quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Sonhar, querer: e fazer! (07/10/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Sonhar, querer: e fazer! (07/10/1936)

Plínio Salgado

No dia 3 de julho de 1930, na cidade de Milão, eu escrevia a um amigo particular, residente na cidade do meu nascimento, uma longa carta, que ele guarda preciosamente. Nessa carta, pus, entre outros, estes períodos:

"Estou hoje convencido de que o Brasil não pode continuar a viver na comédia liberal-democrática Aí, eu já era um descrente, em relação a liberdade e honestidade eleitoral. A eleição que aí fizemos juntos, inspirou-me uma profunda repulsa. O artigo que, logo depois, escrevi no "Correio", contém, nas entrelinhas, o cavalo de Tróia do meu pensamento revolucionário".

(Eu me referia às eleições presidenciais de 1 de março de 30; o jornal de que falava era o órgão oficial do governo, em S. Paulo).

"De há tempos que me impressiona"- continuava eu - "o enfraquecimento do Poder Central; as unanimidades em torno dos presidentes de cada Estado; a política financeira e econômica de cada Estado, consultando interesses de grupos regionais; a falta de unidade no aparelhamento da instrução pública, da higiene, da justiça; a situação deprimente dos nossos parlamentares, lacaios do Poder, ou demagogos democráticos, verdadeiros sonâmbulos, que não atinam com as causas fundamentais dos males da Nação, e feiticismo das fórmulas constitucionais, burladas pelos seus adoradores, mas cultuadas como Budas, o que ocasiona descrença do povo; a nossa defesa nacional sem eficiência alguma, um exército roído de conspirações; as lutas em cada sucessão presidencial desorganizando a vida do país e gastando rios de dinheiro com os jornalistas venais e os políticos que tresandam a podridão; a imprensa com tantos órgãos vergonhosos; a advocacia administrativa, cancro nacional, e a proteção política, lepra deformadora. Numa situação como essa, os "dois perigos", que os governos não veem, não. creem: o espírito regionalista, que se acentua dia a dia e nos leva a caminho do "separatismo", e questão social, que aí dizem ser caso de polícia, e que nos arrastará, de um momento para outro, para o "bolchevismo". Os que têm a noção dessas cousas são aí chamados "loucos", sonhadores e poetas Os homens de juízo são os inconscientes, de espírito burocrático, os administradores de fachada e os homens de negócios...

(Note-se bem, que eu escrevia em 5 de julho. de 1930, muito antes de se falar em separatismo ou comunismo).

“o que há de pior no Brasil" - continuava eu naquela missiva - "é o materialismo grosseiro em que aí vivemos, a falta de coragem, a incapacidade para o sacrifício, a ausência absoluta de espírito nacional. O. Império legou à República um país homogêneo, vibrando pelo mesmo coração: a República, com mais vinte ou trinta anos, terá completado a sua obra de dissociação É necessário agirmos com tempo de salvar o Brasil".

Aos que dizem que copiamos, chamo a atenção para estas linhas da carta que já foi exposta ao público, por ocasião do nosso II Congresso Nacional Integralista:

"Tenho estudado muito o fascismo: não é exatamente esse regime que precisamos aí, mas é cousa em alguns pontos semelhante. O fascismo, aqui veio no momento preciso, deslocando o centro de gravidade da política, que passou da metafisica jurídica, para as intuições das realidades imperativas. O Estado Fascista, sendo uma concepção mais ampla do que os limites traçados ao conceito do Estado nos regimes de índole liberal-democrática, veio interferir em várias atividades, modificando lineamentos anteriores do Direito Constitucional, do Direito Administrativo, e influindo mesmo na esfera civil, comercial e criminal. Porque o fascismo não é propriamente uma Ditadura (como está sendo o governo da Rússia, enquanto não chega a prática pura do Estado Marxista), e sim um regime. Penso que o Ministério das Corporações é a máquina mais preciosa. O trabalho é perfeitamente organizado. O capital é admiravelmente controlado. O Parlamento constituído pela representação de classes. Esta última coisa seria preciosa num país novo como o Brasil, por dois motivos: teríamos a precisão "técnica" nas leis, e amorteceríamos, não só o espírito regional do Parlamento Federal, como o espírito de clã, de aldeola, nos Parlamentos Estaduais. Há outras cousas interessantíssimas aqui.

Volto para o Brasil, disposto a organizar as forcas intelectuais esparsas, coordená-las, dando-lhes uma direção, iniciando um apostolado. Contando eu a Mussolini o que tenho feito, ele achou admirável o meu processo, dada a situação diferente do nosso país. Também como eu ele pensa que, antes da organização de um partido, é necessário o movimento de ideias.

Aliás, a minha orientação não teve nenhuma influência fascista".

Como se vinha processando em meu espírito a decisão de vir organizar um grande movimento salvador de minha Pátria? Vejamos estes pequenos trechos da carta em questão:

"Uma manhã, no alto do Janículo, junto à arvore de Torquato Tasso, com o panorama de Roma a meus pés - o Coliseu e o Vaticano, o Fórum Romano e as Termas de Caracala, o Aventino e o Palatino, e os palácios seculares que sobem e descem pelas colinas, eu senti uma saudade imensa do Brasil. E. sentindo este amor da Pátria, pensei em todas as marchas da Cidade Eterna, e refleti sobre a necessidade que temos de dar ao Povo Brasileiro um Ideal, que o conduza a uma finalidade histórica".

"Voltarei para combater esse combate, cheio de entusiasmo".

No dia 4 de outubro desse ano, cheguei ao Rio de Janeiro e no dia 5 do mesmo mês desembarquei em Santos, No dia 7, escrevi um artigo sobre Unidade Nacional, no "Correio Paulistano" De 7 a 24, passei refundindo o esboço de um Manifesto, que eu escrevera em Paris. Em dezembro, emprestei esse Manifesto à Legião Revolucionária. Ella afundou-se e desapareceu, o Manifesto ficou. Em Janeiro de 1931, realizei uma reunião de intelectuais no Rio, num salão do Palácio Hotel. Foi a primeira tentativa, que fracassou. Voltei para S. Paulo, iniciei a doutrinação pelas colunas do diário "A Razão", fundado por Alfredo Egydio. Em fevereiro de 1932, fundei a Sociedade de Estudos Políticos. Em maio desse ano, os políticos empastelaram aquele jornal e eu fundei, como uma secção da Sociedade de Estudos Políticos, a "Acção Integralista Brasileira". Escrevi o Manifesto básico. Articulei os primeiros apóstolos de vários pontos do país. Em julho rebentou a revolução paulista. Precisei parar. Em outubro terminou a revolução. No dia 7 desse mês, publiquei Manifesto, que tomou nome de Outubro. Em dezembro desse ano, proclamei às correntes revolucionárias que o facho da revolução estava comigo. Em abril, dia 22, realizei a primeira marcha dos camisas verdes, com menos de uma centena de companheiros. Em maio desse ano, fundei Integralismo na Capital da República. Em seguida, publiquei dois livros de doutrina, um para o povo e outro para os cultos, e parti em peregrinação evangelizadora para o Norte do país. Percorri os sertões, visitei as capitais O Movimento alastrou-se. Multiplicaram-se as bandeiras de propaganda Em 1934, março, realizei o primeiro Congresso Nacional Integralista Renunciei três vezes a Chefia. Impuseram-me esse logar. Exigi disciplina em troca do meu martírio constante, ininterrupto. O Movimento cresceu. Atingiu, cidade a cidade, o mapa da Pátria. Éramos uma centena, somos hoje um milhão. Somos a partido nacional, somos o maior Movimento da História do Brasil.

Aí está, brasileiros, o que fiz para minha Pátria.

Agora já se canta o Hino Nacional. Agora já existe um sentimento ligando brasileiros de todas as latitudes. Agora já despertou uma mocidade, para a vida heroica. Agora já escutamos as clarinadas de idealismos revitalizantes. Аgora о Brasil começa a tomar conhecimento de si próprio.

A ideia integralista está vencedora. Aqueles mesmos que nos odeiam ou perseguem podem combater-nos como pessoas, não nos combatem mais como pensamento. O pensamento está triunfante. Os próprios discursos com que nos atacam são escritos com o nosso estilo, neles se empregando nossas palavras, nossas frases inteiras.

Somos uma atmosfera de nacionalismo. Somos a escola de espiritualismo. Somos, na verdade, os soldados de Deus e da Pátria.

O que eu sonhei eu quis. O que eu quis eu fiz.

Quando sonhei, foi o Brasil que falou em mim, no mais recôndito do meu coração. Quando eu quis, foram as forças misteriosas da minha gente forte, da minha boa gente brasileira que agiram no recesso de minha própria vontade. Quando eu fiz foi o Brasil que fez, abençoado por Deus.

Possa eu continuar este trabalho - quatro anos já se passaram de fecundo esforço - possa eu continuar esta obra que pertence aos nossos pósteros, e ver-se-á o que o Integralismo ainda fará para honra, glória, triunfo imortal do Brasil.

O Integralismo não é apenas uma grande doutrina, uma grande campanha de educação moral, cívica, física, um movimento cultural esplêndido, uma organização técnica admirável, um partido nacional e nacionalizante, uma barreira ao comunismo, uma vigília gloriosa pela dignidade da Nação. O Integralismo é uma prova de que a sua doutrina é verdadeira, isto é, o homem pode interferir na História e modificar o seu rumo. O Homem tem poder para modificar o ritmo determinista do evolucionismo materialista dos fatos sociais. Eu sonhei e quis. Querendo, atuei. Atuando, perseverei. Perseverando, sofri, sofrendo, fortaleci-me. Fortalecendo-me, multipliquei, segundo o tempo e o espaço, a minha eficiência E, agora, estou mais do que nunca, certo de que o Homem pode querer e pode fazer, porque Deus lhe deu certos poderes de criar que ele pode empregar com êxito.

Essa demonstração deve valer à mocidade da Pátria. Que todos os que são moços tomem nota disso e que os pais guardem essa lição para as crianças que ainda estão no berço. Que um optimismo sadio levante os caráteres, que a confiança em si próprias incendeie os corações e multiplique as próprias energias físicas. Que as novas gerações se convençam de que esta obra de construção nacional deve prolongar-se pelos séculos em fora, que uma Pátria se engrandece num plano sistemático, executado por muitas gerações.

Que cada uma dessas gerações cumpra o seu dever. Que ninguém deserte da sua geração. E que ninguém deserte do Brasil.

Seja o Brasil o "pão nosso de cada dia" para o nosso sentimento e o nosso pensamento. É preciso pensar sempre, sem cessar, mas pensar com força, com energia, com espírito vitorioso e dominador sobre o objeto da nossa criação. Foi assim que fiz. É assim que os integralistas estão fazendo. Será assim que, pelo nosso milagre, a Pátria será grande.

Camisas-verdes! Olhai para nossa Bandeira e exclamai: "Se o Chefe soube, quis e fez, nós agora, sobre o que já está feito, sonhamos muito mais, sobre esse sonho elevaremos nossa vontade e sobre esta vontade, contra todos os descrentes, os desiludidos, os traidores, elevaremos o Brasil!

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 07 de Outubro de 1936.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

PSICOLOGIA DE ROMANOFFS (23/02/1937)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

PSICOLOGIA DE ROMANOFFS (23/02/1937)

Plínio Salgado

Almocei ontem no restaurante operário que e Integralismo instalou na Gamboa, Rua Sacadura Cabral. Sentei-me à mesa com meus patrícios estivadores, marinheiros, soldados, operários de várias profissões. Vivi instantes de pura alegria e íntima felicidade. Senti bem de perto a significação profunda da grande obra que estamos realizando, Meditei, finalmente, sobre esta coisa grave: os políticos brasileiros ignoraram completamente o mais formidável fenômeno social que se vem processando sem que dele os nossos homens públicos tomem conhecimento.

Lembrei-me do "diário" escrito pelo último dos Romanoffs, Czar de todas as Rússias, nas vésperas agitadas da queda do Império e do advento de Kerenski. O imperador Nicolau II, nesse documento, mostra-se completamente alheio aos factos que se desenrolavam em torno do Kremlin.

Aquele homem, que não conhecia sequer as obras de Dostoievski, nem qualquer dos sintomas denunciadores dos sucessivos estados de espírito do seu povo, anotava, dia a dia, os acontecimentos de sua vida e, nessas rápidas notícias, nada se encontra que revele o mais vago conhecimento das realidades nacionais.

"Eu e as princesas estivemos esta manhã caçando borboletas"; "hoje à tarde veio ver-me o arquiduque, que se acha bem disposto"; "a czarina passou a tarde com enxaqueca"; "a manhã de hoje esteve belíssima e fizemos um lindo passeio". E, enquanto essas linhas eram escritas ao fim de um dia vazio, sem sentido e sem grandeza, agitava-se a opinião popular, em ondas revoltas de paixão, desorientavam-se os espíritos, e alguma coisa caminhava, com segurança, nas trevas. Uma Nação marchava, mas os quadros políticos e administrativos não sentiam, não percebiam coisa alguma. Tudo rolava monotonamente, burocraticamente, protocolarmente, com o mesmo ritmo através do qual tudo viera vindo, desde mais de um século. Funcionários, magistrados, políticos, militares, afeitos a uma feição de vida, a um hábito adquirido, continuavam a girar dentro dos mesmos métodos, convencidos de que tudo seria como sempre fol.

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Eu pensava nestas coisas, convivendo entre os humildes, os simples, os trabalhadores da minha Pátria. Convencia-me de que os políticos do Brasil, ainda aqueles que mais se aproximam de nós, procurando indagar do que somos, da força que representamos, não podem fazer a mínima ideia do que o Integralismo é neste país.

Não; não é possível que os chamados homens de responsabilidade, mesmo aqueles que, em campo adverso, nos tratam com respeito, ou ainda aqueles que demonstram simpatia por nós, possam avaliar, em toda a sua extensão e profundidade, este phenomeno extraordinário.

A vaidade de uns, o ceticismo de outros, a falta de tempo ou o indiferentismo de muitos, não permite que esses homens. (governadores, ministros, embaixadores, magistrados, altas patentes, senadores ou deputados, comerciantes, industriais, grandes escritores ou jornalistas) tirem uma semana para examinar, sem nenhum compromisso, este assombroso fenômeno nacional, ao menos na Capital da República, uma vez que não poderiam viajar por todo o país.

Eu desejaria ardentemente que algum desses homens se despisse de quaisquer preconceitos, como simples curioso, e viesse fazer o que já têm feito alguns estrangeiros ilustres: "ver para crer". Pois confio tanto no coração dos brasileiros que estou certo de que, se isso se desse, os nossos visitantes sentiriam profundo abalo moral e teriam de meditar muito.

Infelizmente, porém, a psicologia dominante é aquela do último dos Romanoffs. Tudo gira dentro dos velhos quadros, tudo se condiciona ao mesmo ritmo político do passado. A guerra que se move contra o Integralismo é feita de desconhecimentos completos do que somos. Acusa-se sem conhecer; desconhece-se e insiste-se em permanecer no desconhecimento. E nós vamos crescendo. Vamos aprofundando.

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Tem-se encarado o Integralismo apenas do ponto de vista eleitoral. Os 250 mil votos que levámos no ano passado, nas eleições municipais, fazem com que os políticos nos computem como uma força respeitável. Eles que estão acompanhando a marcha das adesões que, diariamente, recebemos e que sabem que só agora estamos intensificando o alistamento eleitoral estão convencidos de que a soma de nossos votos representa alguma coisa muito séria para as suas estatísticas, em referência ao próximo pleito presidencial. A opinião de todo o país é a de que pesaremos muito nas próximas eleições.

Mas a força do Integralismo não é apenas essa. A ação dos camisas-verdes se desdobra em todos os planos da atividade social e humana. Realizamos uma obra de cultura, de aliciamento e coordenação dos espíritos jovens das elites intelectuais; uma obra de educação das massas urbanas e rurais, que do ponto de vista cívico e moral, como físico, através das nossas academias; uma obra de vigilância contra o bolchevismo, desdobrando-nos em permanente investigação e articulação de todo um serviço secreto de âmbito nacional; uma obra de nacionalismo sadio, cultuando as tradições da Pátria, exaltando o entusiasmo pelos nossos heróis, pela, nossa Bandeira, pelo nosso Exército, pela nossa Marinha, pela Unidade Nacional, ensinando as multidões a cantar o Hino da Nação e a compreender a grandeza do culto cívico às grandes datas; uma obra de disciplinação, de compreensão do princípio de Autoridade, de respeito à ordem; uma obra de assistência social, instalando ambulatórios médicos, farmácias, gabinetes dentários, escolas de alfabetização e educação, cursos de enfermagem, serviços de amparo, proteção, colocação, aos desfavorecidos da fortuna.

Tudo isso é forca do Movimento, mas ainda não é tudo. Porque a base de toda essa grandiosa construção é a mística, que temos criado, da virtude, da bondade, do dever, da solidariedade humana, do sacrifício pela Pátria e por Deus. Vivemos dentro dessa mística. Transformamo-nos, dia a dia. Todos nós, Integralistas, costumamos dividir a nossa vida em duas partes: antes e depois do Juramento ao Sigma. Sentimo-nos, dia a dia, mais diferentes do que éramos. Aproximamo-nos, ansiosamente, das fontes cristãs da vida.

O nosso sentimento, de uns para os outros companheiros, não é, como nos partidos, de solidariedade política: é de fraternidade e quase de parentesco. Unimo-nos com espírito de humildade, de bondade, de perdão, de socorro, de sacrifício e heroísmo. Constituímos uma grande família.

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Foi esse sentido profundo de família que me tocou na manhã de sábado, quando almocei com os primeiros clientes do restaurante "O pão de cada dia", inaugurado pela A. I. B. na rua Sacadura Cabral, na Gamboa,

O Secretario Nacional de Assistência Social, companheiro Brito Pereira, teve a intuição perfeita do alcance da sua iniciativa. É o primeiro passo dado, de um modo decisivo, para o grande entrelaçamento entre o Integralismo e as classes proletárias. A efetivação da generosa ideia seguiu um processo simples. O nosso Socorro Verde, com seus próprios fundos, alugou o prédio e fez as instalações necessárias, nas quais trabalhou, de um modo comovedor, o companheiro Bruno du Warren. Cada integralista, em condições de o fazer, obtém, com o seu fornecedor, uma pequena oferta para o restaurante. São emitidos cupons, que dão direito às refeições, Esses cupons são adquiridos por todos os que queiram favorecer os necessitados e estes, em vez de receber uma esmola vexatória, recebem tais cupons. Isso quanto aos absolutamente desprovidos de recursos. Aqueles, porém, que ganham pouco e dispendem quase tudo o que ganham em razão dos preços elevados das refeições, encontram, no restaurante integralista, a mesma refeição que costumam ter, pela metade do preço que habitualmente pagam. Essa pequena renda vae reunir-se aos recursos para socorro dos pobres. Quanto a estes, não se sentem aviltados, pois apresentam-se em igualdade de condições com os que pagam, munidos de seus cupons. Mas o restaurante não é apenas um restaurante. Os "garçons" tratarão de estabelecer camaradagem com os frequentadores e verificarão quais os que se acham desempregados, os que se encontram em dificuldades de vida, os que estão transviados por ideias dissolventes, os que se entregam a vícios, os que se acham desanimados na luta pela vida. Depois de orientar esses pobres patrícios, encaminham-no para as autoridades da Assistência Social da A. I. B. e esta trata de salvar a criatura humana aos seus cuidados, realizando uma obra que chamaremos de "recuperação social".

É a primeira casa, no gênero, que inauguramos nesta Capital. Dentro em breve, muitas outras estarão espalhadas por todo o Rio de Janeiro. Estamos também cogitando de instalar albergues noturnos, com a mesma finalidade. Os Núcleos integralistas também começaram assim, há três anos. Hoje, temo-los em todos os bairros da Capital, com seus campos de esporte, suas escolas de alfabetização e educação, seus ambulatórios médicos, suas farmácias, seus lactários, suas bibliotecas. Dar-se-á a mesma coisa com estas casas de pasto; dentro em breve elas se multiplicarão,

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Quem poderá deter um Movimento como o nosso? Só um louco poderá pensar que o Integralismo, pelo facto de estar registrado como partido político, obedece às mesmas leis de existência e funcionamento dessas organizações sem permanência, sem alma, sem idealismo.

A Acção Integralista Brasileira criou um estado de espírito, uma consciência nova, uma mística sagrada. Todos nós nos achamos unidos por estes dois elos: Cristo e o Brasil.

Se somos um pensamento político, somos também um sentimento nacional. Se somos uma disciplinação de coletividade, somos, também, uma reforma interna do indivíduo.

Não há palavras que expliquem aos que não nos conhecem o que é o Integralismo aqui dentro de nossas fileiras. Quem quiser conhecer-nos precisa vir ver-nos, observar-nos, penetrar nossos corações.

Infelizmente os políticos, os chamados homens de responsabilidade, ouvem falar do Integralismo, muito por alto e não procuram estudar o fenômeno mais curioso da nossa História.

Psicologia de Romanoffs, esses homens são da mesma massa, do mesmo coração e do mesmo entendimento daqueles que, em todas as épocas de História Universal, nos instantes mais decisivos, ignoram tudo o que se passa em torno deles. As surpresas da massa social foram feitas para esse tipo de espectadores desatentos. Se eles não existissem, não existiria o que eles costumam chamar "o inesperado interferente histórico". Pois se todos prestassem atenção às grandes coisas que se passam num dado momento, na vida de um povo, seria fácil afirmar o que está para acontecer. Mas, tudo "o que está para acontecer" só é sabido pelos que "vão acontecer" e jamais pelos que vão assistir, boquiabertos, às últimas consequências de uma força que os dirigentes ignoram e que só a massa popular conhece.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 23 de Fevereiro de 1937.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Uma situação que seria gravíssima (23/02/1936)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Uma situação que seria gravíssima (23/02/1936)

Plínio Salgado

Muitas são as perguntas que nos fazem, a nós, integralistas, sobre o pedido feito por um partido internacional, incrivelmente registrado no Tribunal Superior Eleitoral, de cancelamento do registro da "Acção Integralista Brasileira", como partido nacional e nacionalista, anticomunista e fundamentado em bases cristãs.

Tais perguntas naturalmente envolvem interesse, simpatia ou curiosidade, porém, sempre revelam que seus autores não prestaram muita atenção a este assunto.

Um breve exame do que é e de como age o Integralismo em face da Constituição da República, logo exclui a hipótese da possibilidade do pretendido cancelamento, tornando pueril a atitude daquele partido internacional.

Há, porém, outros aspectos da questão, que a tornam extremamente interessante. E é exclusivamente para argumentar, sem a mais leve intenção de fazer supor que durante um minuto sequer deixei de confiar no alto critério dos magistrados que terão decidir do pedido em apreço, que vou nesta conversa diária com os leitores da A OFFENSIVA, apreciar uma situação que seria da mais extrema gravidade nacional.

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Como se sabe, o capitão Felinto Muller, em entrevista há dias concedida a esta folha, externou-se a respeito da "Acção Integralista Brasileira" e o fez de um modo claro, nitido, seguro.

Entre outras coisas que disse o chefe de Polícia da Capital da República, há a seguinte frase:

"Sendo, como de fato é, o Integralismo uma doutrina, cuja pregação se faz dentro da ordem, dentro dos preceitos constitucionais, com todo o respeito e acatamento às autoridades, não está ele em choque com os princípios que a autoridade policial cumpre defender. Daí não ter havido, até agora, nenhum choque entre os responsáveis pela ordem pública e aqueles que pregam e praticam o Integralismo. Aliás, nossa Constituição liberal de 1934 faculta a pregação de doutrina, desde que nesta pregação não sejam praticados meios violentos. Assim, entendo que a A. I. B. é perfeitamente legal, quer como sociedade civil, quer como partido político, por isso que ela deseja conquistar o Poder por meio da evolução, pela educação das massas, pela criação de uma consciência nacional Integralista".

Estas declarações do capitão Felinto Muller, digno chefe de Polícia da Capital da República, envolvem as mais graves responsabilidades da sua atuação naquele alto cargo em que ele é o mais diretamente responsável pela estabilidade da ordem e segurança do regime.

Se a "Acção Integralista Brasileira" atentasse contra o texto da Constituição de 1934 ou contra a lei de Segurança Nacional, utilizando-se de métodos violentos para propagar uma doutrina; se essa Doutrina fosse, ela própria, subversiva; se a A. I. B., na letra dos seus estatutos, manifestos, diretivas, documentos de propaganda, incorresse nas penalidades de quaisquer dispositivos legais, ao chefe de Polícia da Capital da República não competia ignorar.

Dispõe a Polícia do Rio de um aparelhamento eficiente. Dispõe ela de órgãos técnicos e de auxiliares competentíssimos. Não falta ao chefe de Polícia, capitão Felinto Muller, inteligência, cultura, senso de responsabilidade. Não se pode acusar de negligencia, de leviandade, um brasileiro, como o capitão Muller, que tudo tem sacrificado - sossego, paz, a própria vida - em benefício da coletividade, das famílias, dos lares cariocas e da ordem nacional.

Ora, se o capitão Felinto Muller, vigilante e ativo como é e deve ser, não faz a menor restrição à legitimidade da propaganda doutrinária do Integralismo, ao procedimento ordeiro dos integralistas, e, antes pelo contrário, não poupa elogios ao movimento do Sigma, como se vê das palavras atrás, a sua opinião assume o valor de um veredito, de um passaporte político da maior relevância, oriundos da única autoridade competente para informar o Superior Tribunal Eleitoral acerca do modo de agir da "Acção Integralista Brasileira".

Quem melhor do que o capitão Muller sabe, no Rio de Janeiro, quem são os suspeitos, quem são os perigosos ao regime, assim como quem são os Impecáveis no seu procedimento e no seu respeito às leis do país?

Acaso aqueles que dormem tranquilos nas noites trágicas em que há prontidão nos quartéis e angústia nos espíritos sinceramente amigos da ordem e amantes da Pátria, poderão dar ao Tribunal informações mais valiosas do que a desse homem incansável, batalhador, que carrega sobre os ombros as mais tremendas responsabilidades da hora presente?

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Suponhamos que o Superior Tribunal (coisa absurda que só tomo como hipótese para esclarecer aos ingênuos) suponhamos que o Superior Tribunal Eleitoral atendesse ao pedido do partido internacional e mandasse cancelar o registro do partido nacional e nacionalista.

Isto feito, qual seria a situação do sr. Felinto Muller?

Ficaria ele, perante a Nação, que lhe deve os mais relevantes serviços, que lhe deve a própria honra ameaçada pelos bolchevistas, apontado: 1º) - ou como um leviano, sem senso de responsabilidade; 2º) - ou como um inepto, incapaz de discernir; 3º) - ou, finalmente, como um cúmplice dos objetivos anticonstitucionais, subversivos, violentos da "Acção Integralista Brasileira".

Perante a Nação, seria o mais humilhador dos castigos a um homem que deveria ser glorificado pelo muito que fez pela salvação da Pátria, neste instante, sem trepidar diante das maiores ameaças.

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O caso assumiria um aspecto muito mais grave ainda, mas de uma gravidade que poderia trazer as mais desastrosas consequências ao Poder Público e ao respeito devido às autoridades constituídas, pelo que passo a lembrar.

Não é só o capitão Felinto Muller que ficaria desmoralizado pelo Superior Tribunal Eleitoral. Nas mesmas condições ficaria o Chefe do Estado Maior do Exército, general Pantaleão Pessoa, que se manifestou, numa "enquete" promovida por esta folha, da maneira mais categórica, declarando que a "Acção Integralista Brasileira" está garantida pela Constituição de 1934".

Ficaria também, junto do capitão Muller e do general Pantaleão, apontado à chacota popular o general Góes Monteiro, que também se manifestou concisa, mas claramente, sobre este assumpto, manifestando seu respeito pela "Acção Integralista Brasileira",

Isso tudo, porém, nada é diante do mais grave, do ultra grave, do super gravissimo: seria atingido o proprio presidente da República!

Como se sabe, o sr. Getúlio Vargas manifestou-se três vezes sobre o Integralismo, na qualidade de supremo magistrado da Nação. Em duas vezes falou à imprensa, afirmando, categoricamente, que a "Acção Integralista Brasileira" estava dentro da lei, e que nenhum motivo havia para se agir contra ella.

Será que o presidente da República, um Chefe da Nação, o Supremo Magistrado, teria a leviandade de se pronunciar sobre um assunto que não conhecesse? E estamos diante do dilema: ou o sr. Getúlio Vargas agiu com a leviandade que desmoralizará um Chefe de Estado; ou s. ex. está mancomunado com migo, para darmos um golpe e atentarmos contra o regime.

Em lógica, não há outras conclusões. O choque entre o Judiciário e o Executivo viria agravar o momento brasileiro, por mais que se quisesse dissimular.

É preciso notar, ainda, que, por ocasião da revolta de novembro, eu recebi do sr. Getúlio Vargas um telegrama agradecendo o oferecimento que lhe fiz de homens para lutar pela Ordem, e esse telegrama é uma verdadeira consagração ao patriotismo da "Acção Integralista Brasileira".

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Como veem os meus leitores, não há logar. para apreensões. A hipótese que formulei (que me perdoem os dignos magistrados, cujo saber e dignidade sei acatar profundamente) foi apenas para desanuviar o espírito dos mais fracos, daqueles que ainda são capazes de supor que um partido internacional possa, nos interesses da subversão da ordem pública e do desarmamento das forças morais da sociedade, conseguir impressionar aos Juízes da nossa Terra!

Tranquilizem-se os ingênuos e os desconfiados: Há juízes no Brasil. E, no coração dos juízes, há amor pela nossa Pátria, da qual somes hoje a guarda mais eficiente, ao ponto de inquietarmos os partidos internacionais.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA em 08 de Fevereiro de 1936 e reproduzido no mesmo periódico em 23 de Fevereiro de 1936.

domingo, 8 de outubro de 2023

TESEU (18/02/1937)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

TESEU (18/02/1937)

Plínio Salgado

De quatro em quatro anos, pagando o duro tributo imposto por Minos, após a derrota com que o rei de Creta castigou os assassinos de Androgeu e dos Palantidas, o povo de Megara e de Atenas enviava os rapazes e as raparigas mais belos para servirem de pasto ao Minotauro, escondido no fundo do labirinto de Dédalo.

Mal se abafavam os últimos soluços e se enxugavam as derradeiras lágrimas das mães desesperadas, e quando a tranquilidade, parecia voltar aos lares atenienses, e uma esperança de salvação embalava as almas, eis que o quatriênio de tréguas se extinguia e as aflições volviam, por entre duvidas cruéis e angústias torturantes.

Quais os que deveriam ser escolhidos para morrer? Esses corpos de plástica harmoniosa, esses olhares límpidos e iluminados pela doce alegria da juventude, essas silhuetas graciosas que as danças ao som da Avena transfiguravam no esplendor dos ritmos sagrados, já não eram razões de orgulho e de alegria, senão motivos de apreensões e de terrores.

Junto aos berços em que sorriam as gerações, como renovadas primaveras, a infinita melancolia materna apertava as gargantas, cortando de soluços as canções de embalar. Que destino teria a criança adormecida? Quando atingisse a idade da força, do amor, da luta, da beleza, talvez que o sufrágio das turbas, no trágico concurso, a indicasse à morte inglória nos dentes ensanguentados do monstro gerado pelo Touro de Netuno, no seio da louca Parsifaé.

E quando raiava a manhã sobre as cristas do Parnaso e do Olimpo, o altar de Apolo se cobria de oferendas que imploravam a salvação para os povos de Atenas e Megara, a salvação da mocidade sacrificada, de quatro em quatro annos, no insaciavel devorador de carne humana.

*

* *

O Minotauro morava no recesso do labirinto que Dédalo construíra em Creta. Filho da ligação bestial da filha de Minos e do Touro branco de Posseidon, tinha a brutalidade paterna e a lascívia materna; era perverso e implacável, sombrio, truculento e voluptuoso.

Traidor como um tigre, ardiloso como um aracnídeo, não se expunha à luta em campo aberto, para dar caça às vítimas; escondia-se, porém, pacientemente, dissimuladamente, para dar o bote certeiro, sem risco de perigos.

Para monstro tão cruel, era preciso inventar um cárcere, de acordo com seus instintos perversos e covardes. E foi Dédalo o gênio da confusão, o desorientador dos homens, o fabricante de intrigas, o forjador de discórdias, o arquiteto das traições, quem construiu para o Minotauro o famoso labirinto.

Ali, o monstro se alimentava de carne humana. Aqueles que, pretendendo decifrar o enigma, se aventuravam a dar os primeiros passos pelas avenidas, ruas, vielas, corredores, galerias, que constituíam o misterioso conjunto da Cidade da Confusão, jamais conseguiam encontrar a saída. Exaustos de fadiga, desesperados diante de milhares de caminhos que se abriam como traições, por todos os lados, os aventurosos heróis sentiam os primeiros sinais da alucinação. Então, punham-se a correr, de um lado para outro, cada vez mais perdidos, cada vez compreendendo menos, porque a arte de Dédalo consistia exatamente em enlouquecer os incautos que pretendessem descobrir alguma lógica na disposição de sua torturante geometria...

A fisionomia transtornada, os olhos esbugalhados, os cabelos revoltos, as pernas claudicantes, o peito a arfar, o audacioso aventureiro desembocava, por fim, num pátio onde o recebia uma gargalhada sinistra. Era o Minotauro, bebedor de sangue, ruminante a ruminar funebremente tíbias e fêmures.

A salvação da mocidade de Athenas do hediondo sacrifício a que era votada, de quatro em quatro anos, só se poderia dar pela morte do monstro. Como, porém, superar as dificuldades criadas por Dédalo, o despistador? Penetrar no labirinto seria não mais voltar, porque o próprio chão era de tal modo batido e áspero que sobre ele não ficavam pegadas capazes de facilitar o regresso. Nenhuma possibilidade de rastrear de retorno, porque o despistamento era completo.

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* *

Quando se sentiu moço e forte, Teseu levantou nos pulsos o rochedo sob o qual Egeu guardara a espada para a maioridade do Filho, calçou os sapatos trezeniannos, beijou a fronte de Ectra, sua mãe, e, após ouvir os últimos conselhos do discreto Piteu, partiu para Atenas.

Estava disposto a salvar o Povo do vergonhoso tributo de sangue que ele pagava de quatro em quatro anos, na Cidade da Confusão que Dédalo, o ardiloso, construíra, e onde Minotauro, o cruel, habitava.

Começou suas aventuras, dando combate a todos os bandidos que infestavam a Ática. Eram bandidos terríveis, que negavam os deuses, que saqueavam os viandantes, que violavam mulheres, que assassinavam criaturas adormecidas. Sua luta foi crua e exaustiva, mas sua Pátria ficou livre de todos os terrores semeados pelos bandoleiros das montanhas.

Lavou as mãos tintas do sangue impuro nas águas do Cefiso, purificou-se no altar de Júpiter e entrou em Atenas, incógnito, obscuro, desconhecido de todos.

Governava seu pai, Egeu. Na realidade, porém, não era Egeu quem governava, e sim Medéa, a falsa, a hipócrita, que conspirava secretamente contra o rei, acusando de conspiradores todos os que pretendiam defender o Soberano e desmascarar os planos sinistros da pérfida feiticeira.

Ninguém percebeu a força, a clarividência, a predestinação de Teseu. Ninguém sabia que ele era o sucessor natural de Egeu. Muitos desdenharam dele. Mas a sutil Medéa tudo compreendia e tudo sabia

A conspiração de Medéa contra o rei de Athenas estava preparada. O golpe seria infalível. Só havia um perigo: Teseu. Era preciso, pois, armar uma cilada ao inimigo, ao homem capaz de fazer fracassar a rebelião contra o Soberano.

Teseu foi acusado de conspirar contra o rei Egeu. A sua morte foi combinada. No momento, porém, em que o herói ia sorver a taça de veneno, o rei fita a sua espada e reconhece-a. Era aquela que há vinte anos, tinha ficado debaixo do rochedo com a recomendação ao prudente Piteu: "Quando ele tiver força para levantar o rochedo e tirar a espada, manda-mo a Atenas",

- Identificado, Teseu desmascara os verdadeiros conspiradores e extermina-os. Os juízes se reúnem no templo da Apolo Delfiano e absolvem-no.

Livre a Pátria dos perigos imediatos, Teseu tão está tranquilo. É uma vergonha para Atenas o sacrifício de sua mocidade, de quatro em quatro anos, na Cidade da Confusão e do Despistamento, ao horripilante Minotaure de Creta.

Corre ao oráculo de Delfos. A voz augural lhe anuncia que só conseguirá vencer o Minotauro se Eros lhe servir de guia. Eros é o símbolo das compreensões profundas. É a intuição que só se origina dos sentimentos vividos, das dores coletivas interpretadas. É o poder divinatório dos grandes médiuns das angústias de um Povo.

Teseu atravessa o mar.

*

**

Quando reinar a escuridão, conduz teu Pensamento! Quando as trevas descerem, acende o facho da tua Ideia! Quando estiveres perdido, procura o caminho, não fora de ti, mas no fundo de ti mesmo!

Sentido profundo da aventura de Teseu... Sentido dos rumos, sentido dos roteiros perfeitos.

Quando ouvires mil vózes, escuta a tua voz. Tua voz tem um poder maior, quando se volta sobre si mesma. Quando fores solicitado, de todos os lados, pergunta a ti mesmo que queres de ti.

Sentido do heroísmo de Teseu... Sentido das vontades invioláveis, sentido das decisões inflexíveis.

Quando se multiplicarem os caminhos e as encruzilhadas, põe na mão do teu Espírito o leme do teu instinto. Quando a Dúvida te surpreender, como um salteador, desenterra as raízes da tua tumultuosa aflição e encontrarás no fundo delas a essência da Certeza, que deverás beber para te recompores.

Sentido das vitórias de Teseu!

Quem lhe ensinou esses segredos?

Ariana, filha de Minos, princesa de Creta: Ariana, intuição feita mulher; Ariana, decifradora de enigmas, inspiradora de verdades, intérprete de ciências ignoradas.

Ariana toma nas mãos a ponta de linha cujo novelo Teseu vai desenrolando pelo labirinto de Dédalo.

Dédalo é a traição dos factos imediatos, dos interesses oportunistas, das promessas dos homens; mas Ariana é a aspiração volvida para os fatos futuros, para os interesses do Amanhã e para as promessas dos deuses.

O espírito arquitetônico de Dédalo é o espírito das dissimulações, das aparências, dos subterfúgios, das protelações, das sinuosidades, das insinuações, das intrigas, das confabulações, dos conchavos, do mínimo esforço, da comodidade, da perfídia, da felonia e do perjúrio. Mas o milagre do fio de Ariana é feito de claridade da consciência, de realidades, de responsabilidade, de retidões, de franqueza, de esforço, de sacrifício, de lealdade e de fidelidade...

A Cidade da Confusão só confunde os que acreditam nela. Os que acreditam na possibilidade de rumos certos, onde a regra é o incerto. Só se perdem no labirinto de Dédalo os que pretendem confiar em Dédalo. Só morrem os que procuram a vida na casa da morte.

Que nenhuma vítima se queixe. Justo é o castigo de quem confiou no inconfiável, de quem levou a confiança à casa da desconfiança Os que procuraram a Justiça na metrópole da Injustiça, os que clamaram pela Verdade, onde só responde a Mentira, esses não têm de que se queixar.

É preciso tomar o fio de Ariana. Fechar os olhos, tapar os ouvidos e caminhar desenrolando novelo.

Será assim em todas as épocas e em todas as circunstancias. No meio dos alucinados, dos possessos, dos loucos, só a fidelidade a um Pensamento e a um Sentimento, vence todos os labirintos e todas as traições. Vence no verdadeiro sentido: o sentido da intangibilidade da honra e do brio do herói.

Foi assim que Teseu penetrou a Cidade da Confusão e matou o Minotauro de Creta, livrando a mocidade de sua Pátria do sacrifício de sangue de quatro em quatro anos.

*

* *

Regressando a Atenas, Teseu soube da morte do rei Egeu, seu pai. O povo aclamava o herói entregando-lhe o trono.

Mas Teseu não salvou sua Pátria em troca de um trono. Os tronos são muito pequenos e muito humanos para os que pensam, sonham e agem como Teseu. O povo, que o ama, não compreende que oferece ao libertador aquilo que ele menos deseja, exatamente porque todos desejam. As dádivas, os prêmios, os bens, o poder, a glória, sendo objetivos só podem ser concebidos como etapas últimas, E os espíritos que ardem na perpétua luta, que se incendeiam nas permanentes aventuras, que se votam à perene mobilidade, a ação continua, repelem todas as hipóteses do encerramento dos ciclos da sua tormentosa atividade.

Qualquer ateniense pode ser rei, mas nenhum ateniense pode ser Teseu. Pois Teseu é a inquietação que se renova, é a sucessão dos sonhos, é a magia das Primaveras repetidas, é o sensacionalismo do Bem e a intuição da Beleza nas transformações maravilhosas dos episódios.

Teseu ama o seu povo e quer faze-lo feliz. Institui um governo, promulga leis, deixa o povo a governar-se pela nova legislação e retoma o curso das suas aventuras.

Luta na guerra contra os Centauros, empreende a conquista ao Tosão de Ouro, vai à Trácia, combate e vence as Amazonas, caça Caldo, empenha-se nas guerras de Tebas e intenta uma façanha suprema: a libertação de Proserpina do Inferno...

Teseu é o sentido da Vida Heroica. É o idealismo superior. É a predestinação dos lutadores. É o ímpeto do movimento. É a dignificação da transitoriedade humana.

Teseu é, também, o espírito das Nacionalidades vivas e ativas. As gerações que se sucedem, renovando a grandeza de um Povo na História, trazem consigo a chama que ardeu no sangue do herói de Atenas.

E quando as Nações se submeteram definitivamente ao vexame do Minotauro, à política traidora de Medéa e ao confusionismo, ao despistamento de Dédalo, é preciso que se remova o rochedo da Prudência, para desenterrar a espada da Audácia e entregá-la aos pulsos da Mocidade, para que ela se livre, por suas próprias mãos, do vergonhoso sacrifício periódico, inaugurando um sentido novo de vida, de ação, de beleza moral, de aspiração para o alto...

É preciso acordar na Juventude o espírito de Teseu para que ela penetre na Cidade da Confusão com o fio de Ariana e corte a cabeça do Minotauro.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 18 de Fevereiro de 1937.

sábado, 7 de outubro de 2023

CADASTRO (25/02/1936)

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

 CADASTRO (25/02/1936)

Plínio Salgado

A polícia de Minas, ao que dizem telegramas estampados em jornais, vai levantar o cadastro dos integralistas daquele Estado.

Quer saber a polícia quem são os brasileiros inscritos nas fileiras do Sigma.

Idêntica providência, ao que consta, foi tomada pela polícia de S. Paulo. Penso que o mesmo sucede em muitos Estados.

As polícias têm razão. É necessário tomar nota dos nomes de todos os que, vestindo a camisa-verde, devem ser tidos e havidos por elas, como desordeiros contumazes, elementos perigosos, tipos desclassificados.

Para poupar trabalho às polícias, vou dar aqui alguns nomes de desordeiros perigosos, que vestem a camisa verde. São tipos realmente terríveis de masorqueiros, de facínoras, de subversores da ordem pública.

Aqui, no Rio, por exemplo, temos o dr. Gustavo Barroso, diretor do Museu Histórico, membro e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras. Temos o dr. Rodolpho Josetti, presidente da Cultura Artística do Rio de Janeiro; o dr. Archimedes Memória, diretor da Escola Nacional de Belas Artes; o dr. Raul Leite, industrial; 28 lentes de Escolas Superiores (Faculdade de Direito, de Medicina, de Engenharia, Belas Artes, etc.) que seria longo citar os nomes os quais, aliás, foram enumerados na recente convocação para o Conclave Nacional. Quanto a desordeiros diplomatas, tenho vários de camisa verde, entre os quais o dr. Ribeiro Couto, secretário da legação de Haya; o dr. Jorge Latour, a cujo embarque comparecemos, há dias, pois ele seguiu como secretário de legação em Varsóvia; e aqui está a meu lado o ministro Fonseca Hermes. Seria necessário no momento que eu pedisse ao companheiro Calmon toda a lista de cônsules (entre os quais está o nosso em Zurique, o saudoso e querido Fabrino), dos secretários de legação, dos altos funcionários do Ministério do Exterior, todos integralistas. Como se vê, o Itamaraty está minado por nós, masorqueiros.

Se passarmos para o campo militar, as polícias do sr. Valladares e do sr. Armando Salles terão que fazer compridíssima lista, pois entre oficiais do Exército, da Marinha e das Forças Públicas, temos inscritos mais de mil. Até os reformados, brasileiros dignos, que não querem ficar inativos nestas coisas tão belas da construção de uma Pátria, aqui estão firmes a meu lado. Eu precisaria, no momento, ter aqui os meus amigos e companheiros general Vieira da Rosa ou Jeronymo Furtado, para que eu pudesse dar, sem omissões involuntárias, os nomes dos generais e almirantes que vestem a camisa verde.

Como veem os chefes de Polícia dos Estados (inclusive o sr. Claribarte Villarim, de Santa Catarina) a lista é bem grande dos elementos perigosos que me acompanham...

Mas o governo mineiro tem também alguns nomes especialmente recomendáveis como perturbadores da Ordem Pública. Entre eles, o meu amigo, a quem tanto admiro, Belisario Penna, filho de Minas Gerais, grande nome de brasileiro, e agora o dr. Lucio dos Santos, o grande nome que orgulha a terra mineira. Incontestavelmente estou reunindo os cangaceiros mais terríveis.

Em Curitiba, temos o dr. Vieira de Alencar, professor de direito civil na Faculdade do Paraná, que é chefe de desordeiros, porque é o nosso Chefe Provincial; em Florianópolis, o dr. Othon da Gama d'Eça, professor de Direito; Paraíba e no Piauí, os chefes integralistas são desembargadores; no Rio Grande do Sul, um dos nossos secretários, o Anor, é professor de Direito.

Em S. Paulo, há uma turma perigosíssima de facínoras, que escolhi a dedo: Marcel da Silva Telles, Clovis Martins de Camargo, Antônio Pompeu de Camargo, Eurico Martins, Machado Florence, Jayme Regalo Pereira, Eduardo Graziano, Francisco Stella, Ulysses Paranhos, Conego Bastos, Mario Ramos, Renato Souza Aranha, Bento de Almeida Prado, João Carlos Fairbanks, Miguel Reale... mas, seria citar toda uma quadrilha ultra perigosa, à qual teríamos de acrescentar cento e poucos oficiais do Exército.

Em Alagoas, os meus homens são tenebrosos. Lá está Mario Marroquim, ex-secretário de Estado, escritor de nomeada; Afrânio Lages, deputado, advogado ilustre; Oiticica, perigosíssimo, e todos os parentes de Floriano Peixoto. Em Sergipe, é uma barbaridade: todos os irmãos e parentes de Jackson de Figueiredo, que foi um terrível espadachim. Na Bahia, são verdadeiramente horripilantes homens como Herbert Parentes Fortes, pedagogo ilustre: o chefe provincial, Araújo Lima, que é capoeira; em fim, seria uma lista longa que o senhor Hanequim deverá tomar nota para o sr. Juracy ficar de sobreaviso.

Em Espirito Santo, além do chefe João Linhares, que é terrífico, temos o Arnaldo Magalhães, muito respeitado no alto comércio e na sociedade capixaba, porém, homem apavorante.

No Estado do Rio, entre outros, perigosos, que acompanham o chefe Padilha nas aventuras mais horrendas, estão o historiador Alberto Lamego, o educador Lealdino Alcântara, o meu amigo Glauco, homem de poucas conversas.

Todos os homens de maus Instintos, como o Conde de Affonso Celso, o sr. Arcebispo D. Octaviano, o general Pantaleão Pessoa, o ministro Plínio Casado, o general Góes Monteiro, o general Meira de Vasconcellos, o sr. Bispo de Bragança, D. Mauricio, e o de Campinas, sr. D. Barreto, toda essa gente se revela simpática ao Integralismo.

Na lista de camisas-verdes que tem a nossa Secretaria de Organização Política, encontram-se cerca de 800.000 indivíduos completamente desclassificados, milhares de advogados, de médicos, de engenheiros, de farmacêuticos, dentistas, professores, comerciantes, industriais, fazendeiros, artistas, escritores, jornalistas.

Eu teria de encher este jornal, para satisfazer aos chefes de Polícia dos Estados, tão zelosos da Ordem Pública.

É mesmo necessário levantar um cadastro. Com gente tão ruim, sou capaz de fazer alguma desordem horrenda.

Aqui está a meu lado o Madeira de Freitas; o Custodio de Viveiros, e o Santiago Dantas estão alarmados a olhar para o Madeira. Porque este, Everaldo Leite e Belmiro Valverde são os mais terríveis entre todos.

É tal o meu receio de mim mesmo e dos homens que me cercam e tenho tanto interesse em me livrar das grades, que aqui denuncio, gostosamente, esses terrificantes e tenebrosos cangaceiros que tanto assustam as polícias empenhadas em organizar o nosso cadastro.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 25 de Fevereiro de 1936.


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Mínimo Múltiplo Comum (17/02/1937)

 

Esclarecimento: A publicação do Artigo abaixo só foi possível graças à generosa colaboração do Prof. Paulo Fernando, conhecido Líder Pró-Vida, profundo pesquisador da História do Brasil, possuidor da maior Pliniana existente, que nos permitiu o acesso a sua Hemeroteca; e, atualmente, é Deputado Federal pelo Distrito Federal. Aos que desejarem conhecer mais o trabalho do Prof. Paulo Fernando indicamos: https://www.instagram.com/paulofernandodf/

Mínimo Múltiplo Comum (17/02/1937)

Plínio Salgado

Os partidos precisam de um nome nacional. De onde poderão tirá-lo? Se a Nação está dividida em vinte e um Estados, esse nome terá de sair de um desses Estados. Mas, então, não será um nome nacional, e, sim, estadual.

Os partidos deverão, nesse caso, arrancar de seu próprio seio o nome nacional. Porém, os partidos são estaduais. Ora, como a lógica e a matemática nos ensinam que o maior não pode ser contido pelo menor, os nomes que saírem dos partidos só poderão ter o caráter, a significação, a natureza desses partidos. Sendo os partidos de caráter, significação e essência regionais, tudo o que sair deles será, também, regional. Logo, os partidos não poderão tirar de si um nome nacional.

Que se entende por um nome nacional? Entende-se o nome que exprimir aspirações gerais comuns às diversas modalidades particulares do corpo social e da extensão territorial.

Quais são as aspirações gerais comuns, no atual momento brasileiro? São exatamente aquelas contra as quais se batem os partidos estaduais.

É preciso examinar desapaixonadamente o panorama social brasileiro, com olhos de estudioso, segundo o critério da experiência e do senso das realidades, para se compreender bem a posição dos partidos expressivos de pequenas coletividades em face da Grande Coletividade que constitui a Nação.

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Quando dizemos que os partidos exprimem aspirações regionais, não negamos que eles exprimem aspirações reais, dentro da mentalidade adstrita aos interesses da zona em que se constituem. O anseio de Minas ou de São Paulo, do Rio Grande ou do Nordeste, por uma predominância nos rumos políticos e administrativos federais, são realidades incontestáveis. Não entremos na análise da legitimidade ou não desses objetivos políticos. Contentemo-nos em verificar a sua existência.

Perguntemos: há, ou não há, em cada Estado, um anseio pela hegemonia, ou, pelo menos, por um quinhão apreciável de mando no cenário federal? Será hipocrisia dizermos que não.

Existindo esse desejo em cada um dos Estados, verificam-se antagonismos profundos, mal dissimulados nas conversações e combinações dos próceres. Como pode, pois, desses antagonismos, sair um nome que exprima aspirações gerais comuns?

Dentro de cada Estado existe, ainda, um partido de oposição, que se choca com o partido situacionista. Esse partido encontra-se na primeira etapa do seu desenvolvimento político, isto é, naquela etapa que assinala a conquista do poder nos limites do Estado. Só depois de atingido esse objetivo, derrubando o seu adversário local, é que o partido de oposição lança-se à aventura de conquistar o poder nacional. É a situação atual do P. R. P., do P. R. M., da F. U., respectivamente de São Paulo, Minas e Rio Grande,

Quando um partido estadual está de baixo, isto é, procurando apear o contendor nos limites provincianos, ele deixa de exprimir momentaneamente o interesse hegemônico do Estado, para exprimir o interesse do grupo, no Estado. Ainda é cedo para entrar em composições visando o poder na Federação. As suas composições são de outra natureza. Eles cedem habitualmente o lugar nacional ao aliado de outro Estado, mediante a promessa do lugar estadual com a queda do adversário conterrâneo.

Também esses partidos têm seu âmbito de aspirações muito reduzido, mais reduzido ainda do que o âmbito dos partidos situacionistas. Não podem, por conseguinte, tirar de seu seio nenhum nome capaz de sintetizar um anseio da Grande Nação.

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Paralelamente a essas aspirações unilaterais dos partidos (cujo número no Brasil é de 154!) correm as aspirações do Povo Brasileiro. Da mesma maneira como as aspirações dos partidos são realidades objetivas incontestes, não me negarão que há, contemporaneamente, uma grande aspiração nacional, revelando a essência moral, espiritual, sentimental e econômica de um Povo.

Nossa crítica não vai ao ponto de negar àqueles mesmos que constituem as pequenas coletividades partidárias do Brasil a incapacidade ou a indisposição pelos idealismos, superiores da outra opinião, da outra consciência popular.

Acreditamos, com a maior sinceridade, que todos os brasileiros, de quaisquer partidos políticos, desejam certas coisas em comum: - a unidade da Pátria, a manutenção das tradições cristãs dentro dessa Pátria, o prestigio à autoridade a ordem social, o combate ao comunismo, o progresso material do país, a grandeza do Brasil. O que afirmamos, entretanto, como verdade positiva, é que essas aspirações passam para um plano secundário, em face dos interesses imediatos da hegemonia federal (para os partidos situacionistas) e da hegemonia estadual (para os partidos oposicionistas).

Assim sendo, tais partidos, de forma alguma, poderão tirar de si próprios nomes nacionais.

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Hoje, no Brasil, só existe um partido nacional. É o Integralismo, conforme há dias tornou patente o general Góes Monteiro. E esse partido não é nacional pelo simples fato de se haver registrado como tal perante a Justiça competente; é nacional porque todo o seu pensamento político, seu sentimento, sua mística, fundamentam-se naquelas aspirações gerais comuns a todos os brasileiros.

Pode-se, para tornar bem claro o nosso pensamento, usar de uma imagem aritmética.

O nome nacional brasileiro só será achado se nos lembrarmos de que não se somam fracções de denominadores diferentes. Cada partido político situacionista é um "numerador", e cada partido político oposicionista é um "denominador". É preciso procurar o mínimo múltiplo comum, que se chama o ideal da Pátria. Isto feito, reduzem-se as frações ao mesmo denominador, que se chama, o Integralismo. Somam-se os numeradores. Dá-se o mesmo denominador. É bem possível que da adição dos numeradores resulte um número igual ao denominador (pois a boa vontade e o verdadeiro patriotismo conduzem todos os brasileiros à mesma conclusão).

Veremos, caso isso se dê, que a soma das expressões fraccionárias produziu a Unidade. A essa unidade, nós, camisas-verdes, daremos o nome de Estado Integral.

E o nome nacional?

Meus patrícios: não existe, nunca existiu nome nacional, a não ser em função de um Pensamento Filosófico, ou de um Sentimento Histórico. O que nós chamamos "nome nacional" em outros países (Napoleão, Bismarck, Cavour, Clemenceau, Frederico II, George Washington, Bolívar e tantos outros) não passaram de traduções pessoais de obscuras linguagens coletivas, revelações de estados de espíritos de um momento.

Qualquer nome, seja ele qual for, que os políticos lançarem, como o capaz de congregar correntes díspares e opiniões contrastantes, aspirações antagônicas e índoles adversas, não passará de uma vergonhosa mistificação, um artifício de irresponsáveis diante de uma situação nacional gravíssima, que está a exigir novos métodos, soluções audazes, atitudes heroicas, definições formais.

O momento que vivemos não comporta artifícios que tiveram sua oportunidade no tempo de Campos Salles ou de Pinheiro Machado, mas que hoje são perigosíssimos à Nação.

A incapacidade para compreender a História, ainda a mais recente, parece constituir a grande doença dos atuais políticos brasileiros. Suas manobras são empíricas. São fúteis. São superficiais.

O que está faltando aos políticos é gênio político. Sombrias são as perspectivas de um futuro próximo. Por isso, nós, integralistas, aqui estamos, observando, estudando, meditando, calando-nos, medindo as distancias, calculando a resistência dos materiais humanos, comparando os fatos históricos, anotando, deduzindo, tomando dados seguros. A nossa palavra não faltará na hora mais grave. Porque ainda constituímos, diante de todo esse panorama lamentável, que se entenebrece cada vez mais, por entre silêncios medrosos, maquinações covardes, hipocrisias de atitudes, indefinições gerais, a grande esperança, a esperança real, a esperança única de um Povo que encontra em nossa sensibilidade política e em nossa vibratilidade a ressonância através da qual ele pode falar e certamente falará.

Publicado originalmente n’A OFFENSIVA, em 17 de Fevereiro de 1937.