quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Confiança na Justiça (18/03/1937)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Confiança na Justiça (18/03/1937)

Plínio Salgado

Quando respondi ao telegrama com que me distinguiu o sr. governador da Bahia, no ano passado, com relação à atitude que s. excia. assumiu contra os adeptos do Sigma, declarei que deveríamos confiar nas decisões da Justiça.

Durante seis meses, não fiz outra cousa senão depositar as mais vivas esperanças na retidão dos juízes da minha Pátria.

Houve momentos em que os integralistas saíram abatidos, humilhados dos tribunais, Nunca, porém, perderam a calma, porque eu lhes dizia que era preciso esgotar todos os recursos, com paciência e resignação no sofrimento.

Os 22 companheiros presos, acusados de conspiração, mostravam-se de animo elevado, dignos da camisa verde que vestiram para servir ao Brasil. Suas famílias, mães, esposas, filhinhos adorados, viveram, no sofrimento, cheios dessa esperança na magistratura do nosso país, pois toda a minha preocupação era a de transmitir-lhes esta minha íntima certeza.

Por ocasião do Congresso Integralista de Imprensa, de Belo Horizonte, escrevendo o Código de Ética Jornalística, ao recomendar que jamais os camisas-verdes se utilizassem de mentiras contra o adversário, escrevi: "A verdade pode não ter as primeiras vitórias, mas a última sempre lhe pertence".

Esta frase foi reproduzida e largamente divulgada, principalmente na Bahia. Ela foi o alimento espiritual dos rudes sertanejos, dos lares oprimidos, dos inocentes caluniados, dos justos injuriados, dos bravos ridicularizados, dos velhos, mulheres, crianças, roídos de saudade de seus filhos, de seus maridos, de seus pais. E os Integralistas, tanto da Bahia, como de todo o Brasil, não se desiludiram nunca, não se desesperaram, não se agitaram, não reclamaram, não ofenderam autoridades, não ergueram a voz contra os juízes.

Mais do que nós, mais do que os nossos brilhantes advogados, mais do que os nossos julgadores, Deus sabe o que faz. Sem sermos fatalistas, trabalhando, agindo, diligenciando conforme o preceito divino, nós bem sabíamos, nas horas mais duras, mesmo naquelas em que víamos os comunistas nos debocharem com sorrisos e palavrinhas pérfidas à nossa saída, melancólica e humilhada, dos pretórios a que recorríamos, nós bem sabíamos orar, intimamente, e com alegria interior falarmos no fundo silencioso de nossas almas: "seja feita a vossa vontade, Senhor!”.

Para lograr mais rapidamente a liberdade de nossos companheiros, impetramos certas medidas que, agora, verificamos, não seriam tão vitoriosas, de significação tão profunda, de efeitos tão vastos e de expressão moral tão elevada, como a decisão de ontem do Tribunal de Segurança Nacional.

Nossa primeira preocupação foi impetrar um "habeas-corpus" perante s. excia. o sr. Juiz federal da Bahia. Tivemo-lo denegado, em razão da incompetência alegada pelo digno magistrado.

Subimos à Corte Suprema. Nossos eminentes advogados, professores Alcibíades Delamare e Barreto Campello ali compareceram соm uma petição notável, com a qual tudo esperávamos. Mas a Suprema Corte não tomou conhecimento do pedido, por ser o caso da alçada do Supremo Tribunal Militar.

Fomos ao Supremo Tribunal Militar. Com que esperança! Os comunistas acompanhavam nervosamente a decisão da sorte de nossos 22 companheiros presos, aqueles 22 homens que mereciam todo o seu ódio, pois representavam duzentos mil baianos que se tornaram a barreira contra as investidas do Soviete.

Os ilustres magistrados do Supremo Tribunal Militar negaram-nos o "habeas-corpus", por quatro votos contra três, sendo estes dos juízes Barros Barreto, Ribeiro da Costa e Alvaro Mariante, aos quais seremos eternamente gratos, embora respeitemos e acatemos os votos contrários a nós, porque respeitamos e acatamos os juízes do Brasil.

Um segundo "habeas-corpus" nossos incansáveis advogados impetraram perante o mesmo Tribunal. Perdemo-lo, nas mesmas condições. Os jornais amarelos, dissimuladas patrulhas do sovietismo rubro, exultaram, Não houve, porém, de nossa parte, na palavra, um gesto contra a Justiça. Cumpre-me aqui elogiar um milhão de Integralistas, que foram irrepreensíveis. Por maior que fosse o respeito pela minha palavra de ordem, tratando-se de uma massa humana, poderia algum companheiro mais exaltado proceder no auge do desespero, de modo deselegante, em desacordo com a doutrina que pregamos Mas não registrei um caso sequer dessa natureza. Também as famílias dos presos poderiam afligir-se, afligindo-me, mas essas dignas patrícias, as baianas de têmpera, souberam poupar esse desgosto ao Chefe e aos companheiros. Cada vez mais animadas, mais firmes, mais resolutas, não as atemorizaram a perspectiva de mais longo suplício.

Fracassados no Superior Tribunal Militar, voltámos à Corte Suprema, Nossa esperança foi enorme. As demonstrações públicas das autoridades federais, a nosso respeito, evidenciavam que o governador da Bahia não agira como delegado do Poder Central, como executor do "estado de guerra". Estávamos certos de que iríamos obter o "habeas corpus".

Os ilustres magistrados que compõem a Corte Suprema negaram-nos, porém, o "habeas corpus". Por unanimidade, deixaram de entrar no mérito da questão, pelo fato de estarmos em "estado de guerra".

Nosso advogado, o professor Alcibíades Delamare, produzira uma belíssima sustentação oral, com aquela cultura que nele, admiramos, e aquela vibração que faz dele um dos mais exaltados patriotas.

Lembro-me bem da tarde em que ele me deu a notícia, em meu gabinete, do resultado que acabrunhara tanto os integralistas, principalmente por que os comunistas tinham estado, firmes, à saída do Tribunal, para cobrir de ironias, de risinhos soviéticos os brasileiros que vestiram uma camisa verde com o objetivo de morrer se for preciso, para evitar que a nossa Pátria seja escravizada pelos bolchevistas de Moscou.

O nosso patrono admirou-se do sorriso de calma absoluta com que recebia a notícia. É que intimamente eu estava certo que as coisas tinham de ser assim. Era preciso que fossem assim.

Fui levar a notícia desconsoladora aos companheiros que já haviam sido transportados da Bahia, a pedido nosso dirigido ao Tribunal de Segurança Nacional, para o Quartel do Regimento de Cavalaria da Brigada Militar Eles a receberam também, com aquela expressão de serenidade, direi mesmo de alegria, com que os integralistas recebem as dores que Deus lhes manda, como resgate da felicidade da sua Pátria. Esses homens e, principalmente suas famílias, foram admiráveis durante os seis meses de prisão sofridos pelo Bem do Brasil.

Restava-nos o Tribunal de Segurança Nacional. O processo volumoso viera da Bahia para as nobres mãos desses Juízes-mártires, desses juízes- salvadores-da-Nação, desses magistrados da República diariamente ofendidos por uma potência estrangeira, cujos asseclas repetem como um estribilho a inconstitucionalidade do Tribunal, cuja missão é justamente por a salvo a Constituição, a República, as Tradições da Pátria dos assaltos dos que em novembro tentaram destruir esses patrimônios da Nacionalidade.

O volume de processo não nos assombrava, porque os documentos que o compunham eram montes de papéis timbrados da Acção Integralista, pacotes de fichas que todo o mundo no Brasil conhece, declarações de 22 presos, de testemunhas inócuas, cartas altamente patrióticas de integralistas inquietos pelas manobras bolchevistas. Acusados de uma conspiração "de grande envergadura", lá estava o rol das armas arrecadadas em centenas de devassas em Sedes de partido e casas particulares: 1 espingarda de caça, um revólver H. O. com seis balas, uma pistola velha... Estas coisas nos tranquilizavam.

Mas, o que mais nos tranquilizava era o valor moral dos Juízes do Tribunal de Segurança Nacional. Juízes de uma hora de exceção na vida do Brasil. Juízes que se tornam alvo natural dos inimigos da Pátria. Juízes que têm sobre seus ombros, não interesses comuns à vida normal do país, mas interesses supremos da Nação numa fase anormal da História. Juízes que, diariamente, estavam demonstrando ao Povo a sua energia, a sua serenidade, a sua alta dignidade. Nós tínhamos de confiar nesses Juízes.

Confiamos. Esperamos. Tranquilamente. Deus falou pela voz desses magistrados.

A liberdade ora concedida aos nossos companheiros da Bahia tem uma significação muito maior, muito mais grave, muito mais importante para os próprios destinos do Brasil.

Ela não é uma consequência eventual de uma ordem de "habeas corpus", que poderia ser concedida em razão de formalidades não cumpridas, ou de interpretação de competências, ou da natureza do mandato da autoridade coactora. Ela é um resultado imediato da apreciação de um volumoso inquérito. Ella é emanada do Tribunal que se torna a fonte mais legítima neste momento das outorgas de dignidade nacional, de correção em face do "estado de guerra", de significação política, de caráter moral.

Libertados pelos outros tribunais, também dignos, e que nós integralistas respeitamos, os companheiros da Bahia ainda poderiam ter sobre si o peso, ou pelo menos uma leve nuvem de suspeita sobre seu procedimento. Mas, postos em liberdade pelo Tribunal de Segurança Nacional, o Povo Brasileiro fica sabendo que tudo quanto temos dito em nossa defesa e que tem sido, aliás, confirmado pelas mais altas autoridades federais, como o sr. ministro da Justiça e o sr. presidente da República, encontra base indestrutível em motivos que servem de alicerce à patriótica e nobre decisão da Justiça Especial.

Tiveram razão os integralistas em confiar nos Juízes do Brasil. Tive eu razão quando, respondendo ao telegrama com que me distinguiu o sr. governador da Bahia, declarei esperar tranquilamente o julgamento final do caso já famoso da conspiração de S. Salvador.

Nós continuaremos assim. Jamais perderemos a calma. Jamais deblateraremos. Jamais nos desesperaremos. Com a lei, pela lei, para a lei. Com a Constituição, pela Constituição e para a Constituição. Confiando na Justiça, esperando tudo da Justiça, dirigindo-nos à Justiça e tudo fazendo pelo prestígio da Justiça, prosseguiremos nossa marcha, que visa à grandeza do Brasil.

Podem os camisas verdes de toda a imensa Pátria trabalhar com ardor pela sua causa. Quando houver arbítrios de autoridades, haverá um Juiz ao qual se possa recorrer. Quando esse juiz falhar, há os tribunais. Quando não houver nem juízes nem tribunais, então é porque tudo acabou, e urge agir pelos meios que habitualmente condenamos.

Isso, porém, decerto, jamais se dará. Porque, para honra do Brasil, há juízes no Brasil da envergadura de um Barros Barreto, um-Costa Netto, um Raul Machado, um Pereira Braga e de um Lemos Bastos.

Com juízes de tão alto patriotismo e de tão grande saber, honestidade e retidão, os que amarem a Pátria não precisarão ser extremistas para manifestar o seu apoio à Nação e salvá-la nas horas perigosas.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 18 de Março de 1937.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

CARTA A CASTRO ALVES (17/03/1937)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

CARTA A CASTRO ALVES (17/03/1937)

Plínio Salgado

Não sei onde estás, Castro Alves, se naquela estrela que resplandece no crepúsculo, ou na luz do Cruzeiro, ou na estrada de faiscante poeira da Via Láctea, onde caminhas, sentindo o infinito e contemplando maravilhosas maravilhas... Talvez estejas hoje na onda verde do mar da nossa terra, na esteira do "barco ligeiro" "que semelha no mar doido cometa"... No murmúrio do vento, talvez?... No pampeiro que varre a coxilha, no saveiro das praias que amaste, nos mosforós que cantam nas chapadas esbraseadas?...

Eras bem o Brasil; deves estar, por certo, nos cantos misteriosos que sobem das florestas; no rumor ignorado das selvas, no desabrochar das flores; no ruído sutil dos insetos doirados e no tatalar das azas das borboletas...

Este ar fino, que perpassa acariciando as palmas dos coqueiros, nesta tarde abrasada de março, e que traz as perfumes silvestres, parece que me diz que estás hoje, no dia do aniversário do teu nascimento, em toda a carta geográfica da Grande Pátria.

Estás hoje, pois que te evocamos, nesta delicada emoção que vibra no íntimo da nossa sensibilidade; estás nesta nossa inquietação; estás nesta nossa amargura como estás em nossa mais decidida esperança.

Ao dedilhar a máquina em que celebro o teu aniversário, há vibrações misteriosas no meu ser. Tenho a impressão viva e forte de que a tua alma espera de mim, não um artigo para o público, a teu res peito, mas uma carta para o teu coração, a respeito do Brasil.

Há poucas horas, estive relendo as tuas poesias, Poeta dos Escravos, poeta da selva americana, poeta do Brasil. Li e reli, muitas vezes, estes versos tão oportunos, nestes dias de hoje:

Existe um povo que a bandeira empresta

p'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!

E deixa-a transformar-se nessa festa

em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta

que impudente na gávea tripudia?

Silêncio, Musa, chora e chora tanto

que o pavilhão se lave no teu pranto!

 

Auriverde pendão da minha terra,

que a brisa do Brasil beija e balança!

Estandarte que à luz do sol encerra

as promessas divinas da esperança...

Tu, que, da liberdade, após a guerra,

foste hasteado dos heróis na lança,

antes te houvessem roto na batalha,

que servires a um povo de mortalha...

Esses teus versos são proféticos, ó Poeta iluminado! Não o sabias, quando os escrevestes. Horrorizava-te a só ideia de que a Bandeira querida, a Bandeira da Pátria pudesse servir de mortalha a um povo estrangeiro, ao povo africano.

Entretanto, nos dias de agora, o auriverde pendão da nossa terra, em muitos lugares do Brasil, está servindo de mortalha para si mesmo... Ha brasileiros que se servem dele para se escudarem, para combaterem os legítimos defensores da Pátria. Há brasileiros secretamente mancomunados com estrangeiros, para escravizar os seus compatriotas, apontando-os como inimigos do pavilhão sagrado.

Há homens que juraram servir à Bandeira do Brasil e que traem o juramento, usando das armas que a Nação lhes confiou para matar seus irmãos e ferir traiçoeiramente a soberania da Pátria, que eles pretendem subordinar aos bárbaros de Moscou.

Há filhos deste país que, ocupando cargos públicos, servem-se da autoridade desses cargos para favorecer aos invasores e para perseguir os defensores da dignidade nacional.

E tudo se faz em nome da Bandeira, pela Bandeira, para a Bandeira, com a Bandeira, em razão da Bandeira, sob pretextos, sob desculpas, sob sofismas arquitetados em torno da Bandeira.

A farda, que é uma continuação do pano sagrado da Bandeira, a farda que deve ser enaltecida, cultivada, muitas vezes cobre peitos em cujo recesso há corações que premeditam o assassínio de surpresa de camaradas leais, fieis ao pavilhão sagrado do Brasil. Em novembro de 1935, a nossa querida Bandeira presidiu ao drama doloroso em que vimos soldados do Brasil se apresentarem como soldados de uma potência estrangeira, matando criminosamente os bravos defensores da dignidade, da independência e da liberdade de um Povo.

Restou-nos o consolo de verificar que o Exército Nacional soube defender a Bandeira da Pátria contra os que tramaram nas sombras de suas próprias casernas.

No entanto, esse episódio trágico não serviu nem de lição, nem de aviso. Os políticos continuam dividindo a Nação, como se nada tivesse acontecido. E o Brasil continua ameaçado.

Se ressuscitasses, Poeta, o teu horror seria mil vezes maior do que aquele que te inspirou o poema do "Navio Negreiro". Se soubesses, que brasileiros separatistas ridicularizam a Bandeira Nacional, cultuando as bandeiras das suas regiões! Se soubesses que uma tarde, em Campos, a Bandeira Nacional foi atirada na sarjeta, sendo dali levantada pelos camisas-verdes, que a trouxeram ao Rio, fazendo-a desfilar, pelas mãos de um nobre operário, à frente de uma passeata realizada como reparação! Se soubesses que na tua terra, na Bahia, a Bandeira Nacional foi enxovalhada, sendo também levantada da sarjeta onde jazia, pelas mãos desses mesmos camisas-verdes, que Ievaram, triunfalmente, por entre as aclamações de uma multidão revoltada! Se soubesses que, algum tempo depois, esses camisas-verdes eram compelidos por lei, a fechar as organizações militarizadas que tinham com o fito exclusivo de defender a Bandeira da Pátria na esfera da vida civil, em cooperação com as Forças Armadas do país! Se soubesses que inimigos do Brasil, míseros patrícios nossos rendidos ao Soviete, participantes da traição de novembro, com a máscara de liberais-democratas, defensores da Bandeira Nacional, conspiram contra essa mesma Bandeira, maquinando a destruição dos camisas-verdes que a sustentam e por ela se sacrificam! Se soubesses que na tua Bahia, esses camisas-verdes - os únicos defensores civis da dignidade, da prioridade, da unicidade, da imortalidade, da glória da Bandeira verde-amarela, foram presos, perseguidos, oprimidos, proibidos de cantar o Hino da Pátria, de erguer o braço nessa saudação condoreira, tão ao gosto do teu estro e tão ao gosto da tua Bahia, quando passa a Bandeira traída, a Bandeira ofendida, a Bandeira iludida, a Bandeira humilhada!

Sabes, Castro Alves, que no Brasil há uma corrente de brasileiros que se subordina a banqueiros ingleses, outra a banqueiros americanos, outra ao Soviete russo, outra à maçonaria internacional, e que todas essas correntes já não possuem nenhum sentimento de verdadeiro amor ao Brasil?

Sabes que o território brasileiro está sendo, dia a dia, distribuído entre estrangeiros: que em Mato Grosso impera uma companhia argentina numa vastíssima área: que no Amazonas dominam os americanos do norte numa amplíssima concessão, e os japoneses numa dilatada sesmaria? Que no Paraná uma grande porção do território pertence a ingleses? Que em Minas, preparam-se concessões enormes a serem dadas estrangeiros, para que explorem o nosso ferro? Que as quedas d'água do Brasil estão todas em mãos adventícias? Sabes, Castro Alves, que a maravilhosa Cachoeira de Paulo Afonso, que cantaste, aquele gigante cujo "mugido soturno rompe as trevas", não pertence mais ao Brasil?

Sabes que estamos endividados e escravizados; que estamos divididos por mesquinhas lutas políticas; que estamos nos enterrando no lodo de um torpe materialismo? Sabes que o caboclo do Brasil se encontra desamparado, doente, roído de maleita, de verminose, sem nenhum conforto e sem nenhum amparo, enquanto o colono estrangeiro é protegido, estimulado, favorecido?

Que significa a cena do "Navio Negreiro" diante desse espetáculo da autodestruição de um Povo?

Se vivesses hoje!

Verias as últimas reservas das energias nacionais se levantarem e escutarias a perversidade cínica dos que tripudiam sobre as angustias de um Povo, apontá-las como inimigas da ordem. Verias milhares de sertanejos da tua Bahia se erguerem, para salvar o patrimônio das tradições nacionais e verias esses sertanejos, em nome da própria Bandeira Nacional, serem sufocados e reduzidos ao silêncio, a fim de que os políticos pudessem agir livremente e rolar pelo declive da desgraça arrastando o Brasil...

Que poema escreverias! Que formidável poema!

Quando presenciasses o sofrimento dos verdadeiros brasileiros, dos verdadeiros defensores da Bandeira Verde-Amarela, dos verdadeiros campeões da Unidade da Pátria; quando visses a Justiça, de braços cruzados, sob a égide do Pavilhão Sagrado; quando visses os chamados homens de responsabilidade, completamente indiferentes à sorte dos mártires, sob o patrocínio do Pendão auriverde; quando visses os comunistas rirem das prisões e dos vexames padecidos pelos camisas-verdes que foram condenados por Dimitroff, em Moscou; quando visses os patriotas ridicularizados, injuriados, caluniados, esquecidos, vilipendiados, encarcerados, muitos espancados, com os lares varejados, com os direitos de cidadania suspensos arbitrariamente e tudo isso em nome da Bandeira, pela Bandeira, a pretexto da Bandeira, levado à cena da História pelos traidores da Bandeira, pelos impostores da Bandeira, pelos assassinos da Bandeira, então, Castro Alves, repetirias com mais ardor, com mais emoção, os teus versos sagrados e proféticos:

Auriverde pendão da minha terra

que a brisa do Brasil beija e balança.

Estandarte que à luz do sol encerra

as promessas divinas da esperança!

Tu, que da liberdade após a guerra

foste hasteado dos heróis na lança,

antes te houvessem roto na batalha

que servires a um povo de mortalha

Mas, Castro Alves, nesta conversa que estou tendo contigo, te direi: nem roto na batalha, nem mortalha de um Povo será o auriverde pendão, que tanto amaste. Aqui estamos, camisas-verdes do Brasil. Chegamos a tempo. Nada nos destruirá. Força alguma nos deterá. Estamos alerta. Um dia faremos desse auriverde pendão da nossa terra a expressão da maior força, da maior civilização da América.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 17 de Março de 1937.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Recordações (28/02/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Recordações (28/02/1936)

Plínio Salgado

Quando o nosso navio, que vinha do Norte, entrou nas águas mansas do porto, pelas dez horas da manhã, um grande sol fulgia, num grande céu azul, pondo cintilações nas vidraças do casaréu espalhado pelas encostas verdes dos morros.

Passávamos junto ao Penedo, enorme bloco de pedra plantado como fiel sentinela da cidade de Nossa Senhora da Vitória; ao longe, garça branca pousada na rocha emergente da vegetação, a igreja da Penha olhava o mar alto, como que escutando os murmúrios de Vila Velha e os segredos das ondas.

- Lá vêm eles! São eles! Exclamou o Thiers, apontando-me uma lancha que se movia, por entre botes, barcaças, cascos de navios mercantes e veleiros, cheia de camisas-verdes.

Debruçamo-nos sobre a amurada de prôa. Um vivo alvoroço nos sacudia. Íamos ter notícias do nosso Movimento. Íamos dar notícias do que viramos, do que fizéramos. Havia em nós um desejo ardente de contar as nossas aventuras numa viagem audaciosa, sem recursos, quase a mercê da sorte, pelos sertões do Nordeste e pelas capitais das Províncias que transitáramos.

A lancha aproximava-se. Trazia na prôa uma flâmula azul e branca, a nossa flâmula. Estava cheia de camisas verdes.

A primeira figura que vimos foi a de Arnaldo Magalhães, com seu sorriso bom, seus gestos pausados, seu idealismo brilhando através dos óculos. Junto dele, distinguimos logo Madeira de Freitas, que trazia um ar de triunfo.

Nesse tempo ainda não havia o “anauê”, palavra que foi lançada pouco depois, em Niterói, por iniciativa de Lacerda Nogueira, e que se alastrou por todo o país. Erguemos, porém, nossos braços(eu, Thiers, Aristophanes e Hermes) respondendo a saudação dos 19 camisas-verdes da lancha.

Em terra, encontrei Gustavo Barroso. Ele e Madeira tinham vindo por estrada de ferro a fim de me esperar em Vitória. Unidos profundamente pelo ideal sagrado, esses dois companheiros já haviam agitado a Capital espírito-santense, fazendo discursos e conferências.

A nossa última noite em Vitória, depois de três dias inesquecíveis, constituiu uma consagração popular da ideia nova. No meu discurso declarei que realizaria na capital capixaba o primeiro Congresso Nacional Integralista.

*

Estávamos no ano de 1933. A primeira marcha de camisas-verdes dera-se no dia 23 de abril desse ano, em S. Paulo, se bem que o Manifesto de Outubro houvesse sido lançado em 1932. Em maio fundáramos o Integralismo no Rio e em Niterói. A Bahia, o Ceará e Pernambuco já tinham seus pequenos Núcleos. Em Santa Catarina só havia os Núcleos de Itajaí e Canoinhas; no Rio Grande do Sul, apenas Erechim; em Minas Gerais somente Teófilo Ottoni. E nada mais.

Foi em Julho que segui para o Norte, com a notícia que de que em Natal já um grupo de integralistas se organizava. Lancei a semente em Alagoas, na Paraíba. Consolidei o Movimento em Bahia, Pernambuco, Ceará, fiz a ideia chegar em Sergipe. Nessa mesma ocasião, organizou-se o primeiro Núcleo em Mato Gross. O Maranhão foi conquistado a bordo do navio em que eu viajava. No Amazonas e Pará o companheiro Giudice lançara as primeiras pedras do alicerce que, mais tarde, Gustavo Barroso consolidaria.

Essa era a situação geral do Integralismo, quando prometi, em Vitória, a realização, no ano seguinte, do Primeiro Congresso Nacional da “Acção Integralista Brasileira”.

Nosso regresso de Vitória foi por terra. Pernoitamos em Campos. Falámos no dia seguinte na escola Normal e, à noite, no salão da Associação Comercial. Uma multidão cantava o Hino Nacional, quando partimos da cidade goitacá, rumo ao Rio.

*

Aqui, Everaldo Leite nos aguardava com uma surpresa: os primeiros cem homens uniformizados, de camisa-verde, sob seu comando. Everaldo, desde então, ficou sendo o “centurião” Everaldo. Realizou-se o primeiro desfile na Capital da República.

Tanto no Rio, como em Niterói, o Movimento crescera regularmente. Fui para S. Paulo; ali, duas centenas de camisas-verdes me receberam na estação e me levaram ao bairro proletário da Moóca, onde o acadêmico Pimenta fez um discurso.

Os preparativos para o Congresso continuaram o resto do ano. Em dezembro, fixamos a data: 28 de fevereiro de 1934.

Quando chegou fevereiro, já o Integralismo em Guanabara estava instalado na rua 7 de Setembro, com muito mais conforto do que na saleta da rua Rodrigo Silva. Devíamos esse melhoramento à iniciativa de Sérgio Silva.

O incansável Madeira falava, sem cessar, pelos bairros e fundava os primeiros Núcleos da Província. Era uma obra de paciência, de dedicação extrema, de sacrifício, de tenacidade, da qual o Integralismo jamais poderá esquecer.

*

Regressava, por esse tempo, do Norte, Gustavo Barroso, que levara a sua “Bandeira” até Belém do Pará. Os serviços prestados ao Movimento por Gustavo Barroso foram enormes. Viajaram em sua companhia Miguel Reale, Loureiro Junior, Herberto Dutra e Mário Brasil. Desde então, Gustavo entregou-se de corpo e alma à propaganda do Sigma. Tornou-se uma espécie de Raposo Tavares dos grandes “raids” pela carta geográfica do Brasil. Começou, ao mesmo tempo, a produzir livros, dedicando-se especialmente ao estudos das explorações que contra nós tem exercido o capitalismo internacional. Esse trabalho intenso desenvolvido por Gustavo, através da palavra falada e escrita, está integrado definitivamente na história do Integralismo.

*

O nosso movimento tem sido o milagre realizado pelas dedicações de seus adeptos. Entre estas, devemos assinalar o esforço de Victor Pujol. Só eu sei o que lhe custou, o que lhe tem custado, a publicação, desde o início do Movimento, do “Monitor”. A unidade absoluta de normas, a uniformidade que verificamos em todos os Núcleos do país, o registro de todos os nossos passos, de todas as resoluções e atos da Chefia Nacional, nós devemos ao “Monitor”. E foi através do nosso órgão oficial que foram transmitidas todas as ordens para a realização do Congresso de Vitória.

Miguel Reale, por esse tempo, já era um grande valor, uma alta expressão do nosso Movimento. Ele trazia o sentido da revolução social, o império da juventude nova, que escandalizava a juventude velha e caudatária dos partidos. Publicara o seu livro "O Estado Moderno", com vinte e três anos de idade, livro que fez notável sucesso, tanto no país, como no estrangeiro. Quanto a Jehovah Motta, ele encarnava a mensagem viva do Nordeste, interpretando, por uma fatalidade geográfica, a aspiração da grande massa brasileira. Exprimia, por outro lado, o estado de espírito das modernas gerações militares, o doloroso complexo do Exército Nacional. De Minas, vinha Olbiano de Mello, com o sentido sindicalista e a inspiração nacionalista que o ligara a min, desde 1931.

Na hora dos trabalhos preparatórios do Congresso, aqui, no Rio, tive duas revelações, como capacidade de trabalho: Everaldo Leite e Loureiro Junior.

Everaldo apresentou-se aos meus olhos, como o mágico de toda a estruturação do grande Movimento. Inteligência viva, pronta no perceber meus pensamentos, ele os realizava com uma precisão extraordinária e com uma rapidez notável. Elucidava-me a respeito de pormenores, explicava-me com clareza certos aspectos da organização, Foi ele quem esquematizou todos os departamentos mais tarde transformados em secretarias, A Província de S. Paulo indicou-me, para meu auxiliar na Secretaria do Congresso, o seu Secretário Provincial Loureiro Junior, que conheci como orador, quando ofertou a bandeira Integralista que S. Paulo enviava à Guanabara. Eu não o conhecia ainda como "trabalhador" e foi nas noites em que vimos muitas vezes raiar a madrugada, debruçados sobre máquinas de escrever, que avaliei sua capacidade de produzir praticamente.

Aquelas noites que precederam o Congresso de. Victoria, e que passamos na rua Sele de Setembro, entre xícaras de cafés e fumaça de cigarros, dedilhar de máquinas diligentes, várias mesas onde varias comissões trabalhavam, e os meus passos, de um lado para outro, despertam-nos hoje uma vis saudade. Não me esqueço a última noite d'aqueles serões preparatórios. Estavam todos esfalfados, pela repetição do árduo trabalho noturno. O dia todo fora de uma atividade incrível, de modo que que ninguém pudera descansar minutos fossem. Quando chegou a madrugada, um por um foi capitulando, estendendo-se pelas cadeiras. Os últimos a se deixarem vencer incumbiram Reale de me falar trabalhava em nome dos exaustos. Enquanto eu trabalhava com Loureiro, na sala próxima, eles combinaram até a frase que deveria Reale dizer. Mas o orador estava tão morto de sono, que, em vez de repetir a fórmula ensaiada, que era "Chefe, os companheiros pedem que o sr. tenha pena de si mesmo", exclamou, com os olhos pesados: "Os companheiros pedem que o sr. tenha pena de nós". Foi uma risada geral da "comissão", que, afinal, viu raiar o dia. Estava tudo pronto, Embarcaríamos à noite.

*

Na estação da Leopoldina, o Brasil encontrou-se consigo mesmo, Minha emoção era profunda. Todas as Províncias mandavam seus representantes Alguns ainda viriam por mar, diretamente a Vitória. Mas ali estavam, para embarcar, S. Paulo, Minas, Ceará, Pernambuco, Guanabara, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiáz, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro.

Jehovah Motta pergunta-me:

- Hoje é um grande dia para o sr., não é?

- Sonhei com este dia, longos anos, respondi-lhe.

E, no vagão alegre e cordial, eu tinha a impressão de que levava a minha Pátria.

Viajamos toda a noite e todo dia seguinte, Na estação de Domingos Martins, tivemos uma surpresa: um grupo de camisas-verdes veio saudar-nos. A noitinha, chegámos a Vitória. Não se descreve o entusiasmo dos camisas-verdes capixabas, quando, na sede local, exclamei: - "Aqui estou; venho cumprir a minha palavra: realizar o primeiro Congresso Nacional Integralista na vossa cidade".

 Espalharam-se pelos hotéis de Vitória os representantes de todas as Províncias. Algumas, como S. Paulo e Guanabara, enviaram grandes representações.

Realizamos sessões consecutivas, dia e noite, durante os dias 28, 29 de fevereiro e 1 de março. Os trabalhos em plenário eram dirigidos por Olbiano de Mello. Todo o peso dos serviços de secretaria ficou sobre os ombros de Everaldo Leite, que continuava a ser o realizador notável. As comissões revezavam-se, sob minha orientação. Nas caladas da noite, eu e Loureiro trabalhávamos e prolongávamos nossas atividades até ao romper da aurora, momento em que tomávamos uma lancha com Madeira de Freitas e íamos até ao mar alto. Regressávamos para o início das sessões ordinárias, Foi, assim, tudo estudado, discutido, resolvido: os Estatutos, os regulamentos, os protocolos.

Todos trabalhavam com vibrante emoção, Uma alegria íntima iluminava todos os semblantes. O povo de Vitória cercava os congressistas de gentilezas carinhosas: eram almoços, jantares, passeios, recepções. Aquilo tudo numa paisagem maravilhosa, porque Vitória é um presépio encanador.

Parece que estou vendo os companheiros Thompson, Padilha, Jehovah, Mayrink, Jayme Ferreira, Vieira da Silva, Corbisier, Angelo, Guedes, Stella, Andrade Lima, Osolino, Santos Maia, Graziano, Iracy, Leães, Moacyr Pereira, Jaqueira, Marcelino, Mello, Queiros Ribeiro, Pujol, Alpinolo, Finkenauer, Matrangula e tantos outros, inclusive a volumosa e bela representação capixaba, na sala de nossos trabalhos, nas mesas dos restaurantes, nas ruas de Vitória, vibrantes de alegria e de entusiasmo.

Em Vitória, julguei terminada a minha missão de fundador e de organizador, e entreguei, de surpresa, aos congressistas, a Chefia do Movimento, a fim de que eles decidissem sobre quem deveria continuar a comandar os camisas-verdes.

Arnaldo Magalhães assumiu a presidência da sessão  e durante alguns momentos foi chefe da A.I.B. O caso já havia sido resolvido, de antemão, pois todos previam que eu iria assumir aquela altitude. Arnaldo deu a palavra a Olbiano de Mello o qual leu uma Proclamação assinada pelos representantes de todas as Províncias, na qual me impunham a Chefia do Movimento. Tive de me curvar, por disciplina, até que um dia eu pudesse fazer nova consulta. quando a Integralismo fosse uma grande força nacional. Essa consulta fiz o ano passado no Teatro João Caetano e novamente me foi imposto este lugar, lugar que eu não quero dizer se é de sofrimentos ou de alegria, pois só Deus pode ler na minha consciência.

Talvez que uma e outra coisa se conjuguem. Mas só Deus entende estas coisas tão delicadas e tão profundas...

O dia 28 de fevereiro, dia da instalação do Congresso de Vitória foi por mim declarado naquele ano "o dia da vigília da Nação". Em todos os Núcleos integralistas do país, os camisas-verdes repetiram as mesmas palavras, na mesma hora.

Hoje, comemoramos mais um aniversário do grande acontecimento. O Integralismo já é uma força no Brasil. Já realizou muito. Já se impôs à benemerência pública. Já sofreu. Já perdeu vidas preciosas no combate ao comunismo. Já se alteou como um movimento de cultura e se aprofundou como uma revolução das almas.

Tendo diante de meus olhos, no dia de hoje, o pergaminho que o companheiro Thompson carinhosamente desenhou, nele escrevendo o texto da proclamação de Vitória, que me fez Chefe do Sigma.

Esse documento é o símbolo e a síntese do meu destino....

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 28 de Fevereiro de 1936.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A HORA TRÁGICA (18/02/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

A HORA TRÁGICA (18/02/1936)

Plínio Salgado

Espanha e França estão vivendo as suas horas trágicas.

É preciso que os brasileiros pensem, enquanto é tempo, sobre as circunstâncias que provocaram àquela hora trágica.

Na "Casa del Pueblo", em Madrid, foi hasteada a bandeira vermelha. Uma grande massa canta a Internacional pelas ruas da capital espanhola. Em Barcelona, há demonstrações e distúrbios da "esquerda". O governo castelhano, governo liberal democrata, governo centrista, governo inspirado por um socialismo "agua de flores de laranjeira", decretou o "estado de alarme", medida que não chega a ser o "estado de sítio”, medida contemporizadora, ineficaz.

Em França, agitam-se os extremistas. A pressão que o Governo faz sobre as "direitas" facilita a expansão dos bolchevistas encapotados, que se mascaram de socialistas, de liberais-democráticos, de defensores de liberdades públicas, e preparam os golpes violentos.

A hora presente é trágica para A Europa. A guerra da Abissínia, criando uma atmosfera de desconfiança entre a Itália e a Inglaterra, enfraquece as forças de resistência de uma velha civilização. O nacional-socialismo da Alemanha, si dermos crédito ao que noticiam as agências telegráficas, abre luta com as correntes católicas, e isso vem trazer também uma situação mórbida para o estado de espírito do povo alemão.

Não se pode negar que a hora é de angústia, de superexcitação, de dúvidas terríveis.

E tudo isso deve servir de lição aos povos jovens como os da América do Sul,

Povos jovens, que vivem artificialmente uma vida de velhice. Povos que estão também minados pelas mesmas enfermidades que depauperam os povos velhos.

A última revolução comunista no Brasil; a máquina revolucionária bolchevista que, se descobriu instalada no Uruguai; a recentíssima sedição soviética no Chile; a marcha franca e aberta do México, para o socialismo avançado; o estado de espírito na Argentina, no Paraguai, nos outros países sul-americanos, tudo isso está mostrando aos que ainda têm um pouco dessa coisa raríssima, tão pouco comum, que é o senso comum, os perigos iminentes que nos ameaçam.

É a velhice precoce.

Velhice à qual devemos opor, como único remédio as desgraças da Pátria, a força da mocidade, os ímpetos da juventude, a energia criadora e realizadora de novas gerações capazes de apreender o sentido dos fenômenos sociais contemporâneos, o processo segundo o qual se criam situações como essas que desesperam hoje a França e a Espanha.

*

* *

Também naqueles países, os políticos só cuidam de política. Mas de política rasteira, vergonhosa, restrita, de partidarismos mesquinhos. Os homens que fazem a política, em regra geral, ignoram os abismos sobre que pisam.

Lembro-me quando estive em Madrid, em 1930. Fui visitar o Palácio Real. O rei Affonso XIII estava veraneando, tranquilamente, em S. Sebastian. Conduziu-me, pelos amplos e imponentes salões, o Duque de Miranda. Ao chegarmos à sala dos Tronos, diante da grandeza majestática dos dois solenes e aurifulgentes dosséis dos reis de Espanha, não pude conter que não perguntasse: "Estes tronos estarão bem seguros?" A minha pergunta talvez não fosse bem compreendida. Mas eu tinha estado na rua e conversara com os carregadores, os engraxates, os jornaleiros, os empregados de comércio, os chauffeurs, lera, sobretudo, os jornais. Meses depois, os acontecimentos respondiam à minha pergunta, e aqueles tronos ruíam, sem ao menos a poesia de um episódio grandioso. A monarquia, em Espanha, acabou da maneira mais ridícula possível: com uma eleição.

Os políticos nunca sabem o que está acontecendo em redor. Estão sempre certos de que a sua posição é firme. Recordo-me bem dos últimos dias nos Campos Elísios, em S. Paulo. Tendo chegado da Europa, em outubro de 1930, com um manifesto integralista na mala, com um rumo novo a seguir, a minha dignidade pessoal me obrigou a ficar ao lado de um amigo, assistindo à agonia de uma situação. Essa agonia, porém, assumia um aspecto de optimismo. Ninguém acreditava que o Poder pudesse ser abalado. Altas horas da madrugada, eu e Menotti Del Picchia, sozinhos (os políticos só iam à tarde saber as últimas notícias), atravessávamos as alamedas, por entre as sentinelas alarmadas, dizendo: "Parece incrível que esta gente esteja tão fora da realidade!”.

Hoje, observo que incrível será que os homens que fazem a política estejam a par da realidade!

Sim! É condição mesmo dos que se agitam nos partidos do governo ou das oposições, não dar pelo que se passa em redor deles, na sombra.

*

* *

O que se passa hoje em Espanha e França mostra bem a cegueira dos políticos. Na Rússia, deu-se a mesma coisa, quando Kerensky estava no Poder. É prevalecendo-se dessas situações, que os comunistas agem e preparam o golpe técnico.

Os políticos não querem convencer-se de que uma situação nova surgiu no mundo. A democracia só poderá subsistir, si adoptar novos métodos de captação da vontade popular. O sufrágio universal está desmoralizado. É um instrumento de agitação, de enfermidade nacional, de anarquia dos espíritos, de lutas estéreis. Quando esse sufrágio universal se pratica num país como a Espanha, onde há os interesses regionais de províncias, como no caso da Catalunha, quase separatista, ele agrava de um modo profundo a doença politica do país.

Não existindo partidos nacionais, porém, apenas estaduais, essa circunstancia concorre para cegar de um modo absoluto os políticos. Olhando só para o interesse da política estadual, eles se esquecem, completamente, dos perigos que ameaçam a vida comum do país e não reparam que estão pisando sobre um vulcão.

O único meio de combater o extremismo, a marcha inexorável do bolchevismo, é criar a União Nacional. Mas essa União Nacional não pode, de maneira nenhuma, constituir-se de remendos, isto é, da fusão de partidos já existentes, pois não teria consistência nem estrutura para se manter.

Cegos e surdos, os políticos pensam, no auge da sua mania partidária, que a União Nacional pode se fazer fora do campo político. Organizam, então, entidades apolíticas, meramente educacionais, patrióticas, pensando que assim poderão continuar a fazer sua politiquice, enquanto os patriotas agem num campo neutro.

É o maior, o mais doloroso engano. O caso mundial, como o caso nacional, é um caso eminentemente, político e que só se resolve com política. A enfermidade é politica. Fora da política, pois, não haverá salvação.

*

* *

Que política será essa então, capaz de conjurar as tremendas ameaças desta hora trágica?

Por certo que não será a política com "p" minúsculo, a politicazinha dos partidos situacionistas ou oposicionistas que proliferam pelo país, e sim uma larga, superior Politica, com "P" maiúsculo, de visão panorâmica e ao mesmo tempo de raízes profundíssimas na alma nacional.

Na marcha em que vamos, cumpre que nos miremos nos espelhos da França e da Espanha. E os homens de bem, os homens de boa vontade, os homens que ainda colocam o Brasil acima dos interesses de facção, da possibilidade de cargos e posições brilhantes, que tenham um gesto de renúncia enquanto é tempo. Esse gesto de renúncia equivale a um gesto de conquista e de salvação até mesmo da carreira pessoal.

Eu sei que muitos não acreditarão no que digo; sei que muitos dirão com seus botões: "deixe-me ultimar este compromisso que tenho com Fulano de tal, ou com o partido "x", e depois conversaremos". Sei que muitos terminarão a leitura deste "aviso" e conversarão, em seguida, sobre outro assunto. Sim: eu sei de tudo isso. Mas, sabendo, cumpro o dever de erguer a voz, que é também a de todos os "camisas- verdes", a fim de que, no futuro, ninguém possa alegar que não foi advertido, que a sua atenção não foi despertada.

Enquanto isso, aguardemos os acontecimentos da França e da Espanha, onde os partidos liberais agonizam. Onde os governos pensam que a questão social é caso de polícia. Onde os homens do "centro" revelam mais rancor pelo patriotismo exaltado das correntes da direita do que pelos próprios comunistas.

*

* *

Marchamos hoje, no Brasil, para uma situação idêntica.

É com inquietação, que nos perguntamos: quanto tempo durará a atual situação daqueles dois países?

GII Robbles e Primo de Rivera hastearão sua bandeira de salvação nacional no Palácio do Governo de Madrid?

O coronel de la Rocque desfraldará seu pavilhão de legítima glória francesa sobre as margens do Sena?

Ou toda a cultura, toda a tradição, toda a história, toda a dignidade da França e da Espanha afundarão no aviltamento de um cativeiro ignominioso, em que esses povos bravos serão pisados pelo tacão da bota dos ladrões internacionais que atualmente governam a Rússia e pretendem governar o mundo?

Brasileiros: O resto entendereis de tudo quanto vos quero dizer. Não é preciso dizer mais para a vossa dignidade e amor ao Brasil.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 18 de Fevereiro de 1936.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

SINAIS DE ESFACELAMENTO (16/02/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

SINAIS DE ESFACELAMENTO (16/02/1936)

Plínio Salgado

As últimas notícias vindas de todos os pontos do país revelam, de um modo flagrante, a inconsistência das velhas estruturas dos partidos políticos da República.

Evidencia-se uma fase precipitada de decadência. Prenuncia-se a desagregação. Na água régia da vida contemporânea, os partidos não resistem à fatalidade da sua ruína.

E, como os fenômenos sociais e políticos se repetem em ciclos através da vida de um país, o, crítico dos acontecimentos atuais deve ter a sua vista voltada para as situações similares, que assinalaram os prelúdios de fases renovadoras, em outros tempos, porém, sob circunstancias semelhantes.

Para os que analisam a fundo os fatos históricos e tiram deles as conclusões norteadoras dos dias presentes, não há surpresas políticas. A política, desde Aristóteles, foi considerada uma ciência. E é justamente porque os homens de partido no Brasil a encaram exclusivamente como arte, que eles nunca podem prever o dia de amanhã.

Não se diga que a política não seja também uma arte. Ela o é, no que tem de intuição, de improviso, de compreensão imediata, de atitude a assumir em dado tempo e dadas condições. Dirigir massas humanas é segredo de estadistas, e os estadistas, como dizia muito bem Napoleão, são, antes de tudo, artistas, construtores de harmonias sociais.

Aos políticos brasileiros, si lhes falta a intuição da política, segundo o conceito de arte, que ela comporta, muito mais lhes falece o sentido científico da política, a consideração dos fenômenos sociais, segundo suas leis constantes, a procura da incógnita da equação presente, mediante o conhecimento de termos históricos, indispensáveis à interpretação do instante e previsão segura do Porvir.

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Dois fatos destes dias, aparentemente contraditórios, exprimem uma situação uniforme da vida brasileira e a decadência inevitável de um sistema: O governo de gabinete do Rio Grande do Sul e a cisão no Partido Constitucionalista em São Paulo. Este segundo acontecimento é a chave da revelação do primeiro. 81 dias antes disséssemos que a pacificação gaúcha exprimia não um sintoma de agregação, porém, de desagregação, seria difícil de explicar. O caso paulista poupa-nos esse trabalho. Revela um estado de espírito marcante da insubsistência dos partidos na República. Evidencia o caráter de precariedade das organizações políticas regionais, sem conteúdo doutrinário. Mostra que um esfacelamento geral prenuncia o advento de alguma coisa nova.

É condição fundamental do regime liberal-democrático, baseado no sufrágio universal, a existência dos partidos. Quer seja no regime parlamentar, quer seja no presidencialista, não se compreende a democracia com base no voto popular, sem os órgãos captadores desse voto.

Se a vida política do Rio Grande do Sul exigiu o apaziguamento das duas correntes em torno do governo estadual, é porque essa vida política 1já sentiu os efeitos da vida social, da vida econômica, dos interesses apolíticos. Os partidos se tornaram "indesejáveis" à opinião pública.

Pelo menos é o que se infere das declarações dos lideres de ambas as facções, pois todos afirmam que, no cenário federal, cada corrente tomará a orientação que quiser, só se entendendo necessária a aglutinação de todos os homens de boa vontade, em torno do Poder, nos estritos limites do Rio Grande do Sul. Essa afirmativa, em última análise, quer dizer o seguinte: "nós, gaúchos, estamos convencidos de que as lutas políticas são nocivas aos interesses do Rio Grande, portanto, reconhecemos que essas lutas nocivas só devem ser aplicadas ao Brasil".

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Reconhecem, pois, os políticos do Rio Grande que a existência de luta partidária é prejudicial a determinada região. Eis aí um precioso argumento, para nós, integralistas, que outra coisa não dizemos há três anos.

Agora, si volvermos os olhos ao Passado, encontramos igual estado de espírito, nas vésperas da decadência do sistema parlamentar e da Monarquia. Foi desde o governo de concentração do Marquês do Paraná. Desde então começa-se a observar o desprestígio, cada vez maior, da monarquia parlamentar. Esse desprestígio acentua-se quando Osório e Caxias, durante a Guerra do Paraguai, não se cansam de dizer que suas espadas não têm partido. Embora praticamente dissentidos e apoiados por facções contrárias, a teoria de ambos era a mesma. Era idêntica, aliás, à do homem extraordinário, de visão realista, que foi o Visconde de Mauá. O fato é que, de 1850 a 1889, os partidos agonizaram, fundiram-se várias vezes em gabinetes de concentração, e, dentro de suas próprias vidas internas, cindiram-se frequentemente.

É aqui que o rompimento de uma ala do Partido Constitucionalista de São Paulo acentua a identidade da situação de decadência dos partidos atuais, com os partidos do Império, Processavam- se, então, duas ordens de fenômenos políticos de absoluta similitude com os fenômenos atuais. Enquanto se movimentavam as correntes para produzir governos de gabinete isentos de colorido nitidamente definidor de qualquer dos dois grandes partidos monárquicos (fato que agora se repete na experiência do Rio Grande do Sul e na tentativa de aplicação do mesmo processo à política federal), por outro lado os partidos internamente se desagregavam.

O partido conservador tinha várias alas, assim como o partido liberal. Dominava, às vezes, num ministério, certa ala dos liberais com determinada ala de conservadores. E tudo isso significava que já não havia uma doutrina, uma diferenciação programática profunda. Tudo se diluía na própria decadência do sistema e em face de novas realidades nacionais.

Enquanto concentraram-se de um lado e internamente se esfacelavam por outro lado, avançava um Pensamento Novo.

Era a República.

Ninguém deteve a República.

*

* *

Talvez, nas marchas e contramarchas dos políticos, em meio às preocupações de campanário, assoberbados pelas intrigas, absorvidos pelo combate aos adversários, aflitos sobre o terreno movediço dos imprevistos de todos os momentos (tal qual como agora), os homens eminentes dos partidos imperiais não repararam que, bem próximo deles, Benjamin Constant preparava uma mocidade e que trinta e poucos clubes republicanos em todo o país (exatamente como agora os dois mil e vinte e três núcleos integralistas), infiltravam na massa popular ideias novas, mais consentâneas com as necessidades imediatas do Brasil.

Os políticos não sentiram que estavam se dissolvendo. Que em cada avanço, recuo, marcha de flanco, manobras hábeis ou desastradas, atitudes impulsivas ou sinuosas, o terreno lhes faltava aos pés. Não acreditaram na possibilidade da queda do trono. E o trono caiu.

Caiu sem rumor. Caiu sem nenhuma grandeza, sem ao menos aquela grandeza do verso imortal de Dante, que retumba na Divina Comédia. Foi quase uma queda de teatrinho de bairro, em que está preparado para o personagem o tapete macio ou a cadeira de espaldar para a hora do desmaio.

A dissolução dos partidos processara-se normalmente, como se processa agora. Alas que rompem; correntes que se unem; contramarchas para acordos; ideias de recomposição...

Enquanto isso, os novos Benjamins, Glicérios, Ruys, Demétrios, Silva Jardins, Prudentes, Campos Salles, Aristides Lobo, prontos para entrar em cena.

*

* *

Os partidos vivem de doutrina de intransigência. Os partidos morrem de acordos e de com posições. O regime republicano, presidencial baseado no voto popular, vive da vida dos partidos. Quando os partidos se fundem é porque anteriormente se sentiram suficientemente desagregados para operar a fusão. Sem decomposição não há composição política. A composição, pois, significa morte dos partidos. A morte dos partidos significa a morte de uma situação geral.

Basta olhar para o Passado e compreenderemos o Presente.

Os Integralistas sabem disso. E prosseguem confiantes e serenos, na sua intransigência doutrinária Incompatibilidade fundamental com qualquer arranjo ou pacificação.

Que morram os outros, pacificamente.

Nós, na luta de todos os dias, palpitamos de vida intensa e nos destinamos a dizer a última palavra.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 16 de Fevereiro de 1936.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

UM HOMEM SINCERO (16/01/1964)

 

Esclarecimento: O Artigo abaixo foi publicado em jornal pelos “Diários Associados”, mas, o recorte que dispomos não trazia a data da publicação. Felizmente, graças ao impressionante trabalho de investigação sobre o Integralismo em fontes primárias, o brilhante pesquisador Matheus Batista pode nos informar que a data da edição foi 16 de Janeiro de 1964.

Em breve, o Companheiro Matheus Batista publicará uma sensacional Obra sobre o Integralismo. Aguardem!

UM HOMEM SINCERO (16/01/1964)

Plínio Salgado

Vi e ouvi pela televisão, no programa denominado "pinga fogo", o sr. Luís Carlos Prestes. Minha impressão foi a melhor possível. Colocado dentro da ideologia que adotou e que julgo superada e inadequada, pela sua unilateralidade na consideração dos fenômenos sociais, econômicos e políticos, peculiar ao século XIX não se pode negar que o chefe comunista foi sincero nas respostas dadas aos jornalistas que o entrevistaram.

Antes de se fazer marxista, Prestes foi alvo de admiração dos Jovens que, a partir das revoluções de 1922 e 1924, inquietavam-se pelos destinos do Brasil. Na capital paulista um grupo de intelectuais se reunia na Pensão Avenida, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, quase todas as noites, debatendo os problemas universais, humanos e nacionais brasileiros. Eram Jaime Adour da Câmara, Américo Facó, Mário Pedrosa, Alberto Araújo, Raul Bopp e outros. Devendo Araújo ir a Gaiba, onde se encontrava exilado o comandante da Coluna que percorrera grande parte do território do nosso país, o grupo resolveu mandar-lhe livros: obras de Alberto Torres, Oliveira Viana, Tavares Bastos, Euclides da Cunha, Elísio de Carvalho, entre os mais expressivos da geração anterior, e a produção literária mais significativa da nossa geração. Não sei se o portador entregava esses livros, substituindo-os por obras marxistas, ou se insinuava entre eles o de sua ideologia. Um dia, regressando Araújo de uma de suas viagens a Bolívia, informou-nos que Prestes já era comunista. Para os que adotavam uma linha ao mesmo tempo nacionalista e espiritualista, conjugando o pensamento filosófico de Farias Brito, os princípios de ordem de Jackson de Figueiredo, a crítica das instituições de Alberto Torres, o realismo de Euclides, da Cunha, a visão sociológica de Oliveira Viana, aquela notícia não podia deixar de entristecer, pois perdíamos um grande elemento no instante em que procurávamos aliciar os valores da nossa geração para uma Campanha de renascimento nacional.

O período de 1930 a 1932 foi assinalado pela diáspora da nossa Juventude. Na redação do "Correio Paulistano", que era o órgão oficial do governo paulista formamos o grupo "verdamarelista", do qual fiz parte, com Menotti del Picchia, Mota Filho e Cassiano Ricardo. Propugnávamos, não somente (como fora na Semana de Arte Moderna de 1922) por uma renovação dos critérios estéticos, mas ainda, e principalmente, por uma transformação da vida política do país mediante reformas de base. Foi desse movimento que surgiu em 1931 a "Sociedade de Estudos Políticos", fundada numa das salas do jornal "A Razão". Integravam-na alguns elementos "verdamarelistas" aos quais se juntaram estudiosos de filosofia, sociologia e economia. Das pesquisas e debates que a Sociedade realizava no salão de armas do Clube Português, de São Paulo, nasceu a ideia do Integralismo, cujo nome proveio de uma conferência do engenheiro e escritor Artur da Mota, mostrando que o nosso pensamento político não era outro senão o representado pelo cálculo integral, cujo símbolo era o Sigma. O novo movimento foi praticamente lançado numa conferência que realizei na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sob o título "Quarta Humanidade", depois enfeixada em livro. A sua dinâmica inicia-se com os meus dois livros posteriores "Psicologia da Revolução" e "Palavra Nova dos Tempos Novos". A sua popularização com o livro "Manifesto de Outubro" de 1932.

Desde então, perdendo de vista o chefe da Coluna Prestes, tornei-me o polo oposto da sua ideologia materialista, pois enquanto esta se baseia na concepção unilateral do "homem econômico", a nossa se funda no "homem integral", em que se somam todos os fatores constitutivos da personalidade.

Não conheço pessoalmente o Sr. Luís Carlo: Prestes e a primeira vez que o vi e ouvi foi através da televisão, na entrevista coletiva à imprensa paulistana. É um homem que, apesar do erro que professa e no qual insiste, merece acatamento por tudo quanto já sofreu para sustentar sua atitude sempre coerente com os seus objetivos. Determinei, pois, ouvi-lo nessa longa entrevista que durou até duas horas da madrugada.

Tudo o que nós, os anticomunistas, temos afirmado, Prestes confirmou com simplicidade e verdade. Perguntado sobre os progressos do comunismo no Brasil, declara que é muito grande, pois a ideologia marxista penetrou hoje nas áreas governamentais e exerce poderosa influência na política brasileira. Pedida sua opinião sobre o governo do sr. João Goulart não regateia elogios ao atual presidente, louvando sua linha socialista e estatizante e a sua política exterior, principalmente no caso de Cuba. E confirma também a excelente posição de elementos do partido ou de seus simpatizantes em postos de administração.

Um jornalista indaga se nos meios católicos se verifica penetração comunista. Responde o entrevistado que os católicos de esquerda muito auxiliam os partidários de Moscou, citando o caso da UNE, onde tem sido garantida a preponderância dos comunistas pela sua aliança com os católicos. Inquirido sobre o clero, diz que numerosos sacerdotes em todo o país encontram um terreno comum em que se aliam aos comunistas, quanto à mais alta hierarquia eclesiástica, revela que alguns bispos já se incluem nas linhas auxiliares do comunismo, e, referindo-se aos três cardeais brasileiros, reprova as atitudes reacionárias dos da Bahia e do Rio de Janeiro tecendo encômios ao de São Paulo, que diz ser "progressista".

Solicitado a dar sua palavra sobre Julião e as Ligas Camponesas, diz que o líder do Nordeste, depois de sua viagem a Cuba, em companhia do sr. Jânio Quadros, voltou com ideias próprias, em desacordo com a tática comunista. Sendo um líder sincero, o que o perde é o fato de ser um místico, pretendendo agir com métodos diretos, de ataques frontais à burguesia capitalista, em cujo seio existem poderosos auxiliares do comunismo. Não compreendeu Julião a nova estratégia do partido e pretende movimentos armados inoportunos e insuficientes.

Sobre o CGT, fala com entusiasmo, dizendo ser essa organização grande instrumento de luta de que o partido comunista se serve e que ela constitui hoje o bicho-papão que assombra os reacionários. Perguntam-lhe o que pensa do Congresso. A sua opinião é a mesma do sr. João Goulart, a quem qualifica de aliado, apesar de algumas atitudes de transigência com os partidos de direita, isto é, o Congresso protela e impede as reformas de base propugnadas pelo presidente e diz que se as Câmaras fossem fechadas o "povo" se regozijaria. Então um dos repórteres pergunta se existem deputados ou senadores comunistas em nosso país. Resposta: não podendo o partido por estar na ilegalidade, apresentar chapas próprias, valemo-nos da ambição de votos dos partidos burgueses, inserindo em suas listas elementos de nossa confiança. E revela: temos parlamentares nossos em quase todos os partidos, inclusive na UDN.

A essa altura alguém lhe pede parecer sobre o PTB. Sem hesitações, Prestes declara: é o nosso grande aliado. Sobre Miguel Arrais, informa que não pertence ao Partido Comunista mas é deste aliado de muito valor, tanto que no seu governo, em Pernambuco, predominam destacados líderes do comunismo. Sobre a infiltração vermelha nos meios militares, mostra-se discreto, mas não a nega. Com referência a vários políticos de reconhecida orientação moscovita e cubana, diz não pertencerem às fileiras do partido, cuja disciplina é rígida, esclarecendo que ele próprio, apesar de marxista-leninista havia mais de seis anos, só foi admitido no partido em 1934; entretanto tais políticos prestam relevante serviço ao desenvolvimento do comunismo no Brasil.

Inquirido sobre se acha haver o sr. Jânio Quadros perdido prestígio na massa, emite sua opinião dizendo não se poder negar que o ex-presidente da República continua a ser um legítimo líder proletário. A respeito da sucessão presidencial entende ser muito possível que o candidato mais provável seja o próprio sr. João Goulart ou por uma reforma constitucional, ou por "outro meio qualquer". E sorri... Mas se isso não se der, a sua opinião e de que o vencedor será o sr. Ademar de Barros.

Interrogam os jornalistas: se o Partido Comunista está tão forte, isso significa a proximidade de uma revolução? Por que não a deflagra? Resposta: não queremos revolução e não precisamos dela. Nossa influência é crescente nos meios operários, estudantis, culturais, militares e no governo. O Comunismo virá naturalmente e tudo caminha para isso.

Julga haver possibilidade de uma guerra civil? Indagaram-lhe. Responde: nós, os comunistas, não desejamos uma guerra civil, mas não a tememos.

Todas as palavras de Prestes revelam seu profundo conhecimento das táticas de Lenine, desde Zimerwald, quando se propôs a implantar o comunismo na Rússia, utilizando-se das componentes políticas (partidos de esquerda) e proletários e camponeses (os Sovietes que eram o CGT de lá). Essas táticas foram agora aperfeiçoadas por Kruchev, que se propõe implantar o comunismo no mundo, sem guerras nem violências e, enquanto Mao-Tse-Tung faz o papel de bandido, para assombrar o Ocidente, o Czar Vermelho faz o de "bom moço" da convivência com mundo capitalista, o que a ambos facilita o trabalho. No interior dos países, os comunistas agem do mesmo modo. Uma pequena minoria operante conduz o barco, o grosso das hostes vermelhas rotula-se de "nacionalistas" ou "reformistas". E os povos, apesar das lições da História, e os governos, malgrado trágicos precedentes em outros países, e os católicos, aos quais não valeram as lições da Polônia, da Hungria, de Cuba caem no mesmo engano, suicidam-se com os mesmos venenos tantas vezes usados quanto repetidos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

O COMUNISMO E OS COMUNISTAS (27/10/1946)

 

O COMUNISMO E OS COMUNISTAS (27/10/1946)

Plínio Salgado

Sustento, por conseguinte, este princípio fundamental da nossa propaganda. Doutrinariamente, ideologicamente, combatemos o comunismo, não por ser um partido adverso ao nosso, mas porque é uma doutrina filosófica baseada no socialismo de Marx, e o socialismo de Marx é baseado no materialismo histórico, e nós somos espiritualistas.

Só por isso o combatemos no campo doutrinário, procurando esclarecer o povo brasileiro acerca desse problema de ordem filosófica.

Não combatemos os comunistas. São brasileiros, muitos deles revoltados por injustiças reais, muitos desejando uma melhor situação para as classes desfavorecidas, muitos deles com maior teor de dignidade do que o burguês, que tem uma vida má, vida de prazeres (muito bem, palmas), e que quer combater o comunismo, apenas, porque quer defender a sua propriedade, da qual ele usa e abusa em detrimento dos princípios cristãos que devem reger o uso da propriedade. (Palmas).

Eu, portanto, recomendo a todos aqueles que comigo estão nesta batalha pelo bem do Brasil, pelo amor às nossas tradições, pela afirmação da nossa espiritualidade, da nossa crença em Deus, e na imortalidade da alma humana; recomendo que tratem carinhosamente o comunista combatendo vigorosamente o comunismo (palmas), combatendo essa doutrina materialista, pela nossa convicção espiritualista. Amemos o nosso próximo, seja ele quem for, e procuremos, pela ação pessoal conquistar, um a um, os brasileiros.

 

SALGADO, Plínio. Discursos (1ª Série – 1946/1947). 1ª edição. São Paulo: Panorama, 1948; páginas 50 e 51. Excerto do Discurso pronunciado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 27 de Outubro de 1946.