quinta-feira, 15 de agosto de 2024

SABER PERDER (07/05/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

SABER PERDER (07/05/1936)

PLÍNIO SALGADO

No meio de todo o esfacelamento de um sistema político, da podridão dos costumes eleitorais e dos processos de campanha partidária, nos Estados Unidos da América sempre restou, como uma flor a desabrochar num pântano, aquela elegância dos contendores, que sempre foi um padrão de legítimo orgulho dos políticos nos Estados Unidos e um exemplo para todos os povos.

Travada a luta eleitoral, ferida a batalha decisiva das urnas, realizadas as apurações, o vencido, imediatamente, apressava-se a saudar o vencedor, indo, muitas vezes, apertar a mão do adversário, dando como fato consumado a derrota de um e a vitória do outro.

Chegou mesmo a ser costume ir, algum tempo depois, a esposa do presidente eleito, quando o adversário derrotado era o presidente em exercício, visitar a Casa Branca, a fim de determinar os novos arranjos do palácio, de conformidade com os gostos dos novos hóspedes: e, recebida pela senhora do vencido, esse encontro exprimia ainda um dos requintes de delicadeza que sobrou no meio de toda a brutalidade e agressividade das campanhas chamadas democráticas.

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Isso, que desperta a admiração e o respeito, essa atitude de cavalheirismo e de elegância moral, costumam os jogadores chamar, na sua pitoresca gíria: "saber perder".

Sim; porque até no vício mais apaixonado e perigoso, na desenfreada jogatina, também existe uma ética, uma regra moral, através da qual se conhecem aqueles que, em pequenos receberam alguns rudimentos de educação.

Há mesmo um dito da velha sabedoria popular, que nos ensina poderem os homens ser conhecidos em dois lugares, na mesa e no jogo. O comportamento diante dos pratos e o comportamento diante das fichas do pano verde revelam os indivíduos capazes e incapazes de se controlar, de dominar os nervos, de refrear os ressentimentos.

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Podemos acrescentar que também na política se conhecem os homens educados, os que não se afastam da elegância moral, das condutas irrepreensíveis dos que sabem perder.

Estas considerações vão a propósito das recentes, eleições em Santa Catarina. Como se sabe, ali, o Integralismo venceu, estrondosamente, tanto o Governo como o Partido da Oposição. Venceu não por diferenças de dezenas, porém, de centenas de votos, apoderando-se da quase unanimidade dos postos de vereadores, nas principais cidades catarinenses, e assenhoreando-se de cerca de uma dezena de prefeituras municipais, em lugares da maior importância econômico-financeira, industrial, social e política daquele Estado?

Que fizeram os partidos?

Portaram-se como os jogadores que, tendo perdido, deblateram, maltratam os parceiros, lamentam a sorte, acusam de roubalheira a infelicidade nas cartas, oferecem a todos os circunstantes a impressão desagradável dos rancores inspetados e da sovinice mais revoltante?

Tendo perdido as eleições, os partidos liberais começaram a afirmar que não existia Integralismo em Santa Catharina, e sim hitlerismo, pois os nomes dos candidatos eram quais todos de alemães.

Quem examinava a lista dos candidatos dos partidos reclamantes logo reparava que nela, na lista deles, é que figurava muito maior número de sobrenomes teutos, circunstância, aliás, perfeitamente razoável, pois a maior parte dos habitantes de Santa Catarina é filha neta, bisneta ou tataraneta de alemães, guardando os sobrenomes de seus pães, avós, bisavós ou tataravós.

Em seguida, quando nós; integralistas, para nos defender de tão sórdidas acusações, publicamos os boletins eleitorais, tanto do Governo como da Oposição catarinenses, que, eles distribuíram em alemão, nossos adversários derrotados mudaram de tática. Foram ao Tribunal Regional reclamar contra simples formalidades, meramente de pormenores exteriores, sem nenhum valor de formalidade essencial.

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Dessa maneira, tenta-se, agora, em Santa Catarina, anular a eleição dos integralistas, sob o pretexto de que, na procuração enviada pelo Chefe Nacional ao Chefe Provincial, não constava o poder para nomear delegados de partido, e apenas se verifica naquele instrumento o poder para registrar candidatos.

Como futilidade, é maravilhoso! Como sofisma, é grosseiro, porquanto na procuração a que se referem, há plenos poderes para a prática de todo e qualquer ato relativo aos interesses partidários da Acção Integralista Brasileira. E, finalmente, como atitude, podemos classificar simplesmente como vergonhosa!

Que vergonha, realmente! Perde-se uma eleição, e, em vez de se manter uma linha de conduta compatível com o decoro de derrotado, não! Vai-se ao Tribunal, e para que? Para chicanear sobre um pormenor da procuração do adversário!

Mesmo que houvesse (o que só admitimos para argumentar) qualquer falta de formalidade, e ainda que essa falta se referisse à formalidade essencial, francamente, quem foi derrotado por tão formidável diferença, deveria, mesmo para não chamar a atenção do país, conservar-se calado.

O silêncio, nestes casos, prestigia. O silêncio, nestas circunstancias, dignifica, eleva. Toda e qualquer palavra, só serve para anunciar, bem alto, a derrota.

A atitude de nossos adversários em Santa Catarina equivale a mais um fracasso.

No pleito municipal de março, o fracasso deles foi um fracasso eleitoral. Nas objeções levantadas perante o Tribunal Eleitoral, esta semana, o fracasso foi essencialmente moral.

Depois de abatidos nas urnas, pelos Integralistas, os partidos políticos ainda poderiam não se deixar abater na sua honra de cavalheiros, na sua linha de conduta, no seu decoro. Mas eles não se conformaram com o esmagamento de março e quiseram eles próprios, se esmagar, como estão fazendo, na ridícula reclamação com que recorrem de um pleito em que o povo os repeliu de maneira tão eloquente e decisiva,

A vitória que, dentro de alguns dias, o Integralismo alcançará perante a Magistratura, constituirá a terceira derrota para esses eternos chicaneiros, tão ridículos, tão pequeninos, tão incapazes de saber perder com honra, com dignidade, com. elevação moral.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 07 de Maio de 1936.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Realidades e finalidades (15/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Realidades e finalidades (15/10/1936)

PLÍNIO SALGADO

      EM 15 DE SETEMBRO DE 1931, PUBLIQUEI NO JORNAL “A RAZÃO”, DE S. PAULO, O SEGUINTE ARTIGO:

"Encarar os problemas brasileiros, segundo as nossas realidades é indispensável, mas não é tudo. A posse do "real" não terá sentido político, sem uma fixação de diretriz IDEAL.

Verifica-se a verdade objetiva para sobre ela fundar a tradução da verdade subjetiva. E' sobre a realidade concreta que temos de trabalhar e, justamente por isso, não se pode pré-estabelecer uma boa política, sem o conhecimento integral de todos os elementos da realidade social.

Pois é possível ter-se uma excelente finalidade e uma má política, do mesmo modo como se pode praticar ama excelente política, sem nenhuma finalidade. E enquanto, no primeiro caso, se agirá numa esfera puramente abstrata, no segundo erraremos por excesso de submissão ao concreto. E na política, como em tudo, a unilateralidade, se não chega a ser a ilusão da verdade, é entretanto a verdade parcial.

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Eis porque, ao encararmos as questões do nosso país, devemos nos convencer de que elas não serão resolvidas se não fizermos derivar o nosso processo político de uma série de fatos incontestáveis de ordem econômica, étnica, geográfica, histórica e moral. E, nesse caso, a política brasileira deve ter um caráter de coordenação, de aproveitamento de forças latentes que, de nenhuma forma, podem ser abandonadas e muito menos contrariadas. Mas esses fenômenos da vida nacional não devem ter uma finalidade EM SI, o que redundaria num fatalismo que a ordem social e jurídica da Nação iria consagrando, submetidos no evolucionismo materialista. Nem poderiam essas expressões isoladas, e por vezes, contrastantes, do país, se uniformizarem uma fisionomia total, se cada uma obedecesse à sua própria dinâmica, sem relação com o sistema de movimentos do conjunto nacional.

Quem estuda qualquer dos setores das questões brasileiras, de um ponto de vista de rigorosa inspeção objetiva, encontra realidades que, repelindo-se, segundo o sentido de suas relações recíprocas, podem se harmonizar em referência a finalidades comuns.

COMO EXEMPLIFICAÇÃO, temos a VIDA MUNICIPAL, A VIDA ESTADUAL E A VIDA ECONÔMICO-SOCIAL, três aspectos da paisagem política brasileira, todos os três muito significativos e respeitáveis, e que o estadista não pode dissociar, se quiser REALIZAR A NAÇÃO com finalidade bem fixada.

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Não se compreende uma política baseada exclusivamente nas realidades brasileiras, tomadas estas como CAUSA E EFFEITO. E não se compreende também uma política firmada exclusivamente numa série de ideias abstratas, sem consonância com os fenômenos ambientes.

O próprio NACIONALISMO, que seria, originando-se exclusivamente das REALIDADES, uma consequência vaga e transitória, pode levar a erros os mais lamentáveis, se ele não constituir um MEIO e pretender firmar-se como única e despótica finalidade.

O nacionalismo deve ser entendido tão somente como a forma de realização de um povo num sentido de humanidade superior. Entendido de outra maneira, ele fará da Pátria, em vez de uma expressão ideal de aperfeiçoamento, um índice de ambições desumanas, levando-as às guerras injustas e absorção de todas as liberdades pessoais. E a Pátria deixará de ser a projeção coletiva de interesses individuais para se afirmar como arbítrio e tirania.

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O pensamento político deve traçar uma finalidade à Nação e dar-lhe os elementos de possibilidade, com o ordenamento das forças oriundas do Impositivo das realidades do país.

Nem é possível harmonizar os fenômenos da completa vida brasileira, se não estabelecermos, de antemão, os princípios fundamentais do sistema político. Os nossos homens públicos, em geral, desdenham da filosofia, portando-se como viajantes que tomassem um comboio de uma à outra estação Intermediaria entre o ponto inicial e o terminal. Repousam nas finalidades puramente administrativas e sorriem superiormente de quantos pretendam indagar das causas e dos objetivos nacionais. E, abandonado o povo brasileiro às suas realidades, o Brasil vai se tornando uma Nação sem objetivo político.

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É essa, possivelmente, uma das causas da nossa cada vez mais confusa complexidade. Nada mais apolítico do que o político brasileiro. Sendo um país onde mais fervilha a politicagem, o Brasil não conseguiu ainda compreender a alta significação da política. Pois esta não tem entre nós nenhuma relação com a sociologia nem um SENTIDO ESSENCIAL, ficando em meras objetivações transitórias.

Entre a verdade abstrata das elites e as verdades concretas cuja pressão se exerce sobre o nosso partidarismo empírico, há um vazio imenso onde não se afirmou ainda uma mentalidade capaz de DIRIGIR REALIDADES, em vez de se deixar empurrar cegamente por elas, e de prefixar finalidades traçando OS CAMINHOS impostos pelas possibilidades e necessidades.

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Temos visto, expondo singelamente nas notas que denominámos "Panorama", as tendências de grandes zonas brasileiras; naquelas em que fizemos o relato da "Vida municipal", a íntima fisionomia da célula em que o regime republicano se alicerça; em outras focalizámos as aspirações estaduais, que ocasionaram a revolução de Outubro; em outras, finalmente, apreciámos, o aspecto dos problemas econômico-sociais; e tudo isso é o Brasil. O Brasil complexo, conjunto de nações politicamente distintas, em que se estendem com cartografia própria, países essencialmente distintos, que abrangem muitas vezes até frações de certos Estados. O Brasil com a concomitância de vários estágios de evolução econômica e vários tipos de psicologia social. O Brasil sem a cristalização de uma mentalidade e sem um tipo de cultura. A descontinuidade social na continuidade histórica.

As forças desse país complexo e pasmosamente unido só poderão ser ordenadas pelo gênio político que provoque a reação generalizada mediante uma forte ação nitidamente definida.

Esse estadista deverá ser capaz de apreender as ideias gerais, porém não deverá repousar exclusivamente nelas. Deverá ser um teórico em fane dos chamados políticos, e um PRÁTICO em face dos ideólogos e letrados. Deve saber aceitar, para poder conduzir. Deve saber entender, para poder disciplinar...

E não pôde, principalmente, constituir uma improvisação, um advento messiânico, mas o índice de uma consciência política e social que traga consigo a posse das realidades e a diretriz de una finalidade humana.

Por ora, é o que nos cumpre: criar essa consciência."

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Esse artigo saiu em 1931. Hoje, existe o Integralismo no Brasil. A sua linha política nunca se afastou das diretrizes desse artigo. No começo, tive multos críticos: os literatos chamavam-me de político; os políticos chamavam-me de literato. Não escutei nem os homens "práticos", nem os homens "teóricos", No começo, isto me foi difícil dentro do próprio Movimento; é que eu tinha, de um lado, a resistência dos "místicos" incapazes de entender as consequências de passos cujos efeitos se fariam sentir alguns anos mais tarde, e de outro lado eu tinha a precipitação dos "oportunistas" (no bom sentido, é claro), incapazes de perceber o segredo de minhas resistências.

Mantive a linha do equilíbrio e pude criar uma Política, num país onde nunca existiu Política, pois o que temos tido é simplesmente politicagem. A orientação traçada no artigo que acima reproduzo está plenamente triunfante

Como um só corpo, realizando a unidade perfeita do pensamento político, o Integralismo conciliou a filosofia e a sociologia e foi ao contato experimental dos fatos na história de quatro anos deste Movimento nacional de que se originou a mística da autoridade.

Somos hoje um milhão de brasileiros unidos As assembleias das "Cortes do Sigma", do Congresso Nacional Feminino e do Conclave Parlamentar que terão início amanhã, correspondem a uma grande parada das forças novas iluminadas por um ideal filosófico que gera o conceito do Estado, e por um conhecimento prático da vida brasileira de que provem uma concepção de política objetiva.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 15 de Outubro de 1936.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Fantasia indigna e realidade honesta (03/05/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Fantasia indigna e realidade honesta (03/05/1936)

PLÍNIO SALGADO

O Integralismo é, antes de tudo, a política das realidades humanas. Não pretendemos fazer um regime para querubins e serafins. Não pretendemos criar um Estado para uma corte celeste. Queremos, porém, engendrar um sistema que, ao mesmo tempo, objetive:

1º) - impedir que a maldade humana, que reconhecemos ser uma das realidades sociais e particulares, atinja suas consequências funestas para os interesses da coletividade e dos grupos naturais;

2º) - criar um clima moral de aperfeiçoamento dos espíritos, mediante uma obra sistemática de educação e de exemplos, capaz de elevar, gradativamente, os corações e as inteligências até à compreensão perfeita da virtude e à sua prática.

Nós, integralistas, não somos otimistas. Não acreditamos que o problema humano esteja apenas no homem. Se assim fosse, pleitearíamos, desde o início, uma revolução de quadros; proporíamos uma substituição de homens por outros homens, e nada mais. Seria indigno de nós e dos superiores ideais que representamos, acreditar que os indivíduos perfeitos são aqueles que estão fora dos postos políticos e de administração pública do Brasil. Sabemos mesmo que, dentro do próprio movimento integralista, existe uma quantidade apreciável de patrícios de boa vontade, que vestiram a camisa-verde no empenho sincero de concorrer para a salvação do país, patrícios esses, porém, que estão cheios de defeitos, de baldas liberais-democráticas e de pecados e incorreções que eles se esforçam por apagar de si mesmos. Sabemos que o nosso recrutamento de brasileiros não pode ter a pretensão de aliciar santos, anjos e arcanjos. Se homens dessa altura moral existissem no país em número tão grande como os algarismos das estatísticas integralistas, o nosso movimento não se explicaria como uma necessidade histórica. O Integralismo é necessário, justamente porque temos de reeducar o povo brasileiro. Só se reeducam aqueles que estão dispostos a isso. Estar disposto à isso já é um sinal de saúde moral, de reação espiritual e primeiro passo no caminho do aperfeiçoamento.

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Ora, assim sendo, o Integralismo objetiva, de um modo "imediato", uma reforma profunda nos métodos de governo, capazes de encarar a realidade política do país, assim como a realidade social. Capaz de enquadra-las e dirigi-las. Controlar as atividades econômicas e financeiras, traçar as normas coercitivas da moralidade pública, da educação, da formação do caráter nacional, impor ordem e disciplina, tornar imperativo o principio da autoridade, prestigiar esse princípio de autoridade: pela exigência mais rigorosa do procedimento público e privado dos homens que a encarnarem.

De um modo "imediato", pois, objetivamos reformas políticas, pretendemos adotar novos processos, novos métodos de democracia mais condizentes com as realidades humanas e as realidades brasileiras. Submeter uma sociedade de loucos, de agitados, de epiléticos, de místicos alucinados, de sonhadores mórbidos, de superexcitados sexuais, de dipsomanos, de fingidos, de vaidosos, de mentirosos, de ambiciosos, de delirantes, a um regime dietético e desintoxicante, eis a missão do Estado, missão que ele só cumprirá conduzindo-se ele próprio até aos limites traçados pela natureza humana.

Agora, de um modo "mediato", pretendemos atingir, ao cabo de longos anos de ação doutrinária, de ação educacional, de imposição de normas pelo exemplo dos dirigentes, o máximo de aperfeiçoamentos morais, obra essa que durará várias gerações, pois estou certo de que não realizarei numa só geração aquilo que foi destruído sistematicamente em muitas gerações que me precederam.

Quando os Iiberais-democratas, fanáticos de um regime, pretendem fazer a apologia do seu sistema, costumam dizer que o sistema é perfeito, mas os homens é que não o tem cumprido.

Esse argumento demonstra que o sistema não presta. Por excessivo na confiança que depositou nos homens, acreditou mais nestes do que em si mesmo. Pretendendo realizar-se, não ofereceu em si próprio os elementos coercitivos da ação desmoralizadora dos homens, os fatores impositivos de uma orientação superior, antes, pelo contrário, deixou-se estar entregando seu próprio destino de coisa perfeita à discrição dos seres imperfeitos. Em vez de concorrer para o progresso do espírito humano, concorreu para o seu regresso. Em vez de se tornar lei viva, tornou-se lei morta.

Essa é a razão porque, nesta pregação integralista, insiste sempre neste tema: não ultrapassar a linha do equilíbrio, para não cair na mesma hipocrisia dos liberais.

Que adianta termos uma norma de conduta admirável impressa em nossos livros, estatutos, manifestos, cartilhas, artigos e ensaios, ordens do dia e diretivas? Que adianta, se, na prática, são os próprios pregadores que agem em contradição com a sua doutrina?

Não será isso muito mais pernicioso para a mocidade? Não será um crime praticado perante a Nação?

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O senso das realidades humanas é fundamental no Integralismo. Esse senso de realidade nós o encontramos na fonte de que viemos: o espírito cristão. E eu tenho visto muitas vezes, dentro do próprio movimento integralista, quanta imperfeição se acoberta debaixo dos maiores exageros de doutrina moral.

Aos chefes, aos dirigentes, aos apóstolos, aos. funcionários, aos que detêm uma parcela de autoridade em nosso movimento, digo francamente que prefiro, mais do que a palavra, o exemplo. Eu sei da grandeza e da beleza trágica dessa luta que se trava no íntimo dos espíritos de uma geração que teve a suprema glória de reagir a tempo contra tudo o que estava podre, contra a herança de miséria que recebemos das gerações precedentes. Eu sei bem dessa luta. Sei, porém, que não haveria virtude se não houvesse luta.

Como Chefe deste movimento, eu não sou dos mais cruéis na exigência, dos mais implacáveis na condenação dos erros, dos mais violentos castigadores do mal, justamente porque compreendo a batalha que suscitei no coração de cada um. Tenho reparado, porém, que os mais cruéis no seu puritanismo são quase sempre os que não examinam suas próprias fraquezas, e, de tal forma se inebriaram pela moralização objetiva, que se esqueceram dos deveres subjetivos, cuja base é o sentimento mais profundamente cristão.

Quero que os integralistas compreendam bem o sentido que dou a estas reflexões, para que vivam em paz e se fortifiquem no conhecimento de suas próprias fraquezas, e- confiem tanto em si mesmos como nos seus companheiros, todos confiando, em primeiro lugar, n'Aquele que, não nos dando a mão, nos deixará na mais tremenda das confusões.

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O exemplo que a liberal-democracia está oferecendo ao mundo, com a situação atual da Europa, demonstra como toda a doença da humanidade de hoje é a hipocrisia. Os liberais-democratas fingem acreditar nas virtudes de uma civilização e de um regime, que eles mesmos desrespeitam, adotando, na prática, os métodos mais reprováveis de violências.

Não adotemos esse exemplo. Que Jamais a crença em nossas virtudes e nas virtudes do Integralismo seja um fingimento. Por isso o Integralismo é a doutrina da realidade. Da realidade cuja inspiração deriva da fonte milenária do Evangelho e, para os povos, como para os indivíduos, para as sociedades e para as Nacionalidades, será sempre a "fonte de água viva", daquela água a que o Nazareno alude junto do poço de Jacob, à Samaritana maravilhada. Essa água viva de eternidade e de força chama-se sinceridade. Sentido de equilíbrio e de harmonia, sentido de justiça e misericórdia, sentido de humildade e de sacrifício, sentido de realidade material, intelectual e moral. Numa palavra: sentido de Humanidade.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 03 de Maio de 1936.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

COM A PALAVRA O SENADOR COSTA REGO (17/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

COM A PALAVRA O SENADOR COSTA REGO (17/10/1936)

PLÍNIO SALGADO

Na hora em que se realiza, na Capital da República, pela primeira vez na História do Brasil, um conclave de deputados estaduais, prefeitos e vereadores, sem preocupações estaduais e com um só pensamento nacional de unidade da Pátria;

na hora em que se realiza, com o mesmo pensamento e o mesmo sentimento, o 1º Congresso Nacional Feminino da A.I.B., que realiza o milagre de reunir no Rio senhoras e moças de todas as Províncias;

na hora em que, culminando essas imponentes manifestações do Brasil-Uno e Indivisível, reúnem-se, também, em Guanabara, os Chefes Provinciais do Integralismo em todo o país, para tomarem parte, com o Supremo Conselho, o Secretariado Nacional e a Câmara dos Quarenta, nas assembleias das Côrtes do Sigma:

- Eu não preciso, para significar a importância desses fatos, escrever o meu artigo quotidiano.

Escreveu-o, por mim, publicando-o no "Correio da Manha", de ontem, o senador Costa Rego, diretor daquele importante matutino.

Dou, portanto, a palavra a Costa Rego:

"OS FATORES DA UNIDADE"

"A língua é um fator inconcusso da unidade brasileira. Não é certamente o único, porque, isolada, ela não faz a unidade; mas a unidade que se funda, entre outros elementos, na língua é sempre forte.

A este respeito, o Brasil apresenta um exemplo impressionante, quando o comparamos com as outras nações: não há entre nós nenhum dialeto, ao passo que os há mesmo em Portugal.

Mario Marroquim estudou o fenômeno e atribuiu-o à "mobilidade brasileira", quer dizer ao hábito de deslocar-se o homem de um para outro ponto do país. Esse hábito foi-lhe, de resto, imposto pela própria natureza, tão vasta e surpreendente que o seduzia sempre à aventura. Resultou, por fim, da divisão administrativa da terra, que, tendo criado núcleos diversos, disseminou uma população de costumes idênticos.

Criaram-se - era natural - verdadeiras zonas linguísticas, com peculiaridades que não chegaram, entretanto, a afetar a estrutura do idioma e lentamente se diluem na evolução dos modos.

Diluir as peculiaridades das zonas linguísticas é, assim, um trabalho político a sustentar. Nesse trabalho colabora grandemente o Exército, que, sendo, pela unidade militar, um instrumento da feição mais característica da unidade nacional, estabelece o contato continuo das inteligências na permanente deslocação das guarnições, formadas por homens de todas as zonas, fundidos no mesmo sentimento superior do serviço da Pátria.

O problema da unidade brasileira – não nos iludamos - há de ser sempre, através dos anos, o grande problema político do país, pois não basta possuir a unidade: é necessário preserva-la. E ela fica tanto mais exposta quanto é certo que, promanando até hoje de forças morais, pode sofrer o ataque das forças econômicas mal encaminhadas, propendendo para os regionalismos da produção e do comércio. É o que tenho procurado combater na criação absurda de uma frota mercante regional, como a projetada, do Rio Grande do Sul, em detrimento tácito do Lloyd Brasileiro, esse outro grande instrumento de unidade, que um antigo ministro da Fazenda, por coincidência filho do Sul, já quis levar à falência.

A política é no Brasil um desencanto onde não raro se estiolam as boas vontades. Poderíamos modifica-las no sentido de uma permanente inquietação em torno do Brasil não apenas unido, mas uno. A simples união não é a unidade.

Todo brasileiro tem, a meu ver, um esforço indiscutível a cumprir, qualquer que seja sua religião, seu partido ou sua zona de nascimento: é o esforço de afastar os fatores de desagregação.

Nem sempre os grupos políticos, em sua ação estritamente partidária, avivada ou empecida, conforme as conveniências, pelas rivalidades funestas das pessoas e dos interesses, compreendem o problema da unidade. Para eles estando feita a unidade é intangível.

Mas os povos crescem e marcham. No crescimento e na marcha eles procuram um destino que preciso fixar, sob pena de crescerem e marcharem sem o sentido nacional, repetindo velhos dramas da História.

Há seis anos, surgiu no Brasil um movimento a que muitos, em sua insciência do que exprimem e podem as exaltações coletivas, não deram o devido apreço. Quero referir-me ao Integralismo. O Integralismo realizou o milagre, ainda não visto na República, de uma coordenação rigorosamente nacional.

Ao mesmo tempo em que este acontecimento se verificava, o Código Eleitoral outorgado pelos poderes instituídos em 1930 prescrevia e estimulava a formação dos partidos do mesmo gênero, isto é, nacionais. Cedo, porém, os vícios da Política pura e simples frustraram esse ideal, que haveria servido à causa da unidade. E o Integralismo - só ele, isolado - constitui hoje o elemento essencialmente político em luta pelo país uno, enquanto nós outros perdemos um tempo sem fim para tornar o país apenas unido. Mesmo os que não adotam a doutrina deveriam impressionar-se com o facto.

Há, por conseguinte, uma obra de pensamento a concluir, e ela depende - reconheçamos – da coragem com que enfrentarmos a realidade, em lugar de nos afundarmos nas praxes obsoletas do regionalismo, a que já devemos tantas de nossas penas e tantos de nossos erros."

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 17 de Outubro de 1936.

terça-feira, 2 de julho de 2024

PACIFICAÇÃO (02/05/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

PACIFICAÇÃO (02/05/1936)

Plínio Salgado



Também na Europa se desejou a pacificação.

O sr. Samael Hoare pronunciou-se. O sr. Sarraut soltou algumas palavras. Ouviram-se alguns tiros. Eram as tropas fascistas que invadiam a Abissínia.

O sr. Antonio Eden, o sr. John Simon, mexeram-se. Ouviram-se alguns tiros mais longínquos. Era na Ásia. Os japoneses estavam em Mandchukuo.

O sr. Brun, o sr. Flandin, o sr. Lloyd George deram entrevistas à imprensa. Logo escutaram alguns rumores de tropas marchando. Era a Alemanha que vinha ocupar as fronteiras francesas.

Então, os srs. Tardieu, Herriot, Chamberlain, Brun, Flandin, Simon, Eden, Hoare, Sarraut, Stanley, Baldwin, Erc Phips, Daladier, agitaram-se clamando pela pacificação. Mas, logo em seguida, verificaram que a thoria era uma coisa muito diferente da prática, que o idealismo não correspondia à realidade, que os métodos liberais-democráticos jamais poderiam pacificar o mundo.

Nem por isso desanimaram. Começaram a viajar abaixo e acima. De Londres a Paris, de Paris a Londres. De Genebra para toda a parte. Tudo inutil e desmoralizador.

Foi assim que, também na Europa, tentaram pacificação. A pacificação era impossível como impossível será em toda a parte onde houver interesses de grupos contra os interesses gerais.

Ainda agora, na Câmara Inglesa, registra-se uma das páginas mais deliciosas do velho humorismo britânico.

Sim. Uma coisa não foi destruída na Europa: aquele imperturbável "humor", que vinha de Dickens, que esteve sempre na atitude fleumática dos velhos Lords ou dos mais humildes frequentadores dos "bars" junto ao Tamisa, onde se toma um gole de "gin", ou de "whisky", entre duas palavras graves de legítima ironia.

Já tardava a graça exótica e singularíssima da velha Albion. Já o mundo esperava da Pátria de Bernard Shaw e de Chesterton, uma atitude digna da tradição humorística da Grã-Bretanha.

E, afinal, apareceu na Câmara Inglesa, a atitude que nos faltava. Um deputado apresentou, com ar grave, como convêm a um genuíno humorista, e fazendo mesmo gestos trágicos, uma série de atos que ele considera muito expressivos da situação europeia.

Esses atos são os seguintes:

1. Violação do Tratado de Versalhes - Remilitarização da Alemanha.

2. Idem e violação do Tratado de Locarno - Entrada das tropas alemãs na Renânia.

3. Violação do Tratado de St. Germain - Remilitarização da Áustria.

4. Violação do Tratado de Lausanne. - Refortificação dos Dardanellos.

5. Fracasso da Conferência Naval de Londres - Não estabelecimento de limites para as construções navais.

6. Violação do "Covenant" da Liga das Nações - Guerra ítalo-etiópica.

7. Violação do convenio contra o uso de gazes tóxicos - Guerra ítalo-etiópica.

8. Tensão na fronteira da Mongólia e Mandchukuo - Possibilidade de revisão dos mandatos da Liga das Nações.

9. Ingerência da União Soviética na Europa Ocidental - Pacto franco-soviético.

10. Aplicação das sanções - Tensão anglo-italiana.

11. Armamentismo excessivo – Enormes orçamentos militares das potências.

Como se vê, é maravilha! E o mais extraordinário é que a Câmara Inglesa, correspondendo ao humorismo do deputado, não riu. Pelo contrário, agitou-se. Ilustres parlamentares assumiram mesmo atitudes violentas, enérgicas, alarmadíssimas.

Tudo para fazer rir o mundo. E toda a Europa riu na tarde de anteontem. Uma imensa risada rastilhou pela margem do Tamisa, atingiu Callais, estrondou na França. A hilaridade atingiu Genebra, Berlim, Roma, os Balcans, e o turco que, às margens do Bósforo fumava tranquilamente o seu "narghile", desatou a rir, despertando os gregos vizinhos e as colônias mediterrâneas. A fria Escandinávia, a florida Holanda, a Beélgica, a Dinamarca, tudo riu. Foi uma tarde de bom humor prodigalizada pela Câmara Inglesa, que desempenhou o papel que lhe competia nesta hora do mundo.

Foi assim que a liberal-democracia começou a morrer, sem tristeza no planeta. Foi assim que ninguém mais acreditou em pacificações, nem no mundo internacional, nem no mundo das políticas nacionais, nem mesmo nos municípios, onde os coronéis disputam o prestígio local.

Pacificação só se faz com uma coisa: autoridade.

Autoridade só se faz com uma coisa: renúncia a interesses imediatos, visão superior de interesses gerais.

Enquanto houver partidos, não há pacificação Será, pois, inútil que a Europa tente pacificar-se.

E, por falar em pacificação da Europa, haverá quem acredite nessa palavra, por exemplo, em Santa Luzia do Olho d'Agua, ou na capital de algum país da América do Sul?

Publicado orginalmente n’A OFFENSIVA, em 02 de Maio de 1936.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

EM FACE DO FUTURO (18/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

EM FACE DO FUTURO (18/10/1936)

PLÍNIO SALGADO

Estou regressando do Teatro João Caetano. Acabo de receber o juramento das Cortes do Sigma. Foi um episódio imponente e impressionante. Diante de milhares de integralistas que apinhavam plateia, as frisas, os camarotes, as galerias, numa vibração formidável, foi feita a chamada dos membros do Supremo Conselho, dos dez Secretários Nacionais, dos membros da Câmara dos Quarenta, dos vinte e três Chefes Provinciais e dos dignatários que completam a máxima autoridade colectiva do Integralismo.

Em seguida, e após a entrega dos diplomas aos membros da Câmara dos Quarenta, procedeu-se à cerimônia tocante do juramento.

As Cortes do Sigma juraram perante o Chefe Nacional manter para todo o sempre os princípios fundamentais que alicerçam o edifício do Estado Integral. Juraram não permitir que jamais se apague o incêndio verde da face do território brasileiro. Juraram transmitir aos seus descendentes a doutrina do Sigma, tão pura como a receberam das mãos do Chefe Nacional.

Recebendo esse juramento, senti a perpetuidade desta Força desencadeada pelo Bem do Brasil. Nada mais poderá conte-la. Nada mais deterá o passo firme desta e das futuras gerações de camisas-verdes.

Depois de ouvir os discursos dos oradores da magna sessão, levantei-me, à meia noite, e encerrei as cerimônias dirigindo-me a todos os camisas-verdes da imensa Pátria.

É essa palavra que vos transmito agora, a todos vós, integralistas de todas as Províncias e de todas as Cidades Brasileiras.

Em 1934 - declarei à grande massa verde que se comprimia no Teatro João Caetano -  eu cumpri o meu dever para com o Presente, na cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, quando encerrei o primeiro Congresso Nacional Integralista. Naquela ocasião, depois de um árduo apostolado, tendo já percorrido as capitais e os sertões, achei que devia estruturar o Movimento, organizar os seus serviços, entregar aos homens da minha geração o trabalho que tinha feito, e pedir aos meus irmãos de ideal que escolhessem um Chefe. Eles me escolheram e não foi culpa minha, porque eu não queria. Renunciei três vezes e três vezes eles me impuseram o sofrimento. Tive de aceita-lo por disciplina. Eu preferiria ser um obscuro mas fecundo soldado da grande Causa. Tive de continuar na direção da campanha.

Neste posto, lutei estes dois anos últimos. O Integralismo é hoje uma força nacional, uma expressão de pensamento novo que empolgou as almas. E eu meditava sobre isso, pensando que me tocava cumprir um dever para com o Futuro.

Esse dever consistia em garantir a perpetuidade desta força criadora da Nacionalidade e alicerçadora da futura Civilização que sairá da América para iluminar o Mundo.

Como garantir essa perpetuidade?

Resolvi organizar a suprema autoridade coletiva do Integralismo. Essa autoridade coletiva são as Cortes do Sigma.

Constituem as Cortes do Sigma dez membros do Supremo Conselho Integralista; dez Secretarias Nacionais; quarenta membros da Câmara dos Quarenta; 23 Chefes Provinciais e 400 dignitários de todas as regiões do país, no todo 483 pessoas, cujo dever fundamental é manter por todo o sempre a intangibilidade da nossa doutrina e a permanência do nosso Movimento no Brasil. Cada novo membro de qualquer dessas corporações terá de prestar o mesmo juramento que agora prestam coletivamente as Cortes do Sigma. Este Movimento não acabará mais. Não haverá mais perseguições, opressões, martírios que o detenham. É um estado de espírito. É uma constante na História do Brasil. Todos os casos estão previstos. Morto, exilado, preso, doente, ausente, o Chefe ou qualquer membro do Supremo Conselho, o Movimento não parará um Instante sequer. Desde ontem, o Integralismo não depende mais de homens, porque se tornou o irremovível fenômeno social.

Afirmei à massa dos camisas-verdes que me escutavam que, apesar de tudo, eu temia: não os adversários, porque estes são geradores providenciais de novas energias, mas a nossa própria condição humana.

O Integralismo proclama alguns princípios imutáveis: o princípio de Deus, do qual decorre todo um conceito de harmonia universal. O princípio dessa própria harmonia de que deriva toda uma concepção de ritmo social. O princípio da moral cristã que inspira a Autoridade na manutenção da justiça equilibradora dos movimentos humanos da sociedade. O princípio da Autoridade, da qual decorre a ideia do Estado Ético. O princípio do Estado Ético que se inspira no respeito da personalidade humana. O princípio da personalidade humana de que se origina o conceito do livre arbítrio, da liberdade. O princípio da liberdade, de que deriva a concepção da Família Autônoma. O princípio da Família intangível, de que decorre os direitos de vida expressos nos interesses dos grupos econômicos e o conceito da propriedade cristã, como base material da família. O princípio dos interesses econômicos e da propriedade de que deriva a autonomia do município. O princípio do município que fortalece a Unidade da Pátria. O princípio da Unidade da Pátria, que se exprime na máxima expressão de soberania e de força do Estado. Finalmente, o princípio da política moral, da política cristã, que transcende os princípios limites da Nação, para abranger todos os aglomerados humanos.

Estes princípios são imutáveis, mas a revolução do Estado é permanente ao tocante a suas expressões formais. Esse princípio da revolução permanente é inerente ao livre arbítrio do Espírito, da Personalidade Humana, que se reflete no livro arbítrio do Estado.

A transmissão, pois, dessas ideias às gerações futuras compete aos que se tornaram responsáveis pela intangibilidade da doutrina integralista,

As Cortes do Sigma assumiram essa responsabilidade perante mim. E eu pude ver melhor o Futuro da minha Pátria. Pude antecipar a História. Pude ter a certeza de que o Brasil que nos espera nos berços continuará nas realizações do Porvir este pensamento filosófico e politico.

Por isso a sessão de ontem no Teatro João Caetano teve uma imponência e uma significação extraordinárias.

O avançado da hora não me permite vos escrever mais - Camisas-verdes da Pátria -  depois de um dia trabalhoso, em que presidi uma sessão diurna em que ouvi, um por um, os Chefes Provinciais, vendo desfilar o Brasil diante dos meus olhos, e de uma noite emocional, de tamanha significação para vós e para mim, para o Presente e para o Futuro.

Anuncio-vos, apenas, nestas linhas improvisadas já madrugada, na redação do vosso jornal, "que o Integralismo imortalizou-se ontem, imunizou-se contra todos os seus inimigos.

Ergui meu pensamento a Deus e, diante da magnitude e esplendor de tudo quanto temos realizado, eu pedi ao Senhor que nos desse força e nos iluminasse com a sua Eterna Luz, pois somos homens e, nos momentos em que nos sentimos mais vitoriosos, devemos mais reconhecer a nossa humildade e tudo esperar d'Aquele que tudo pode e pode mais do que os Governadores da Terra, porque é o Comandante das Estrêlas no infinito do Tempo e dos Espaços.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 18 de Outubro de 1936

quarta-feira, 19 de junho de 2024

AOS TRABALHADORES DO BRASIL (01/05/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

AOS TRABALHADORES DO BRASIL (01/05/1936)

PLÍNIO SALGADO



Nada mais digno, nada mais belo, nem mais glorioso, do que o Trabalho; nada mais nobre, mais significativo no plano do Universo, do que o Trabalhador.

O Trabalho não é apenas uma necessidade, porque é uma condição de harmonia universal. Energia, no plano divino, conduz os astros e desperta as primaveras. Energia, no plano humano, conduz as Nacionalidades e suscita as Civilizações.

Essência da própria matéria, a força é o Trabalho, obedecendo no mundo físico à vontade consciente, ordenadora de Deus. Elemento fundamental do aperfeiçoamento humano, a energia da inteligência e dos músculos é o Trabalho, obedecendo, no mundo social, à vontade consciente do Homem.

O Trabalho não é o "mais valor" de Marx. Porque o Trabalho é o valor único, o valor que não deve conhecer contraste numa concepção integralista da vida, da sociedade e do Estado.

O Trabalho não é um direito, porque é um dever. Como direito, ele se escraviza; como dever se eleva e se liberta.

Como direito, o Trabalho, mendiga diante dos Poderosos; como dever, ele se fortalece e se impõe, salvando-se dos exploradores e tomando dentro da Nação o lugar mais alto e mais digno.

*

*  *

O Trabalho não pode ser o objeto de exploração do Capitalismo, nem o objeto de escravidão do comunismo. O Trabalho não pode se beneficiário da munificência e altruísmo do Estado; porque o Trabalho deve constituir a própria razão de ser da existência dos Governos, a fonte da soberania nacional, a origem da autoridade, a inspiração da Justiça, o imperativo que cria os deveres dos dirigentes em face de um dever que decorre de uma lei natural.

O Trabalho não é antagonista do Capital, porque este é uma condensação do próprio Trabalho, uma soma de energias concretizadas num potencial econômico. Nestas condições, não compreendemos, nós, integralistas, que o Trabalho seja, nem antagonista, adversário, inimigo do Capital, e nem tão pouco, que Trabalho e Capital devam harmonizar-se, no sentido que esta palavra adquiriu na técnica verbal dos teoristas burgueses. Só se, harmonizam elementos "diferentes", coisas distintas, e, para nós, Integralistas, não ha distinção entre Capital e Trabalho, pois um e outro representam a mesma coisa, em circunstâncias diversas.

A água não deixa de ser água, quer esteja em estado de vapor, quer se apresente em forma de líquido, quer nos apareça nos blocos sólidos do gelo.

O comunismo pretende solucionar o problema econômico-social, como alguém que quisesse que todos os gelos e todos os vapores do mundo se liquefizessem, ou todos os líquidos se solidificassem ou se vaporizassem.

O capitalismo quer manter distinções fundamentais entre a soma de TRABALHO ACUMULADO, de TRABALHO EM EFFICIÊNCIA e de TRABALHO EM POTENCIAL.

Nós consideramos o Trabalho como elemento único, apresentando-se em expressões diferentes. Na diversidade dos aspectos, a unidade absoluta da energia humana. Consideramos Trabalho, o Capital; consideramos Trabalho, o esforço, e realização diária das eficiências humanas em ritmo de criação; e consideramos, ainda, Trabalho, a energia, a capacidade em potencial, que se encontra em estado latente no cérebro e nos músculos daqueles que uma organização social errada conserva em disponibilidade.

Trabalho acumulado (Capital); Trabalho em ação criadora (mão de obra); e Trabalho em disponibilidade (desempregados), o Estado deve por todas estas formas zelar, submetendo-as, não a uma finalidade propriamente do Estado, mas aos supremos interesses que essa finalidade objetiva: o equilíbrio social e a felicidade humana.

O Trabalho, elemento essencial, único, das manifestações da vida do indivíduo, da família, do grupo profissional, da sociedade, do Estado e da Humanidade, nós o consideramos, ao mesmo tempo, como SUJEITO e como OBJETO. O Trabalho é sujeito, quando o encaramos força propulsora da Economia e fonte originária do Estado; o Trabalho é OBJETO, quando o tomamos como energia, cujo desenvolvimento deve submeter-se à moral humana e ao espírito de justiça e de equilíbrio que o Estado encarna.

Pois o Estado existe em razão do Trabalho. Sendo o Trabalho um dever humano, ele se espiritualiza, eleva-se de tal forma, que exige garantias, as quais são asseguradas pela Força do Estado. O Estado, pois, seria supérfluo, si o Trabalho não existisse. Existindo o Trabalho como dever, ele moraliza o direito do trabalhador. Moralizando esse direito, exige uma execução de normas éticas. Exigindo essa execução, engendra o conceito de Estado. O Estado, em última análise, é uma manifestação jurídica de Trabalho. O Trabalho, examinada a questão a fundo, é a fonte de todos os direitos públicos e privados, porque o direito, sendo um conceito de equilíbrio inspirado na moralidade, só poderia ter origem num dever que oferece as normas seguras da moralidade.

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O Trabalho, para os Integralistas, é base do Estado e do Governo.

Ele procede de um alto pensamento espiritual. Essa a razão porque combatemos o Capitalismo, que se inspirou no materialismo, na negação de Deus e do Espírito, para justificar sua tirania e opressão sobre os trabalhadores. Essa a razão também porque combatemos o Comunismo, pois este aceitou o conceito materialista do Trabalho, segundo ensinou a burguesia capitalista, e engendrou um antagonismo que, em última análise, nega a essência natural do Trabalho.

A luta de classe, segundo Marx, é um conceito do século passado. É um conceito burguês e materialista. O Integralismo, doutrina do século XX, já não tolera essa incapacidade mental de compreender o plano geral do mundo, das eficiências, assim como o plano geral, da economia, da sociedade e do Estado.

Só nós, Integralistas, podemos festejar o Dia do Trabalho com a compreensão exata do século XX. O Trabalho, para os Integralistas, é a fonte do espírito de justiça, da inspiração política e dos anseios de liberdade humana.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 01 de Maio de 1936.