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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A VERDADEIRA MISSÃO DA JUVENTUDE (1957)

Capa da 3ª edição incorretamente dada como sendo a 2ª pelo Editor.

Plínio Salgado

Se a juventude traz consigo o Amanhã da Pátria é porque dela deverão sair os responsáveis pela sobrevivência da Nação. Prepará-la para que produza os valores humanos, de que a comunidade nacional precisa, deve ser toda a nossa aspiração e o nosso esforço.

A mocidade não se prepara nas ruas, no fragor das batalhas transitórias. Lançar os jovens nas empresas de demolição do Mal, sem a iniciação prévia na ciência e na arte de construir o Bem, será desviá-los de um destino superior. As mais belas campanhas, se resultantes do improviso, hão de ser, inevitavelmente, como estrondo das ondas na superfície do mar. As ondas facilmente se deixam levar pelo magnetismo da lua ou pelos ventos inconstantes que sopram em todas as direções. Só as águas profundas resistem. Só elas trazem consigo as potências da irredutibilidade.

A irredutibilidade no Homem é a estrutura do caráter. O caráter se forja pelo concurso de três elementos: Personalidade, Cultura e Educação. Desenvolver a personalidade, enriquecê-la pela cultura, dar-lhe ritmo pela formação moral e espiritual - eis o que nos cumpre quando nos entregamos no magistério da palavra esclarecedora e da ação criadora, no esforço de suscitar o advento de grandes homens para a Pátria.

A mobilização dos moços para uma campanha de moralização, de luta contra os desmandos e contra a degradação dos costumes é iniciativa que merece todo respeito; mas é expediente empírico, visando o tratamento meramente sintomático da enfermidade social. Não vai às raízes da moléstia. Não procura as causas históricas das desgraças que lamentamos.

O conceito moral depende de uma concepção de vida. A concepção de vida decorre do conhecimento da verdade e da compreensão da realidade. Pois a mesma verdade pode ser desvirtuada e abastada na concretização dos seus objetivos, se a mente desavisada opera sob a injunção de circunstâncias desconhecidas.

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Se queremos estabelecer o império da Moral, cumpre-nos promover, antes de tudo, a iniciação dos espíritos nos conhecimento do "verdadeiro" e do "real". Cumpre-nos traçar, com firmeza, a própria definição da moralidade. Do contrário, perder-nos-emos na confusão que o utilitarismo inglês de Bentham e de James Mill lançou sobre o século XIX, a tal ponto que se tornaram imprecisas e contraditórias as noções do "útil" e do "justo". Foi tal a confusão que desnorteou a humanidade, produziu o pragmatismo americano - essa filosofia de mercadores; - o cientificismo evolucionista, que inspirou o delírio de Nietzsche, a gritar nas torres do Pensamento, e as conclusões de Marx, a resmungar e a conspirar no rés-de-chão, dos armazéns de comestíveis e, finalmente, os torpes postulados dessa moderna metafísica de Limpeza Pública, que vibra na pituitária dos faxineiros de Freud.

A iniciação dos espíritos jovens exige trabalho metódico, sistemático. Repele o "dispersivo" para se ater ao "reflexivo". Evita o "extenso" para que predomine o "intenso". E não se entrega à exteriorização sem precedê-la de longos dias de interiorização.

O jovem deve construir-se primeiro, para depois pensar em construir a sociedade. A autoconstrução não se faz nas praças públicas nem no fragor das manifestações coletivas; pelo contrário, forja-se no estudo, na meditação, na discussão, na troca de ideias.

Os comícios na ágora de Atenas nada legaram nem para o futuro da Grécia, nem para o futuro do mundo. Mas os diálogos de Sócrates, os passeios de Aristóteles, o recolhimento nos jardins de Epicuro produziram homens no seu tempo, no tempo da posteridade helênica e romana e até nos dias de hoje.

Os missionários da Companhia de Jesus não se entregavam a vida apostolar senão depois dos prolongados exercícios de Santo Inácio. Construíam-se primeiro, para depois construir os outros.
João Batista não começou a sua campanha contra os desregramentos da sociedade herodiana, sem antes se recolher, anos a fio, nos descritos da Peréia. E a sua réplica anticristã, configurada no Zaratustra de Nietzsche, não iniciou a propaganda do Super-Homem sem ter antes construído a própria personalidade na montanha silenciosa.

A epopeia das Navegações foi precedida pela Escola de Sagres, mas antes desta o preparo se realizara no Castelo de Tomar pelos Freires de Cristo, que por sua vez guardavam as tradições dos Templários.

Não se improvisa um Bolívar, que para suas empresas se preparou culturalmente em longos anos de estudos e de viagens. E um José Bonifácio não surge por acaso no cenário da Independência, porque o Patriarca foi o resultado de uma autoconstrução através de longas peregrinações e meditações sobre quanto ia observando na vida dos povos.

A cerimônia ritual em que se armavam os cavaleiros da Idade Média – guerreiros teutônicos ou paladinos da Távola Redonda do Rei Artur – era precedida pelas vigílias d’armas, que simbolizavam a preparação do herói. A vigília d’armas, em nosso tempo, há de ser o adestramento intelectual e a formação moral. Sem isso, não conseguiremos reformar os costumes nem produzir os homens de que o Brasil vai precisar daqui a cinco ou dez anos.

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Se os nossos estabelecimentos de ensino fabricam apenas profissionais e são insuficientes para incutir nos moços brasileiros os sentimentos de civismo, a noção dos deveres, o espírito público; se nos próprios lares, na sua atmosfera materialista e egoísta, as crianças e os adolescentes já não encontram àquele ambiente que propicia o florescimento das virtudes, a aspiração à vida heroica - então, de que elementos nos iremos valer, buscando a Mocidade, para dar ao Brasil aquilo de que essa mesma mocidade está necessitando? Não será perigoso lançar a Juventude, sem os parafernais dos conhecimentos que ela própria possa administrar em seu proveito, numa campanha - ainda que benemérita - em prol de uma indefinida moralidade empírica, sem base de uma formação religiosa, filosófica, histórica e sociológica? Não se transformarão os comícios e as agitações da praça pública em formas de derivativos, a substituir os divertimentos em que se estiola a maioria dos moços em nosso país? Não haverá o perigo de se tornarem os jovens (que é tudo o que esta Pátria ainda possui de esperança) em instrumentos de interesses político partidários?

Moralidade por oposição e visando destruição sem sentido de construção, é moralidade de superfície, promotora de escândalos públicos e sem nenhum resultado positivo para o futuro de uma Pátria que está precisando, antes de tudo, elevar seu nível cultural. Pois se no Brasil existem negociatas, malversações de dinheiros públicos, oligarquias parasitárias, venalidade de funcionários, domínio do suborno e da gorjeta, esbanjamentos e irresponsabilidades, preguiça e imprevidência, ambições irrefreáveis e sensualidades irreprimíveis, temos de convir que o responsável inconsciente por tudo isso é o próprio povo que prefere, sistematicamente, nos comícios eleitorais, os que fazem mais barulho, os que gastam mais dinheiro, os que acenam com mais promessas, os que se mostram mais ignorantes e grosseiros.

Por conseguinte, o problema da moralidade é um problema de cultura. E o problema da cultura popular (formação da consciência de um povo) só será resolvido forjando-se uma geração que possa fazer valer, em face da inversão de todos os valores, os legítimos direitos de orientação de uma forte aristocracia intelectual e moral.

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Forjar essa geração - eis o de que o Brasil precisa. Esse o motivo da fundação em todo o país, dos Centros Culturais da Juventude, filiados à Confederação, que lhes dá unidade, dentro da mesma linha de direção filosófica. Nesses centros se organizam bibliotecas, estimulando-se a leitura dos grandes pensadores do nosso tempo; realizam-se cursos de filosofia, sociologia, história, doutrinas econômicas, geografia; promovem-se conferências sobre temas de interesse humano e nacional; comemoram-se as datas importantes da História Brasileira; estudam-se as personalidades dos nossos estadistas, filósofos, pedagogos. Economistas, militares, artistas, prosadores e poetas; - e mais do que tudo – nesses grêmios se procura criar a mística das virtudes, dos sacrifícios, dos heroísmos, num sentido cristão e consoante os sentimentos mais puros de brasilidade.

Que se lancem campanhas pela moralidade nacional e que para ela se mobilizem os moços, contra isso não podemos, em princípio, nos opor; mas que essas campanhas distraiam a juventude do esforço que ela deve empregar no sentido de construir-se por meio de uma revolução moral interior e de uma elevação intelectual indispensável, contra esse desvio nos opomos. E se uma campanha dessa natureza vier a servir ao interesse de partidos políticos ou da "demagogia da honestidade", que, à mingua de outros predicados de nossos homens públicos, se apresenta hoje como cartaz para a conquista de postos eletivos, então devemos ter a coragem de condená-la. E se, ainda, a habilidade técnica do comunismo internacional intervier sub-repticiamente para utilizar-se como "massa de manobra", desse patrimônio da Pátria, que é Juventude, coordenando-a, sem que ela o perceba, como tem feito a todos os nobres e puros movimentos da opinião sentimental e desprevenida no que respeita às artimanhas dos pescadores de águas turvas, nesse caso devemos estar alertas para prevenir os que não se preparam para conhecer os fatores intervenientes e as circunstâncias advenientes que surpreendem sempre as melhores intenções.

Escrevo estas linhas para os duzentos Centros Culturais da Juventude filiados à Confederação. Para que os seus associados as leiam, as meditem, pondo-se de sobreaviso, e redobrando os seus esforços na obra serena, firme, imperturbável, perseverante da construção de suas próprias personalidades como fundamento da construção do Brasil de Amanhã.

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SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 1ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira. S/data. Págs. 103 e segs.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Integralismo e a Educação (1958)

Folha de rosto do Volume 9 da "Enciclopédia do Integralismo"

Plínio Salgado

Nos jornais e revistas que o Integralismo publicou em 1932 a 1937, em livros desse período e dos anos posteriores até hoje, até o presente, foi exposto o pensamento dos adeptos do Sigma sobre Educação, quer no tocante aos aspectos gerais do problema, seus fundamentos filosóficos e sua objetivação, assim como no referente a setores particulares ou especializados das atividades educacionais.


Obedecendo, embora à mesma orientação filosófica, os autores escreveram segundo interpretações pessoais, produzindo trabalhos esparsos, sem a preocupação de realizar uma sistemática educacional. No entanto se verifica em todos esses escritos, um único pensamento: o da educação integral, para o homem integral.


Se a educação visa à formação do Homem, cumpre, antes de tudo, firmar um conceito do Homem. Segundo o critério Integralista, o Homem deve ser tomado no conjunto de sua personalidade. E para se ter essa noção de conjunto, temos de considerar o Ser Humano: 1ª) – como ele é; 2º) – como funciona subjetivamente; 3º) – como funciona, para atingir a plena realização de si mesmo, no meio social.


Para o Integralismo, o Homem é uma dualidade consubstancial exprimindo-se numa unidade substancial, definição de Boécio que nos faz compreender que o Homem não é apenas corpo, nem apenas espírito, mas as duas coisas intimamente ligadas. Diremos mais claramente: o Homem é um ser racional, criado à imagem e semelhança de Deus, seu criador, com direitos e deveres inerentes e decorrentes da sua racionalidade e da sua finalidade. O objetivo principal do Homem é, portanto, a realização plena da sua personalidade segundo sua natureza e seu destino.


O papel, por conseguinte, da Educação, é dar ao Homem os meios para que essa realização se efetive. Essa primeira consideração quanto ao que o Homem é, leva-nos à segunda, que passa do campo da filosofia para o da especialização psicológica, fisiológica e biológica, para sabermos como o Homem funciona segundo ele próprio, segundo a sua natureza corporal e espiritual. Sendo toda obra educativa uma interferência de alguém em alguém, ela pode tornar-se uma coação, no sentido de deturpar, deformar ou transformar a personalidade. Não iremos ao exagero de Rousseau e dos excessos individualistas, mas, não podemos deixar de reconhecer que a melhor das educações é a que não violente a pessoa humana, conformando-a para finalidades outras que não sejam a própria finalidade do Homem, segundo sua natureza e seu destino decorrente dessa mesma natureza.


Fala-se hoje em “educar para a democracia”, “educar para a liberdade”, “educar para o nacionalismo”, “educar para o socialismo”, “educar para o desenvolvimento econômico e técnico”; só não se fala em preparar o Homem para si mesmo.


Mas é aqui que transitamos do campo da psicologia, da fisiologia, da biologia, que compreende a educação moral, física e estética, para entrarmos no campo da sociologia, isto é, do funcionamento do Homem no meio social, não só para que este seja beneficiado pelo esforço e cooperação de cada um e de todos, como para que seja cada um beneficiado pela soma e condições de bens comuns que constituem a zona de condomínio de todas as pessoas e grupos naturais.


Esta terceira consideração sobre a finalidade da educação oferece-nos novos dados para uma melhor compreensão da personalidade. Longe de diminuir a potencia de afirmação do Ser Humano, o convívio e a participação no meio social elevam o índice dessa potencialidade. Em última análise, a personalidade não é apenas o Ser em Si, mas o Ser em face de outros Seres. Personalidade é consciência de diferenciação. A diferenciação é resultante de comparação. E a comparação se efetiva no convívio.


É no convívio que se exprimem as diversidades de vocações, de aptidões, de tipos de inteligência, de temperamento, como se notam as afinidades, as semelhanças, as preferências. Segundo as diversidades os homens trocam benefícios; segundo as afinidades, fortalecem o esforço realizador e defendem seus interesses naquilo que estes têm de comum. A personalidade individual se fortalece pela sua participação numa família (diferente das outras) onde, por sua vez é um membro diferenciado dos demais; pela participação no grupo profissional (distinto dos outros grupos profissionais); pela participação na associação cultural; pela participação no Município ou na Província, na Sociedade Religiosa, no Grupo Nacional. Além dos caracteres físicos e psicológicos diferenciadores, o convívio social oferece a identificação de família, e profissão, de grau de cultura, de municipalidade, de provincialidade, de religião, de nacionalidade.


A educação, portanto, no sentido de instruir para maior eficiência na cooperação social completa a que visa dar-lhe expansão plena no seu desenvolvimento físico e espiritual.


Este, em linhas gerais, o conceito da educação decorrente da filosofia integralista e dos seus critérios interpretativos dos valores humanos, sociais e nacionais.

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Excerto extraído das págs. 7, 8, 9, 10, e 11 de O Integralismo e a Educação. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira/Edições GRD, s/data; 217 págs. Enciclopédia do Integralismo - Vol. IX.

A Arte de Semear Ideias (1957)


PLÍNIO SALGADO

A Arte de Semear Ideias é uma arte difícil. Não pelo que exige em qualidades de ação, mas principalmente pelo que reclama em virtudes de resistência.

Não é somente escrevendo e publicando livros, redigindo e estampando artigos nos jornais, subindo à tribuna e proferindo discursos, nem lecionando ou simplesmente conversando, que se consegue semear ideias capazes de germinar.

Tudo isso é preciso, não há dúvida, mas tudo isso nada vale, se o semeador não possui aquela indispensável energia interior com que a si mesmo vence em cada hora de desânimo, diante da incompreensão, ou da indiferença, ou da injustiça.

Essa resistência, em cada minuto de sua vida, é que constitui o húmus alimentador e vivificador das ideias semeadas. Sim; essa resistência é que determina a continuidade, a permanência, a fidelidade que são os fatores operantes nos processos da germinação das ideias.

Porque o grande drama dos portadores de ideias novas consiste justamente no contraste entre estas e a realidade humana, que é o solo onde o semeador deita a sementeira.

Tudo conspira contra aquele que traz algo novo. Entre os adversários que se mobilizam, tem ele de contar com as ideias velhas, que ressuscitam pretendendo ser mais novas, mais oportunas, mais conforme o tempo transcorrente.

Não encontrando no Presente nada capaz de amesquinhar ou destruir o Pensamento que se antecipa aos dias em que surge; os medíocres procuram nas sombras do Passado elementos com que opor-se aos Renovadores, aos propositores de soluções novas. Com tais elementos, proclamam que a ideia nova foi superada.

O verdadeiro Missionário de ideias percebe claramente o truque desses falsificadores e não se perturba na marcha que se propôs de um apostolado irredutível.

Para isso é preciso um grande poder sobre si mesmo, pois todas as aparências trabalham contra ele. Essa força interior provém de íntima certeza, de uma convicção. Mas para haver convicção é mister que o Semeador não seja apenas o portador de ideias, mas seja, principalmente, o portador de uma crença profunda.

Os que não acreditam nas ideias que pregam não resistirão à onda das aparências enganadoras, não se conservarão firmes e inexpugnáveis em face da conjuração e dos expedientes dos medíocres. Deixar-se-ão influenciar por estes, entrando primeiro na dúvida, depois no desânimo, finalmente no ceticismo. E perderão a batalha.
Perderão, porque a batalha já estava perdida antes de ser travada. O pretendido semeador era indeciso, a sua mão tímida e trêmula, a sua palavra insegura e dubitativa.

Quando saiu a campo, não se blindou contra as influências estranhas; de sorte que, à leitura do primeiro livro de grande sucesso lançado pela mediocridade contemporânea, a sua fé em si mesmo abalou-se. Ficou à mercê da imensa fauna dos oradores oportunistas e dos artigos e notícias da imprensa quotidiana. Os falsos êxitos, os retumbantes aplausos, que coroam os vitoriosos do momento em seus efêmeros triunfos, impressionam o homem fraco, o apóstolo sem fibra, o tímido predicador sem confiança naquilo que ele chama inicialmente “a verdade” e que mais tarde chamará “a doutrina superada”.

No entanto, o contraste principal, que cria a tragédia de todos os lutadores apostolizantes, encontra-se exatamente naqueles motivos que atestam a autenticidade do “novo” em face do “velho”.

A ideia nova precisa de homens novos. Para isso, ela necessita, antes de tudo, transformar-se em sentimento. O sentimento produz os atos, ou séries de atos, em que se manifestam e se afirmam as personalidades novas.

Quando a ideia se transforma em sentimento, estabelece-se no que foi inicialmente seu “objeto” e depois se fez “sujeito” operante, a linha nítida da conduta. A manutenção dessa linha depende, entretanto, da própria força do sentimento, na sucessividade das emoções, cujo ritmo se exprime naquele constante fervor da paixão criadora.

A progressão crescente parte do termo “ideia”, ascende ao termo “sentimento”, atinge o termo “paixão”. A semente chega, então, ao ponto de desenvolvimento sem o qual não germina.

E não germina porque só a paixão da ideia, isto é, a continuidade das emoções sentimentais, traz consigo a energia seminal fecundadora. O pregador crê no que prega; a sua palavra transmite o gérmen, a centelha vital.

Quando o pregador tornou-se autêntico semeador, operou em si mesmo a superação de todas as forças negativas e esterilizadoras. Conhece-se quando tal acontece, não já pelas palavras que o semeador profere, mas pelos atos que pratica.

Os atos identificadores da autenticidade do apóstolo revelam, um por um, a persistência. Mas, justamente porque o processo da transformação da ideia em sentimento e do sentimento em paixão apostolar se opera, de pessoa a pessoa, em ritmos variáveis, aquele que se fez propagador, difundidor de ideias novas sofre a grande amargura cotidiana das decepções sem número.

São momentos perigosos na vida do semeador. É o choque entre todas as forças do “velho” contra a audácia do “novo”. O pioneiro do Futuro amarga a imensa dor de verificar que, entre aqueles que marcham com ele, e até mesmo entre aqueles que se dizem vanguardeiros na maravilhosa aventura, manifestam toda a espécie de fraquezas, de incapacidade para enfrentar os momentos difíceis, de impotência no sentido de viver o sonho magnífico posto na linha do horizonte desejado.

A semeadura, pouco a pouco, no transcurso dos acontecimentos, tornou-se marcha. As mãos atiram a semente à terra; as pernas prosseguem, para diante, sempre para diante.

Mas há os que se cansam. Há os que param no meio do campo, a contemplar o terreno percorrido e, além deste, para trás, muito para trás, o terreno percorrido por outros, por outras gerações, segundo outro sentido de vida e de realidades. Nesse horizonte pretérito, erguem-se os vultos dos que apontam para a frente e parecem dizer aos caminhantes que não olhem para eles, pois cada geração tem o seu destino próprio; mas há também os vultos dos que viveram segundo o Presente que lhes pertenceu e não segundo o Porvir, que nos pertence, e estes, em vez de nos mandar marchar para diante, convidam-nos a regressar ou a extasiar-se na contemplação estática do que eles foram, do que eles fizeram.

E há também os que se iludem com as falsas aparências de uma realidade que não é realidade; capitulam em face dos êxitos ocasionais dos medíocres; entregam-se ao domínio dos cartazes e das frases feitas, que constituem, em última análise, as páginas dos doutrinadores de ocasião, dos mágicos de feiras, em torno de cujas palavras se conglomera a clientela bestificada dos “best-sellers” e dos auditórios dos comícios.

E há, ainda, os que pretendem o absurdo que consiste em querer que a ideia nova viva efetivamente uma vida atual, esquecendo-se de que nesse caso ela deixaria de ser nova. Esses revoltam-se, porque o seu generoso pensamento, a sua nobre doutrina, o seu elevado sentimento só encontra possibilidade de vida em poucos, em alguns, e não na maioria dos próprios companheiros de ideal. Tornam-se céticos, mordendo-lhes o coração o íntimo desejo de abandonar a luta. E muitos a abandonam, dizendo: são muito poucos aqueles que realmente me compreendem.

Incorrem dessa forma, no maior dos erros, que é desconsiderar o valor das ideias que outrora foram novas e que, tendo-se transformado em fatos sociais, persistem, pela lei da inércia, e persistirão longo tempo, utilizando-se de todos os expedientes do “falso novo” para a manutenção do velho. Não raciocinam para concluir que justamente por ser nova, a nova ideia terá que colocar o seu objetivo no Futuro. Não percebem que toda ideia nova é uma batalha contra o Presente. Do Pretérito, ou da Atualidade, ela toma unicamente os valores eternos, que pertencem também ao Futuro. Mas os “valores eternos” não são os “valores visíveis”, ou o cortejo das aparências e as estruturas de superfície.

No meio de todas as confusões, de todos os fracos e desorientados, sofrendo a injustiça dos adversários e a injustiça dos seus próprios colaboradores, o Semeador terá de continuar. Impassivelmente. Serenamente. Irredutivelmente.

E deverá ter em vista que o verdadeiro missionário de ideias não é aquele que apenas escreve livros no conforto dos gabinetes, ou redige artigos de imprensa sobre os fatos do dia, ou lavra pareceres, ou compõe ensaios, prefácios ou conferências, mediante temas de ocasião, ou vai discursar na praça pública somente quando chega o tempo das campanhas eleitorais ou das campanhas relacionadas com acontecimentos ou problemas que ocorrem periodicamente. O verdadeiro missionário de ideias não conhece a pausa das férias parlamentares, os intervalos das propagandas à boca das urnas, a intercadência feliz dos repousos reconfortantes. Mas, ao contrário, prega constantemente, em todos os dias da sua vida; anda de cidade em cidade, sem pausa nem descanso; escreve para jornais e escreve livros; procura dar concatenação lógica às ideias, estruturando um corpo de doutrina; e – o que é mais importante – sacrifica-se anos após anos, em continuidade efetiva, resistindo não apenas às injustiças adversárias, que são explicáveis e plenamente justificáveis, por exprimirem a natural reação das ideias velhas. Mas também às injustiças daqueles mesmos que julgam segui-lo, ou que sabem, no íntimo, que não o seguem, fingindo apenas segui-lo.

Essa resistência, essa capacidade para compreender e perdoar, essa energia na manutenção dos propósitos, esta linha imperturbável de marcha, tudo isso consiste a grande arte de semear ideias.

A arte de semear ideias é sem dúvida, uma arte difícil. Mas, por isso mesmo, é bela. Que a juventude da nossa Pátria saiba praticá-la. E poderemos ter confiança no Futuro.

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SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 3ª edição. São Paulo: Voz do Oeste, 1983; 180 págs. Transcrito integralmente da pág. 51 até 56.