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sábado, 1 de julho de 2023

Palavras herméticas a iniciados (1957)

 

Palavras herméticas a iniciados (1957)

Plínio Salgado

O problema é este: descobrir o Homem no homem.

 

Quando fazemos tal descoberta no íntimo de nós mesmos, cumpre-nos dar expansão e plenitude ao Homem (com “H” maiúsculo) de sorte que este domine o homem (com “h” minúsculo).

 

O nosso pessimismo não deve ir ao ponto de não acreditarmos na existência do Homem Superior dentro de cada homem comum. O Ser Humano comporta reservas de grandeza moral, muitas vezes soterradas pelas paixões ou pelas sedimentações prolongadas dos hábitos ou dos costumes sociais ambientes.

 

As paixões, que procedem dos fundos impuros da ambição, da vaidade, da inveja, do ressentimento, da sensualidade e do ódio, são como o eruptir das lavas nas explosões geológicas: sufocam as terras férteis e tranquilas por sobre cuja crosta se petrificam.

 

E os costumes, os hábitos de uma sociedade medíocre constituem, na sua ação constante, algo como os contínuos depósitos de areia e detritos trazidos pelos ventos, formando as dunas estéreis sobre o solo fecundo.

 

E do mesmo modo com se esteriliza a terra sob a ação desses agentes internos e externos, também a personalidade humana, recobrindo-se de tudo o que é inferior, sufoca as virtudes lídimas que a vivificam e apresenta-se mesquinha e degradada.

 

Nesse caso, o homem (com “h” minúsculo) dominou o Homem (com “H” maiúsculo). O inferior subjugou o superior.

 

Para usarmos de outra imagem: do mesmo modo como a árvore sadia sucumbe enrodilhada pelo “mata-pau” parasitário (o trágico urupê de que nos fala Monteiro Lobato), também a personalidade essencial do Ser Humano definha e morre sob as garras do intruso que, sendo a princípio superficial, tornou-se o usurpador profundo das seivas generosas.

 

Então, assistimos ao drama doloroso da transmutação do Herói em vilão, do Santo em pecador vulgar e rebaixado, do Idealista em imediatista, do Magnânimo em competidor nas concorrências de baixo nível.

 

Aquela tranquila serenidade dos que de tudo abrem mão para só objetivar o Sonho Maravilhoso — alimento da alma na transitoriedade desprezível dos caminhos da vida — desaparece no íntimo do Ser, que se apresenta agora conturbado e arrítmico nas suas atitudes e no seu comportamento.

 

O domínio do Homem sobre o homem só se efetiva pela utilização das forças do Espírito. Viver pelo Espírito é viver a vida harmoniosa pela qual o Homem supera as pequenezas da terra e se integra na harmonia de Deus.

 

Essa vida espiritual não se alimenta da seiva nem da ciência, nem da arte, nem do que costumamos chamar ilustração, erudição ou cultura. Pois muitos são os cientistas, e os artistas, e os indivíduos ilustres pelo saber e que, entretanto, no meio em que vivem, não passam de atormentados e desesperados. Essa vida espiritual extrai os elementos de que necessita das misteriosas potências interiores que todo Ser Humano possui e que deve aproveitar.

***

A luz do espírito não provém dos atritos violentos; não é a centelha arrancada das pedras, não é o relâmpago oriundo da explosão das nuvens carregadas de eletricidade contrária, não é o resultado do furor das forças desencadeadas do recesso das moléculas e dos átomos. A sua claridade é branda e suave como a das lâmpadas dos Tabernáculos, que se sustentam mansamente do azeite da árvore predestinada cujos ramos simbolizam a Paz.

 

O óleo da Sabedoria existe no fundo de todas as Lâmpadas Humanas; o que nos cumpre é imergir nele o pavio do nosso coração, isto é, do nosso sentimento de bondade, mantendo acesa a chama da compreensão.

 

Quem assim procedeu adquiriu a mais feliz das possibilidades humanas: a possibilidade da convivência com os seus semelhantes. E nisso está o segredo da Paz interior, que nos eleva acima das vulgaridades e nos conduz às grandes construções.

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Quando Deus quis impedir que os homens continuassem a construir a torre de Babel, que fez Ele? Dividiu os construtores em idiomas os mais diversos. De sorte que quando um pedia tijolos, o outro lhe trazia água; e se algum precisava de pedras, o outro lhe fornecia madeira; e se um dirigente necessitava de qualquer material que sabia existir do lado norte, os seus dirigidos o iam buscar do lado sul, onde nada havia.

 

A torre de Babel é um símbolo a ensinar-nos a total impossibilidade de se unirem os homens para um fim comum, se eles não se entendem.

 

Entenderem-se, depois construir; porque pode dar-se o caso de dois ou mais homens quererem a mesma coisa e brigarem convencidos de que o outro, ou os outros, desejam coisa diferente.

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Onde houver incompreensão não haverá construção. Mas, tendo-se em vista que entender línguas é mais fácil do que entender homens, verificamos quão difícil é o problema da convivência e da unidade dos pensamentos e do comportamento nas reciprocidades do trato e no esclarecimento das intenções.

 

No entanto, é preciso que haja compreensão. E o mais singular, nesse esforço a que nos devemos entregar no intuito de consolidar a harmonia entre os que, no fundo, querem a mesma coisa, encontra-se nesta grande verdade: não será pesquisando “o outro” que logramos entendê-lo, mas pesquisando as profundezas da nossa própria personalidade. Porque sendo a essência humana uma só, ainda que se apresente na diversidade dos tipos pessoais, existe em nosso mundo interior um espelho onde sempre encontramos a imagem daquele a quem desejamos compreender.

 

Se soubermos olhar para esse espelho, uma grande surpresa nos aguarda, porque na fisionomia do outro veremos a nossa. Então, sentimo-nos movidos por um sentimento de fraternidade tão grande que os nossos olhos se umedecerão e invencíveis impulsos generosos nos elevarão à plana mais alta a que pode atingir o ente humano.

 

E está neste fato uma das provas da existência de Deus. Se os homens se compreendessem por si mesmos e a compreensão resultasse em um processo objetivo de observação, de análise, de verificação, eles poderiam viver felizes sem precisar do seu Criador, que acabariam esquecendo, mas o recurso ao nosso mundo interior, o processo introspectivo da nossa análise, a procura do espelho subjetivo, representam uma busca de Deus, Senhor de todos os idiomas. Dicionário de todas as línguas e dialetos, revelador de todas as expressões do Universo material e imaterial. É em Deus que os homens se encontram.

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E quando os homens (com “h” minúsculo) se encontram uns aos outros, também encontram em si mesmos o Homem com “H” maiúsculo, isto é, o dominador de todas as mesquinhezas oriundas das fraquezas da carne.

 

Mas se os homens se encontram uns aos outros, não se iluminam com a luz do Espírito e tudo querem interpretar pelas aparências materiais das expressões recíprocas às quais emprestam arbitrariamente as intenções que o seu próprio egoísmo sugere, nesse caso os homens — mesmo se dizendo unidos por pensamento e objetivos formais — estarão desunidos, enfraquecidos, destruídos de todas as possibilidades de um êxito comum, ainda que esse êxito diga respeito aos mais nobres ideais.

 

Assim desagregados, cada qual se governará pela sua presunção e esta será a tenebrosa conselheira que deflagrará a luta entre os que, por dever decorrente de um alto fim pré-estabelecido, deveriam tudo sacrificar para manter a unidade de quantos se aliciaram e se congregaram visando um nobre objetivo.

 

Esse estado de espírito vai às últimas consequências. A presunção gera a desconfiança; a desconfiança gera as interpretações injustas; as interpretações injustas geram as ações inconsequentes; as ações inconsequentes geram, na parte adversa, atitudes de reação, quase sempre também inconsequentes; as atitudes de reação provocam novas dissensões; as dissensões degeneram em palavras levianas e insinuações malévolas; e, ao cabo de algum tempo, uma comunidade de homens que se uniram com as melhores intenções torna-se uma matilha de lobos a se entredevorarem.

***

Os ideais mais puros estão sujeitos às contingências mesquinhas do homem com “h” minúsculo. Até o Evangelho — o Ideal dos Ideais, a Lei das Leis, a Salvação Definitiva — não escapou das insuficiências humanas dos seus próprios seguidores. E nem outra coisa poderemos inferir das palavras de Cristo, registradas por São Lucas (Capítulo IX, versículo 41): “Até quando estarei ainda convosco e vos sofrerei?”.

 

Aqueles homens não haviam encontrado o Homem dentro de si mesmos. E só o encontraram quando se iluminaram pela lei do amor, lei subjetiva que veio dar vida à lei objetiva dos Patriarcas e dos Profetas. Pois então conheceram a Paz — não a paz de Breno e de César, mas a Paz da consciência, que se funda na capacidade de ceder e transigir no que concerne às glórias e bens da superficialidade terrena, para não abdicar, conceder, alienar ou rejeitar a glória e os bens predestinados à essencialidade do Homem.

 

Os ideais humanos, por mais belos que sejam, nada valem, se nós os interpretamos ao clarão colorido dos nossos caprichos, das nossas animosidades, das nossas antipatias, dos nossos ressentimentos, dos nossos interesses que se dissimulam em puritanismos farisaicos; eles valem, à luz branca e pura do nosso Espírito. Pois se os objetivos materiais imediatos tudo desunem, o Espírito tudo une, tudo harmoniza, tudo coordena em ritmos perfeitos de ação e de marcha.

 

SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 4ª edição. Rio Branco (AC): Nova Offensiva, 2022; transcrito na íntegra das páginas 23 e seguintes.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Inquietação Juvenil (19/11/68)

 

Esclarecimento: O Artigo abaixo foi publicado em jornal pelos “Diários Associados”, mas, o recorte que dispomos não trazia a data da publicação. Felizmente, graças ao impressionante trabalho de pesquisa sobre o Integralismo em fontes primárias, o brilhante pesquisador Matheus Batista pode nos informar que a data da edição foi 10 de Novembro de 1968.

 

Em breve, o Companheiro Matheus Batista publicará uma sensacional Obra sobre o Integralismo. Aguardem!



Inquietação Juvenil (19/11/68)

Plínio Salgado

Tenho recebido, com frequência, de alunos do curso médio, questionários relativos às preocupações que absorvem os adolescentes neste instante assinalado pelo inconformismo da juventude em face do que existe, como forma, processos didáticos e estilo de relações entre aprendizes e mestres, em nossos estabelecimentos de ensino.

Todas as perguntas, quando não insinuadas por professores ou pessoas, com fins inconfessáveis, exprimem uma encantadora candura, em manifestação de honesta sinceridade e revelando irrestrita confiança na resposta que esperam.

Esta semana me veio de uma estudante ginasial, que frequenta as aulas de um dos melhores colégios de São Paulo (o “Dante Alighieri”), duas perguntas, que respondi da seguinte maneira:

1) Quais são as causas da inquietação estudantil?

Resposta: Não deveremos dizer, “inquietação estudantil”, mas sim “inquietação juvenil”, por que os estudantes se agitam por serem jovens e não por serem apenas estudantes. Essa inquietação origina-se de causas que podemos chamar. “bio-fisiológicas” e de outras que designaremos como “psicológicas”. As primeiras são visíveis e evidentíssimas se observarmos o que se passa em todas as espécies animais no período do seu crescimento até a idade adulta. É olhar os cabritinhos, os bezerros, os potrinhos, a saltar nos campos, os gatinhos e cãezinhos a pular atrás de uma bola de papel, e verificamos a prodigiosa dinâmica vital que os impele, aliando o movimento à curiosidade, a qual exercita os sentidos em constante exploração do mundo em que os novos seres se integram e que lhes parece cheio de mistérios.

Essa desordenada movimentação, à proporção que o animal vai atingindo a idade adulta, ordena-se gradativamente, até se compor na expressão de equilíbrio que define a personalidade para o resto da vida.

Se isto acontece com os chamados irracionais, o mesmo se dá, em proporções maiores, com o ser racional. A criança, o menino e o adolescente, o jovem, passam por fases idênticas às por que transitaram os animais de todas as espécies, no referente às necessidades de movimento e de curiosidade, mas esta se amplia abarcando o mundo dos conhecimentos sobre a natureza e sobre o que existe de intelectual e espiritual no ser humano. Ao passo que os irracionais se detém nos limites da identificação das coisas, o homem busca a essência dessas coisas, as suas origens, a sua estrutura mais íntima, a sua significação e finalidade. Procura, não só conhecer o Universo mas também, e muito mais ainda, a sua própria pessoa, as razões de sua existência e indaga tudo o que diz respeita ao seu fim último. Tal inquérito permanente sobre o mundo exterior e sobre o misterioso mundo interior, que existe dentro de cada um de nós, gera uma inquietação, que se manifesta em todas as filosofias e as numerosas interpretações dos fenômenos das quais decorrem os critérios de comportamento social e individual.

Na idade juvenil, essa inquietação é muito maior do que na idade adulta, quando o ser humano, além de haver completado o ciclo evolutivo de sua constituição orgânica, também completou, pela experiência, o ciclo do desenvolvimento intelectual. O jovem ainda está no período da “procura”, da “dúvida”, da “perplexidade” diante do que lhe vem sendo ensinado e do que estuda por si próprio. Não sabe, com segurança, para onde se dirigir, nem como se comportar em face do que já aprendeu e do que vai aprendendo, Traz ainda consigo o dinamismo da infância e da puberdade, que se traduz no desejo de ação e movimento. Não se conforma com os conselhos da experiência dos pais e dos mestres. Quer agir, fazer algo de novo, esquecendo-se de que o “novo” não passa do “velho”, que já foi “novo” em gerações antecedentes.

Essa é a causa que denominamos no início destas considerações, “psicológica”. Ela cria um estado de espírito que determina três procedimentos nos jovens: 1º - o de uma atuação anárquica, instável e inconsequente; 2° - o de uma passividade, sujeitando-se ao comando dos elementos subversivos e contrários à ordem moral e social vigentes; 3° - o de um séria, auto-determinativa, esclarecida disposição de estudos dos problemas de atualidade, preservando os valores eternos da nacionalidade vinculados às normas morais que devem reger a personalidade de cada qual e conjugados ao ideal do progresso da pátria e bem-estar humano.

Todos os estudantes por serem jovens, estão classificados nestas três atitudes e orientações. As duas primeiras podem ser denominadas “a da desorientação” e “a da subordinação”; a terceira é a dos jovens quo adquiriram uma consciência de seu próprio valor e se fizeram fatores positivos da construção nacional.

2) Como veem os adultos a juventude atual?

Resposta: De minha parte, vejo-a como acabo de expor.

Acredito que os adultos, na sua generalidade, não se dão ao trabalho de uma análise tão necessária para a compreensão das inquietações da juventude.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Homo Ridibundus (excerto de Fênix e suas Cinzas) (1949)


Plínio Salgado

(...) Será um documento impressionante e trágico da nossa época a galeria dos retratos dos estadistas, dos cientistas, dos homens de negócio, dos escritores, a arreganhar os dentes em risadas nevróticas.

Nunca, em nenhum período da História, os Homens de Estado, ou as personalidades de maior projeção no seu tempo nos apresentaram seus retratos a dar risadas. Corra-se a galeria dos   generais, senadores, escritores, reis, imperadores, da Assíria, da Pérsia, do Egito, da Grécia, de Roma; percorra-se a fila dos filósofos, dos poetas, dos guerreiros, dos reis da Idade Média; examinem-se as fisionomias dos grandes vultos da Renascença, dos séculos XVII, XVIII e XIX: nenhuma estátua, pintura ou mais recentemente fotografia nos mostra essas personagens rindo.

Não estamos condenando o riso, porque em muitos casos é a expressão saudável do espírito. O riso revela os mais variados estados de alma. Manifesta-se na suavidade dos puros afetos, na irreprimível hilaridade, na fina ironia, no repulsivo sarcasmo, até na expansão do ódio e da cólera. É espelho de sentimento e revelação de temperamentos. Não é o riso, em si, que nos causa estranheza.

O que nos espanta é verificar que, no século mais trágico da história, no século em que se destrói, com uma só explosão, uma cidade inteira , como Hiroshima, e posteriormente Nagasaki; no século em que os bombardeios aéreos arrasaram monumentos e populações na Europa; no século em que mais de trinta milhões de seres humanos gemem no trabalho escravo dos campos de concentração da Rússia Soviética; no século em que a luta do homem contra o homem assumiu proporções nunca anteriormente conhecidas, seja justamente neste século que Roosevelt tenha inaugurado e os demais homens públicos e estadistas tenham adotado o costume de tirar retratos na plenitude das gargalhadas...

Os faraós do Egito costumavam mostrar-se ao povo, nas grandes solenidades, com máscaras  de ouro, onde os traços fisionômicos eram graves e sérios, como a revelar que, acima dos lineamentos humanos do rosto, devia estar a expressão da responsabilidade e do dever, inspirados num senso moral tão definido, que suas linhas não sofrem a mobilidade das paixões, antes se conservam serenas e impassíveis ainda quando o Rei, como ser humano, esteja sujeito aos impulsos de sua condição pessoal.

Depois de tantos séculos decorridos, os estadistas  riem. Riem sobre as desgraças do seu tempo.

Sim; é o Homo Ridiculus, ou o Homo Ridibundus, que se fez jogral e adotou as atitudes dos fonâmbulos e palhaços para fugir à realidade da História.(...).
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SALGADO, Plínio. O Ritmo da História. 2ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, [s.d.]. Transcrito das páginas 30 e 31.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A VERDADEIRA MISSÃO DA JUVENTUDE (1957)

Capa da 3ª edição incorretamente dada como sendo a 2ª pelo Editor.

Plínio Salgado

Se a juventude traz consigo o Amanhã da Pátria é porque dela deverão sair os responsáveis pela sobrevivência da Nação. Prepará-la para que produza os valores humanos, de que a comunidade nacional precisa, deve ser toda a nossa aspiração e o nosso esforço.

A mocidade não se prepara nas ruas, no fragor das batalhas transitórias. Lançar os jovens nas empresas de demolição do Mal, sem a iniciação prévia na ciência e na arte de construir o Bem, será desviá-los de um destino superior. As mais belas campanhas, se resultantes do improviso, hão de ser, inevitavelmente, como estrondo das ondas na superfície do mar. As ondas facilmente se deixam levar pelo magnetismo da lua ou pelos ventos inconstantes que sopram em todas as direções. Só as águas profundas resistem. Só elas trazem consigo as potências da irredutibilidade.

A irredutibilidade no Homem é a estrutura do caráter. O caráter se forja pelo concurso de três elementos: Personalidade, Cultura e Educação. Desenvolver a personalidade, enriquecê-la pela cultura, dar-lhe ritmo pela formação moral e espiritual - eis o que nos cumpre quando nos entregamos no magistério da palavra esclarecedora e da ação criadora, no esforço de suscitar o advento de grandes homens para a Pátria.

A mobilização dos moços para uma campanha de moralização, de luta contra os desmandos e contra a degradação dos costumes é iniciativa que merece todo respeito; mas é expediente empírico, visando o tratamento meramente sintomático da enfermidade social. Não vai às raízes da moléstia. Não procura as causas históricas das desgraças que lamentamos.

O conceito moral depende de uma concepção de vida. A concepção de vida decorre do conhecimento da verdade e da compreensão da realidade. Pois a mesma verdade pode ser desvirtuada e abastada na concretização dos seus objetivos, se a mente desavisada opera sob a injunção de circunstâncias desconhecidas.

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Se queremos estabelecer o império da Moral, cumpre-nos promover, antes de tudo, a iniciação dos espíritos nos conhecimento do "verdadeiro" e do "real". Cumpre-nos traçar, com firmeza, a própria definição da moralidade. Do contrário, perder-nos-emos na confusão que o utilitarismo inglês de Bentham e de James Mill lançou sobre o século XIX, a tal ponto que se tornaram imprecisas e contraditórias as noções do "útil" e do "justo". Foi tal a confusão que desnorteou a humanidade, produziu o pragmatismo americano - essa filosofia de mercadores; - o cientificismo evolucionista, que inspirou o delírio de Nietzsche, a gritar nas torres do Pensamento, e as conclusões de Marx, a resmungar e a conspirar no rés-de-chão, dos armazéns de comestíveis e, finalmente, os torpes postulados dessa moderna metafísica de Limpeza Pública, que vibra na pituitária dos faxineiros de Freud.

A iniciação dos espíritos jovens exige trabalho metódico, sistemático. Repele o "dispersivo" para se ater ao "reflexivo". Evita o "extenso" para que predomine o "intenso". E não se entrega à exteriorização sem precedê-la de longos dias de interiorização.

O jovem deve construir-se primeiro, para depois pensar em construir a sociedade. A autoconstrução não se faz nas praças públicas nem no fragor das manifestações coletivas; pelo contrário, forja-se no estudo, na meditação, na discussão, na troca de ideias.

Os comícios na ágora de Atenas nada legaram nem para o futuro da Grécia, nem para o futuro do mundo. Mas os diálogos de Sócrates, os passeios de Aristóteles, o recolhimento nos jardins de Epicuro produziram homens no seu tempo, no tempo da posteridade helênica e romana e até nos dias de hoje.

Os missionários da Companhia de Jesus não se entregavam a vida apostolar senão depois dos prolongados exercícios de Santo Inácio. Construíam-se primeiro, para depois construir os outros.
João Batista não começou a sua campanha contra os desregramentos da sociedade herodiana, sem antes se recolher, anos a fio, nos descritos da Peréia. E a sua réplica anticristã, configurada no Zaratustra de Nietzsche, não iniciou a propaganda do Super-Homem sem ter antes construído a própria personalidade na montanha silenciosa.

A epopeia das Navegações foi precedida pela Escola de Sagres, mas antes desta o preparo se realizara no Castelo de Tomar pelos Freires de Cristo, que por sua vez guardavam as tradições dos Templários.

Não se improvisa um Bolívar, que para suas empresas se preparou culturalmente em longos anos de estudos e de viagens. E um José Bonifácio não surge por acaso no cenário da Independência, porque o Patriarca foi o resultado de uma autoconstrução através de longas peregrinações e meditações sobre quanto ia observando na vida dos povos.

A cerimônia ritual em que se armavam os cavaleiros da Idade Média – guerreiros teutônicos ou paladinos da Távola Redonda do Rei Artur – era precedida pelas vigílias d’armas, que simbolizavam a preparação do herói. A vigília d’armas, em nosso tempo, há de ser o adestramento intelectual e a formação moral. Sem isso, não conseguiremos reformar os costumes nem produzir os homens de que o Brasil vai precisar daqui a cinco ou dez anos.

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Se os nossos estabelecimentos de ensino fabricam apenas profissionais e são insuficientes para incutir nos moços brasileiros os sentimentos de civismo, a noção dos deveres, o espírito público; se nos próprios lares, na sua atmosfera materialista e egoísta, as crianças e os adolescentes já não encontram àquele ambiente que propicia o florescimento das virtudes, a aspiração à vida heroica - então, de que elementos nos iremos valer, buscando a Mocidade, para dar ao Brasil aquilo de que essa mesma mocidade está necessitando? Não será perigoso lançar a Juventude, sem os parafernais dos conhecimentos que ela própria possa administrar em seu proveito, numa campanha - ainda que benemérita - em prol de uma indefinida moralidade empírica, sem base de uma formação religiosa, filosófica, histórica e sociológica? Não se transformarão os comícios e as agitações da praça pública em formas de derivativos, a substituir os divertimentos em que se estiola a maioria dos moços em nosso país? Não haverá o perigo de se tornarem os jovens (que é tudo o que esta Pátria ainda possui de esperança) em instrumentos de interesses político partidários?

Moralidade por oposição e visando destruição sem sentido de construção, é moralidade de superfície, promotora de escândalos públicos e sem nenhum resultado positivo para o futuro de uma Pátria que está precisando, antes de tudo, elevar seu nível cultural. Pois se no Brasil existem negociatas, malversações de dinheiros públicos, oligarquias parasitárias, venalidade de funcionários, domínio do suborno e da gorjeta, esbanjamentos e irresponsabilidades, preguiça e imprevidência, ambições irrefreáveis e sensualidades irreprimíveis, temos de convir que o responsável inconsciente por tudo isso é o próprio povo que prefere, sistematicamente, nos comícios eleitorais, os que fazem mais barulho, os que gastam mais dinheiro, os que acenam com mais promessas, os que se mostram mais ignorantes e grosseiros.

Por conseguinte, o problema da moralidade é um problema de cultura. E o problema da cultura popular (formação da consciência de um povo) só será resolvido forjando-se uma geração que possa fazer valer, em face da inversão de todos os valores, os legítimos direitos de orientação de uma forte aristocracia intelectual e moral.

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Forjar essa geração - eis o de que o Brasil precisa. Esse o motivo da fundação em todo o país, dos Centros Culturais da Juventude, filiados à Confederação, que lhes dá unidade, dentro da mesma linha de direção filosófica. Nesses centros se organizam bibliotecas, estimulando-se a leitura dos grandes pensadores do nosso tempo; realizam-se cursos de filosofia, sociologia, história, doutrinas econômicas, geografia; promovem-se conferências sobre temas de interesse humano e nacional; comemoram-se as datas importantes da História Brasileira; estudam-se as personalidades dos nossos estadistas, filósofos, pedagogos. Economistas, militares, artistas, prosadores e poetas; - e mais do que tudo – nesses grêmios se procura criar a mística das virtudes, dos sacrifícios, dos heroísmos, num sentido cristão e consoante os sentimentos mais puros de brasilidade.

Que se lancem campanhas pela moralidade nacional e que para ela se mobilizem os moços, contra isso não podemos, em princípio, nos opor; mas que essas campanhas distraiam a juventude do esforço que ela deve empregar no sentido de construir-se por meio de uma revolução moral interior e de uma elevação intelectual indispensável, contra esse desvio nos opomos. E se uma campanha dessa natureza vier a servir ao interesse de partidos políticos ou da "demagogia da honestidade", que, à mingua de outros predicados de nossos homens públicos, se apresenta hoje como cartaz para a conquista de postos eletivos, então devemos ter a coragem de condená-la. E se, ainda, a habilidade técnica do comunismo internacional intervier sub-repticiamente para utilizar-se como "massa de manobra", desse patrimônio da Pátria, que é Juventude, coordenando-a, sem que ela o perceba, como tem feito a todos os nobres e puros movimentos da opinião sentimental e desprevenida no que respeita às artimanhas dos pescadores de águas turvas, nesse caso devemos estar alertas para prevenir os que não se preparam para conhecer os fatores intervenientes e as circunstâncias advenientes que surpreendem sempre as melhores intenções.

Escrevo estas linhas para os duzentos Centros Culturais da Juventude filiados à Confederação. Para que os seus associados as leiam, as meditem, pondo-se de sobreaviso, e redobrando os seus esforços na obra serena, firme, imperturbável, perseverante da construção de suas próprias personalidades como fundamento da construção do Brasil de Amanhã.

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SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 1ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira. S/data. Págs. 103 e segs.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Integralismo e a Educação (1958)

Folha de rosto do Volume 9 da "Enciclopédia do Integralismo"

Plínio Salgado

Nos jornais e revistas que o Integralismo publicou em 1932 a 1937, em livros desse período e dos anos posteriores até hoje, até o presente, foi exposto o pensamento dos adeptos do Sigma sobre Educação, quer no tocante aos aspectos gerais do problema, seus fundamentos filosóficos e sua objetivação, assim como no referente a setores particulares ou especializados das atividades educacionais.


Obedecendo, embora à mesma orientação filosófica, os autores escreveram segundo interpretações pessoais, produzindo trabalhos esparsos, sem a preocupação de realizar uma sistemática educacional. No entanto se verifica em todos esses escritos, um único pensamento: o da educação integral, para o homem integral.


Se a educação visa à formação do Homem, cumpre, antes de tudo, firmar um conceito do Homem. Segundo o critério Integralista, o Homem deve ser tomado no conjunto de sua personalidade. E para se ter essa noção de conjunto, temos de considerar o Ser Humano: 1ª) – como ele é; 2º) – como funciona subjetivamente; 3º) – como funciona, para atingir a plena realização de si mesmo, no meio social.


Para o Integralismo, o Homem é uma dualidade consubstancial exprimindo-se numa unidade substancial, definição de Boécio que nos faz compreender que o Homem não é apenas corpo, nem apenas espírito, mas as duas coisas intimamente ligadas. Diremos mais claramente: o Homem é um ser racional, criado à imagem e semelhança de Deus, seu criador, com direitos e deveres inerentes e decorrentes da sua racionalidade e da sua finalidade. O objetivo principal do Homem é, portanto, a realização plena da sua personalidade segundo sua natureza e seu destino.


O papel, por conseguinte, da Educação, é dar ao Homem os meios para que essa realização se efetive. Essa primeira consideração quanto ao que o Homem é, leva-nos à segunda, que passa do campo da filosofia para o da especialização psicológica, fisiológica e biológica, para sabermos como o Homem funciona segundo ele próprio, segundo a sua natureza corporal e espiritual. Sendo toda obra educativa uma interferência de alguém em alguém, ela pode tornar-se uma coação, no sentido de deturpar, deformar ou transformar a personalidade. Não iremos ao exagero de Rousseau e dos excessos individualistas, mas, não podemos deixar de reconhecer que a melhor das educações é a que não violente a pessoa humana, conformando-a para finalidades outras que não sejam a própria finalidade do Homem, segundo sua natureza e seu destino decorrente dessa mesma natureza.


Fala-se hoje em “educar para a democracia”, “educar para a liberdade”, “educar para o nacionalismo”, “educar para o socialismo”, “educar para o desenvolvimento econômico e técnico”; só não se fala em preparar o Homem para si mesmo.


Mas é aqui que transitamos do campo da psicologia, da fisiologia, da biologia, que compreende a educação moral, física e estética, para entrarmos no campo da sociologia, isto é, do funcionamento do Homem no meio social, não só para que este seja beneficiado pelo esforço e cooperação de cada um e de todos, como para que seja cada um beneficiado pela soma e condições de bens comuns que constituem a zona de condomínio de todas as pessoas e grupos naturais.


Esta terceira consideração sobre a finalidade da educação oferece-nos novos dados para uma melhor compreensão da personalidade. Longe de diminuir a potencia de afirmação do Ser Humano, o convívio e a participação no meio social elevam o índice dessa potencialidade. Em última análise, a personalidade não é apenas o Ser em Si, mas o Ser em face de outros Seres. Personalidade é consciência de diferenciação. A diferenciação é resultante de comparação. E a comparação se efetiva no convívio.


É no convívio que se exprimem as diversidades de vocações, de aptidões, de tipos de inteligência, de temperamento, como se notam as afinidades, as semelhanças, as preferências. Segundo as diversidades os homens trocam benefícios; segundo as afinidades, fortalecem o esforço realizador e defendem seus interesses naquilo que estes têm de comum. A personalidade individual se fortalece pela sua participação numa família (diferente das outras) onde, por sua vez é um membro diferenciado dos demais; pela participação no grupo profissional (distinto dos outros grupos profissionais); pela participação na associação cultural; pela participação no Município ou na Província, na Sociedade Religiosa, no Grupo Nacional. Além dos caracteres físicos e psicológicos diferenciadores, o convívio social oferece a identificação de família, e profissão, de grau de cultura, de municipalidade, de provincialidade, de religião, de nacionalidade.


A educação, portanto, no sentido de instruir para maior eficiência na cooperação social completa a que visa dar-lhe expansão plena no seu desenvolvimento físico e espiritual.


Este, em linhas gerais, o conceito da educação decorrente da filosofia integralista e dos seus critérios interpretativos dos valores humanos, sociais e nacionais.

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Excerto extraído das págs. 7, 8, 9, 10, e 11 de O Integralismo e a Educação. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira/Edições GRD, s/data; 217 págs. Enciclopédia do Integralismo - Vol. IX.

A Arte de Semear Ideias (1957)


PLÍNIO SALGADO

A Arte de Semear Ideias é uma arte difícil. Não pelo que exige em qualidades de ação, mas principalmente pelo que reclama em virtudes de resistência.

Não é somente escrevendo e publicando livros, redigindo e estampando artigos nos jornais, subindo à tribuna e proferindo discursos, nem lecionando ou simplesmente conversando, que se consegue semear ideias capazes de germinar.

Tudo isso é preciso, não há dúvida, mas tudo isso nada vale, se o semeador não possui aquela indispensável energia interior com que a si mesmo vence em cada hora de desânimo, diante da incompreensão, ou da indiferença, ou da injustiça.

Essa resistência, em cada minuto de sua vida, é que constitui o húmus alimentador e vivificador das ideias semeadas. Sim; essa resistência é que determina a continuidade, a permanência, a fidelidade que são os fatores operantes nos processos da germinação das ideias.

Porque o grande drama dos portadores de ideias novas consiste justamente no contraste entre estas e a realidade humana, que é o solo onde o semeador deita a sementeira.

Tudo conspira contra aquele que traz algo novo. Entre os adversários que se mobilizam, tem ele de contar com as ideias velhas, que ressuscitam pretendendo ser mais novas, mais oportunas, mais conforme o tempo transcorrente.

Não encontrando no Presente nada capaz de amesquinhar ou destruir o Pensamento que se antecipa aos dias em que surge; os medíocres procuram nas sombras do Passado elementos com que opor-se aos Renovadores, aos propositores de soluções novas. Com tais elementos, proclamam que a ideia nova foi superada.

O verdadeiro Missionário de ideias percebe claramente o truque desses falsificadores e não se perturba na marcha que se propôs de um apostolado irredutível.

Para isso é preciso um grande poder sobre si mesmo, pois todas as aparências trabalham contra ele. Essa força interior provém de íntima certeza, de uma convicção. Mas para haver convicção é mister que o Semeador não seja apenas o portador de ideias, mas seja, principalmente, o portador de uma crença profunda.

Os que não acreditam nas ideias que pregam não resistirão à onda das aparências enganadoras, não se conservarão firmes e inexpugnáveis em face da conjuração e dos expedientes dos medíocres. Deixar-se-ão influenciar por estes, entrando primeiro na dúvida, depois no desânimo, finalmente no ceticismo. E perderão a batalha.
Perderão, porque a batalha já estava perdida antes de ser travada. O pretendido semeador era indeciso, a sua mão tímida e trêmula, a sua palavra insegura e dubitativa.

Quando saiu a campo, não se blindou contra as influências estranhas; de sorte que, à leitura do primeiro livro de grande sucesso lançado pela mediocridade contemporânea, a sua fé em si mesmo abalou-se. Ficou à mercê da imensa fauna dos oradores oportunistas e dos artigos e notícias da imprensa quotidiana. Os falsos êxitos, os retumbantes aplausos, que coroam os vitoriosos do momento em seus efêmeros triunfos, impressionam o homem fraco, o apóstolo sem fibra, o tímido predicador sem confiança naquilo que ele chama inicialmente “a verdade” e que mais tarde chamará “a doutrina superada”.

No entanto, o contraste principal, que cria a tragédia de todos os lutadores apostolizantes, encontra-se exatamente naqueles motivos que atestam a autenticidade do “novo” em face do “velho”.

A ideia nova precisa de homens novos. Para isso, ela necessita, antes de tudo, transformar-se em sentimento. O sentimento produz os atos, ou séries de atos, em que se manifestam e se afirmam as personalidades novas.

Quando a ideia se transforma em sentimento, estabelece-se no que foi inicialmente seu “objeto” e depois se fez “sujeito” operante, a linha nítida da conduta. A manutenção dessa linha depende, entretanto, da própria força do sentimento, na sucessividade das emoções, cujo ritmo se exprime naquele constante fervor da paixão criadora.

A progressão crescente parte do termo “ideia”, ascende ao termo “sentimento”, atinge o termo “paixão”. A semente chega, então, ao ponto de desenvolvimento sem o qual não germina.

E não germina porque só a paixão da ideia, isto é, a continuidade das emoções sentimentais, traz consigo a energia seminal fecundadora. O pregador crê no que prega; a sua palavra transmite o gérmen, a centelha vital.

Quando o pregador tornou-se autêntico semeador, operou em si mesmo a superação de todas as forças negativas e esterilizadoras. Conhece-se quando tal acontece, não já pelas palavras que o semeador profere, mas pelos atos que pratica.

Os atos identificadores da autenticidade do apóstolo revelam, um por um, a persistência. Mas, justamente porque o processo da transformação da ideia em sentimento e do sentimento em paixão apostolar se opera, de pessoa a pessoa, em ritmos variáveis, aquele que se fez propagador, difundidor de ideias novas sofre a grande amargura cotidiana das decepções sem número.

São momentos perigosos na vida do semeador. É o choque entre todas as forças do “velho” contra a audácia do “novo”. O pioneiro do Futuro amarga a imensa dor de verificar que, entre aqueles que marcham com ele, e até mesmo entre aqueles que se dizem vanguardeiros na maravilhosa aventura, manifestam toda a espécie de fraquezas, de incapacidade para enfrentar os momentos difíceis, de impotência no sentido de viver o sonho magnífico posto na linha do horizonte desejado.

A semeadura, pouco a pouco, no transcurso dos acontecimentos, tornou-se marcha. As mãos atiram a semente à terra; as pernas prosseguem, para diante, sempre para diante.

Mas há os que se cansam. Há os que param no meio do campo, a contemplar o terreno percorrido e, além deste, para trás, muito para trás, o terreno percorrido por outros, por outras gerações, segundo outro sentido de vida e de realidades. Nesse horizonte pretérito, erguem-se os vultos dos que apontam para a frente e parecem dizer aos caminhantes que não olhem para eles, pois cada geração tem o seu destino próprio; mas há também os vultos dos que viveram segundo o Presente que lhes pertenceu e não segundo o Porvir, que nos pertence, e estes, em vez de nos mandar marchar para diante, convidam-nos a regressar ou a extasiar-se na contemplação estática do que eles foram, do que eles fizeram.

E há também os que se iludem com as falsas aparências de uma realidade que não é realidade; capitulam em face dos êxitos ocasionais dos medíocres; entregam-se ao domínio dos cartazes e das frases feitas, que constituem, em última análise, as páginas dos doutrinadores de ocasião, dos mágicos de feiras, em torno de cujas palavras se conglomera a clientela bestificada dos “best-sellers” e dos auditórios dos comícios.

E há, ainda, os que pretendem o absurdo que consiste em querer que a ideia nova viva efetivamente uma vida atual, esquecendo-se de que nesse caso ela deixaria de ser nova. Esses revoltam-se, porque o seu generoso pensamento, a sua nobre doutrina, o seu elevado sentimento só encontra possibilidade de vida em poucos, em alguns, e não na maioria dos próprios companheiros de ideal. Tornam-se céticos, mordendo-lhes o coração o íntimo desejo de abandonar a luta. E muitos a abandonam, dizendo: são muito poucos aqueles que realmente me compreendem.

Incorrem dessa forma, no maior dos erros, que é desconsiderar o valor das ideias que outrora foram novas e que, tendo-se transformado em fatos sociais, persistem, pela lei da inércia, e persistirão longo tempo, utilizando-se de todos os expedientes do “falso novo” para a manutenção do velho. Não raciocinam para concluir que justamente por ser nova, a nova ideia terá que colocar o seu objetivo no Futuro. Não percebem que toda ideia nova é uma batalha contra o Presente. Do Pretérito, ou da Atualidade, ela toma unicamente os valores eternos, que pertencem também ao Futuro. Mas os “valores eternos” não são os “valores visíveis”, ou o cortejo das aparências e as estruturas de superfície.

No meio de todas as confusões, de todos os fracos e desorientados, sofrendo a injustiça dos adversários e a injustiça dos seus próprios colaboradores, o Semeador terá de continuar. Impassivelmente. Serenamente. Irredutivelmente.

E deverá ter em vista que o verdadeiro missionário de ideias não é aquele que apenas escreve livros no conforto dos gabinetes, ou redige artigos de imprensa sobre os fatos do dia, ou lavra pareceres, ou compõe ensaios, prefácios ou conferências, mediante temas de ocasião, ou vai discursar na praça pública somente quando chega o tempo das campanhas eleitorais ou das campanhas relacionadas com acontecimentos ou problemas que ocorrem periodicamente. O verdadeiro missionário de ideias não conhece a pausa das férias parlamentares, os intervalos das propagandas à boca das urnas, a intercadência feliz dos repousos reconfortantes. Mas, ao contrário, prega constantemente, em todos os dias da sua vida; anda de cidade em cidade, sem pausa nem descanso; escreve para jornais e escreve livros; procura dar concatenação lógica às ideias, estruturando um corpo de doutrina; e – o que é mais importante – sacrifica-se anos após anos, em continuidade efetiva, resistindo não apenas às injustiças adversárias, que são explicáveis e plenamente justificáveis, por exprimirem a natural reação das ideias velhas. Mas também às injustiças daqueles mesmos que julgam segui-lo, ou que sabem, no íntimo, que não o seguem, fingindo apenas segui-lo.

Essa resistência, essa capacidade para compreender e perdoar, essa energia na manutenção dos propósitos, esta linha imperturbável de marcha, tudo isso consiste a grande arte de semear ideias.

A arte de semear ideias é sem dúvida, uma arte difícil. Mas, por isso mesmo, é bela. Que a juventude da nossa Pátria saiba praticá-la. E poderemos ter confiança no Futuro.

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SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 3ª edição. São Paulo: Voz do Oeste, 1983; 180 págs. Transcrito integralmente da pág. 51 até 56.