, como a lascívia que a minha nudez põe na cadência de minha dança.

Nem mesmo a vossa dança é diferente da minha. Também, como eu, não tolerais hoje a delicadeza das valsas e das mazurcas. Os vossos médicos dirão que aquelas danças não passavam de sublimação do instinto sexual e em nosso tempo já possuis as válvulas de extravasamento daquilo que nossos avós chamavam sem-vergonhice e os esculápios denominam complexos: são as danças da regressão atávica, operando no campo da medicina moderna o mesmo que os juristas praticam refundindo as normas do direito internacional e revogando princípios jurídicos e éticos, para retrogradar a humanidade até à pedra lascada. Essas danças nada têm de comum com os ritmos harmoniosos da Grécia Antiga, nem com o ritmo coreográfico e quase litúrgico do velho Oriente; nem se parecem com os inocentes folguedos populares dos países cristãos; nem se aproximam da poesia e da graça do Romantismo que iluminou de sonhos e de suaves emoções o século XIX. Não: são danças inspiradas nos selvagens da África e oriundas do cruzamento psicológico de brancos e pretos da América do Norte. Essas danças não procuram o sentido da harmonia e da musicalidade delicada e espiritual; elas são diretamente sexuais e desbragadamente lascivas.

Qual a diferença entre as vossas havaianas de umbigo de fora e as vossas baianas mirandescas e esta nudez luxuriante com que me apresento? Qual a diferença entre o ritmo das vossas músicas e o ritmo do meu corpo nu? Qual a diferença entre os pensamentos dos vossos cérebros excitados pela champanha, pelo éter, pelo odor de mulheres e homens, e a realidade que exponho aos vossos olhos?

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E a dançarina desnuda, no ritmo da dança parece concluir:

- Puritanos! Fariseus! Ide, primeiro, compor vossas almas e depois julgai-me

Porque não será expulsando-me que modificareis um milímetro o vosso degradante mundo, os vossos costumes hipócritas, elevando, como seria de desejar-se numa sociedade cristã, a moralidade do povo brasileiro!

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SALGADO, Plínio. O Espírito da Burguesia. 1ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, 1951. Transcrito da página 165 até 178.